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A compreensão de como a maneira de ser e de se expressar dos jovens resulta de condicionamentos próprios, produtos de experiências passadas que estruturam as suas perceções, apreciações e ações, na realização de múltiplas tarefas, passa pela observação das suas práticas e das opiniões/representações/valores que são produto dessas

disposições, que importa identificar.

Porque os jovens da atual geração cresceram num clima de forte motivação para o consumo desenhando ideais de vida onde os valores materialistas estão muito

presentes, considerámos útil a aplicação da escala de Richins e Dawson utilizando uma escala de Likert de cinco níveis, permitindo-nos obter indicadores de três constructos: sucesso, centralidade e felicidade.

O constructo do sucesso constitui um indicador da tendência para acreditar que o grau de sucesso é consequência da quantidade e da qualidade de bens possuídos. O

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sucesso do próprio e dos outros é julgado pelo tipo e quantidade de bens materiais acumulados.

Os dados obtidos em geral indicam que os jovens não reconhecem importância aos bens materiais como indicador de status social, respondendo que discordam ou que não concordam nem discordam. (fig. 3.16)

Figura 3. 16 - Valores materiais ligados ao sucesso

A questão mais representativa dessa negação que colheu uma quase

unanimidade de juízo de todas as classes sociais representadas é a liminar recusa de que “Gosto de ter coisas para impressionar as pessoas”.42

Quando analisamos os indicadores por classe, mesmo tendo presente que, em geral, os jovens olham o lado material da vida de modo contido, constatam-se diferenças evidentes que destacam por contraste diferentes classes sociais. Para os jovens da classe

42Apesar da escala de Richins e Dawson ser largamente utilizada na investigação, constatamos

haver algumas questões formuladas no questionário que tendem a gerar respostas socialmente convenientes, como é o caso da questão em apreço, que em nosso entender deveria ser colocada numa forma neutra, por exemplo, “há muitas pessoas que gostam de ter coisas para impressionar os outros, e isso é compreensível porque as aparências contam muito”.

Ponderadas adaptações naquele instrumento, optámos por aplicar o original assumindo a existência de eventuais razões que nos escapam.

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“O”, o sucesso não se constrói pela aquisição de bens. Estes jovens são os que mais concordam com a afirmação de que geralmente compram apenas aquilo de que precisam, ao passo que, em oposição, são também os que menos valorizam que alguns dos feitos mais importantes na vida incluem adquirir bens materiais. Por outro lado, os jovens da classe “EDL” adotam opinião exatamente contrária manifestando a maior discordância sobre a primeira questão, e a maior concordância com a segunda.

Predominando entre os jovens das diversas classes uma desvalorização da importância dos bens materiais enquanto fator relevante de sucesso, ainda assim

observamos indicadores que marcam uma pequena diferenciação referente à classe “TI”. Sendo os que mais desvalorizam a compra para além das necessidades, bem como a atenção para a posse de objetos materiais que os outros possuem, são os que mais consideram que alguns dos feitos mais importantes na vida incluem adquirir bens materiais.

O constructo de centralidade refere a compra e a posse de bens como realidades elementares que estruturam a vida. Os dados recolhidos permitem-nos estabelecer análises comparativas entre classes. (fig. 3.17)

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Tendo presente os contributos teóricos dos autores de referência sobre o peso do materialismo na vida dos jovens, a observação das respostas obtidas contraria os autores que referem o domínio do consumismo na vida das pessoas. Dão-nos conta de uma desvalorização da importância dos bens materiais enquanto eventuais fatores centrais na vida dos jovens. Sobre os três itens43 que questionam de modo afirmativo um valor

positivo para os bens materiais – 1. Gosto de gastar dinheiro em coisas que não são necessárias; 2. Comprar coisas dá-me imenso prazer; 3. Gosto de muito luxo na minha vida – sem variações significativas as respostas obtidas indicam discordância. Sobre os dois itens que desvalorizam a importância dos bens materiais - 1.Tento manter a minha vida simples, no que diz respeito aos meus bens materiais; 2. Dou menos importância às coisas materiais que a maioria das pessoas que conheço – a maioria dos respondentes, de modo compatível com as respostas dadas nas três questões anteriores, manifestam concordância.

As respostas a estas duas últimas questões apresentam algumas variações quando observadas no âmbito das diferenças de classe, com indicadores dos jovens de classes familiares de estratos mais elevados, no caso da categoria EDL, a manifestarem discordância, valorizando os bens materiais. Essa valorização observa-se também pelas respostas às questões ligadas ao sucesso (Fig. 3.16) “Não dou muita atenção aos objetos materiais que os outros possuem” e “Geralmente, compro apenas aquilo de que preciso” onde as respostas são de desacordo com tais afirmações.

Sobre a questão onde, pela negativa, é questionada a importância que tem para os respondentes as coisas materiais que possuem - As coisas que possuo não são muito importantes para mim -, podendo parecer paradoxal discordarem da afirmação, dado que nas restantes questões indicam baixo nível de materialismo,44 é admissível que as coisas

que possuem, por não cultivarem uma dependência das coisas materiais, correspondam a necessidades funcionais, daí considerarem ser relativamente importantes. De outro modo, podendo indiciar estilos de vida a que Bourdieu chamaria “vulgares” dado o “gosto do necessário” típico das classes populares, admitimos poderem estar as respostas

43 Três itens que poderiam ser colocados de forma neutra, em nosso entender, tecnicamente suscetíveis de obter respostas mais fidedignas, mas optámos por respeitar o guião original. Inglehart (1990) dava já indicação de que os valores de vida estariam mudando para uma dimensão bens constitui caminho para construir felicidade e bem-estar. Através de uma subescala menos material.

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assumidas de modo socialmente conveniente devido à formulação eventualmente pouco neutra da questão.

O constructo de felicidade elabora um grau de esperança de que adquirir e possuir constitui um meio para realizar a felicidade. Constituído por cinco itens, procura- se determinar o grau de felicidade do indivíduo por via da importância dada aos bens. (fig. 3.18)

Numa análise geral às respostas obtidas observamos a existência de um padrão de valorização intermédia da importância das coisas materiais enquanto razão para a felicidade e bem-estar. Provavelmente dando conta que o acesso aos bens materiais mais importantes é hoje coisa fácil, determinando uma certa desvalorização enquanto fator condicionante da felicidade. Apesar disso, damos conta de algumas nuances quando olhamos para algumas diferenças nas opiniões de respondentes de classes diferentes.

Figura 3. 18 -Valores materiais e felicidade

Quando questionados senão seriam mais felizes se tivessem coisas mais bonitas, predomina nas respostas o não concordo nem discordo, contrastando dois indicadores de representantes de classes de condições sociais diferentes: os respondentes da classe EDL (empresários, dirigentes e profissionais liberais) discordam, considerando a importância da posse de coisas mais bonitas um fator de maior felicidade, deixando

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aqui a ideia de que mais do que o valor material das coisas importa o valor estético; em oposição, os respondentes da classe AEpl (assalariados, executantes pluriactivos) não valorizam o aspeto estético como fator contribuinte da felicidade, respondendo com concordância que não seriam mais felizes.

Embora predominando respostas à volta de valorização de uma importância média dos bens materiais para a realização da felicidade, a propósito do ter ou não ter, obtivemos também dois indicadores a diferenciarem duas classes de posições opostas: questionados sobre se a vida pessoal seria melhor se possuíssem coisas que não têm, os jovens com origem na classe operária desvalorizam a importância das coisas que não possuem, discordando da afirmação e indiciando uma atitude de conformismo, considerando que a felicidade não depende fundamentalmente das suas condições materiais; por outro lado, os respondentes da classe TI (trabalhadores independentes) concordam que a sua vida seria melhor se possuíssem coisas que não têm. Em duas outras questões, destacando-se dos outros, os respondentes da classe TI dão nota da importância das coisas materiais nas suas vidas ao concordarem que “Seria mais feliz se tivesse dinheiro para comprar mais coisas” e que “Às vezes, entristece-me um pouco que não possa comprar todas as coisas que quero”. Aqui se observa uma correlação com as indicações deixadas por Belk, Ger e Askegaard (2003), ao referirem que o apelo ao consumo e a busca da felicidade por esse meio, ocupam os desejos dos consumidores.