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3 Metode

3.4 Analyse og tolking av materialet

A profissão de jornalista presta-se a complexo debate, dada a natureza do ofício que a caracteriza; daremos espaço a essa discussão; todavia, uma nota de consenso se impõe: independentemente dos contornos da análise do conceito de profissão, a génese da atividade a que convencionámos chamar jornalismo, surgiu no século XIX.

Nesta fase, exploramos o elemento que serve de motor ao jornalismo e à profissão de jornalista e que lhes é anterior: a notícia. O conceito de notícia está diretamente relacionado com o novo, com o que rompe as baias que delimitam o quotidiano.

Adriano Duarte Rodrigues promove uma equivalência entre acontecimento jornalístico e notícia. Para o académico, um facto “adquire estatuto de acontecimento pertinente do ponto de vista jornalístico” em função da sua “maior ou menor previsibilidade”: “o acontecimento jornalístico é, por natureza, um acontecimento especial”, que “irrompe sem nexo aparente nem causa conhecida e é, por isso, notável, digno de ser registado na memória” (1999: 27 e 28).

Há um momento na história em que a transmissão desses factos notáveis, desse “registo que partilhamos em comum” (Carey, 2007: 4), começa a ser desempenhada por mensageiros qualificados, e outro momento ainda, posterior, em que essa atividade se sujeita a um conjunto de regras que corporificam o reconhecimento do estatuto de profissão.

A definição do conceito de jornalismo irá ocupar-nos ao longo deste capítulo mas, para esta fase, basta-nos a abordagem mais abrangente de Mitchell Stephens: “no limite, o jornalismo é o termo mais simples que podemos usar para definir a atividade de recolha e distribuição/transmissão de notícias” (apud Zelizer, 2004: 22).

Stephens considera que os primeiros registos de notícias, o produto que alimenta o jornalismo, coincidem com as origens da humanidade.

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James Carey desenvolve a tese de Stephens e coloca-a em oposição à de Michael Schudson, que considera as notícias um produto do século XIX, que se impôs a dois tempos:

“O primeiro coincide com o aparecimento da figura do jornalista, enquanto profissional que desempenha uma tarefa a tempo inteiro, e o segundo momento, a invenção da moderna organização industrial, surge já no final do século XIX e caracteriza a produção em massa e a recolha de um determinado produto – as notícias” (2007: 5).

Carey distancia-se das clivagens que as teses opostas têm provocado, fazendo a ponte entre os dois autores. No texto editado já após a sua morte, o Professor de Columbia considera que “as notícias e as reportagens são eternas": "mesmo um sistema primitivo regista e promove a disseminação das grandes mudanças” (idem, ibidem). Carey, assinala, todavia, a "descontinuidade epistemológica", observada nos séculos XVIII e XIX, a alteração de paradigma, em que a crença no transcendente e no sobrenatural foi substituídapelo concreto, pelo real, ou seja, por algo “comum, útil, único, original, novo – numa palavra – as notícias”. Assim, conclui Carey, “as notícias e a reportagem não foram inventadas no século XVIII, mas o jornalismo foi” (idem, ibidem: 5 e 6).

Bill Kovach e Tom Rosenstiel seguem a linha de pensamento de Stephens. Os autores alertam-nos para a “constância” dos valores notícia, que sobrevivem desde os tempos tribais: “As pessoas sentem uma necessidade intrínseca – um instinto – de saber o que se passa para além da sua própria experiência direta”. “Precisamos de notícias para vivermos, para nos protegermos, para criarmos laços, para identificarmos amigos e inimigos”. Tal como Stephens, Kovac e Rosenstiel consideram que o jornalismo “é, simplesmente, o sistema concebido pelas sociedades para fornecer essas notícias” (2001: 5 e 6).

O Ato de Tornar Públicos os Factos Notáveis que Alimentam a Discussão Racional

O jornalismo fica, por isso, na direta dependência do presente, escravo do momento em que o novo se impõe, refém da atualidade.

James Carey afirma que o jornalismo se “governa do aqui e agora”. Os jornalistas apenas se interessam pelo que acontece num “determinado momento e num determinado lugar”. Como “velejar, a jardinagem, a política ou a poesia, o jornalismo é o ofício do lugar” (2007: 4).

Para exercerem um controlo sobre o lugar onde atuam, Gaye Tuchman considera que os jornalistas, como os pescadores, lançam uma “rede” sobre o seu próprio espaço

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do aqui e agora, com o propósito de capturarem os acontecimentos notícia que nele ocorrem. Todos os lugares que não forem cobertos pela rede (“buracos na rede”) ficam sem cobertura mediática. Um acontecimento só se transforma em notícia se cair na rede do jornalista (1972, 1999: 170).

O corte epistemológico, de que nos falava Carey, cujo registo histórico se fixa no século XVIII, assinala uma nova forma de compreensão do mundo, promovida por uma nova corrente filosófica: o Iluminismo. O Homem é estimulado, pelos filósofos iluministas, a ser dono do seu próprio destino e a rejeitar as explicações metafísicas (Deus), ou exteriores (a tradição, a autoridade do monarca) sobre o mundo que o rodeia. A razão substitui a crença.

O jornalismo – o ato de tornar público os factos notáveis - é fruto dessa descontinuidade imposta pelo Iluminismo. Porque o Iluminismo identificou no Homem uma pulsão para a discussão racional, para o questionamento permanente, para a vontade de saber mais.

Falamos de um jornalismo de opinião, de um motor de debate e da troca de argumentos, sobre matérias específicas, que interessavam a públicos específicos. A imprensa de opinião era o veículo de união entre os representantes dessas comunidades de interesses que poderiam, ou não, estar fisicamente juntos. A circulação e a leitura do jornal permitiam essa ligação simbólica entre os representantes do público:

“Nos países democráticos (...) acontece frequentemente que um grande número de homens que desejam, ou têm necessidade, de associar-se não o poderem fazer, porque sendo todos eles muito insignificantes e encontrando-se perdidos na multidão, simplesmente não se veem e não sabem como encontrar-se. Surge então um jornal que expõe aos olhos de todos o sentimento ou a ideia que surgiu simultaneamente, mas separadamente, a cada um deles. Todos se dirigem de imediato para esta luz, e esses espíritos errantes, que se procuravam desde há muito nas trevas, encontram-se finalmente e unem-se. O jornal aproximou-os e continua a ser necessário para os manter unidos” (Tocqueville, 1981, II: 143 e 144).

O jornal era lido em voz alta, discutido em voz alta. O público, sobretudo o público letrado, tinha verdadeira influência no conteúdo das publicações. E o conteúdo do jornal era o motor das discussões que se alargavam ao público. Criaram-se verdadeiras esferas de debate e de discussão. O resultado dessas discussões tinha efeitos diretos na ação dos poderes públicos, com claro benefício da burguesia que, mercê desse processo de debate, foi criando condições para se transformar na classe dominante. A burguesia era a classe letrada, promotora da discussão e, em larga medida, a classe representada nessas comunidades de interesses.

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Importa salientar que, embora a constituição dos públicos, e a troca de opiniões no interior dos mesmos, fosse livre, e essa liberdade se estendesse ao acesso dos membros e aos temas de discussão (Habermas, 1962, 1981: 51-53)6, o espaço público moderno promoveu exclusões (o povo, as mulheres, os iletrados) que, de alguma forma, terão contribuído para a crise que, no século XIX, afetou e destruiu as bases do modelo liberal.

O modelo liberal, ideal, permanece, porém, a referência da ação comunicativa e dos propósitos que essa partilha discursiva, intermediada e ampliada pelos media, deveria atingir na Esfera Pública.

A interação comunicativa, que se gerava entre os elementos do público, e que tinha nos jornais o seu impulso, promovia a constituição de uma verdadeira Esfera Pública de discussão e debate de temas que interessavam aos diversos elementos do grupo. O propósito dessa interação comunicativa era a obtenção de um consenso, de uma opinião comum. Tal pressupunha, como reconhece João Pissarra Esteves, “a plena disponibilidade revelada pelos participantes para a intercompreensão”. Mesmo que esse consenso não fosse pleno, seria, pelo menos, “um compromisso aceitável” (2003: 28).

UM JORNALISMO PARA AS MASSAS: OS PRIMEIROS SINAIS DE UMA