A magnitude das mudanças ocorridas no mundo do trabalho tem produzido um forte impacto sobre as famílias, instituição determinante na estruturação das vidas dos jovens. As mulheres participam cada vez mais no mercado do trabalho, criando novas
referências de comportamento e dinâmicas de vida familiar, pelos papéis, expectativas e intercâmbiosmoldados por essas modernas formas de vida social.23 Transformações
também observadas nos níveis de escolaridade feminina refletidos no aumento da presença e da mobilidade profissional das mulheres no sistema produtivo.24
Circunstâncias fortemente influenciadoras dos novos modelos de vida e laços familiares.
23 Todavia, conforme o estudo sobre a família da autoria de Ana Nunes de Almeida e Karin
Wall, Portugal Hoje (1995: 43), “Apesar das representações igualitárias e simétricas dos papéis familiares dos dois sexos ganharem cada vez maior número de adesões na sociedade portuguesa, a verdade é que continuam a ser as mulheres, na prática, as principais
responsáveis pelas tarefas de gestão da casa e da criação dos filhos pequenos.” 24 Em “Relações familiares: mudança e diversidade”, estudo da autoria de Ana Nunes de
Almeida, Maria das Dores Guerreiro, Cristina Lobo, Anália Torres e Karin Wall, “ Tradicionalmente menos escolarizadas que os homens (Guerreiro, 1993), começaram a aproximar-se das médias nacionais de escolaridade obrigatória a partir de meados deste século, para, em 1991, na população de 20 ou mais anos, registarem valores praticamente idênticos aos do sexo masculino a nível do ensino superior. No grupo etário dos 20-29 anos, verificamos que são as mulheres que atingem em maior proporção escolaridade a nível do
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A reconfiguração institucional da família vem estruturando formas tão distintas como as famílias nucleares com e sem filhos, as famílias de isolados, as famílias
alargadas, as famílias monoparentais e as famílias recompostas, com residência principal única ou múltipla, as famílias hétero e homossexuais, entre um conjunto de outras possibilidades (Almeida e Wall, 1995). Não parece existir evidência de que o facto de os jovens crescerem e viverem no quadro de uma família de qualquer dos tipos afete, por si só, as suas trajetórias, as suas orientações valorativas, ou os seus estilos de vida. De resto, novos e antigos modelos de socialização diferenciados ocorrem em famílias com estruturas idênticas.
Os estudos de referência da sociologia da família desenvolvidos em Portugal25
sobre a diversidade das estruturas familiares e dos modelos de socialização que
conduzem frequentemente a discursos de “senso comum” sobre a “crise da família” e dos seus valores, não sustentam essa pretensa crise. Confirmam sim o desenvolvimento de uma nova realidade que rompe com a ideia tradicional de família apresentando uma expressão institucional mais diversificada quanto à estrutura e quanto aos valores, mas continuando a merecer o reconhecimento das pessoas em geral e dos jovens em
particular, da sua importância central nos processos de socialização.
Sem reservas, a instituição familiar continua a ser valorizada seja como doca de ancoragem e amarração perante inseguranças, seja como motor dos projetos de vida dos jovens em particular, quer estejamos a falar das dimensões afetivas ou das dimensões materiais. Genericamente funciona como um fundo de garantia, um espaço de segurança de onde os jovens partem e podem voltar. Particularmente face à realidade dos tempos que hoje condicionam a realização dos projetos de vida dos jovens, integrando fatores de incerteza, conforme foi já largamente referenciado em abordagens anteriores, com referências seja ao adiamento da saída de casa dos pais para o desenvolvimento de vidas
ensino médio ou superior. O mesmo acontece já, aliás, a nível do ensino secundário
complementar: 17,9% de mulheres para 16,4% de homens. São também elas que detêm maior número percentual de diplomas do ensino superior, na faixa etária dos 20-24 anos, numa proporção de 67% de diplomadas para 33% de diplomados (Guerreiro, 1995).” (Almeida, Guerreiro, Lobo, Torres e Wall,1998: 47-50).
25 Do que resultaram publicações de referência como: Almeida, Guerreiro, Torres e Wall (ed.) (1992); Domingues, e Gomes (1990); Guerreiro (1989); (1990); Rodrigues e Lima (1987); Pais (1985).
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autónomas, seja muitas vezes o retorno a casa após saídas mal sucedidas. Neste último caso a refletir a sensação de um retorno à condição juvenil após um ensaio sem sucesso na adultez.
A instituição familiar, na sua diversidade, corresponde hoje a um reduto
estruturante fundamental num mundo a colocar os jovens em processos de instabilidade e insegurança não lhes facilitando o caminho.
Maria D. Guerreiro, Anália Torres e Cristina Lobo, no estudo sobre Famílias em mudança,26 referem:
A capacidade de o indivíduo enfrentar e gerir riscos advém-lhe muitas vezes do apoio emocional e material proporcionado por aqueles que são
considerados como fazendo parte da sua família, das competências sociais e afetivas que, pela socialização, as famílias transmitem aos seus membros.
Referindo-se ao universo dos valores e representações dos portugueses sobre aspetos gerais da família, Almeida e Wall (1995: 44), sublinham a importância da família enquanto esfera prioritária de referência: “A família detém, no dia-a-dia, uma importância decisiva para os portugueses, como aliás para os europeus em geral”.
Uma constatação de sempre é a de que o resultado da socialização dos jovens, refletido no modo como vivem a vida, é produto dos valores correntes na sociedade com os quais se vão confrontando, onde o ambiente familiar é determinante. Diz António Teixeira Fernandes (2007: 256): “As crianças não permanecem iguais de geração em geração e de sociedade em sociedade, porque a educação das novas gerações também não é a mesma, assim como não é idêntico o contexto em que ela ocorre.”