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PESTEL-analyse

8.2 A NDRE ANALYSER (PESTEL, VRIO, P ORTER ’ S FEM KREFTER OG SWOT)

8.2.1 PESTEL-analyse

Após três elepês lançados pela gravadora Continental o cantor Ney Matogrosso, realiza sua primeira troca de gravadora, passando da Continental discos S/A para a multinacional WEA, dando assim continuidade ao seu processo de autonomia artística frente a esse mercado fonográfico. O jornalista Marco Antônio de Lacerda faz uma breve menção à transição das gravadoras no caderno de cultura do Jornal da Tarde: Um cantor que trocou os “maus tratos” da Continental, sua primeira gravadora, pelo conforto de uma multinacional. Ney diz: “adoro ser bem tratado.” (LACERDA, 1978)

No final dos anos setenta no Brasil são estabelecidas várias multinacionais

no setor fonográfico, advindas da expansão do mercado internacional em função da chamada “onda” das discotecas. Isso refletiu diretamente em nosso mercado, decorrente do projeto de expansão da música norte-americana em busca da fatia do mercado de outros países. O resultado dessa penetração no mercado nacional deu-se com o aumento exorbitante das vendas do produto musical americano, a inauguração de uma discoteca carioca no bairro da Gávea e o lançamento de uma novela acerca da temática no horário

nobre da Rede Globo de Televisão. Todas essas execuções foram para atender a demanda desse movimento musical que se estabeleceu no mercado nacional, tendo como público alvo a juventude. O produtor musical Marco Mazzola, comenta esse evento em seu livro autobiográfico Ouvindo Estrelas:

Nelsinho montou a discoteca Dancin´Days, num shopping da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro. Algum tempo mais tarde, e muito no embalo dos inúmeros sucessos de As Frenéticas, Nelsinho resolveu reabrir a casa no alto do morro da Urca, que veio a ser batizada de frenetic Dancin´Days Discothèque. O sucesso foi tremendo. A direção da Central de Novelas da Rede Globo, vendo o que estava acontecendo, convidou as Frenéticas para fazer a abertura que receberia o nome de Dancin´Days (MAZZOLA, 2007, p. 97).

Esse período ficou denominado pela grande mídia como a “febre das

discotecas”, vinda dos Estados Unidos e que assolou todo o Brasil de forma bastante contundente. Esse período representou um momento de dificuldade para o mercado fonográfico nacional, pois a música internacional predominou em nosso mercado, ofuscando dessa maneira a vendagem de long-plays de artistas da MPB. No entanto, o mercado nacional reage adaptando-se a essa penetração da música americana e cria a partir de então uma “versão” nacional para a chamada “febre” das discotecas (MAZZOLA, 2207).

É dentro desse contexto que o artista Ney Matogrosso dá início ao seu processo de auto-empresariado, concomitantemente com a ascensão de sua popularização e autonomia frente à indústria fonográfica e público. A partir de então, o cantor passou a penetrar maciçamente numa fatia de público vindo das camadas menos favorecidas, pois os setores da classe média, sobretudo da juventude, estavam mais voltados naquele momento para o fenômeno das discotecas.

A jornalista Ana Maria Bahiana, tenta compreender esse momento de transição da carreira do cantor analisando a nova formação de platéia que se dá a partir de então em torno do artista em matéria publicada no Jornal O Globo:

Ana Maria Bahiana: Suas platéias são cada vez mais populares, as filas de trabalhadores e domésticas para obterem um autógrafo seu no lançamento do disco (na mesma loja de departamentos que exibiu a controvertida capa). Logo você que no início de sua carreira , durante o início de sua carreira solo, parecia se inclinar tanto para o lado das elites, da sofisticação? Logo você, o homem do nu, do corpo exposto, da dubiedade, da sensualidade.

Ney Matogrosso: Olha, eu não tenho assim dados para teorizar em cima disso, pra explicar. Mas acho que quem tem problemas com o corpo, sexo, moral, essas coisas, é a classe média. O povo não. O povo sempre me tratou

com muito carinho, sem grilos. O povo está muito preocupado com coisas mais sérias (BAHIANA, 1978 b).

Essa ascensão da popularização na trajetória do cantor refletiu diretamente no tipo de matéria veiculado pela mídia. As relações sociais dentro do cotidiano do artista, passaram a serem exploradas pela mídia, devido à nova formação de platéia oriunda de camadas sociais menos favorecidas. O jornalista Marco Antônio de Lacerda atesta esse episódio, quando realizou matéria acerca da privacidade do cantor mostrando sua intimidade, sua forma de lidar com o cotidiano em seu apartamento no Leblon.

Ao meio dia muito antes de Ney Matogrosso acordar, o telefone já tocou incontáveis vezes em seu apartamento. O último a chamar foi Márcio Braga, presidente do Flamengo, convidando Ney para assistir Botafogo e Flamengo, no Maracanã. Pouco antes tinha sido Kiki Karavaglia, confirmando sua festa de aniversário para aquela noite e insistindo para que Ney não deixasse de comparecer. Agora é a vez de uma moça, que prefere não revelar o nome, e que diz estar esperando o cantor, “sem falta”, para tomar licor de morango em sua casa. Até às 3 da tarde, o telefone toca pelo menos mais uma centena de vezes, uma legião de pessoas que se anunciam invariavelmente como “amigos íntimos” de Ney. Todos os chamados são pacientemente atendidos por Luizinho, secretário do cantor, que já mandou mudar três vezes o número do telefone. Inutilmente. O novo número ainda não consta da lista telefônica, mas já caiu misteriosamente na mão do povo, de Ipanema à Baixada Fluminense. Às 3 da tarde, Ney Matogrosso acorda numa gigantesca cama, capaz de abrigar confortavelmente dezenas de pessoas. Dona Joana, a cozinheira, vai, então, enfrentar seu teorema diário: Quantos sucos de fruta levar ao quarto? Ney garante que, no inverno, ela nunca teve que preparar mais de seis. “Agora no verão...” A essa altura, o expediente já começou no apartamento 104 do velho prédio à beira-mar, na praia do Leblon (LACERDA, 1978).

A matéria continua mostrando essa popularização na vida social do artista agora de forma mais próxima com a presença de fãs que chegam até o apartamento do artista e amigos próximos freqüentadores do apartamento 104 no Leblon:

A Campainha também não deixa por menos. É apertada por gente das mais diversas camadas da população do Rio de Janeiro. Uma fã, que soube que a motocicleta de Ney tinha sido roubada, veio trazer outra, novinha em folha, de presente. Um amigo, convidando para ir à praia. Uma frenética. Uma delegação do gay-power, oferecendo um relógio-despertador de presente, “como recompensa por sua incansável batalha....”. Uma vizinha, a Frenética Lidoca, que entra apressada pela casa, pedindo uma chícara de fubá e alguns grampos emprestados. O economista Seninho e o compositor Paulinho Mendonça. Um costureiro. Mais uma Frenética (indignada com a censura, que acaba de proibir duas músicas das meninas: “Lesma Lerda” e “Desacato à Autoridade”). O ex-Secos & Molhados Gérson Conrad, logo seguido pelo empresário Guilherme Araújo, um estudante de Letras, uma repórter e um fotógrafo. E mais uma Frenética. As pessoas se acomodam numa grande sala que, como o resto da casa, é uma viagem por diversos estilos da história da

decoração: plantas, móveis barrocos, artesanato chinês e indiano misturam-se a gatos, tartarugas, peles, objetos de arte, quadros eróticos. E almofadas. Sobre os móveis, dezenas de caixas de diversos tipos e tamanhos, escondendo esmeraldas, ametistas, rubis e diamantes: falsos. Por toda a casa, surpresas esperam os mais curiosos. Algumas, inesquecíveis. Depois da meia-noite, por exemplo, balançam-se coqueiros, caem pitangas (LACERDA, 1978).

Continuando esse processo de ascensão de sua popularização frente à mídia e ao público, o artista declara em manchete à Folha de São Paulo: “Eu não sou uma estrela”. Dessa forma o cantor tenta desmistificar os resquícios da construção de sua imagem relacionada ao universo das celebridades artísticas. Mais à frente o artista põe em questão o que venha ser uma estrela, mostrando seu princípio de autonomia artística presente desde sua saída da cidade de Bela Vista no Estado de Mato Grosso do Sul, citando sua passagem pelo grupo Secos & Molhados até seu embate as imposições do mercado fonográfico dentro da busca por sua autonomia artística. Vejamos as declarações do artista em torno da construção de sua auto imagem agora de caráter popular, bem como sua tentativa de tornar-se um artista autônomo:

As pessoas finalmente entenderam que estou aqui para cantar. O resto – com quem ando, como durmo – não é importante. Embora goste de brilhar, não sou uma estrela, mas um artista. E, afinal, quem é Estrela? Quem anda de óculos escuros para não ser reconhecido? Eu sempre fiz o que quis. Com dezessete anos, sai de casa para não ter que dar satisfações a ninguém. E olha que isso ocorreu em 59 e não em 70, quando cair na estrada virou moda. Por isso, não seria agora, aos 37 anos, que eu deixaria de impor a minha vontade. Não quero ficar somente cantando. Sempre fui muito livre e essa obrigatoriedade de gravar, de fazer shows faz com que eu me sinta preso. E eu não gosto de me prender a nada. Tenho 37 anos e a liberdade de afirmá- los. Não tenho medo da velhice, porque quando o corpo começar pesar, a mente, com certeza, continuará voando num plano tão alto quanto o de hoje (CAMBARÁ, 1978).

Dentro dessa perspectiva de popularização perante a mídia e ao público, o artista inicia de fato o processo de seu auto-empresariado, passando a participar efetivamente nas tomadas de decisões relativas ao universo do show business. Atitudes como o contrato e pagamento de seus músicos, aluguel de espaços para realização de seus shows, bem como os demais encargos que envolvem a indústria da música são agora acompanhados pelo artista. Essa transição deu-se de forma gradativa juntamente com seu empresário Guilherme Araújo. Vejamos esse momento de transição em matéria publicada no Jornal da Tarde:

Um artista que acabou convertendo-se numa fonte de sucesso e altos lucros: seu último show rendeu sete milhões de cruzeiros (é o próprio Ney quem paga os seis músicos do Terceiro Mundo, som, iluminação, aluguel de teatro, 20 por cento do empresário e passagens de avião e hotel para as 13 pessoas que integram a troupe). Essa ascensão é atribuída também à eficiência de um competente empresário: Guilherme Araújo (LACERDA, 1978).

O processo de auto-empresariado do cantor Ney Matogrosso analisaremos com maior afinco no capítulo de número três. No transcorrer desse estudo abordaremos o caráter parcial da concretização de sua autonomia artística frente às gravadoras com a fundação da Mato Grosso Produções Artísticas, bem como a sua retomada de lugar enquanto fenômeno de massa, perante o público e a mídia.