As possíveis limitações previstas no início da pesquisa, como: baixa adesão à pesquisa e a influência da pesquisadora com o objeto de estudo, não ocorreram. Foram tomadas precauções, como: evitar questões tendenciosas, evitar questões mal posicionadas em sua sequência; cuidado com a má escolha dos entrevistados; e fazer perguntas de forma clara e objetiva, de maneira que fosse entendível ao respondente e não apenas à pesquisadora (GIL, 2010).
Apesar de o questionário não ter sido respondido pela totalidade dos alunos da Instituição, o retorno foi satisfatório, uma vez que, a amostra sendo pequena ou grande, seu objetivo foi analisar e discutir os resultados investigados, procurando compreendê-lo e não mensurá-lo.
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Aqui, estão apresentados os resultados da pesquisa. Após a transcrição das respostas do questionário e entrevistas, foi feita uma leitura exaustiva das mesmas, sendo escolhidas as unidades de significação8. Estas, por sua vez, geraram os grupos de categorias e subcategorias temáticas baseadas nos objetivos da pesquisa, organizadas pela frequência em que surgiram (BARDIN, 2011; FRANCO, 2012).
A análise das respostas do questionário gerou 03 categorias. As respostas com unidades de significação positivas geraram a categoria Domina o assunto e adota prática pedagógica, e as respostas com unidades de significação negativas geraram duas categorias: Domina o assunto, mas não adota prática pedagógica e Não domina o assunto e não adota prática pedagógica, descritas no quadro 11, a seguir:
Quadro 11 - Categorias
CATEGORIAS Caracterísitcas
Domina o assunto e adota prática pedagógica
Passa segurança ao expor o assunto e ministra aulas dinâmicas adotando a prática pedagógica: aprendizagem ativa, expectativa e interação. A relação entre professor e aluno é marcada pela afetividade. O docente demonstra prazer em exercer sua atividade.
Domina o assunto, mas não adota prática pedagógica
São conhecidos pelos alunos como aqueles que são muito inteligentes, mas “não sabem passar” o conteúdo. A relação entre professor e aluno é marcada pela agressividade. Não gosta de interagir com os alunos.
Não domina o assunto e não adota prática pedagógica
São definidos pelos alunos como aqueles cujas aulas são monótonas, passam insegurança ao expor os assuntos e não planejam suas aulas. A relação entre professor e aluno também é marcada pela agressividade. Não gosta de interagir com os alunos. Fonte: elaboração própria, com base nos dados da pesquisa
Com base no referencial teórico, a primeira e a segunda categorias geraram um conjunto de subcategorias relacionadas a aprendizagem ativa, a expectativa e a interação, com suas
8 Encontram-se em anexo no Apêndice D
respectivas unidades de significação. A terceira categoria não apresentou subcategorias relacionadas à expectativa e à interação.
As unidades de significação foram ordenadas pela frequência em que surgiram, sendo adotado o critério de utilizar as unidades com frequência igual ou maior que cinco. Serão apresentadas a seguir.
Primeira categoria: Domina o assunto e adota prática pedagógica
Esta categoria apresenta as unidades de significação referentes ao comportamento e aos aspectos positivos do professor em sala de aula, na visão dos alunos. Foi a categoria que mais recebeu unidades, possivelmente, pela maior quantidade de perguntas relacionadas às boas práticas propostas no inventário de Chickering e Gamson (1999).
Os professores, nesta categoria, além de dominarem o assunto que ministram, introduzem em suas atividades acadêmicas competências que contribuem para facilitar o processo de ensino- aprendizagem.
Adepto do paradigma inovador, para este professor, o aluno é o centro do processo. Concordando com Behrens (2005), ele busca a produção do conhecimento ao invés da reprodução do conhecimento, valorizando a reflexão, a curiosidade, a crítica, o questionamento e a ação, por parte do aluno, através de uma prática pedagógica mais incentivadora.
A cultura da sala de aula é desenvolvida pelo docente, que é o líder, conseguindo firmar suas crenças, valores e suposições. Consegue perceber as limitações e as percepções de mundo de cada aluno, conseguindo interagir com eles, ao mesmo tempo em que consegue bons resultados incentivando a interação aluno-aluno.
Concorda com Pestalozzi, procurando ser ético, humano e sensível, mas que também sabe impor limites (SOËTARD, 2010). Para os alunos, é um modelo a ser seguido.
Esta categoria será ilustrada, a seguir, através de alguns depoimentos de alunos que estarão identificados por números, no final de cada um deles. Por exemplo: A32 será o depoimento do trigésimo segundo aluno:
[...] aquele profissional que possui uma ótima didática, que procura não somente falar e falar, mas, sim, recorrer a diferentes maneiras, dinâmicas e atrativas de transmitir o conteúdo. O professor pode recorrer à maneira formal, tradicional para ensinar, mas também é necessário que ele saiba ser flexível, procurar dar aula com vídeos também [...] estar disposto para esclarecer toda e qualquer dúvida; deve interagir amigavelmente com a
classe; exigir respeito e disciplina; estar disponível sempre que possível para qualquer questionamento [...] (sic.) (A5)
[...] é dominar bem os assunto e não ter dificuldade de passar para os alunos. É saber tirar dúvidas dos alunos sem recrimina-los ou envergonhá-los. É saber que prova não é a única forma de avaliar um bom estudante. E acima de qualquer coisa saber que não sabe mais do que ninguém e todos estão na sala para construir um conhecimento juntos. (sic.) (A99)
[...] o professor que, em suas aulas, passa confiança para o aluno de que domina o assunto ministrado. Não ler uma bateria de slides porque desta maneira não nos acrescenta em nada, afinal de contas a maioria dos alunos sabem ler. Ter empatia. Conduzir a aula de forma dinâmica estimulando a participação de todos, de modo que a aula não fique tediosa, afinal de contas estamos tratando de uma geração Y a qual gosta de tudo muito rápido, então estimular o raciocínio do aluno fazendo com que ele participe dos assuntos discutidos faz com que a aula seja interessante. O aluno gosta de se sentir visto [...] (sic.) (A209)
[...] aquele que domina muito bem o assunto sobre o qual ensina. Sabe e consegue se fazer entender, é compreensivo sem perder a autoridade. Tenta mais de uma forma de passar seu conhecimento. Compartilha experiências e aconselha. Se preocupa com o desempenho do seu aluno e em que tipo de profissional ele está ajudando a formar! (sic.) (A276)
[...] aqueles que, não adota ao rótulo de PROFESSOR, mas sim de facilitador em sala de aula, ou seja, um que domine sua disciplina e saiba prender a atenção dos alunos com aulas dinâmicas (sic.) (A338)
Os depoimentos acima, revelam que os alunos entendem a atividade de docência como um conjunto de ações inter-relacionadas, como teoria e prática, ensino e aprendizagem, conteúdo e forma, professor e aluno (VEIGA, 1993), associadas ao domínio do conteúdo e à liderança do professor.
Segunda categoria: Domina o assunto, mas não adota prática pedagógica
Esta categoria apresenta as unidades de significação referentes ao comportamento e aos aspectos negativos do professor em sala de aula, na visão dos alunos.
Foi gerada a partir dos depoimentos que continham, na mesma fala, as unidades de significação “sabe muito”, ou “é muito inteligente”, acompanhadas de “mas não sabe transmitir”, ou “não adota práticas pedagógicas”.
Para ilustrá-la, seguem alguns depoimentos dos respondentes:
[...] um mestre em física, ele sabia muuuuito, entendia muito mas sua didática era péssima, ou seja ele sabia apenas pra si próprio (sic.). (A30)
[..] ele tem bons recursos adquiridos ao longo da vida como professor para resolução de problemas da sua matéria, porém não entende que nem todos têm a mesma base, o mesmo nível de conhecimento. Com isso, ele não ensina coisas básicas mas de muita importância que nem todos sabem, assim todos têm dificuldade para aprender o que ele exige. Ele não tira nenhuma dúvida se for conhecimento considerado por ele básico (sic.). (A105)
Um professor muito inteligente, não podemos negar, porém o mesmo tem um método muito arcaico, acho valido a faculdade renovar, ou ele renovar seu método de ensino, para facilitar o aprendizado do aluno! (sic.). (A128) [...] profissionais que não se preocupam como os alunos estão assimilando o conteúdo. E quando buscamos tirar duvidas em sala, nos respondem para pesquisar e exercitar em casa, ou reler o assunto abordado. Apenas retratam na aula, e enchem de exercício e trabalhos, se mostram durões e se acham excelentes professores. Alguns até se envaidecem quando são reconhecidos no curso pela fama de que poucos passam em sua disciplina. Exigir é importante SIM! Mas antes, é mais importante SABER ensinar. (sic.). (A149)
[...] um professor que possuía um enorme conhecimento acadêmico mas que não sabia transmitir aos alunos, como também a participação dele na resolução dos exercícios era de forma superficial. (sic.) (A239)
[...] pior é quando ele está em sala com intenção de prejudicar e não de ensinar, a tendência de ocultar o conteúdo de forma maliciosa, e fazer da avaliação um monstro, quando era pra ser uma simples análise de apreensão de conhecimento, é ele ficar feliz por boa parte da sala ter tirado nota baixa, acreditando ele que é o melhor professor por que quase ninguém consegue passar nele [...] (sic.) (A240)
[...] Inteligente, mas não se interessava o suficiente em lhe passar um bom conteúdo, não tinham paciência para tirar as dúvidas [inclusive quando era necessário explicar mais de uma vez], não mostravam a paixão por ensinar e formar boas pessoas e profissionais.. Era como se a arte de ensinar fosse apenas mais um trabalho que você faz com esforço para receber o sustento do mês. (sic.) (A329)
Nos depoimentos acima, percebe-se a visão do aluno que não se sente integrante do processo de ensino-aprendizagem, muito pelo contrário, há um distanciamento entre docente e discente, sendo o professor o centro do saber.
Terceira categoria: Não domina o assunto e não adota prática pedagógica Esta categoria recebeu a menor quantidade de unidades de significação.
Nela, também foram selecionadas as unidades referentes ao comportamento e aos aspectos negativos do professor em sala de aula, na visão dos alunos. Porém, foi gerada a partir dos depoimentos que continham na mesma fala as unidades de significação o “não domínio do
assunto” e a “não preocupação em adotar práticas pedagógicas”. Para ilustrá-la, seguem alguns depoimentos dos respondentes:
[...] não ensinava NADA. Para se ter uma ideia, nenhum aluno foi reprovado, todos foram aprovados, inclusive aqueles que faltavam, e não tinha conteúdo nenhum, isso é um dos motivos, eu acho, que faz com que o estudante desista de estudar na IES que um docente desses ensina sem qualidade (sic.) (A91)
[...] péssimo professor, com pouquíssimo domínio do conteúdo que ele leciona; dá aulas superficiais e na avaliação, aprofunda coisas que ele não passou nem perto de falar. É infantil, faz piadas sem graça e opressoras, soube diminuir os alunos nos chamando de incompetentes porque reclamamos que ele não estava dando o assunto direito e fez uma prova desonesta em relação ao que ele cobrou e ao que deu em sala de aula. Não sabe ouvir a opinião do aluno, começa a aula tarde e termina a aula cedo. Enfim, péssimo professor em vários aspectos, completamente despreparado (sic.) (A146)
[...] professor hostil. Quando perguntamos alguma coisa, é grosso, pedante. O assunto por ele ministrado é facilmente possível perceber que ele não domina o assunto. Só ler slide, isso é péssimo, a sala toda dispersa (sic.). (A209)
[...] o professor simplesmente tinha dificuldade com o assunto, procurávamos a coordenação, e nada de tomarem providência [...] o professor quase agrediu uma aluna, só não o fez porque contivemos a situação, ainda assim houve xingamentos e agressões verbais. Isso pra mim marcou de forma muito negativa, visto que em momento algum o professor deveria tomar essa atitude em se tratando de um facilitador de aprendizagem e pessoa essencial na construção moral e pedagógica de nós alunos (sic.) (A296)
[...] além do professor não passar bem o assunto com tanta firmeza, ele era extremamente arrogante e grosso, ele não passava muita credibilidade no que passava, e acho que possivelmente ele trazia problemas pessoais para ambiente profissional, isso atrapalha muito o andamento (sic.) (A349) Aqui também se percebe o distanciamento entre professor e aluno, porém, com o agravamento da falta de domínio do conteúdo ministrado.
A seguir serão discutidos e apresentados os dados, agrupados em categorias e subcategorias. Os mesmos foram analisados seguindo a sequência das questões norteadoras, e traçando-se um paralelo com a fundamentação teórica.