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3.3 Signal description

3.3.2 Physical dependencies

É relevante deixar claro neste item que nas pesquisas sobre pessoas com deficiência visual podem<se encontrar diversos posicionamentos teóricos que englobam desde os que apenas comparam o desenvolvimento entre indivíduos com deficiência visual e videntes, até aqueles que buscam a compreensão do referencial perceptual dos primeiros. Nesta pesquisa, buscar<se<á conhecer a criança com deficiência visual por ela mesma e por aqueles que ainda falam por ela, não as comparando com a criança vidente. Por meio da escuta de crianças com deficiência visual, seus familiares e professores, tentou<se entender qual o seu posicionamento no mundo, pois, ao usar o modelo comparativo, a deficiência visual é sempre vista como déficit. A não comparação

não nega a diferença existente, apenas busca entender o desenvolvimento das crianças com deficiência visual a partir de suas variáveis.

Para Warren (1994), o modelo comparativo utiliza<se de normas e padrões baseados em crianças videntes, sendo assim, o desenvolvimento da criança com cegueira ou baixa visão pode até chegar aos mesmos padrões, mas de forma retardada. Desta maneira, esta abordagem pode influenciar as expectativas acerca do desenvolvimento de crianças com deficiência visual. Diante disso, quando os pais de um bebê com deficiência visual questionam a um profissional qual é o prognóstico para o desenvolvimento de seu filho, se esse profissional apoiar<se na literatura comparativa poderá afirmar que, apesar da criança poder adquirir habilidades adaptativas, ela terá um desenvolvimento mais lento do que o de uma criança vidente.

É preciso ressaltar que em termos normativos as crianças com deficiência visual podem realmente apresentar determinado atraso em alguns aspectos de seu desenvolvimento, porém o profissional, ao se basear nestas normas, pode levar os pais a não esperar mais de seus filhos do que a aquisição do desenvolvimento normativo para as crianças com deficiência visual, deixando de estimulá<los. Além disto, ao pressupor que o desenvolvimento da criança com deficiência visual é retardado está considerando<se que ela passa pelos mesmos processos que uma criança vidente, não levando em conta, assim, seu próprio referencial perceptual (Ibid.).

Lowenfeld (1981) chegou às mesmas conclusões que diversos estudiosos com respeito ao atraso apresentado pelas crianças com deficiência visual em relação aos videntes quanto ao seu desenvolvimento psíquico. Isto quer dizer que é mais significativa uma representação visual do que uma embasada na abstração verbal para este desenvolvimento. Porém, o autor critica as pesquisas que propõem a compreensão do desenvolvimento da pessoa com cegueira pela simples comparação com os videntes.

No Brasil, Masini (1994) destaca que se devem compreender as especificidades do referencial perceptual dos indivíduos com deficiência visual, tendo por base a compreensão que seu desenvolvimento perceptivo é singular.

Warren (1994) considera o enfoque diferencial como a principal alternativa para o enfoque comparativo. No enfoque diferencial, busca<se investigar a natureza e as causas das variações dentro de uma população. A primeira tarefa é a descrição detalhada das características da população a ser estudada e, posteriormente, cabe buscar os correlatos e possíveis causalidades.

Para justificar a busca por causalidade, pode<se tomar o exemplo da distribuição de habilidades cognitivas de crianças de seis anos e tentar entender por que algumas se encontram no topo e outras na base da distribuição. A grande dificuldade deste enfoque é justamente esta busca, pois existem muitas variáveis que podem agir sobre um grupo, tais como influência genética e ambiental. Acrescentadas a essas dificuldades, podem ser citadas, no que se refere à pesquisa com indivíduos com deficiência visual, as variáveis apresentadas por essa população como idade da perda da visão, grau desta perda...

Mesmo apontando estas dificuldades, o autor cita duas grandes vantagens na utilização do enfoque diferencial em pesquisas com pessoas com deficiência visual: a primeira porque este enfoque enfatiza a grande variação de desenvolvimento nesta população específica, e a segunda vantagem porque a partir do conhecimento adquirido em pesquisas com este referencial podem ser elaboradas intervenções para otimizar o desenvolvimento das crianças (Ibid.).

Na literatura que se refere ao desenvolvimento de crianças com deficiência visual, a preocupação com a escolha de uma teoria é explicita. Grande parte das vezes acredita<se que quando uma criança com deficiência visual adquire uma característica semelhante a uma criança vidente, porém em idade mais avançada, a primeira passou pelos mesmos processos que a segunda, mas de forma mais lenta. Muitos programas de intervenção são desenvolvidos a partir desta concepção, tendo, assim, o objetivo de proporcionar à criança um desenvolvimento nos mesmos padrões e ritmo dos videntes. A teoria que baseia este tipo de atuação pode ser denominada “retardo do desenvolvimento” (Ibid.).

Para o autor, o desenvolvimento infantil acontece a partir da maturação e das influências ambientais. Como o ambiente é variável de criança para criança, deve<se presumir que o desenvolvimento das mesmas ocorre de forma diferente. Propõe, então, uma possibilidade de entendimento do desenvolvimento, na qual seus princípios e dinâmicas são fundamentalmente os mesmos para todas as crianças, sejam elas videntes ou com cegueira. Entretanto, isso não significa que na média o desenvolvimento é idêntico, já que o ambiente e as capacidades perceptuais nos dois grupos são diferentes. Este autor enfatiza a preocupação com a procura de variações no desenvolvimento das crianças e não de médias e padrões. É importante, então, que se atente para o interjogo entre as capacidades da criança e as circunstâncias oferecidas pelo ambiente em que ela se encontra.

Warren (1994) sugere ainda uma nova abordagem para a análise do desenvolvimento de crianças com deficiência visual que não se baseia nem na abordagem comparativa, nem na que afirma que nada pode ser aprendido com o desenvolvimento dos videntes. Considera assim que as variáveis relacionadas à deficiência visual são apenas fontes adicionais de variação no desenvolvimento das crianças e que devem ser levadas em conta juntamente com aquelas avaliadas no desenvolvimento de crianças videntes. O autor chamou esta abordagem de “enfoque das tarefas adaptadas”, que possuem as seguintes premissas:

A criança em desenvolvimento depara<se com diversas tarefas adaptadas; Frente a essas tarefas arma<se com suas características e capacidades pessoais;

O ambiente molda a natureza das tarefas, as características e capacidades da criança; e No que se refere às crianças com deficiência visual: as variações das tarefas, de suas capacidades e características e, ainda, das circunstâncias ambientais que a envolvem devem ser levadas em consideração para entender o desenvolvimento das mesmas (Ibid.).

Diante disso, observa<se que todas as crianças com ou sem deficiência enfrentam problemas ao adaptarem<se às tarefas propostas pelo ambiente. Essas tarefas podem ser agrupadas em diversos setores:

Mundo físico: a criança precisa perceber as características do mundo físico para adaptar< se a ele. É necessário que ela interaja fisicamente com o mesmo e, para isso, precisa adquirir habilidades motoras como o andar;

Habilidades cognitivas: desenvolvimento do raciocínio lógico da criança, que depende em parte da aquisição da linguagem como processo cognitivo, e também do desenvolvimento da memória, da atenção e do processamento de informações;

Mundo social: necessidade de entendimento e percepção das características do mundo social e de suas relações e responsabilidades. A criança precisa diferenciar os comportamentos que facilitam ou dificultam as interações sociais, bem como habilidades verbais e não verbais;

Capacidades e características da criança: no curso do desenvolvimento a criança adquire determinadas capacidades e características que moldam sua adaptação nos diversos domínios. Exemplos destas são: auto<imagem, habilidades cognitivas, perceptuais, de linguagem e motoras, aquisição de informações e características de personalidade; e

Ambiente da criança: é variável podendo afetar diretamente a natureza da adaptação e/ou interagir com as características da criança para que isso ocorra (Cf. WARREN, 1994).

Em relação ao ambiente da criança, Warren aproxima<se da noção de Winnicott ao dizer que as variações do ambiente influenciam de forma a favorecer ou não o desenvolvimento da criança.

Ao se pensar na criança com deficiência visual existem outros fatores, além dos expostos, que influenciam seu desenvolvimento, esses incluem: a idade na qual a criança adquiriu a deficiência, a presença de resíduo de visão, fatores etiológicos e presença de outras deficiências (Ibid.). A partir dessa proposta de Warren, nota<se a valorização das variações no desenvolvimento individual, sendo a ausência da visão mais uma delas.

Para Ormelezi (2006, p.83)

(...) a cegueira implica certamente questões que não estão restritas apenas ao aspecto orgânico, mas substancialmente às questões psicossociais que vão engendrar aspectos da subjetividade de quem a mostra como também daquele que a lê. Quer do ponto de vista orgânico, quer do ponto de vista da subjetividade, a mesma patologia e o mesmo quadro clínico, em pessoas diferentes, terão manifestações próprias a cada uma delas.

A privação de um dos sentidos muda o modo de estar no mundo e de se relacionar, pois as vias de percepção são diferentes. A partir deste conceito, Masini (1997a) propõe que se busquem diretrizes educacionais que respeitem o referencial perceptual da pessoa com deficiência visual e sua maneira própria de relacionar<se, proporcionando condições para que ela apreenda e elabore as informações do ambiente ao seu redor, havendo, dessa maneira, uma aprendizagem significativa e não mecanicista.

A compreensão do indivíduo com deficiência visual e de seu modo de relacionamento com o mundo depende do entendimento de sua estrutura perceptual e cognitiva, “que exprimem ao mesmo tempo generalidade e especificidade (o conteúdo, a forma e a dialética entre ambas)” (MASINI, 2003, p.41). Por exemplo, uma criança com cegueira tem uma percepção diferente de uma com baixa visão ou, ainda, uma criança que perdeu a visão com oito anos tem sua percepção diferenciada de outra com cegueira congênita, o que significa que cada uma recorre às possibilidades perceptivas que dispõem. Sendo assim, ao se estudar o desenvolvimento das

crianças com deficiência visual pode<se seguir uma “linha norteadora”, porém, deve<se estar atento às particularidades de cada criança, cada tipo de deficiência, cada estrutura familiar, pois a padronização não leva ao conhecimento exato e profundo do desenvolvimento dos indivíduos.

Outro ponto a ser pensado é que apesar da comunicação existente entre os indivíduos não existem meios de se conhecer um ao outro, exatamente como são. Desta forma, pode haver comunicação com um indivíduo com deficiência visual, porém sua experiência é inacessível. Por exemplo, o significado do olhar para essas pessoas se dá pela ausência do mesmo, sendo a importância da visão apenas percebida por aqueles que são videntes. Isso posto, para os videntes, a identidade da pessoa com deficiência visual forma<se a partir da falta da visão ao invés da presença dos seus outros sentidos, e uma vez que os videntes têm influência marcante na sociedade, podem ocultar o referencial da pessoa com deficiência (Cf. MASINI, 1994).

Levando em consideração essas questões, a convivência com o indivíduo com deficiência visual e a escuta do que eles têm a relatar sobre sua percepção do mundo é essencial para a compreensão dos mesmos. Desse modo, pode<se fazer uma aproximação do que é viver em um mundo onde a visão não está presente. Os videntes não saberão como é o caminho perceptivo das pessoas com deficiência visual se não derem a elas a possibilidade de expressão.

Apesar dessas considerações, no próximo item serão apresentadas pesquisas sobre o desenvolvimento de crianças com deficiência visual que se utilizaram de métodos comparativos. Isto ocorre pela escassa produção científica sobre a deficiência visual que não se utiliza da comparação. Cabe, então, esclarecer que todas as pesquisas que tiverem por base uma metodologia comparativa serão descritas como tal e buscar<se<á estabelecer dentro das mesmas um olhar para a diferença.