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Queria iniciar este capítulo com uma expressão de Pinto que refere que:

“…as crianças têm algum grau de consciência dos seus sentimentos, ideias, desejos e expectativas, que são capazes de expressá-los e que efectivamente os expressam, desde que haja quem os queria escutar e ter em conta.” (Pinto, 1997, p. 65)

Através desta constatação podemos assumir que as crianças possuem todas as capacidades para produzir expressões culturais, mas o problema é a valorização pelos adultos, pois aquelas querem ser ouvidas e tratadas de maneira séria. Podemos dizer que o próprio mundo dos adultos impõe a elas próprias a necessidade de levar em conta de forma séria as suas expressões. Na Convenção dos Direitos das Crianças podemos ler o seguinte:

Artigo 13

“A criança tem direito à liberdade de expressão. Este direito compreende a liberdade de procurar, receber e expandir informações e ideias de toda a espécie, sem considerações de fronteiras, sob forma oral, escrita, impressa ou artística ou por qualquer outro meio à escolha da criança.” (UNICEF, 1989)

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Podemos constatar que as crianças não possuem apenas capacidades para expressar-se mas, além disso, têm o direito, criado através do mundo adulto, para se expressarem da forma como quiserem. Isto são dois pontos fundamentais nesta investigação, a partir dos quais quero aprofundar o que implicam as expressões culturais e como eles se manifestam, quais são os consequências e como as crianças desenvolvem essas expressões.

Raramente encontramos uma definição sobre o conceito “expressões culturais”, mas podemos defini-lo através das próprias palavras. De facto, as expressões são todas as maneiras com que os actores, neste estudo, as crianças “de rua”, expressam os seus sentimentos, opiniões e experiências. Mas também podem ser actividades que adquirem importância na sociedade em que vivem, mesmo que não signifiquem transmitir um sentimento, opinião ou experiência.As formas através das quais as crianças expressam certos aspectos relacionados com a sua vivência e mundividência são de índole cultural porque as próprias crianças estão inseridas numa certa cultura e as suas expressões são automaticamente criadas no contexto de uma determinada cultura.

Como já referi, as expressões culturais das crianças fazem parte das suas culturas infantis porque são criadas dentro da sua própria cultura da infância. Queria separar duas formas de expressões culturais que estão designadas na Figura 4. Vimos a separação entre produção simbólica, que se pode expressar nas roupas, nomes (identidade), língua e símbolos, e a produção criativa em que são inseridos jogos, danças, canções, música, brincadeiras etc. A diferença está no facto de que, na produção simbólica, as expressões se manifestam num período longo sem paragem e na produção criativa as expressões podem ser abordadas como actividades: são feitas num certo momento e acabam depois de um certo tempo de ser praticada, podendo, num momento seguinte serem repetidas. Afinal, podemos ver que a produção criativa também é uma forma que lazer. Refiro o lazer porque a produção criativa é uma acção desenvolvida durante a realização das actividades obrigatórias, e possui características que também são encontradas no lazer: o descanso, o divertimento e o desenvolvimento (Hardt & Hardt, 2006)

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Figura 4: Esquema das expressões culturais

Quando as crianças cantam uma canção com um texto próprio, elas fazem isto num tempo livre e não estão obrigadas a criar um texto; este facto é importante porque esta liberdade é fundamental para esta actividade no seu tempo livre o que quer dizer que a prática desta canção é uma forma de descansar, mas ao mesmo tempo também é uma actividade de divertimento da qual elas retiram e, afinal, a criação dos novos textos leva as crianças ao desenvolvimento das suas próprias capacidades linguísticas, criativas e musicais.

Queria tecer uma breve consideração sobre a produção criativa que faz parte das expressões culturais. Como já foi investigado por Santana (2007), as expressões culturais são muito importantes na vida das crianças em situação de rua. Santana (2007) fez uma pesquisa em que são abordadas as expressões culturais das crianças (que tiveram uma vida nas ruas) em centros de acolhimento no Brasil. Ela disse que, a partir da música e da dança, foi possível aceder às vozes e às representações dessas crianças. Há diferentes músicas e danças que permitem demonstrar as vozes das crianças. Um exemplo disso é o funk e o rap. “Eles ocupam um espaço destinado a explicar e/ou expressar sentimentos e opinião das crianças acerca de temáticas mais violentas do quotidiano das suas vidas. Isso não poderia ser diferente, na medida em que esses géneros musicais são, em sua essência, uma forma de protesto e denúncia de situações de injustiças e desigualdades sociais.” (Santana, 2007, p. 143)

Culturas infantis Expressões culturais Produção simbólica Produção criativa Lazer

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Os filmes e as fotografias realizadas pelas crianças serão analisadas enquanto forma de expressão e/ou linguagem. “Tais filmes e fotografias são, neste sentido, representações das vivências quotidianas, dos sentimentos e pensamentos das crianças.” (Santana, 2007, p. 141). Podemos concluir que as produções criadas são, em primeira instância, simbólicas, as crianças expressam-se desta forma para criar um tipo de statement do seu próprio universo (Webb, Schirato & Danaher, 2002).

Para estas crianças é muito importante expressar os pensamentos e sentimentos porque a sua vida é muito pobre e miserável, elas têm sentimentos muito fortes que precisam de ser descarregados. A importância e ocupação com a expressão cultural podem ser constatadas nesta frase de Santana: “A influência da música e/ou dança é tão grande que não houve um único diário de campo em que não houvesse registos de algum comportamento das crianças relacionado à musica e/ou dança. (Santana, 2007, p. 142) Ainda mais interessante para mim é que, para muitas crianças, não é só importante para se expressarem, como também elas conseguem expressar-se muito bem nessa forma de expressão. Por exemplo, em relação à dança:

“… se divertem com o prazer de exibir, ao longo da dança, movimentos corporais que não fazem parte da dança, mas que demonstram uma grande habilidade e domínio dos movimentos. Referimo-nos ao movimento ondulatório que André e João, assim como outras crianças fazem com o abdómen e que é sempre motivo de muita inveja e admiração por aqueles que não conseguem fazer, inclusive de alguns educadores que em outra situação tentaram copiar os movimentos dos meninos não sendo de forma alguma bem sucedidos …” (Santana, 2007, p. 147)

Neste contexto, as expressões culturais como a dança ajudam a ter experiências de sucesso, que é muito importante para as crianças que na vida quase não têm acesso às experiências com sucesso. Este sentimento, que corresponde a ser competente através da dança, garante que elas ganhem mais confiança em si mesmas, o que é muito importante para a sua participação na sociedade.

Quando as crianças expressam as suas expressões culturais também há um cruzamento com a sua imaginação; o mundo criativo em que são produzidas as expressões culturais, é um mundo separado do mundo diário (Webb, Schirato & Danaher, 2002) e o mundo da imaginação é, por seu lado, também um mundo diferente daquele que rodeia as crianças. Encontramos, então, uma ligação com as culturas infantis. Isto só pode fornecer e melhorar as produções criativas que elas produzem e confirma que têm que se sentir confortáveis neste mundo separado do mundo diário, porque neste mundo podem criar as condições como desejam. Vimos isto nas danças de kuduro, em que elas

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transformem situações penosas e constrangedoras em situações irónicas e engraçadas. Com a função simbólica que as produções criativas possuem, também podemos indicar como as crianças “de rua” se vêem a si próprias e as suas normas e valores (Webb, Schrirato & Danaher, 2002). Podemos, então, conhecer as crianças através das suas expressões. Em resumo, podemos dizer que as expressões culturais tornam visível o invisível, não possuindo apenas uma função pessoal para as crianças mas também uma função social.

Da mesma maneira, queria fazer uma breve consideração sobre a produção simbólica que também faz parte das expressões culturais. Tudo o que é uma expressão cultural não pode ser reconhecido como uma actividade de curta duração podendo ser considerada como produção simbólica. Quero referir-me ao uso de linguagem, aos símbolos que os actores usam diariamente (cumprimentar, despedir, sentimentos como alegria/tristeza) e à identidade (nomes, roupas). Isto são apenas exemplos da produção simbólica. Muitas vezes, a produção simbólica completa a produção criativa. Assim, podemos ver em Angola que a linguagem (calão) nas canções de Kuduro tem um papel fundamental pois, no kuduro, os cantores descrevem com alguma ironia as situações diárias, sobretudo, nos musseques de Luanda. Através deste estilo de música provocam a sociedade. Por natureza, o calão possui certas características para transmitir sentimentos de rebeldia, insatisfação, agressividade, não raro por meio da ironia e do humor (Petri, 1992, p. 215,

apud Ribeiro, 2008). Apesar disto, a linguagem não possui apenas uma função

descritiva, sendo também sua função provocar a acção/reacção (Ribeiro, 2008). Com estes características o kuduro não consegue viver sem calão.

Um outro exemplo em que a produção simbólica completa a produção criativa é nos jogos. Quando as crianças realizam um jogo de futebol, as roupas desempenham um papel importante, as crianças mudam de roupa para serem capazes de jogar bem. Com a T-shirt do Barcelona, eles sentem-se mais valiosas e acham que vão jogar melhor do que com outras roupas. Aqui podemos verificar que a imaginação infantil, o jogo simbólico, está bem visível, pois a criança transforma-se num jogador sem perder a sua própria identidade.

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