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Os recursos que estruturam o capital cultural dos jovens, de entre outras origens, resultam do papel das comunidades de residência ou outras (por exemplo, étnicas), dos grupos de amigos, mas também dos meios de comunicação social e das TIC entre outras

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possibilidades. Todas jogando um papel muito importante na formação das identidades, das preferências e das práticas culturais, resultam de forma destacada da ação da escola e da família.

Da socialização familiar capitalizam-se formas de pensamento, competências de comunicação linguística, saberes, esquemas de pensamento que concorrem para a cultura dominante, afetando as culturas dominadas, mas de modo diferenciado em função da sintonia ou da distância de classe dos agregados familiares.

Porque, como refere Bourdieu, a reprodução cultural é indissociável do capital social, diferentes tipos de grupos familiares, dependendo dos diferentes níveis de qualificação escolar que de modo diferenciado caraterizam as diferentes realidades familiares, influenciam consideravelmente o capital cultural que orienta os jovens nos seus esquemas de pensamento e nas práticas que determinam os seus modos de vida.

Os dados obtidos no inquérito mostram que as mães se apresentam com maiores níveis de escolaridade relativamente aos pais, nomeadamente em relação aos níveis superiores de qualificação: as mães com nível de mestrado correspondem a 6,86% e com nível de licenciatura a 7,84%. (fig. 3.10) Os pais apresentam respetivamente

percentagens de 1,63% e 4,9%. Também ao nível do ensino secundário concluído as mães apresentam uma percentagem bastante superior relativamente aos pais, 19,8% das mães têm o 12º ano concluído contra 11,76% dos pais. Só nos níveis do ensino básico, como é natural face às diferenças apresentadas a partir do nível do ensino secundário, é que os pais apresentam percentagens mais elevadas do que as mães, deixando claro que as mães detêm maior qualificação académica, com um total de 34% com habilitações entre o 12º ano e mestrado, espaço de qualificação que só 18% dos pais ocupam.41

41 Não havendo condições de cruzar os dados obtidos com a estrutura das habilitações da população em geral, particularmente porque os pais dos jovens estudados não se constituem em escalão etário de referência, todavia, constitui um indicador de habilitações dos pais dos jovens estudados.

99 Figura 3. 10 - Nível de escolaridade

Se os jovens incorporam capital cultural resultante da ação dos agentes

familiares, cujos contributos variam em função dos níveis de competências e de saberes existentes nesses agregados, e estando reconhecida a importância da escola na

estruturação do capital cultural, em particular porque também promove uma visão do mundo mais reflexiva, apresentando-se as mães com níveis de qualificação escolar em média acima dos pais, um indicador que deixa a presunção de que as mães constituirão agentes melhor qualificados no processo de educação dos filhos, relativamente aos pais.

Neste contexto e porque a incorporação de capital cultural também ocorre hoje muito por via dos palcos virtuais que a Internet proporciona, face aos dados que a bibliografia hoje apresenta sobre o tempo utilizado para “navegar”, deixando a ideia que os jovens vêm crescentemente a distanciar-se da interação social direta pela razão de cada vez mais se isolarem junto dos écrans dos diversos equipamentos que os ligam a esse “novo mundo”, os dados apurados mostram-nos uma realidade bem mais

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Barras de cores: 1-nenhum; 2-até1h; 3-1a2h; 3-1a2h; 4-2a3h; 5-3ª4h; 6-4ª5h;7-mais de 5h Figura 3. 11 - Tempo dedicado à Internet

Questionados sobre quantas horas em média por dia dedicam à Internet, as respostas situaram-se entre 0 e 5 horas percentualmente assim divididas: 5% não têm hábito; 17% até 1h; 20% entre 1 e 2h; 22,8% entre 2 e 3h; 14,7% entre 3 e 4 h; 20% entre 4 e 5h. Um indicador interessante que poderá justificar o discurso dos pais de que os filhos passam o tempo na Internet, é o referido pelos respondentes quando questionados sobre qual a percentagem de tempo dedicado à Internet quando estão em casa. (fig.3.11)

De facto, 60% dizem que 80% do tempo dedicado à Internet ocorre quando estão em casa. Para termos uma ideia mais clara lembramos os indicadores obtidos sobre a percentagem de tempo livre passado fora de casa, em que 35% dos jovens referem passar 50% do tempo livre fora de casa e 43% dizem que passam mais de 60% do tempo livre fora de casa. (fig. 3.12)

Ou seja, de acordo com os dados obtidos, os jovens, apesar de serem grandes consumidores (fig. 3.13) das novas tecnologias de comunicação (O grande grupo de jovens inquiridos, pertencente à classe EE (62%), dispõem de PC (89,5%), tal como o 2º maior grupo inquirido, da classe PTE (18%), com a indicação de 92,5% disporem também de PC), não desligaram da interação social direta nos seus modos de vida.

101 Figura 3. 12 - Tempos livres fora de casa

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Outro aspeto condicionante do modo de viver a vida está relacionado com o grau de liberdade que os jovens dispõem para orientar as suas ações. Questionados para caraterizarem o grau de liberdade, 60% dos inquiridos consideram ter um nível de liberdade muito bom a elevado, sendo que para este último grau concorrem 35,6% dos jovens. Com um nível bom de liberdade, indicam 21% dos jovens e 14,7% consideram dispor de uma razoável liberdade. (fig. 3.14)

Numa leitura global sobre o grau de liberdade de que os jovens dispõem para orientar as suas opções e modos de vida, os indicadores mostram uma disposição positiva para orientar as suas ações de acordo com a sua própria perceção do mundo.

Barras de cores: 1-nenhum, 2-baixo, 3-razoável, 4-médio, 5-bom, 6-mto bom, 7-elevado Figura 3. 14 - Valores, ideais, atitudes, e interesses - dados gerais

Um indicador interessante do modo como varia a perceção que os jovens têm sobre o grau de liberdade de que dispõem atualmente em relação ao período da

adolescência, está expresso no indicador de grau de liberdade elevado para a adolescência, indicado por só 4% dos jovens, contra os 35,6% que referem essa indicação para a atualidade. Naturalmente que a explicação para esses indicadores de liberdade assenta na razão de que os adolescentes, vivendo um período das suas vidas

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com menos maturação das suas faculdades, face ao período seguinte, considerado pela psicologia evolutiva como o período onde prevalecem as emoções sobre a razão, gozem de menos liberdade em consequência dos pais exercerem sobre eles um maior

acompanhamento e regulação do nível de liberdade naquele período de crescimento. Porque o capital cultural se constrói também a partir das práticas que a vida social vai desenvolvendo na trajetória de vida, o modo como os jovens hoje vivem a vida resulta em parte dos condicionamentos que têm ou não sobre a realização de atividades de acordo com as suas motivações. Por essa razão, pareceu-nos pertinente conhecer que níveis de constrangimentos ocorreram anteriormente e ocorrem na atualidade na

realização de atividades/convívios que gostam de fazer. (fig. 3.15)

Barras de cores: 1-nenhum, 2-baixo, 3-razoável, 4-médio, 5-bom, 6-mto bom, 7-elevado Figura 3. 15 - Atividades/convívios

Os dados obtidos suscitam duas leituras:

1. Uma prende-se com os níveis de perceção de liberdade apurados, dado refletirem articulação entre um e outro aspeto - porque os jovens vivem hoje a vida com maior nível de liberdade relativamente à fase da adolescência, também apresentam um aumento do nível de realização de atividades que gostam de fazer, passando de uma percentagem de 13% de inquiridos que consideravam um nível

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excelente de realização de atividades até aos 14 anos para 22% na atualidade. Este aumento para 22% resulta da promoção do nível muito bom que baixa de 19% para 5,5% entre a fase anterior e a atualidade.

2. A segunda leitura é suscitada pela descida da percentagem de jovens que indicaram o nível 6 (muito bom). Parecendo claro que o aumento de percentagem no nível excelente na atualidade resulta do abaixamento da percentagem no nível 6 até aos 14 anos, também se percebe que aumenta a percentagem de 17% para 25%, entre a fase anterior da vida e a atualidade no nível médio (nível 4),

percentagem deslocada para baixo a partir da redução do nível muito bom (nível 6). Tendo presentes os indicadores já anteriormente referidos sobre a condição económica, pode-se fazer a leitura de que os jovens de classes sociais com melhores condições de vida fazem um aproveitamento do aumento do grau de liberdade para aumentar o grau de realização de atividades; para os jovens de classes sociais mais condicionadas nos seus recursos económicos, os

constrangimentos que a perda de recursos económicos nas famílias colocam, determina um abaixamento do nível de realização de atividades que gostam de fazer.