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L ØNNSOMHETSANALYSE

Com matéria publicada no jornal O Globo em vinte e um de outubro de 1976, a jornalista Ana Maria Bahiana, anuncia a apresentação do cantor na penitenciária Lemos de Brito. Alguns meses depois o artista Ney Matogrosso em entrevista à Folha

de São Paulo comenta o sentido do espetáculo Bandido com a sua terra natal Mato- Grosso, afirmando ter gostado de fazer um bandido que não mata em sua apresentação na penitenciária, afirmação essa que intitulou nosso item.

“Bandido”, o novo disco de Ney Matogrosso, está pronto e será lançado a qualquer momento. Mas, ao vivo, o cantor só poderá ser visto no Rio dentro de alguns meses. Apenas para os detentos da Penitenciária Lemos de Brito ele se apresenta em um show hoje à noite (BAHIANA, 1976).

Bandido é um nome forte e me lembra do lugar onde nasci em fronteira no Mato Grosso, que é uma zona brava mesmo, onde todo mundo anda armado e matando as pessoas a troco de nada. Achei legal fazer um bandido que não mata (NEY, 1977 apud OLIVEIRA, 1977).

A apresentação do artista na penitenciária, na verdade, configurou-se como uma prévia do que viria a ser depois de alguns meses o segundo espetáculo da carreira solo do cantor intitulado Bandido. Nessa apresentação na Penitenciária o cantor Ney Matogrosso, limitou-se a cantar apenas sete canções das dezessete que viriam a compor o espetáculo final de Bandido. O convite feito ao artista para apresentar-se na Penitenciária Lemos de Brito, deu-se após pesquisa desenvolvida pela direção em função do Festival de Música que ocorreria em tal casa de detenção. Realizada a pesquisa, os detentos elegeram o artista Ney Matogrosso para abrir o Festival, por esse representar a liberdade para eles. A jornalista Denise Pires Vaz, menciona em seu livro:

Por que Ney Matogrosso? perguntou um repórter aos presos da Lemos de Brito, no Rio, durante a cobertura do Festival de Música da penitenciária, em 1977. – “Porque, para nós, ele representa a liberdade”, explicou um deles. A entrevista focalizava o fato de Ney ter sido o artista escolhido para participar daquele festival, numa pesquisa feita anteriormente entre os presos... As horas passadas no presídio revelaram-se significativas por uma série de fatores. Afinal, foi lá a estréia do Bandido, com os mesmos figurinos e repertório que o público veria depois. Lá também rolaram vários papos interessantes, relacionados a sua concepção de vida e à atitude assumida profissionalmente - um rapaz, por exemplo, lhe disse que não adiantava ficar preso ali, porque o espírito era livre. A escolha de Ney Matogrosso para se apresentar num presídio adquire um significado quase simbólico (VAZ, 1992, p.19-20).

A apresentação do artista na Penitenciária Lemos de Brito, foi fruto de duas circunstâncias momentâneas. A primeira oriunda da dificuldade de realização do show à época em circuito comercial, tendo em vista as dívidas do artista, que se encontrava naquele momento em uma condição de liminaridade perante a mídia e ao público. A

outra circunstância, por nós percebida, foi mencionada pelo próprio cantor, quando esse afirmou em entrevista que era um desejo seu de cantar em uma penitenciária. Vejamos a fala de Ney a respeito desse momento: “O espetáculo nesse local foi maravilhoso, era um sonho antigo e não perderia essa oportunidade de aceitar o convite. Achei tudo excelente” (MATOGROSSO, 2006).

A partir dessa inusitada estréia, o espetáculo ganhou espaço notório dentro da mídia em função do impacto provocado pelo local de sua apresentação, bem como o figurino usado pelo cantor na incorporação de seu personagem que aproximava-se do universo dos detentos, o Bandido. Era um bandido que não matava, incorporado pelo artista Ney Matogrosso, entre outros bandidos que se encontravam ali detentos. O corpo de um bandido enquanto personagem entre o corpo dos detentos. Ambos os corpos eram transgressores em sua essência. O corpo transgressor do artista em cena que transgredia aos padrões morais da época, com suas pinturas e indumentárias e o corpo dos detentos que transgrediram as leis sociais. O sociólogo francês Jean Duvignaud em sua obra Sociologia do Comediante nos leva a reflexão desses corpos:

Muitas vezes comentem-se contra-sensos em relação ao termo corpo, tais como: confundir comportamentos intencionais psíquicos e mecânica filosófica, regulamentar os estados de alma por uma consciência desprendida do ser corpóreo, desprender os símbolos e os sinais da realidade existencial que implica. Esquecem que o corpo é uma linguagem em potência, um centro dinâmico de comunicações diferidas, mas sempre exprimíveis. O corpo não é mais um objeto, mas uma abertura, uma comunicação, ele é aquilo que faz a ficção existir durante toda a representação, como modo de participação coletiva (DUVIGNAUD, 1972, p.214-215).

Pensando juntamente com Duvignaud, onde esse compreende o corpo não como sendo mais um objeto dentro da engrenagem de representação e sim como uma abertura durante o ato de representar, fazendo a ficção se tornar possível, realidade. Dessa maneira o corpo do artista Ney Matogrosso durante sua performance na apresentação na Lemos de Brito, passa a ocupar um espaço enquanto uma linguagem “marginal” para os presidiários. Artista e detentos passam a falar, a expressar os mesmos códigos de conduta do universo underground, “marginal” ao qual estão inseridos dentro daquele mesmo contexto, embora momentâneo.

Reforçando essa idéia da personificação desse corpo transgressor, enquanto um corpo que torna possível a transformar a ficção em realidade dentro do ato de representar, o artista Ney Matogrosso nos fala sobre o significado simbólico da

apresentação de Bandido na Lemos de Brito: “Bandido é um nome forte e me lembra do lugar onde nasci em fronteira no Mato Grosso, que é uma zona brava mesmo, onde todo mundo anda armado e matando as pessoas a troco de nada. Achei legal fazer um bandido que não mata” (NEY, 1977 apud OLIVEIRA, 1977).

Após a apresentação numa penitenciária e o espaço notório reconquistado

junto à mídia, as expectativas do artista em relação à comercialização do espetáculo se fizeram a partir de então mais plausíveis. O espetáculo seguiu para as cidades de Belo Horizonte e São Paulo, agora em circuito comercial. A primeira apresentação foi em Minas Gerais, no início de novembro de mil novecentos e setenta e seis e a segunda no Teatro Municipal de Santo André-SP, em 18 de novembro, onde permaneceu em cartaz por quatro dias. A Folha de São Paulo atesta esse momento da realização do show bem como da dificuldade de realização do espetáculo em circuitos comerciais:

Ney Matogrosso não é mais personagem. Ney Matogrosso virou gente, agora é pessoa. O anúncio – advertência?- é do próprio Ney Matogrosso, que está em São Paulo para lançar seu novo LP, “Bandido”, e fazer um show em curta temporada que começa hoje em Santo André, no Teatro Municipal, e vai até domingo. São Paulo mesmo só depois do carnaval, com o mesmo show também “Bandido” – e numa sala vaga, raridade que ele e seu empresário Guilherme Araújo não conseguiram achar agora (MERLIN, 1976).

A concepção do show foi surgindo naturalmente, fluindo como o leito de um rio, nas palavras de Ney. Primeiro com a composição de Rita Lee Bandido Corazón composta especialmente para o cantor, segundo por sua apresentação na penitenciária Lemos de Brito. Denise Pires Vaz comenta:

No Bandido, a história se modificou e Ney Matogrosso, pela primeira vez, virou gente. Relaxou da carga massacrante que se havia imposto de corresponder à expectativa das pessoas, e decidiu curtir sua relação intensa no palco. Resultado: a expressão agressiva e séria do Homem de Neanderthal cedeu lugar ao riso e à alegria, e a maquilagem, em vez de ser empregada para esconder o rosto, passou a destacar determinados pontos, como olhos e boca, facilitando uma melhor visão de uma face até então camuflada. Lenço amarrado na testa, chapéu, Ney surgia com uma calça vermelha, peito e braços enfeitados por uma afinidade de penduricalhos, e a disposição de liberar o enorme prazer que sentia ao pisar no palco. Na segunda parte do show, trocava a calça vermelha por uma branca, iniciando um ritual que se tornaria presente em quase todos os espetáculos: a mudança de roupa em cena. Só que, no Bandido, essa mudança foi total, incluindo até a troca do tapa-sexo preto por um branco, o que ocorria atrás de um biombo da altura da cintura. Nunca mais Ney tirou o tapa-sexo em cena, apesar de muitas vezes, por causa dos efeitos de iluminação, as pessoas pensarem que estava inteiramente nu (VAZ, 1992).

No entanto, durante as primeiras apresentações do espetáculo Bandido, ainda em fase de elaboração, o artista foi alvo por parte da chamada intelectualidade das esquerdas ligadas a grande mídia de vários preconceitos de caráter homofóbico. O artista fala sobre esse episódio:

Não tinha mais nenhum sentido continuar carregando aquela carga. A mudança veio de dentro de mim, um processo que leva as pessoas, por exemplo, da frieza ao bom humor, da personagem à pessoa. De repente, eu me vi badalado pelos preconceitos dos intelectuais. E eu não tenho preconceito por eles, estou com os pés na terra. Entendi que não preciso assumir uma postura, dirigir o meu trabalho. Tudo pode sair naturalmente, bem feito, mas divertido. Aberto, para chamar o público pra a mesma abertura (NEY, 1976 apud MERLIN, 1976).

Em matéria publicada na Folha de São Paulo intitulada O espaço de Ney

Matogrosso, é percebida a hostilidade de cunho eminentemente homofóbico contra o artista. O texto sugere um posicionamento e cuidados a serem tomados por parte de Ney Matogrosso perante o mercado fonográfico e a mídia para que este não venha a cair no popular. Isso se deveu por naquele momento o cantor ter gravado no LP Bandido a canção do cantor e compositor Odair José, considerado, à época, pela crítica musical como um cantor “brega”, ligado às camadas sociais menos favorecidas economicamente e culturalmente. A partir de então, levantou-se toda uma polêmica entre MPB e música “cafona” na grande mídia.

Essas questões levantadas pela mídia e intelectuais da época entre o que viria a ser classificado como artistas populares, engajados, artistas de elite eram sempre presentes, estavam na pauta das discussões, na ordem do dia, digamos assim. Esta efervescência cultural se dava por conta de uma complexidade cultural ao qual estávamos submetidos, com o patrulhamento ideológico por parte de alguns segmentos das esquerdas dentro dos mais diferentes linhagens da cultura. A Folha de São Paulo tece crítica de cunho homofóbico ao cantor Ney Matogrosso:

Sua figura no início era como a de certos animais: asquerosa. Não pelo fato de posar de andrógino, mas por causa daquelas plumas rabugentas que usava, mostrando aquela barriga peluda em requebros que, antes de serem sensuais, eram apenas grotescos. Depois, a gente foi se acostumando com aquela extravagância comercial. Só que de repente de tanto ser imitado por calouros aflitos do Chacrinha, ele antes tão ímpar, se tornou vulgar. Ney Matogrosso hoje é muito mais povão do que ele próprio imagina. Parece sem sentido mas ele, mesmo com toda a pluma, com toda a dança, com todos os agudos

afeminados, está muito próximo de Odair José, que sempre foi um careta (SOARES,1977).

Após todas essas considerações de cunho homofóbico tecidas pela Folha de São Paulo acerca da performance do artista, a matéria é encerrada, arrefecendo o tom homofóbico em que sugeria alguns cuidados a serem tomados para que o exótico pássaro (Ney) não se torne um mero papagaio repetidor.

Em suma compreendemos que essa estréia do artista apresentou-se como uma possibilidade de estabelecer contrapontos em sua recente carreira solo. O artista passou do luxo, do glamour de seu primeiro espetáculo Homem de Neanderthal, para um espetáculo simples, quase que artesanal em comparação ao primeiro, onde prevaleceu um ser real, um personagem oriundo de uma realidade social, o Bandido. No espetáculo anterior o artista manteve-se distante da crítica, mesma postura que tomou diante do público durante as apresentações. Homem de Neanderthal foi um show distante, chegando quase a uma perfeição técnica na performance do artista em cena, onde o personagem restringia-se apenas a cantar e não se envolver com o público. Em

Bandido o oposto se estabelece, o cantor fica exposto ao público, a partir de então contrapontos são estabelecidos.

2.2.2 Ney no Teatro Ipanema - a reconquista de seu público em meio a