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Conforme mencionado na subseção 2.2.3, alguns estudos (PARIKH, 1984; 1986a; LAYZELL; MACAULAY, 1994) levantam hipóteses relacionadas à influência que o termo “manutenção” exerce na maneira pela qual a atividade de manutenção de software é vista e interpretada. Sendo assim, fez-se uma breve investigação nas práticas cotidianas não relacionadas a sistemas de software, a fim de identificar alguns dos sentidos comumente atribuídos à palavra “manutenção”.

Por exemplo, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (HOUAISS; VILLAR; FRACO, 2001) apresenta as seguintes definições para o nome “manutenção”: (1) ato ou efeito de manter(-se); (1.1) ato de fazer perdurar algo em determinado estado; preservação; (ex.: “a manutenção da paz”, “para aborrecer a mãe, insistia na manutenção do brinco e da cabeleira”); (1.2) o que sustém; apoio; suporte; sustentação; (ex.: “estaqueamento para manutenção de árvores”); (2) cuidado com (algo), geralmente periódico e realizado por profissional; (ex.: manutenção odontológica); (2.1) cuidado com vistas à conservação e bom funcionamento de (máquinas, engenhos, ferramentas, etc.).

Já o verbo “manter” é definido como: (1) fazer ficar ou ficar (alguém ou algo) em determinada posição, estado ou situação; impedir de ou ficar sem deslocar-se, mexer-se; conservar(-se); (ex.: “manter a cabeça fora da água”, “manteve-o encarcerado por anos a fio”, “manter-se imóvel”, “manter-se de pé”); (2) fazer perdurar em determinado estado; proteger, assegurar; sustentar na posse ou gozo de algo; reter, conservar; (ex.: “manter a ordem”, “manter

hábitos e costumes”, “mudou-se para uma nova casa, mas manteve a antiga criadagem”); (3) permanecer inalterado, conservar-se no mesmo estado; (ex.: “a causa não sendo eliminada, os efeitos se mantêm”) (HOUAISS; VILLAR; FRACO, 2001)

De acordo com as definições apresentadas, a idéia de continuidade é atribuída ao termo manutenção, de forma que sua conotação pode ser interpretada em dois sentidos: (i) quando se refere a permanecer, deixar algo em bom funcionamento, em ordem (ex.: “manter o gerador de energia funcionando”); e (ii) quando se refere a algo estagnado, parado, ou no mesmo estado. Por exemplo, ao dizer-se “manter-se no mesmo peso”, entende-se o sentido de ficar, permanecer parado no mesmo peso. Por conseguinte, a impressão de estagnação ou de permanência no mesmo estado pode comumente ser representada na linguagem pela palavra manutenção.

Observando o uso da palavra “manutenção”, alguns cenários foram registrados por meio de fotografias3, os quais remetem distintos e comuns significados ao termo manutenção. As figuras 1 e 2 mostram o termo manutenção sendo usado para indicar que as respectivas máquinas estão sem atividade no momento (“Máquina em manutenção – temporariamente inoperante”, “Equipamento em Manutenção”), possivelmente por estarem quebradas ou apresentando defeitos.

3 Todas as fotografias foram tiradas com as suas devidas autorizações. Algumas fotografias foram editadas para que

as localizações das mesmas sejam preservadas em sigilo. Para isso, partes das imagens que pudessem identificar os locais de registro das fotos foram removidas.

Figura 1: Máquina em “manutenção” – Temporariamente inoperante Fonte: O autor

Figura 2: Equipamento em “Manutenção” Fonte: O autor

As figuras 3 e 4 indicam a sala – local específico – de uma organização onde são trazidos e deixados equipamentos que precisam de reparos. Nesse caso, o sentido de manutenção também remete a algo que não está funcionando corretamente (equipamentos, por exemplo) e que precisa de reparos, mais especificamente ao local determinado onde se conserta aquilo que está quebrado.

Figura 3 e Figura 4: Sala de suporte e “manutenção” de equipamentos Fonte: O autor

Por fim, as figuras 5 e 6 apresentam o uniforme de um funcionário, cuja função (inclusive em atividade no momento do registro) compreende serviços de higiene e limpeza das instalações físicas do estabelecimento. Nesse caso, e contribuindo, ainda que indiretamente, com o que afirma Atwood (2006), o termo manutenção é usado para classificar serviços, cuja finalidade é limpar algo que está sujo.

Figura 5 e Figura 6: “Manutenção” como serviço de limpeza Fonte: O autor

Nesse contexto, pode-se observar, ao menos na prática, que os sentidos atribuídos à palavra “manutenção”, não só significam algo que está quebrado e precisando de reparos, mas também indicam serviços de limpeza, onde se precisa trabalhar naquilo que é, ou está, sujo e infectado. Normalmente, tais serviços de reparos (ex.: mecânico de automóveis) ou limpeza (ex.: zelador de edifício) não são reconhecidos como trabalhos intelectuais, o que os remete a tarefas consideradas como de pouca ou nenhuma importância, geralmente desprestigiadas por muitas pessoas.

Assim, concordando com os autores citados no início da seção, acredita-se que a utilização do termo “manutenção” no dia a dia influencia as configurações de leitura e interpretação, não apenas das atividades de manutenção, mas também dos próprios mantenedores, cujas identidades são forjadas e, pressupostamente, afetadas por essa influência.

3 REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

3.1 DA ORIGEM AO CONCEITO

A noção de representação social, assim entendida para os fins deste trabalho, originou-se na Europa, introduzida por Serge Moscovici, com a publicação La Psychanalyse, son image et

son public, no ano 1961 (MOSCOVICI, 1961). Nessa obra, Moscovici apresenta um estudo onde

tenta compreender de que forma a psicanálise, ao sair dos grupos fechados e especializados, como, por exemplo, acadêmicos e profissionais, adquire uma nova significação pelos grupos populares (ALEXANDRE, 2004). Por meio desse estudo, Moscovici analisou o “pensamento natural” onde se inscrevem as representações, buscando explicitar a correspondência entre a situação social e o funcionamento do sistema cognitivo (MOSCOVICI, 1978). Para isso, enfatizando a função simbólica e o poder de construção do real das representações sociais (ALVES-MAZZOTTI, 1994), o autor buscou decifrar os processos por meio dos quais o pensamento, um elemento primordial da cognição, torna-se consensual entre integrantes de um grupo ou comunidade (ALEXANDRE, 2004).

Uma representação fala tanto quanto mostra, comunica tanto quanto exprime. No final das contas, ela produz e determina os comportamentos, pois define simultaneamente a natureza dos estímulos que nos cercam e nos provocam, e o significado das respostas a dar-lhes. Em poucas palavras, a representação social é uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos (MOSCOVICI, 1978).

No entanto, Moscovici não desenvolveu sua teoria num vazio cultural. O autor se apoiou nos fundadores das ciências sociais da França, especialmente em Durkheim (FARR, 2003). As idéias sobre representações sociais surgiram do conceito de “representação coletiva”, definido pelo sociólogo Émile Durkheim, no estudo Rules of Sociological Method, em 1895, no qual o autor se refere às características do pensamento social, distinguindo-as das características do pensamento individual. Para Durkheim, o que as representações coletivas traduzem é o modo como o grupo se pensa em suas relações com os objetos que o afetam (JODELET, 2001). A partir disso, retomando o conceito proposto por Durkheim e fundamentado nesse conceito, Moscovici iniciou o seu processo de elaboração teórica, o que o levou a “redefinir” o campo da Psicologia Social, a qual se limitava a estudar o individuo, o pequeno grupo e as relações não formais (MOSCOVICI, 1978).

Para Moscovici, as representações coletivas abordavam uma classe muito genérica de fenômenos psíquicos e sociais, dentre eles os referentes às ciências, aos mitos e à ideologia, mas não se preocupava em explicar os processos que dariam origem a essa pluralidade de modos de organização do pensamento. Aliado a isso, a concepção de representação coletiva era bastante estática e, portanto, não adequada ao estudo das sociedades contemporâneas, as quais se caracterizam pela multiplicidade de sistemas (políticos, religiosos, filosóficos, etc.), pelo dinamismo de seus movimentos sociais, e pela rapidez na circulação das representações (ALVES-MAZZOTTI, 1994). Dessa forma, buscando maior especificidade para essas características, até então tratadas apenas pela denominação de uma classe geral de conhecimentos e crenças, a noção de representação social proposta por Moscovici afasta-se da visão de Durkheim e da perspectiva da Psicologia Social da época (SILVA, 1998). Assim, as representações “coletivas” cedem o lugar às representações “sociais”, porque as primeiras não levam em conta a sua diversidade de origem e a sua transformação (CABECINHAS, 2004).

Por meio da elaboração de um conceito verdadeiramente psicossocial, procurando dialetizar as relações entre indivíduo e sociedade, Moscovici propõe que as representações sociais não só concebem realidades, mas também criam senso comum. De acordo com Alves-Mazzotti (1994), Moscovici distingue o conceito de representação social dos mitos, da ciência e da ideologia, para então cortejá-lo com conceitos de natureza psicológica, os quais lhe são freqüentemente associados, como os de opinião, atitude e imagem. Esses conceitos não levam em conta o papel das relações e interações entre as pessoas, mas pressupõem a existência de um estímulo externo, dado ao qual o indivíduo responde (ALVES-MAZZOTTI, 1994). No entanto, em se tratando de representações sociais, parte-se da premissa de que não existe separação entre o universo externo e o universo interno do sujeito:

em sua atividade representativa, o sujeito não reproduz passivamente um objeto dado, mas, de certa forma, o reconstrói e, ao fazê-lo, se constitui como sujeito, pois, ao apreendê-lo de uma dada maneira, ele próprio se situa no universo social e material (ALVES-MAZZOTTI, 1994).

Além disso,

as representações sociais, tal como as opiniões e as atitudes, são “uma preparação para a ação”, mas, ao contrário destas, não o são apenas porque orientam o comportamento do sujeito, mas principalmente porque reconstituem os elementos do ambiente no qual o comportamento terá lugar, integrando-o a uma rede de relações às quais está vinculado o seu objeto (ALVES-MAZZOTTI, 1994).

Nesse contexto, a representação é uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, que tem um objetivo prático, e concorre para a construção de uma realidade comum a um conjunto social (MOSCOVICI, 1981). Segundo Moscovici (1978), “as representações sociais são um conjunto de conceitos, frases (proposições) e explicações originadas na vida cotidiana, durante o curso das comunicações interpessoais”, consideradas “ciências coletivas sui generis, destinadas à interpretação e elaboração do real”. De acordo com Jodelet (1984 apud ANDRADE, 2003), são modalidades de conhecimento prático orientadas para a comunicação e para a compreensão do contexto social, material e ideológico em que se vive. Assim, as representações sociais são constituídas das experiências, das informações, dos conhecimentos e dos modelos de pensamentos, os quais se recebem e se transmitem, por meio da tradição, da educação e da comunicação social (JODELET, 1984 apud ANDRADE, 2003).

Em outras palavras, e assim entendida nesta pesquisa, as representações sociais são interpretações que se manifestam como elementos cognitivos (imagens, conceitos, categorias, teorias, etc.), mas que não se reduzem apenas à cognição (ALEXANDRE, 2004), correspondendo também às próprias definições de objetos sociais, e às relações que se estabelecem entre estes e um determinado grupo de indivíduos, dentro de um mesmo contexto social (ANDRADE, 2003). Seu aspecto mais importante é que ela (a representação social) produz e determina comportamentos, visto que define, ao mesmo tempo, a natureza dos estímulos que envolvem e provocam as pessoas, e a significação das respostas a serem dadas a esses estímulos. É por meio das representações sociais que os sujeitos são orientados e, assim, organizam os comportamentos, intervindo nos comportamentos coletivo e individual, nas transformações sociais e na definição das identidades pessoal e social (BASSANI, 2004).

3.2 DO CONCEITO À TEORIA

Segundo Alves-Mazzotti et al. (2007), “a atividade representativa constitui [...] um processo psíquico que nos permite tornar familiar algo desconhecido e, de certo modo, ausente”. Nesse processo, o objeto entra em uma série de relacionamentos e de articulações com outros objetos que já se encontram nesse universo, dos quais toma propriedades, ao mesmo tempo em que lhes acrescenta as suas. Os vínculos que se estabelecem em torno do objeto traduzem

necessariamente uma escolha, a qual é orientada por experiências e valores do sujeito (ALVES- MAZZOTTI et al., 2007).

A elaboração teórica apresentada por Moscovici focaliza os dois aspectos essenciais das representações sociais na perspectiva da Psicologia Social: os processos responsáveis por sua formação e o sistema cognitivo que lhe é próprio (ALVES-MAZZOTTI, 1994). Assim, a teoria das representações sociais

procura estabelecer um modelo capaz de dar conta dos mecanismos psicológicos e sociais de sua produção, suas operações e suas funções, permitindo relacionar interações sociais, processos simbólicos e condutas. A construção do conceito vai se fazendo por aproximações sucessivas, o que, ainda que possa constituir uma estratégia, é em parte determinada por sua complexidade (ALVES-MAZZOTTI, 1994).

Para Moscovici (1978), a estrutura da representação tem duas faces não dissociáveis: a face figurativa e a face simbólica. De acordo com Alves-Mazzotti (1994), isso significa que, a cada figura corresponde um sentido e a cada sentido uma figura.

Os processos envolvidos na atividade representativa têm por função destacar uma figura e, ao mesmo tempo, atribuir-lhe um sentido, integrando-o ao nosso universo. Mas, tem sobretudo a função de duplicar um sentido por uma figura, e portanto, objetivar, e uma figura por um sentido, logo, consolidar os materiais que entram na composição de determinada representação (ALVES-MAZZOTTI, 1994).

Com isso, são introduzidos os dois processos que dão origem às representações: a objetivação e a ancoragem; os quais estão intrinsecamente ligados um ao outro e são modelados por fatores sociais (CABECINHAS, 2004). A objetivação é definida como a passagem de conceitos ou idéias para esquemas ou imagens concretas, os quais, pela generalidade de seu emprego, se transformam em “supostos reflexos do real”; e a ancoragem é conceituada como a constituição de uma rede de significações em torno do objeto, relacionando-o a valores e práticas sociais (MOSCOVICI, 1978).

Jodelet (1990 apud ALVES-MAZZOTTI, 1994) mostra como o processo de ancoragem, relacionado dialeticamente à objetivação, articula as três funções básicas da representação: a função cognitiva de integração da novidade, a função de interpretação da realidade e a função de orientação das condutas e das relações sociais. Assim, esses processos permitem compreender: (i) como a significação é conferida ao objeto representado; (ii) como a representação é utilizada como sistema de interpretação do mundo social e instrumentaliza a conduta; e (iii) como se dá sua integração em um sistema de recepção e como influenciam e são influenciados pelos elementos que aí se encontram.

De acordo com Alves-Mazzotti (1994), a análise destes processos constitui a contribuição mais significativa e original do trabalho de Moscovici, uma vez que possibilita a compreensão de como o funcionamento do sistema cognitivo interfere no social, e de como o social interfere na elaboração cognitiva.

Nesse contexto, o estudo das representações sociais busca responder a dupla questão que se encontra na base de sua teoria e que a distingue de outras abordagens da cognição social: como o social interfere na elaboração psicológica que constitui a representação e como esta elaboração psicológica interfere no social (JODELET, 1990 apud ALVES-MAZZOTTI, 1994). Isso significa que a representação é estudada como uma modalidade de pensamento social, quer sob seu aspecto constituído, isto é, como um produto, quer sob o aspecto constituinte, o que supõe a análise dos processos que lhe deram origem: a objetivação e a ancoragem.

Ao estudá-las como produto, procuramos apreender seu conteúdo e sentido através de seus elementos constitutivos: informações, crenças, imagens, valores, expressos pelos sujeitos e obtidos por meio de questionários, entrevistas, observações, análise de documentos, etc. Entretanto, para que constituam uma representação, esses elementos devem se apresentar como campo estruturado, o que pressupõe organização e hierarquização dos elementos que configuram seu conteúdo (ALVES-MAZZOTTI, 1994).

Ao estudá-las como processo, estamos interessados na relação entre a estrutura da representação e suas condições sociais de produção, bem como nas práticas sociais que induz e justifica. Isto geralmente requer a análise de aspectos culturais, ideológicos e interacionais, prevalentes no grupo estudado, que possam explicar a emergência de um dado núcleo figurativo, inscrevendo-o em uma rede de significações (ALVES- MAZZOTTI, 1994).

As próximas subseções fazem uma breve explicação sobre duas das principais abordagens de estudo das representações sociais4, cujas linhas de investigação são determinadas pelo aspecto,

“produto” ou “processo”, do pensamento social o qual se busca analisar.

4 Outras abordagens são propostas por muitos pesquisadores (Grize, Doise, Sperber, Flament, Kães e Hewstone, por

exemplo), os quais têm apresentado contribuições relevantes para o aprimoramento da teoria das representações sociais. No entanto, para os fins deste trabalho, apenas serão citadas a abordagem estrutural, cujo principal representante é Abric, e a abordagem processual, desencadeada em estudos clássicos de Serge Moscovici e Denise Jodelet.

3.2.1 A abordagem estrutural

A abordagem estrutural da teoria das representações sociais se propõe a investigar a representação por meio de seu aspecto constituído, considerando, para isso, a representação como um produto do pensamento social. Essa abordagem é mais centrada na dimensão cognitiva e estrutural da representação, e sua adoção visa o melhor conhecimento do conteúdo e o maior aprofundamento na organização dos elementos cognitivos e simbólicos que compõem as representações.

Proposta por Abric (2000), a abordagem estrutural da representação social define que os elementos de uma representação se organizam hierarquicamente em torno de um "núcleo central”, o qual determina seu conteúdo, sua significação e sua organização interna, caracterizando-se por uma forte resistência à mudança. Assim, o núcleo central é constituído por elementos, os quais coordenam os sentidos da representação. Os demais elementos correspondem ao chamado “sistema periférico” que, por ser mais sensível às características dos sujeitos e ao contexto imediato no qual os mesmos estão inseridos, constitui a parte operatória da representação, funcionando como a interface entre a realidade concreta e o núcleo central (ALVES-MAZZOTTI et al., 2007).

De acordo com Abric (1994 apud ALVES-MAZZOTTI, 2005), a investigação por meio da abordagem estrutural deve ser articulada em três etapas: (i) levantamento do conteúdo da representação através de entrevistas, e complementada com uma técnica de associação de idéias; (ii) pesquisa da estrutura e do núcleo central, identificando as relações e a hierarquia entre os elementos da representação; e, finalmente, (iii) verificação da centralidade, utilizando técnicas que, partindo dos elementos destacados nas etapas anteriores, procuram colocar em questão cada um desses elementos, de modo a chegar ao número mínimo de elementos “não negociáveis”, ou seja, aqueles que constituem o núcleo central da representação (ABRIC, 1994 apud ALVES- MAZZOTTI, 2005).

Os pesquisadores da vertente estrutural das representações sociais trabalham, preferencialmente, com técnicas experimentais e análises quantitativas, embora seus proponentes – teóricos da linha cognitivista de estudo das representações – enfatizem a importância de complementá-las com análises qualitativas (ALVES-MAZZOTTI, 2005). Abric (2000) também se posiciona contra a exclusividade de abordagens, indicando ao lado do encaminhamento

experimental a opção por enquetes e estudos qualitativos, considerando-os instrumentos metodológicos mais ricos em informações para análise das representações sociais.

Dentre as técnicas para o levantamento do conteúdo das representações nesta abordagem, Abric (1994 apud ALVES-MAZZOTTI, 2005) indica duas famílias de métodos: os interrogativos e os associativos. Para a investigação dos elementos candidatos a compor o núcleo central, bem como para a identificação e o tratamento da possível estrutura da representação, pode-se utilizar de técnicas como a Evocação ou a Associação livre de palavras com justificativa (ALVES- MAZZOTTI et al., 2007).

3.2.2 A abordagem processual

A abordagem processual das representações sociais segue a perspectiva proposta por Moscovici e complementada, principalmente, pelas contribuições de Jodelet. Essa abordagem enfatiza o estudo dos processos de produção das representações, aprofundando, portanto, a análise de seus processos geradores, ou seja, a objetivação e a ancoragem. Assim, essa abordagem busca investigar os sentidos e significações da representação não apenas como produtos do pensamento social, mas também como processos de formação, permitindo que se compreenda como as representações são criadas e o que as fazem permanecer existindo.

Como citado na seção 3.2, Moscovici (1978) descreve dois processos sócio-cognitivos e dialeticamente relacionados, que atuam na construção das representações: a objetivação e a ancoragem. A objetivação é definida como a transferência de conceitos ou idéias em esquemas ou imagens concretas, e a ancoragem como a constituição de uma rede de significações em torno do objeto, relacionando-o a valores e práticas sociais (ALVES-MAZZOTTI et al., 2007).

No processo de objetivação, Jodelet (2001) distingue três fases: (i) a “construção seletiva”, na qual o sujeito se apropria das informações sobre o objeto, retendo alguns elementos e ignorando outros, segundo critérios culturais e normativos ditados pelos valores e códigos do grupo ao qual o sujeito pertence; (ii) a “esquematização estruturante” ou “formação do núcleo figurativo”, o qual sintetiza e concretiza o objeto da representação em uma imagem coerente e facilmente exprimível; e (iii) a “naturalização” dos elementos coordenados por esse núcleo.

De acordo com Jodelet (2001), a representação é uma reconstrução do objeto, elaborada pelo sujeito e, por isso, a mercê de suas próprias necessidades e interesses. Isso faz com que

determinados elementos da representação sejam inibidos ou acentuados, causando “uma defasagem em relação a seu referente”. Nesse processo, são apontados três tipos de efeito nos conteúdos representados: (i) as distorções – embora todos os atributos do objeto estejam presentes, alguns se encontram especialmente acentuados ou minimizados; (ii) as suplementações – são atribuídas ao objeto características e conotações que o mesmo não possui; e (iii) as subtrações – atributos pertencentes ao objeto são suprimidos (JODELET, 2001). Segundo Alves- Mazzotti et al. (2007), “essas características são essenciais à análise do processo de objetivação”,