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F RA INTERNETT

O espetáculo Mato Grosso foi projetado para atender a grandes espaços no sentido da consolidação do fenômeno de massa atingido pelo artista em dois momentos de sua carreira, um quando ainda integrante do grupo Secos & Molhados e o outro já em sua carreira solo em 1981. O Jornal do Brasil, por meio do jornalista e critico de música Tárik de Souza, publica em manchete: “Mato Grosso”, a volta de Ney ao sucesso de

massa. Segue matéria onde aponta as 88 mil cópias já vendidas do LP Mato Grosso como a reedição agora mais madura do fenômeno de massa que foi o Secos & Molhados.

Nessa mesma matéria o cantor expressa o anseio de realizar os espetáculos em estádios ao invés de ginásios, evitando assim tumultos e superlotação. O jornal do Brasil publica: “Os 88 mil Lps do novo disco, recém lançado, Mato Grosso, apontam para uma reedição “mais madura e consolidada” do fenômeno de massa dos Secos e Molhados” (SOUZA, 1982). Ney declara: “Os palcos terão de ser outros para evitar os

tumultos e superlotação só vou aceitar shows em estádios, invés dos ginásios” (SOUZA, 1982).

O espetáculo anterior do artista como já foi analisado, já apontava para essa chamada pela mídia de “reedição” do fenômeno de massa do Secos & Molhados, quando o cantor apresentou o espetáculo Ney Matogrosso (1981), em grandes espaços, começando pelo Maracanãzinho, para um público de 15 mil pessoas. O espetáculo estendeu-se em turnê por Recife no Ginásio do Geraldão, para um público estimado em 27 mil pessoas, Salvador, no Ginásio do Balbininho, onde segundo o artista foi uma apresentação contida em função da superlotação do ginásio, e encerrou-se em Florianópolis, onde o cantor apresentou-se para um público de 55 mil pessoas. Ao todo o espetáculo Ney Matogrosso contabilizou noventa apresentações por todo o país. O Jornal do Brasil atesta:

A excursão monstro do cantor pelo país inteiro (90 shows) teve apoteoses temerárias como do ginásio Geraldão em Recife, onde 27 mil pessoas

acotovelaram-se, gente se machucou. Lá, como no Balbininho, igualmente superlotado na Bahia, Ney confessa que se apresentou contido: “Normalmente eu gosto de provocar a platéia, tumultuar mesmo, mas senti que qualquer agito que eu fizesse ali podia resultar em mortos e feridos”. Mas a excursão terminou num confortável e plácido show aberto em Florianópolis no pátio de um shopping center para 55 mil espectadores. (SOUZA, 1982b)

Passado esse momento e próximo da estréia do espetáculo Mato Grosso, o cantor comenta, em entrevista concedida ao jornalista Edmar Pereira do Jornal da Tarde, sobre a expectativa criada pela mídia em torno deu novo trabalho em função do sucesso anterior. O cantor declara:

O sucesso do ano passado, o maior que eu já tinha conseguido, me deixou meio grilado. As pessoas me cobravam muito, diziam que eu havia ganho todos os prêmios, o que eu iria fazer desta vez? Aos poucos fui deixando essa responsabilidade de lado, ou do contrário não conseguiria fazer nada, ficaria deitado eternamente sobre os prêmios. ( NEY, 1982 apud PEREIRA, 1982)

Essa perspectiva do artista de encontrar-se imerso no mercado enquanto fenômeno de massa é expressa em entrevista concedida ao Jornal da Tarde, em 20 de outubro de 1982, quando consolidava seus espetáculos em ginásios e com previsão de apresentar-se no Estádio do Morumbi, em São Paulo, no mês de dezembro de 1982. Em relação à sua popularização enquanto fenômeno de massa o cantor declara: “Gosto de ser popular e uma das coisas que mais curto é fazer shows para milhares de pessoas. Em Florianópolis, consegui cantar para 55 mil pessoas; fiquei extremamente feliz com isso” (NEY, VOLTA 1982).

A Estréia do show Mato Grosso que iria consolidar o artista enquanto fenômeno de massa deu-se, em primeira instância, no interior paulista, nas cidades de Santos, Taubaté e Campinas. Ao contrário de espetáculos passados, que o cantor costumava estrear no eixo Rio-São Paulo (a cidade). O Jornal do Brasil em manchete anuncia: “Mato Grosso” a volta de Ney ao sucesso de massa, em matéria publicada pelo jornalista e crítico de arte Tárik de Souza. Ele menciona: “Ney começa a excursão deste ano “testando o show” daqui a esta semana no interior de São Paulo”(SOUZA, 1982b).

Segundo o cantor essa estréia foi realizada no sentido de aperfeiçoar o show, em uma inversão da ordem, fugindo dos circuitos tradicionais. O Jornal do Brasil

publica: “Ao contrário do ano passado, quando o Ney Matogrosso estreou no Rio, no Canecão, o show deste ano foi mostrado primeiro em Taubaté, Santos e Campinas, um espetáculo em cada uma dessas cidades de São Paulo” (ARAGÃO,1982).

Ney declara ao Jornal do Brasil o intuito da estréia no interior paulista, bem como a sua intenção em cancelar as apresentações em função da ausência de cenários e figurinos. O cantor declara: “Estreei lá para amadurecer o show. Mas tanto os cenários como os figurinos - coisas do meu Brasil - não ficaram prontos e assim me senti enganando as pessoas apesar do sucesso”. Continua o cantor em depoimento que ficou devendo uma apresentação nessas cidades devido a não totalidade do espetáculo. “E, como os shows já estavam todos vendidos, não deu nem pra cancelar” (ARAGÃO, 1982).

Apesar do espetáculo Mato Grosso ter sido apresentado em três cidades do interior paulista a estréia oficial do show deu-se no Canecão, no Rio de Janeiro13. O Jornal da Tarde, em edição de 20 de outubro de 1982, traz em manchete: Ney volta ao

palco. Com alegria e liberdade. Segue matéria:

Bonito, leve, solto e despreocupado. Com essas palavras Ney Matogrosso define o seu novo show Mato Grosso. O espetáculo marcado para estrear hoje à noite no Canecão do Rio, ao contrário dos anteriores de Ney, não tem coreografia rígida. Desta vez – explica o cantor – vai fazer o que quiser no palco, sem marcações e “direção”. Nesta sua nova apresentação no palco, Ney promete simplicidade, liberdade e muita alegria. (NEY VOLTA, 1982)

Em entrevista ao Jornal da Tarde, o artista diz-se cansado em função do desgaste da turnê anterior e da montagem desse novo espetáculo, afirmando que não pretende superar o espetáculo anterior. Sobre seu novo espetáculo o cantor declara:

O show sou eu, com minhas alegrias, dúvidas, palhaçadas e angústias. Digo em tom de brincadeira coisas muito sérias. E as pessoas sabem disso. Uso três roupas lindíssimas. A primeira mostra o equilíbrio dos adereços feitos pelos índios, que são simplesmente maravilhosos. Na segunda parte, uso branco. No final me visto de ouro, um dourado bem natural. (NEY VOLTA, 1982)

O Jornal do Brasil anuncia no Caderno B, em edição de 20 de outubro de 1982, a seguinte manchete: Ney Matogrosso no Canecão. Além do musical um visual

“Chocante”. A matéria editada pela jornalista Diana Aragão chama a atenção para um

13 O show mato grosso esteve em cartaz no Canecão de 20 de outubro a 07 de novembro de 1982 sempre

espetáculo com bilheteria esgotada, em que se apresenta o cantor com características de um “indígena rural” em um primeiro momento e, posteriormente, romântico até finalizar com a imagem de índio carnavalesco dourado que toca bumbo. Segue matéria acerca da estréia:

Hoje, às 22 h, Ney Matogrosso inicia mais uma curta temporada no Canecão (somente até o próximo dia 7). Na porta do Canecão, o movimento da bilheteria e dos cambistas já atesta o sucesso de público. Para o sábado, dia 23, por exemplo, algumas das melhores mesas – 126, 124, 128 – encontravam-se, na tarde de segunda-feira, com os cambistas, que pediam 5 mil, por pessoa, contra os Cr$ 2 mil 500 da bilheteria. E até o final da temporada, quando a procura chega ao auge, o próprio Canecão deverá subir o preço da entrada em mais CR$ 1 mil. (ARAGÃO, 1982)

A matéria continua descrevendo a primeira e segunda parte do espetáculo, em que foi ressaltado o visual exótico do espetáculo. O Jornal do Brasil publica:

De uma abertura no meio do cenário (ocupando toda a extensão do palco, o nome Mato Grosso – secundado por muita fumaça, sob apenas um foco de luz – Ney Matogrosso surgirá com um visual “chocante”: cachê-sexe , cocar, colares, pulseiras, para uma primeira parte indígena-rural. No palco forrado de juta, pois na maior parte cantará de pés descalços, ele iniciará o espetáculo com Metamorfose Ambulante(Raul Seixas), passando pela emocionante Notícias do Brasil (Milton Nascimento), Uai, Uai (Rita Lee- Roberto de Carvalho), o forró eletrônico Primeiro de Abril (Antônio Brasileiro-Antônio Hernandes) e encerrando essa primeira parte com Promessas Demais (Zeca Barreto-Moraes Moreira-Paulo Leminski). A segunda parte é romântica, com luz suave. Vestido apenas com uma calça branca, botas também brancas, olhos pintados, ele interpreta Gilberto Gil, em Deixar Você, Chico Buarque em Tanto Amar, e Sá e Guarabira, em Aquela Fera, as duas últimas do recente LP. Nessa segunda parte, o cantor entrará pela passarela à direita da platéia. (ARAGÃO, 1982)

Fonte: Matogrosso site oficial (2006)

Em segunda página a matéria continua abordando a terceira e última parte do espetáculo, que, segundo a jornalista, é encerrado de maneira apoteótica. O Jornal do Brasil publica:

Na terceira e última parte, com uma roupa das mais bonitas – toda em dourado brilhante, muitas penas – que o espetáculo mostrará o cantor em seu melhor momento, contando com a participação dos 13 músicos que formam sua atual banda. A maliciosa Napoleão (Luli-Lucinha) e Debaixo dos Panos (Cecéu). São contagiantes e o rock de Chucky Berry, em versão de Leo Jaime e Tavinho Paes, Jonny Pirou, está ótimo. Tudo para o apoteótico final com o samba Alegria Carnaval (Jorge Aragão-Nilton Barros), mostrando o cantor integrado a banda, tocando um bumbo.A banda também tem participação como coro. (ARAGÃO, 1982)

Concluída temporada no Canecão, o espetáculo Mato Grosso estréia em São Paulo, capital. No entanto, antes mesmo da estréia, houve problemas com a censura, quando esta vetou o “outdoor” que anunciava o espetáculo. O Estado de São Paulo publicou em 13 de novembro de 1982: “Quanto à censura brasileira, o cantor achou graça quando seu outdoor anunciando o espetáculo foi censurado”. Ney declara: “Era ridículo proibir uma foto14 que já estava exposta em todas as lojas. Finalmente houve bom senso e o liberaram” (COM A MAGIA, 1982).

Entretanto, apesar do espetáculo Mato Grosso em São Paulo ter tido esse problema inicial com a censura, essa também teve a faceta de liberar oficialmente o espetáculo para menores de dezoito anos. O Jornal da Tarde publica: “Hoje, Ney não tem problemas com a censura em relação a seus shows: Mato Grosso é seu primeiro espetáculo liberado para menores, com censura até 14 anos. Os outros eram até 18 anos” (PEREIRA, 1982).

Na verdade, essa liberação ocorreu somente para efeitos legais frente os órgãos de repressão e censura do regime militar, assim como para divulgação pela mídia. Os espetáculos do artista que estiveram em cartaz durante os anos de 1975 a 1982, oscilaram com censura para os limites de idade entre menores de dezoito e maiores de dezesseis anos. Entretanto, mesmo com esse limite de idade imposto pela censura para menores de dezoito anos, encontrava-se uma maneira para reduzí-los.

Esse drible dado nos órgãos de repressão e censura ficava a cargo dos organizadores do espetáculo, sobretudo fora do eixo Rio-São Paulo e cidades do interior.

14A foto que se refere o cantor que já se encontrava nas lojas é a foto referente a capa do LP Mato Grosso

a mesma veiculada no outdoor. A capa do LP traz a figura do cantor seminu, apenas com um tapa sexo e alguns adereços indígenas de posição frontal em baixo d’água, deitado sob o manguezal do pantanal mato-grossense (Nota do autor).

Longe dos “holofotes” da mídia a censura de limite de idade dava-se de forma bem mais maleável. O Jornal da Tarde continua a matéria tratando acerca da censura: “(...) mas (censura) só nas grandes cidades, porque no interior entra todo mundo, de qualquer idade” (PEREIRA, 1982).

A estréia em São Paulo deu-se no Palácio das Convenções do Anhembi15. No Jornal da Tarde de 13 de novembro de 1982 a manchete: Ney, em liberdade total.

Fazendo um show de caipira rico, descreve a estréia do espetáculo chamando a atenção do requinte de figurinos e a presença de dois figurantes na apresentação da música Johnny Pirou:

A entrada do cantor acontece em grande estilo: surge por trás do cenário, em meio a muita fumaça, com a banda tocando todo vapor, para cantar Metamorfose Ambulante. Na primeira parte ele veste apenas um tapa sexo, um cocar, colares e pulseiras indígenas. Estes adereços ele vai alternando durante a apresentação durante a apresentação das músicas, com Notícias do Brasil, Uai, Uai, Primeiro de Abril, Promessas demais e Não faz Sentido. Na segunda parte ele volta com uma calça branca com linhas prateadas –como as outras roupas do costureiro Markito – e canta Deixar você, Tanto Amar e Aquela Fera. E no final, de novo desnudado – uma tanga dourada, pulseiras e cocar de penas -, uma seqüência de canções estonteantes, Andar com Fé, Rosa de Hiroshima, Napoleão, Johnny Pirou. Esta canção – com execução proibida em rádio – é apresentada com dois figurantes, um em cada lado do palco, um vestido com o uniforme do Flamengo outro do Fluminense. Já com a casa pegando fogo, Ney ataca o baião Por Debaixo dos Pano e dá o “golpe de misericórdia”com o inspirado samba Alegria Carnaval. (MIGUEL, 1982)

3.3.3 A apoteose no Morumbi - a retomada do fenômeno de massa e a