Se trouxermos para os dias de hoje o pensamento de Margaret Mead (1970) sobre o conflito de gerações como fundamento teórico para refletirmos sobre a relação entre os jovens e os adultos, parece-me ajustado o conceito de cultura prefigurativa usado por aquela autora para referir a inversão de alguns aspetos do processo tradicional de
26Famílias em mudança, Configurações, valores e processos de recomposição, disponível em, www.analiatorres.com/.../RelatoriodaUCSociologiadaFamiliaTeoriasedeb.
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aprendizagem onde os filhos ensinam aos pais aspetos do conhecimento que os primeiros dominam sem que os mesmos tenham sido informados pelos segundos.
A circunstância resulta, em particular, do exponencial desenvolvimento tecnológico observado a partir da década de setenta do século passado no campo da tecnologia cibernética e, consequentemente, das novas tecnologias de informação que marcam profundamente as mudanças que afetaram a organização da vida social.
É neste contexto que as tecnologias de informação concorrem para a modelação dos estilos de vida dos jovens. Os média e as novas tecnologias de informação,
associados com a publicidade, estimulam o consumo e consolidam o espaço das marcas e emblemas juvenis.
A natureza doméstica desta atividade, leva Catherine Wainerman (1981) a desenvolver o conceito de "média parafamiliar". Ou seja, estamos diante de um mundo em formato virtual que nos proporciona a informação, afeta e substitui em algumas dimensões o mundo real.
Neste contexto particular, a condição juvenil, integrando estes novos registos que os jovens das gerações anteriores não exibiam, molda-se também nestas novas fontes de conhecimento que estão para além da escola enquanto instituição predominante na transmissão do conhecimento e para além do capital de valores passado pelos pais. Uma realidade que muitas vezes foge ao controlo dos agentes socializadores tradicionais pela manipulação da informação que o mercado do marketing e da publicidade exerce sobre essa massa de consumidores que são os jovens.
Coloca-se a este respeito um paradoxo. É que estes novos veículos de comunicação e mecanismos de transmissão da informação, crescentemente ocupam espaço no contexto da interação familiar, seja pela proliferação da sua presença nos espaços públicos, seja em particular pela invasão dos domínios privados onde
frequentemente preenchem uma boa parte do tempo anteriormente dedicado ao convívio familiar. Aumenta o contacto com o exterior à custa da diminuição do contacto no
interior da família. Diz Giovanni Sartori (2000), que este novo homo videns altera as suas noções de tempo e espaço em relação à cultura do antigo sapiens da palavra e do texto escrito.
As atuais sociedades estão a lidar com a designada por Sartori primeira geração de jovens videoformados, envolvidos no complexo transformador dos indivíduos
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absorvidos por estes novos mecanismos de comunicação virtual, que de alguma forma coloca o risco de os transformar de consumidores a produtos consumidos.
O apelo ao uso desta nova tecnologia é tão forte que consegue romper com constrangimentos económicos que poderiam ser condicionadores do acesso ao mercado destes produtos. Eleita produto de massas, esta nova tecnologia está hoje considerada no âmbito dos produtos de consumo básico como dispositivos que, pela sua diversidade de oferta nos diferentes nichos de mercado, consegue estar presente nos espaços de vida das pessoas de todos os níveis sociais.
Apesar das desigualdades económicas que marcam as atuais sociedades,
determinadas por um acesso aos recursos bastante assimétrico, o mundo da tecnologia de informação está omnipresente. Independentemente do modo como a informação é
divulgada, seja pelos écrans cada vez mais presentes nos espaços públicos, fugindo ao eventual controlo regulador individual dos consumidores – aeroportos, transportes públicos, lojas, restaurantes, etc. – seja por uma simples consola de videojogos, o écran de um smartfone, ou dos equipamentos domésticos, as pessoas estão permanentemente em contacto com produtos, personalidades, pensamentos que se movem nesses canais videopresentes moldando o pensamento e a ação de um modo que Certeau (1974) designou de comportamento tático.
Mesmo os jovens de condição social menos favorecida, dos designados setores populares, acedem a esses instrumentos pelas dinâmicas de democratização que colocam disponíveis essas ferramentas através de políticas públicas de educação, criando espaços cibernéticos de acesso fácil.
Os diferentes contextos sociais podem criar diferentes condições de acesso dos jovens ao uso desta nova tecnologia, mas o que é seguramente comum é o facto de, independentemente do nível de equipamento, estar a tornar-se evidente que os jovens estão a ganhar distância dos adultos relativamente à capacidade de processamento e de uso destes novos mecanismos. “Porém, dá-se o paradoxo de que, frente a novos écrans como a internet, os jogos de vídeo, os telemóveis, etc., os jovens vão à frente no conhecimento e no uso desses meios, facto que pode situar os progenitores em clara desvantagem” (Cardoso, 2013: 125).
Os primeiros anos do século XXI em Portugal foram marcados pela
massificação do uso das tecnologias de informação e comunicação, em particular por parte dos jovens. Conforme estudo do Observatório Permanente da Juventude (abril
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2012), 90% dos portugueses entre os 16 e os 29 anos utilizam essas novas tecnologias, seja como resultado de políticas governamentais através de programas de distribuição gratuita de tais equipamentos, seja por abaixamento do custo no âmbito de programas como o e-escolas e o e-escolinhas, permitindo a posse desses equipamentos por parte de jovens sem recursos compatíveis com os valores de mercado. De acordo com o estudo referido, e tomando como referência a população jovem entre os 16 e os 29 anos, a proporção de indivíduos que utilizaram internet nos primeiros três meses do ano de 2010 por nível de escolaridade foi, respetivamente, 79,1% até ao 3º ciclo, 97,5% do
secundário e 96,8% do superior, constatando-se uma clara associação positiva entre a escolaridade e o uso das tecnologias de informação e comunicação.
Refletindo o estudo acima referido a massificação do uso daquelas novas tecnologias, fornece indicadores interessantes da presença das mesmas na vida dos jovens portugueses, mas mostra também o fosso digital ainda observado em Portugal, seja entre gerações, seja entre diferentes camadas sociais com mais ou menos capital escolar (Almeida e outros, 2011).
Além das transformações nos modos de comunicar, de ocupar o tempo e de interagir (Castells, 2012), estas novas tecnologias também marcam os jovens enquanto materiais didáticos de excelência, seja no processo de ensino aprendizagem, seja enquanto instrumentos de estímulo ao desenvolvimento de capacidades criativas, de abstração, de raciocínio reflexivo e crítico.