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7 Songa Endurance-hendelsen

7.5 Petroleumstilsynets gransking av Songa Endurance-hendelsen

O próprio nome que a sociedade usa para “catalogar” as crianças que participaram neste estudo, é um assunto que também preocupa as próprias crianças. Vimos na de literatura que a nomeação das crianças é um problema complexo, para a ciência mas também para as próprias crianças. A complexidade para as crianças encontra-se no facto de que a palavra “criança de rua” possui uma carga negativa, e as crianças não querem ser com

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uma carga negativa. Mas, ao mesmo tempo, eles sabem que a situação em que se encontram, fora da casa familiar com uma ligação forte à rua, é uma realidade que é diferente das crianças que vivem numa casa familiar. Na próxima situação veremos esta carga negativa da palavra “criança ou miúdo da rua”. Uma criança, ao chamar as outras crianças de “miúdos da rua” deixou-as nervosas, portanto, ser chamado “miúdo da rua” não é bom e gera um motivo para brigarem.

Notas de campo: 06-01-2011

“…No pátio há 10 crianças que estão a jogar à bola. Daan está a participar no jogo, ele viu Bas ao lado da parede, correu para ele e abraçou-o. Ele disse: “ Menino da rua, estás bom?” O Bas ficou nervoso e apanhou o Daan, eles caíram no chão e rebolaram sobre o chão. O Bas saiu da luta e o Daan foi-se embora. O Bas olhou para os seus braços e começou a limpar-se com as suas mãos…”

“…As crianças entraram na sala das refeições para o jantar, Daan abordou as crianças que estavam sentadas nos bancos perto da parte de atrás e disse: isto são meninos da rua. O Jantje levantou-se e começou a lutar com Daan. Depois voltaram para a mesa…”

Nota: estas notas foram feitas entre as 18:00h e as 21:30h

Vimos, portanto, que a mesma situação se repetiu duas vezes: uma criança chama às outras crianças de rua, e a reacção delas é uma defesa que se manifesta com uma luta. Podemos interrogar-nos se as crianças lutam porque acham que não são “crianças de rua” ou podemos sugerir que esta reacção é uma confirmação de que elas são “crianças de rua” mas, por causa da negatividade, não querem ser conotadas com este nome. Digo negatividade porque as crianças confirmam que ser chamado “criança de rua” numa sociedade que dá muito valor às classes, é uma degradação para as crianças. Na entrevista com Bas fica mais claro o sentimento que está ligado ao facto de ser chamado de “criança de rua”.

Entrevista com Bas na casa Magone. Participantes: (E):Brenda, (B):Bas.

E: E tem roupas que tu gostas muito? Que tipo de roupas que tu gostas muito? B: Fato

E: Fatos? Ah

E: E também já tens um fato? B: Não

E: Não, porque é que ainda não compraste? B: Ta muito caro

E: Aaah, achas que vais um dia comprar? B: Só se tem dinheiro

E: Achas que um dia vais ter suficiente dinheiro para comprar um fato? B: Sim

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E: Sim? E porque é que o fato é muito bom? O que é que mostra um fato? B: É você passar na rua, nem para dar menino da rua

E: Como como?

B: É assim para ficar limpo, tas limpo, andava passar na rua, estão a vê esse é miúdo da casa estuda

E: Ah..

B: E agora se você anda sujo, te falam você menino da rua, E: Que não é bom?

E: Não? O que é que tu sentes quando as pessoas dizem quando tu és um menino da rua? B: Você fica mal

Nota: esta entrevista foi baseada num desenho que a criança fez sobre as coisas que ele mais gosta de fazer, a criança desenhou uma casa de capin (ANEXO 2).

Nesta entrevista podemos constatar vários aspectos sobre o conceito “criança de rua”. Primeiro quero referir-me àquilo que a criança de rua é aos olhos da sociedade. Uma criança é chamada de criança de rua quando ela anda suja e está vestida com roupas sujas. Vemos também o poder que este nome tem para as crianças, embora a criança indique que se sente mal, ela disse que quer comprar um fato só para mostrar à sociedade que não é uma criança de rua mas um menino que tem casa e estuda. Portanto, este comportamento mostra a negatividade que a sociedade tem sobre crianças de rua e que também é visível para as próprias crianças.

Através dos dados que as crianças me deram sou de opinião que as crianças ficam nervosas porque carregam o rótulo “criança de rua” como um reconhecimento em relação ao que são, e têm que se defender. Durante uma conversa com um grupo de crianças na casa Magone elas comentaram o trabalho que estava a fazer com elas.

Notas de campo: 21-12-2010

(1)“ …M disse que conhece um filme sobre crianças de rua, achou que o filme se chamava última parada e era um filme do Brasil. Ele perguntou se os outros também conhecem. Eles disseram que sim. M disse que neste filme também há uma mulher que escreve sobre estas crianças, as outras crianças confirmaram…”

(2)“ … Uma outra comentou que todo o mundo aqui cresce na rua. A outra criança disse que

não vai voltar para casa. O T comentou que ele iria voltar…”

Nota: estas notas foram feitas na casa Magone entre as 5:55h e as 9.00h

Na situação (1) vemos que a própria criança faz uma comparação entre as crianças de rua no filme o “última parada” e o trabalho que eu estou a fazer com elas. A própria criança disse que neste filme também há uma mulher que escreve sobre estas crianças. Aqui as crianças compararam-me com uma mulher deste filme que faz o mesmo trabalho do que eu, que significa um trabalho com crianças de rua, afirmado pelas

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próprias crianças. Portanto, encontramos aqui uma confirmação que elas se veêm como crianças de rua. Mas temos que lembrar que o conceito “criança de rua” é introduzido pelo filme e não por elas mesmas, que usam este conceito porque vem do filme e não da sua autoria. É possível que sem este filme não usariam este conceito para elas próprias. Na situação dois vemos uma confirmação que as crianças na casa Magone têm uma relação especial com a rua porque dizem que crescem nas ruas. Portanto, fazem uma separação das crianças que vivem numa situação familiar. Depois desta confirmação as outras crianças manifestaram directamente reacções que revelam o cruzamento entre os grupos e, ao mesmo tempo, a complexidade do conceito criança de rua. A primeira criança disse que não vai voltar para casa, mas já a segunda disse que iria voltar para casa. As duas crianças pertencem ao mesmo momento, ao mesmo grupo, mas é claro que não vai durar para sempre. Portanto, há diferentes grupos que se cruzam. Por um tempo estão juntos, como neste caso, e num outro dia pertencerão cada uma a algum outro grupo. Seria certo nomear todas elas da mesma maneira? E se uma decide voltar para casa, já não vai ser mais “criança de rua”? Mas a outra criança que não vai voltar para casa vai sempre ser “criança de rua"? Qual será o nome certo para estas crianças que confirmam que têm uma relação especial com a rua mas, ao mesmo tempo, não são da rua porque cada um tem uma família? Falando com Jantje que estava sentado nas escadas da casa Magone ele deu-me sua opinião sobre o que são crianças de rua.

Neste caso vemos uma confirmação da complexidade das crianças de rua. O Jantje primeiro perguntou-me se também há meninos de rua nos combatentes (a rua onde eu vivia). Por aqui podemos notar que ele se inclui no grupo das “crianças de rua”. Logo depois falou claramente que ele não é uma “criança de rua” porque tem mãe e pai, pelo que aqueles que não têm seriam, então crianças de rua. Ele ainda conclui a sua opinião fazendo a separação entre menino da rua e menino de casa, e ele se insere automaticamente no último grupo. Portanto, na opinião dele, ele não é uma criança de rua mas reparamos uma confusão na linguagem porque usou a palavra também. Esta

Notas de campo: 18-01-2011

“… Jantje foi sentar-se ao meu lado e disse-me: “ nos combatentes também há meninos da rua?” Eu disse-lhe que elas também estão a passear ai. Ele disse que sim, mas disse que eles não são meninos da rua, meninos da rua são aqueles que não tem pai nem mãe mais. “ Eu sou menino da casa”, disse ele…”

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criança tem razão com o seu statement onde afirma que as crianças de rua só são aqueles que não tem pais e estas crianças simplesmente não existem, pois podem ser falecidos ou abandonados mas têm pais. Este é um dado que sempre pode ser usado para se defenderem quando são chamadas de “criança de rua”.

O último caso que quero tratar é um caso onde uma criança que chama as outras de “meninos da rua”, mas desta vez não para chamá-los, mas para definir que o conceito “criança de rua” implica uma certa complexidade de vida, uma vida difícil que, neste caso, também tem influências no seu comportamento.

Notas de campo: 28-12-2010

“…De repente apareceu um grande grupo de crianças no pátio. Elas pegaram o Traves no pulso. Uma outra criança tinha na mão uma máquina de barbear. O Traves está a chorar. P.A estava a defender o Traves. “Dá de volta!”. Muitas crianças interferiram na discussão. Daan veio ter comigo e disse: “ Estes miúdos da rua é complicado!” Eu perguntei-lhe: “como assim?” Ele respondeu-me: “ essa aqui da Magone. “Eu perguntei-lhe porque eles não devolveram a máquina, ele disse-me que não sabia…”

Nota: Estas notas foram feitas na casa Magone entre as 6:00h e as 9:00h.

Vimos aqui uma situação em que algumas crianças da casa Magone pegaram o aparelho de barbear do Traves. A criança está a chorar e os outros correm com o barbeador no pátio. Uma criança que também fez parte da casa Magone comentou a situação que os miúdos da rua são complicados. Portanto, refere-se com a sua opinião ao comportamento que as crianças têm neste momento. Isto leva-nos a entender que as próprias crianças acham o conceito “crianças de rua” ligado a um comportamento complicado, ou seja, crianças que fazem confusão.

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