• No results found

4 Presentasjon og drøfting av funn

4.3 Presentasjon av intervju med lærarane

O jornalismo que se impôs no século XIX é claramente diferente na ação, mas também na função desempenhada na Esfera Pública.

A institucionalização da profissão está, pois, associada a um determinado momento da história. Do jornalismo enquanto profissão, praticado nos meios de comunicação de massa, depende, em grande medida, a consolidação da sociedade de massas.

A Sociedade de Massas

A revolução industrial está na base do desenraizamento de grandes massas humanas, que procuravam trabalho nas fábricas de lugares distantes do seu ponto de origem, que era, igualmente, o lugar de identidade dessas pessoas. Esse êxodo massivo

6

Para a concretização de uma prática comunicativa ideal, Jürgen Habermas atribui aos públicos modernos três níveis de critérios: a paridade da comunicação (“a autoridade do argumento pode afirmar-se contra a hierarquia social”); o não fechamento temático das discussões e o não fechamento dos públicos (“Todas as pessoas privadas, enquanto leitores, ouvintes e espectadores, com posses e formação académica, podem apropriar-se dos objetos de discussão”) (1981: 51-53).

38

para as grandes cidades industriais, que perderam, elas próprias, a identidade mercê da explosão social, produz um processo de acumulação de pessoas num lugar que lhes é indiferente, onde não têm quaisquer laços onde, no fundo, estão desenraizadas. São anónimos sem direitos, inadaptados, servos de rotinas (trabalho – casa - trabalho) que lhes condicionam a ação e os desobrigam de pensar.

Os públicos modernos, com uma lógica de funcionamento que servia de base à promoção do indivíduo, diluem-se na massa, cuja estrutura se revela incapaz de acolher a singularidade. A discussão racional cede ao assentimento e ao conformismo, ambos moldados pela premente necessidade de, cada um dos elementos da massa, desinteressado da sua própria identidade individual, ou, pelo menos, colocando-a em plano secundário, cumprir a rotina diária.

João Pissarra Esteves argumenta que a massa “oblitera o indivíduo”, e o reflexo dessa aniquilação da singularidade gera indiferença e amorfismo, estados de espírito incompatíveis com a participação, dado os níveis de conhecimento dos assuntos serem reduzidos (2003: 44).

O processo de aniquilação do indivíduo é assim fruto de um círculo de experiências sociais que tornam a massa permeável, um terreno fértil para a influência de interesses particulares. O círculo interliga, sem princípio nem fim, momentos, ações, consequências: a quebra de laços físicos e psicológicos dissolve os públicos na massa. O desinteresse, conquistado por essa ampliação, gera o amorfismo que distancia o indivíduo da troca racional de argumentos sobre assuntos que antes eram discutidos pelos membros das comunidades de públicos. Uma incapacidade de discussão, por falta de interesse, de tempo, de domínio dos temas, facilita o conformismo, o assentimento, que dificultam a participação, tornando-a meramente reativa.

O Estado-Social

As fronteiras entre Estado e Sociedade esbatem-se, assumindo o Estado uma função social abrangente: protetor dos cidadãos, prestador de serviços e regulador da atividade económica. O Estado Social, apesar dessa ação protetora, revelou-se incapaz de atenuar as crescentes desigualdades sociais e, por conseguinte, também não conseguiu evitar as tensões provocadas por essas desigualdades. Na base de umas e de outras está o desenvolvimento do modelo capitalista. O Estado, que deveria regular a economia, na proteção dos interesses dos cidadãos, também não conseguiu impedir que o capitalismo estendesse os seus tentáculos, condicionando o próprio Estado.

39

Estava, pois, aberto o caminho para a escalada de interesses particulares de base económica, que encontraram na massa o instrumento que facilitou a sua promoção. Esse processo foi possível graças à regulação cúmplice do Estado.

Como refere Wright Mills, assistimos à imposição de “uma administração vinda do alto” que cria “um vácuo político abaixo dela" (1956, 1981: 362).

Os Instrumentos de Controlo da Opinião Pública Fonte de Legitimação do Estado

A base de legitimação do Estado deixou de ser a Opinião Pública, a fonte do consenso, para passar a ser a massa instrumentalizada pelo próprio Estado, ou – noutro campo – pela economia:

“Espaço Público e Opinião Pública tornam-se essencialmente meios: dispositivos sociais que se destinam a uma utilização do tipo instrumental, com os quais os interesses particulares organizados (…) criam uma ilusão de vontade coletiva (…), tendo por única finalidade reforçarem as suas próprias posições” (Esteves, 2003:42).

Como considera Adriano Duarte Rodrigues, o aparecimento dos mass media tem significado neste contexto, uma vez que é neles "que circula o discurso da opinião pública", impondo-se como "discurso eficaz de legitimação e homogeneização do tecido social" a partir do momento em que, por intermédio dos meios de comunicação de massa, se instala nos diversos campos da vida social (s.d.: 46).

Para tal, o Estado, e os restantes campos da vida social, precisam da mera participação reativa da massa, expressa simplesmente pelo voto, quando em causa está a legitimação dos governos que controlam o Estado. O voto, de uma massa influenciada pela propaganda, pelo marketing, pela publicidade, permite a manutenção do estado das coisas. Esse compromisso serve os interesses do Estado, mas também de todos os interesses que à volta dele, ou por ele amparados, circulam.

Entre opinião pública e opinião da massa não existe, assim, qualquer diferença. Porque já não estamos a falar da opinião pública qualificada que caracterizava a modernidade, e que a discussão racional, entre os representantes de um público esclarecido, tornava representativa da vontade geral, pelo contrário. Como assinala João Pissarra Esteves, esta nova configuração de opinião pública, a que as grandes mutações sociais do mundo moderno conduziram, perde a sua dimensão racional:

“Tudo o que (lhe) conferia uma espessura ético-moral (...) se desvanece na massa, surgindo em seu lugar um território politicamente pantanoso, mas muito propício à manobra de certos (e poderosos) interesses particulares organizados” (Esteves, 1997: 86).

40

Esses interesses utilizam a força do número, o anonimato da média estatística, que normaliza os desvios e sedentariza “os nomadismos e as errâncias”, para atingirem determinados fins. O indivíduo não consegue reconhecer-se nesse “corpo sem rosto”, como lhe chama Adriano Duarte Rodrigues, porque as conceções individuais são incapazes de combater a ditadura da média estatística (s.d.: 36-43).

A intermediação dos meios de comunicação social invade os processos de comunicação entre eleitos e eleitores, influenciando-a. Como salienta Jürgen Habermas, é a estruturação da base de legitimação da mensagem dos agentes políticos que sofre profundas mutações:

“Os partidos, e as suas organizações auxiliares, veêm-se (...) obrigados a influenciar as decisões eleitorais de modo publicitário, de um modo bem análogo à pressão dos comerciais sobre as decisões de compra (...) Os especialistas em publicidade, “neutros” em matéria de política partidária (...) são contratados para vender política apoliticamente” (1962, 1981: 252).

Esses profissionais exercem funções dentro do vasto campo da comunicação, mas o seu propósito não é promover a ação comunicativa, que pressupõe uma equiparação de papéis entre emissor e recetor; ao invés, o que assistimos neste processo é à deturpação dos valores da comunicação: o Espaço Público deixou-se invadir por técnicas de manipulação que protegem e valorizam interesses particulares.

Essas técnicas destinam-se, sobretudo, a convencer os indecisos, aqueles que mais se afastam do processo político, e, através delas, pretende-se “não tanto (...) motivar convicções” ou “proporcionar o raciocínio e a reflexão, mas simplesmente (...) criar sensações capazes de sugerir uma adesão” (Esteves, 1998: 222).

A Publicidade que Limita e Liberta os Jornais

Assistimos, pois, à adoção de uma lógica comercial que irradia influências sobre uma sociedade de massas, onde os seus elementos estão desligados de uma ação politica protetora, (não questionam, não contra-argumentam, não discutem, apenas participam por reação) tornando-se permeáveis.

O jornalismo torna-se profissão nesse universo mercantil, também ele ficando na direta dependência de alguns dos sinais desse universo: desde logo, o lucro. A partir do momento em que a publicidade se associa aos jornais, as empresas jornalísticas podem, finalmente, distanciar-se de outras formas de dependência, mas veem-se obrigadas a conquistar o maior número possível de leitores. Os jornais vendem notícias, mas

41

também vendem anúncios. Essa associação baixa o preço dos periódicos (assistimos ao advento da penny press), mas promove a explosão de conteúdos mais suaves, que interessam a um conjunto mais abrangente de pessoas, mas que, necessariamente, são mais avessos à promoção da discussão e debate públicos.

Dominada pela lógica do mercado, a imprensa assume as suas estratégias, deixando-se condicionar:

"A imprensa transformou-se numa indústria como a dos sapatos ou mobílias. O que lhe interessava era vender, vender o mais possível, sacrificando tudo a isso. O jornal passa a ser, portanto, uma mercadoria” (Tengarrinha, 1989: 220).

O Novo Jornalismo do Século XIX e a Exigência de uma Formação Específica

A associação da publicidade aos jornais contribuiu, decisivamente, para o surgimento deste novo jornalismo do século XIX, mas esse processo é muito mais vasto: depende de uma teia de inter-relações que promove e facilita o seu nascimento.

A emergência do mercado da publicidade (que libertou os jornais da dependência direta da política), a reestruturação da sociedade, com a imposição da sociedade de massas, o esbatimento de fronteiras entre o Estado e a Sociedade, com a consequente criação do Estado-Social e o avanço do capitalismo, e a evolução tecnológica (as novas máquinas de impressão e o telégrafo) determinaram a criação desse novo jornalismo, que foi assumindo contornos de atividade cada vez mais distanciada do público mas, simultaneamente, aumentando a dependência do peso do número (de leitores) com o propósito de atingir a máxima audiência possível. Os jornais desinteressaram-se da promoção do indivíduo, mas precisaram da massa para vender anúncios e se autossustentarem.

José Luís Garcia dá conta, exatamente, desse movimento paralelo, permanentemente intercruzado ("o mesmo enredo sócio histórico"- 2009: 25), entre imprensa comercial, desenvolvimento das cidades e expansão do mercado:

"A industrialização da imprensa concorreu para abrir o caminho a um jornalismo com um estatuto distinto da opinião, da observação literária e política, dirigido a pequenos grupos das elites e apoiado pelo sistema de assinatura, que eram apanágio da fase anterior da imprensa" (idem, ibidem).

Esta associação da imprensa a uma dimensão comercial, estabelecendo as bases de "um capitalismo jornalístico" (idem, ibidem), está igualmente na origem do processo de profissionalização do jornalismo.

42

No século XIX, no período que definiu as bases do jornalismo moderno, o relato dos acontecimentos notáveis, ou seja, passíveis de serem transformados em notícias, passou a obedecer ao domínio de algumas técnicas específicas (lead, a pirâmide

invertida, a resposta às seis perguntasretóricas) que só profissionais habilitados teriam

capacidade para pôr em prática. Essas técnicas, adotadas pelas Agências Noticiosas, que entretanto surgiram, e que alimentavam os jornais de notícias, tornaram o jornalismo mais neutro. Essa neutralidade das agências também permitia que as notícias fossem publicadas, sem alteração, nos jornais, independentemente da respetiva linha editorial.

Este “novo jornalismo” atua “segundo os padrões ainda hoje predominantes:

independência, neutralidade, objetividade e profissionalismo”7 (Esteves: 1998: 231).

Este jornalismo, produto do mercado, aumenta as exigências de produção informativa. O processo de conquista de novos leitores passou a depender de estratégias específicas de atração, que os amadores, que assumiam a função de escrever nos jornais, não estavam habilitados a assumir. Sobrepõe-se, nessa fase, o conceito de profissionalismo, a formalização do processo de "estandardização da prática", através do qual se transformou um "grupo desorganizado de escritores" numa "unidade mais consolidada e coesa" (Allan e Zelizer, 2010: 120). Nos Estados Unidos da América, os primeiros códigos éticos, as primeiras associações profissionais e de empresários do setor e as primeiras escolas de jornalismo constituíram-se pilar desse profissionalismo (idem, ibidem).

A partir do capítulo quatro detalharemos os contornos da associação que, neste período, se estabeleceu entre um jornalismo mais exigente e a formação académica, identificando e discutindo, o papel, em aparência contraditório8, de um dos pais- fundadores do ensino do jornalismo na universidade, Joseph Pulitzer, ele próprio grande empresário de media, cúmplice, portanto, dos ditames do negócio; por ora, marcamos o momento que colocou na história o ensino do jornalismo e a formação de profissionais

7

As expressões em itálico estão entre aspas no original. 8

Como assinala Bernard Genton, no prefácio à edição francesa do ensaio de Pulitzer, onde o empresário defende a existência de uma escola de jornalismo, o estímulo que o levou a defender essa escola está indiretamente associado à necessidade de educar a opinião pública, consciente que estava do peso que ela representa como força política. Esse processo de educação obedeceria, todavia, na interpretação de Genton, a propósitos socialmente relevantes: "Sendo a opinião pública considerada a principal força política (...) não haveria outra coisa a fazer que não fosse formar essa opinião pública da forma mais completa e honesta possível (...) Se Pulitzer não é avarento no uso de metáforas passíveis de influenciar essa opinião pública (...) também não é ingénuo: sabe, por experiência própria, como é que a grande massa inerte é influenciável". Na ótica de Genton, Pulitzer esforçou-se para que o jornalismo participasse na educação da opinião pública, auxiliando-a na tomada de decisões. A leitura que Genton faz das razões que presidiram, no espírito de Pulitzer, à defesa de uma escola enfatiza a missão social da mesma: "formar os jornalistas é proteger e desenvolver um sistema democrático permanentemente ameaçado" (Genton, 2011: 21- 24). Voltaremos a esta discussão no capítulo quatro.

43

habilitados a cumprirem as novas exigências do mercado, salientando, em primeira linha, que a formação académica, desde os primórdios contestada pelo mercado, não deixa de ser fruto desse seu afã de superar a margem de lucro. O ensino do jornalismo na academia é assim o espelho mais nítido da contradição do próprio jornalismo: uma atividade que deve promover o Homem e, ao mesmo tempo, gerar lucro; um ensino que deve contribuir para participar na melhoria da qualidade do jornalismo e, ao mesmo tempo, tem de servir as necessidades efémeras do mercado, correndo o sério risco de se deixar condicionar por elas. É nesta contradição que o ensino do jornalismo nasce na academia; é condicionado por ela que se impõe; é por causa dela que, ainda hoje, tarda em encontrar um lugar próprio, definido, fundamental no processo de profissionalização dos jornalistas.

Entreter em Vez de Informar (As Marcas da Yellow Press em Portugal)

Essa imprensa, associada ao lucro, tem objetivos diferentes dos jornais do período liberal. No século XVIII, a imprensa servia os interesses de um público esclarecido; reduzido, é certo, a uma classe social em ascensão, mas, ainda assim, cumprindo um papel fundamental na promoção do debate público e na vigilância e monitorização do exercício do poder. Com essa ação pública, a burguesia mercantil controlava o poder e, simultaneamente, promovia os seus interesses de classe, sem deixar, contudo, de agitar, de criar debate, de mobilizar, o que enriquecia a dinâmica da Esfera Pública.

Como assinalam Kevin Barnhirst e John Nerone, "a imprensa assumiu papel central na era das revoluções burguesas" e, ainda que os jornais servissem os interesses particulares da classe em ascensão e promovessem a exclusão de parcelas de públicos, "de forma continuada apelavam a normas de supervisão racionais e universais": "a base política de legitimação deixou de ser Deus e a tradição para passar a ser a vontade do povo" (2009: 18). James Carey associa, igualmente, às ideias do Iluminismo a criação desse novo Homem, que a imprensa de opinião ajudou a formar:

"O mundo moderno e secular nasceu, verdadeiramente, quando as pessoas deixaram de começar o dia a pedir a ajuda de Deus em orações, para reclamarem essa ajuda da nação, através da leitura do jornal" (2007: 15).

A mesma imagem de afirmação de um discurso secular sobressai na análise de Thorbjörn Brodasson:

44

"Na Europa iluminada do século XVIII, os meios de comunicação social foram gradualmente substituindo a religião, assumindo o papel de instituição dominante na sociedade ocidental (...) neste sentido, o jornalismo moderno ocupa o papel do padre dos tempos medievais" (2005: 156 e 157).

O modelo empresarial, da imprensa do século XIX, rompeu, todavia, com o domínio de práticas lesivas do jornalismo que, igualmente, se sobrepuseram na modernidade; esse modelo do século XIX pôs termo à dependência das fações partidárias e dos interesses de classe, para, gerando lucro, chegar ao maior número possível de leitores.

Nesta nova lógica comercial, os conteúdos devem favorecer o relato atrativo em vez da opinião, que exclui parcelas de público, os temas do quotidiano, em vez da política, o sensacionalismo em vez da análise, o entretenimento em vez do debate.

O sensacionalismo assumiu-se, desde o início, como um valor de mercado. As raízes dessa prática discursiva, associada à competição económica entre jornais, devem ser buscadas na yellow press9americana. “O yellow journalism define-se pela tendência para seriar os escândalos mais tórridos e descrever, em detalhe, os crimes mais mórbidos” (Chalaby, 1998:147). Barnhurst e Nerone acrescentam a essa maior visibilidade das notícias sobre o crime, o investimento na reportagem de assuntos quotidianos, traduzido no despontar das histórias de interesse humano. A estratégia discursiva tinha, pois, um objetivo definido: vender anúncios (2009: 20).

As marcas do yellow journalism devem buscar-se, sobretudo, nos Estados Unidos da América, mas essa tendência para conquistar leitores, utilizando o lado mais sensacionalista das histórias, deixou marcas, não apenas, no mundo anglo-saxónico; aos poucos chegou a toda a Europa.

Em Portugal também fomos assistindo ao crescimento de um novo leitor. José Tengarrinha caracteriza esta "nova atitude mental” do consumidor de notícias:

“Menos abastado e instruído, com gostos menos exigentes e requintados (...) especialmente permeável aos relatos de aventuras ou de histórias de amor, como que buscando uma fuga emocional à estreita rotina do dia a dia (...) Os jornais (...) pretendem dirigir-se a todos os que sabem ler, cujo número vai crescendo gradualmente (Tengarrinha,

1965, 1989: 218 e 219)10.

9

A yellow press terá ido buscar o nome à cor do papel barato dos jornais ou à cor das capas das primeiras séries de folhetins policiais (Barnhurst e Nerone, 2009: 20).

10

Eça de Queiroz (1845-1900) traduz, fielmente, este espírito da imprensa portuguesa de finais de século XIX numa breve passagem de “Os Maias”. Nessa passagem, o escritor critica os temas desenhados à medida dessa nova

45

Em Portugal, o jornal que serviu de rosto a este jornalismo para as massas foi o Diário de Notícias.

O número zero, lançado a 29 de Dezembro de 1864, não deixava dúvidas quanto aos objetivos estratégicos do fundador, Eduardo Coelho:

“Interessar a todas as classes, ser acessível a todas as bolsas e compreensível a todas as inteligências (...) Eliminando o artigo de fundo, não discute política nem sustenta polémica. Regista, com a possível verdade, todos os acontecimentos, deixando ao leitor,

quaisquer que sejam os seus princípios e opiniões, comentá-los a seu sabor” (apud

Tengarrinha, 1965, 1989: 215).

O primeiro número do “Diário de Notícias” é posto à venda a 1 de Janeiro de 1865, com um preço “acessível”, de facto, “a todas as bolsas” – 10 réis – um preço muito convidativo se tivermos em conta os 40 réis que, na época, custava um jornal (idem, ibidem). É claro que este preço popular só foi possível porque o “Diário de Notícias” contou com a forte aliança das receitas publicitárias.

Em Portugal, como no resto da Europa, o jornalismo era uma ocupação a meio tempo, que mobilizava, sobretudo, intelectuais e escritores, mas também figuras com ambição política, que usavam o jornal como veículo de promoção pessoal. O surgimento da imprensa de massas, de que o Diário de Notícias foi o primeiro expoente, abriu espaço aos repórteres que, no confronto direto com os "políticos e escritores de jornal", eram considerados "jornalistas de segunda categoria" (Sousa, 2009: 4). A conquista plena do espaço pelos repórteres, na imprensa diária, haveria de ocorrer ao longo do século XX, quando, à imagem do que aconteceu na Europa, a imprensa precisou de profissionais a tempo inteiro que dominassem técnicas de escrita específicas, que garantissem resultados aos proprietários dos jornais. Como veremos no capítulo seis, os primeiros sinais de que a formação destes profissionais deveria ser entregue a uma entidade exterior, como a universidade, datam, exatamente, de finais de oitocentos.

promotores do debate. Ao invés, promovem o “silêncio” com a cumplicidade do “coro dos jornalistas”. Nas palavras de uma das personagens do romance, Ega, Eça de Queiroz, descreve os efeitos desse silêncio junto dos leitores: