6. Discussions
6.3 Petroleum potential, richness and kerogen type
A preocupação com a construção de uma ideia de sujeito parte da compreensão que, originalmente, a partir de Aristóteles, vem da religião, buscando na alma o significado da subjetividade, em relação direta com a divindade, tida como
absoluta subjetividade. Com a evolução do pensamento científico, com os estudos nas áreas da sociologia, da biologia, da física e da cultura, essa ideia foi se diluindo até mesmo em áreas que, por sua característica, tem como seu objeto de estudo, especificamente, o ser humano, como a história, a antropologia e a psicologia.
Por muito tempo, segundo González Rey (2005), o que se pensava acerca do sujeito era ligado a uma noção de inteligibilidade, de ordem e de consciência, atributos de um sujeito racional definido dentro de preceitos da modernidade, influenciada pelo racionalismo cartesiano. Era a ideia de um sujeito conquistador de si mesmo e do mundo, produtor de verdades inquestionáveis. Havia uma visão dicotomizada entre o ser humano bom e o ser humano mau, trazendo em voga a difusão da crença de um sujeito ideal.
O marxismo postula a ideia de um sujeito concreto, situado na história social que expressa sua condição. A psicologia soviética, então, assimilou o marxismo e apresentou a construção do pensamento psicológico e a formação da psique a partir do espaço histórico-cultural no qual o sujeito estiver inserido.
Muitas vezes, a ideia de sujeito foi relacionada a um determinante instrumental ou a um quesito de troca, como na antropologia e na história. Na psicologia, a ideia de sujeito esteve, sob o ponto de vista da Psicologia Behaviorista, relacionada a termos como estímulo e resposta, passíveis de comportamentos que poderiam ser programados, determinados e compreensíveis.
Foi a partir do último terço do século passado que ocorreu uma transformação nessas concepções de sujeito (APPEL-SILVA & BIEHL, 2006), com abertura para uma gama complexa de possibilidades de relações teóricas, postulações científicas das várias áreas do conhecimento com tolerância teórica e uma complexa rede de relações e significados, acordados. Nesse novo cenário, as contradições podem coexistir com o que é dito, e em um pensamento em que as ambivalências fazem parte de todo ser.
Com o advento da internet e a possibilidade de interação do indivíduo com outros, os quais nunca haviam se encontrado e que, possivelmente, nunca se
encontrarão, possibilita a criativa construção de uma identidade dentro da possibilidade de realização do desejo daquilo que gostaria de ser, sejam características de personalidade e/ou de gênero, que podem ou não se espelhar na sua realidade. Pode não ser uma realidade concreta, mas não deixa de ser uma realidade que foi sonhada e virtualizada, se enquadrando no sentido do que é verdade e realidade para cada sujeito.
Nessa perspectiva, de acordo com Bauman (2001), um dos grandes temores da sociedade e da ciência, que é a não possibilidade de controle do sujeito, acontece, fazendo com que o sujeito possa ser o outro desejado, não mais formado por um corpo biológico e distante de determinismos culturais, mas no seu pensamento e na sua ação, virtualizada ou não. É o sujeito efêmero, mutante, com possibilidade de existência ou não existência, de acordo com o seu momento ou do outro com quem interage, e isso sem dor ou luto. É um sujeito que pode estabelecer relações com o global e com o uno, com uma ontologia que o define no indefinido, além de o ser no contexto da interação e da linguagem, fruto de uma criatividade desenvolvida no sentido de atender às demandas pessoais, impossíveis de realização em determinados espaços e passíveis de realização em outros.
Ora, o que tem a ver subjetividade e criatividade? Para Mitjáns Martinez (2006b; 2008a), criatividade é um processo complexo da subjetividade humana que se expressa na produção de ‘algo’ que é considerado ao mesmo tempo ‘novo’ e ‘valioso’ em um determinado campo de ação humana. Ao definir a criatividade como produto da subjetividade humana, a autora, segundo Amaral (2011), se distancia das concepções contemporâneas, reforçando a ideia de que a criatividade, como processo subjetivo complexo constituído a partir da ação dos sujeitos em seus contextos culturais e históricos.
Assim, retomando a perspectiva teórica de González Rey – a partir de seu enfoque histórico-cultural, este define a subjetividade como
a organização dos processos de sentido e significações que aparece e se organiza de diferentes formas e em diferentes níveis no sujeito e na personalidade, assim como nos diferentes espaços sociais em que o sujeito atrai. (GONZÁLEZ REY, 1999, p. 108).
De acordo com Amaral (2011), Gonzalez Rey – em sua Teoria da Subjetividade – trabalha a partir de um conjunto de conceitos, entre eles a) sujeito, b) personalidade, c) configuração subjetiva, d) sentido subjetivo, e) subjetividade individual e f) subjetividade social.
Para esse autor, o conjunto de conceitos expostos são assim entendidos: a) O sujeito “constitui o momento vivo da organização histórica da subjetividade e está implicado de forma constante nos diversos espaços sociais, dentro dos quais organiza suas diferentes práticas” (GONZÁLEZ REY, 2003, p. 241), implicando em um posicionamento ativo, crítico e singular que possibilita ao indivíduo perceber-se a assumir o seu lugar no decurso de uma atividade qualquer .
Dessa maneira, nega as concepções de personalidade que não levam em consideração as trajetórias diferentes e individuais de cada sujeito e entende que a personalidade possui um dinamismo que propicia movimento constante e uma capacidade geradora de sentidos subjetivos, revelando sua mais marcante característica: sua natureza processual permanente. Para González Rey (2003), personalidade pode ser definida como um sistema de configurações subjetivas que geram o sentido subjetivo nas mais variadas atividades do sujeito.
As configurações subjetivas, segundo o autor, possibilitam com que unidades de natureza personológica do sujeito sejam construídas sem cair na concepção fragmentada de traços universais. Essas configurações expressam “a constituição subjetiva dos distintos tipos de relações e atividades que caracterizam a vida social da pessoa [...] e definem os diferentes sentidos subjetivos dos eventos vividos” (GONZALEZ REY, 2003, p.118).
Os diferentes sentidos subjetivos (eixo central da Teoria da Subjetividade postulada por Gonzalez Rey) a que o autor se refere representam o motor propulsor da subjetividade e tem uma dimensão social (AMARAL, 2011). A definição de sentido subjetivo, para Gonzalez Rey (2006), é entendida como “expressões de uma teia simbólico-emocional na qual as emoções, sentidos e processos simbólicos de procedência muito diferentes integram-se na definição das diversas configurações subjetivas” (p. 35).
Para Amaral (2011, p. 72), Gonzalez Rey “enfatiza que o sentido subjetivo representa a integração de processos simbólicos e emocionais que legitimam o que o sujeito experimenta psicologicamente em cada nova situação vivenciada”. Dessa forma, as configurações subjetivas (natureza personológica) e o sentido subjetivo (expressão simbólico-emocional) conferem à personalidade traços inteiramente únicos (individuais), inéditos (personificantes) e complexos (resultados em construção constante da relação do indivíduo – parte – com o meio que o cerca – todo.
Sujeito e personalidade, até agora apresentados, integram-se na constituição do que Gonzalez Rey (2003) chama de subjetividade individual. A relação parte e todo (indivíduo e meio, respectivamente) conferem à subjetividade individual uma dimensão que extrapola o intrapsíquico, pois na processualidade dos sistemas sociais se encontra o sujeito vivente, inseparável de sua condição social.
O autor entende que a subjetividade individual somente pode ser definida a partir do tecido social onde o indivíduo está inserido, no qual é agente ativo, imiscuindo-se, mas não despersonificando-se. Aponta ainda que o ser humano não é determinado pela relação que estabelece com o meio externo no qual se insere e convive e define subjetividade individual como “os processos e formas de organização subjetiva dos indivíduos concretos onde aparece constituída a história única de cada um dos indivíduos” (GONZALEZ REY, 2003, p. 241). Em obra anterior, do mesmo ano, esse autor salienta que “os objetivos, fenômenos e acontecimentos da realidade social não afetam o desenvolvimento subjetivo desde sua condição externa, senão por sua expressão em termos subjetivos” (idem, 2003, p. 109).
A realidade social, nesse caso, é humanizada em seus fenômenos e reflete a articulação dos processos sociais e individuais na construção do conceito de subjetividade social, que é definida pelo autor (ibidem, 2002), como um
sistema integral de configurações subjetivas [...] que se articulam nos distintos níveis da vida social, implicando-se de forma diferenciada nas distintas instituições, grupos e formações de uma sociedade concreta (p. 30).
Nessa conceituação, a relação indivíduo e meio social é redimensionada, constituindo-se reciprocamente, e não dicotomicamente, constatando que a subjetividade humana é inseparável da condição social do ser humano e não fica restrita a uma dimensão intrapsíquica.
Por isso, clamamos por um olhar transdisciplinar e uma ecologia dos saberes naqueles em que os valores humanos de liberdade, solidariedade, convivência, harmonia e equilíbrio com a natureza sejam eixos na formação do cidadão planetário.
Quando usamos o termo ecologia dos saberes nesta tese, nos referimos a Santos (1987), quando profere um discurso na abertura solene de aulas na Universidade de Coimbra, no ano letivo de 1985/86, e salienta que este termo:
refere-se à existência de conhecimentos plurais, à importância do diálogo entre saber científico e humanístico, entre o saber acadêmico e o saber popular proveniente de outras culturas e a necessidade de se confrontar o conhecimento científico com outros tipos de conhecimentos da humanidade (p. 19).
A ordem, nesse discurso, partindo da desordem preconizada por Prigogine, anuncia que a teoria das estruturas dissipativas e o princípio da ordem através das flutuações estabelecem que os meios abertos funcionam na margem da estabilidade e que a evolução explica-se por flutuações de energia que, em determinados momentos, nunca inteiramente previsíveis, desencadeiam espontaneamente reações que, por via de mecanismos não lineares, pressionam o sistema para além de um limite máximo de instabilidade e o conduzem a um novo estado macroscópico. Santos (1987) cita ainda que esta transformação irreversível e termodinâmica é o resultado da interação de processos microscópicos segundo uma lógica de autoorganização numa situação de não equilíbrio.
Como consequências da teoria de Prigogine, Santos (1987, p. 10) escreve que “a importância dessa teoria está na nova concepção do entendimento de matéria e de natureza”, contrastando com o da física clássica. Uma tendência em entender a história, ao invés da eternidade; a imprevisibilidade, ao invés do determinismo; a interpenetração, a autoorganização e a espontaneidade, ao invés do mecanicismo; a evolução e a irreversibilidade, ao invés da reversibilidade; a
desordem, ao invés da ordem e o acidente e a criatividade, ao invés da necessidade.