A pesquisa foi aplicada em maio de 2008, na qual foram realizadas quatro entrevistas de grupos focais, dentre as quais três eram formadas por profissionais da área de tecnologia da informação. Os participantes do quarto grupo focal, especialmente caracterizados nas discussões da pesquisa por serem usuários dos sistemas da organização e, de certa forma, “clientes” da área de tecnologia da informação, tinham formação em diversas áreas de atuação (Administração, Contabilidade, Matemática, Direito, Jornalismo e Música). A discussão sobre a entrevista deste grupo focal formado pelos usuários será apresentada no Capítulo 6, e sua análise, diferentemente das demais, possui um propósito mais específico para este trabalho de pesquisa. Dessa forma, os resultados encontrados nas opiniões dos usuários serão considerados como parâmetros para correlações e comparações com os resultados obtidos nos três grupos formados por profissionais de tecnologia da informação.
Cordialmente convidados e devidamente esclarecidos quanto aos objetivos da pesquisa – conforme convite do Apêndice 1 –, foram entrevistados dezoito profissionais da área de tecnologia da informação, mais seis profissionais de outras áreas, conforme especificado acima, de uma organização da Justiça Federal do Brasil, sediada na cidade de Brasília, no Distrito Federal. Por meio de um “termo de consentimento livre e esclarecido” (Apêndice 2), autorizações foram solicitadas aos participantes, para que as entrevistas fossem gravadas – nas ocasiões, por dois gravadores de áudio –, a fim de que fossem minimizadas as perdas de informações e, conseqüentemente, dos detalhes das entrevistas.
Cada encontro durou cerca de uma hora, iniciando-se com a apresentação do moderador, o qual, seguindo o roteiro de orientação, estimulou os participantes a discutirem sobre os temas apresentados. Esteve presente em todos os encontros um relator, cuja função foi de anotar as falas mais relevantes, nominá-las, associá-las aos motivos que as incitaram, e enfatizar as idéias nelas contidas. Quando preciso, o debate foi facilitado, sem, contudo, que houvesse interferência das próprias opiniões do moderador ou do relator.
Após os encontros, todas as falas gravadas dos participantes foram degravadas e transcritas, respeitando-se a ordem cronológica na qual foram citadas durante as entrevistas. Na transcrição, cada fala foi identificada por um número, seqüencialmente ordenado pelo momento em que foi dita (hora, minuto e segundo de acordo com os arquivos de áudio da gravação), e pelo participante que a proferiu, o que facilitou os procedimentos de análise dos dados. Trechos das gravações não compreendidos foram inferidos, quando o contexto da frase permitia, ou suprimidos, caso o entendimento da sentença não ficasse comprometido. As transcrições também contaram com o auxílio das anotações do relator, as quais esclareceram, dentre outros, os contextos nos quais as citações foram feitas no decorrer das entrevistas.
4.3.1 Considerações sobre os profissionais de tecnologia da informação entrevistados
Os profissionais de tecnologia da informação que formaram os três primeiros grupos focais foram escolhidos segundo alguns critérios que pudessem os dividir e os classificar em grupos de indivíduos com prováveis características semelhantes. Inicialmente, decidiu-se dividir os profissionais pelo tempo de experiência na profissão, para depois categorizá-los quanto ao tipo de contratação dos mesmos, em relação à organização do estudo. Assim, chegou-se a três grupos focais com profissionais da área de tecnologia da informação, dos quais, dois grupos eram formados por terceirizados contratados, e o outro apenas por servidores públicos. Dentre os grupos, dois possuíam participantes com mais de cinco anos exercendo a profissão, enquanto que um único grupo ficou com profissionais com menos de cinco anos de experiência. Também, visando aprofundar-se na riqueza dos detalhes das entrevistas, bem como pelas limitações de quantidade e de disponibilidade do quadro de profissionais da organização, definiu-se que cada grupo focal seria composto por seis participantes.
Conforme resume a Tabela 1, a idade dos participantes e o tempo que os mesmos possuíam na profissão variaram bastante – de 21 a 55 anos de idade, e entre 1 a 33 anos de experiência, respectivamente; todos tinham formação acadêmica em nível superior. Dentre os profissionais da área de tecnologia da informação, 6 (33,3%) eram servidores públicos, e 12 (66,6%) eram contratados terceirizados; a discreta maioria desses profissionais (55,5%) – entre servidores e terceirizados – trabalhava na organização a mais de 5 anos; quanto ao gênero desses participantes, 7 eram mulheres (38,9%), enquanto que os homens eram em 11 (61,1%).
Tabela 1: Resumo das informações dos profissionais de tecnologia da informação
Informação Variação e distribuição
Idade De 21 a 55 anos.
Tempo na profissão De 1 a 33 anos de experiência.
Tipo de contratação 6 servidores públicos (33,3%) e 12 terceirizados (66,6%). Gênero 7 mulheres (38,9%) e 11 homens (61,1%).
Fonte: O autor
O setor em que os participantes trabalhavam – área de desenvolvimento de software da organização – é basicamente dividido por dois cenários distintos, caracterizados pelos tipos de sistemas com os quais os profissionais lidam, bem como pelos tipos de papéis assumidos pelos profissionais. Alguns profissionais trabalham na área de sistemas legados, cujo portfólio abrange os sistemas mais antigos da empresa, os quais já se encontram em fase de manutenção. Esses profissionais não possuem papeis bem definidos em suas atividades, assumindo e executando atividades de análise, desenvolvimento, testes, manutenção, e até mesmo de gerência dos sistemas com os quais trabalham.
O outro modelo encontrado na organização é o que os profissionais denominam de fábrica de software. Os sistemas mais recentes (construídos de dois anos e meio até a data das entrevistas), juntamente com os sistemas em desenvolvimento são de responsabilidade da fábrica. Nessa área, os profissionais possuem papéis bem específicos em suas atividades – definidos pela engenharia de software –, onde cada perfil assume apenas aquilo que seu papel determina. A fábrica possui uma equipe exclusiva, formada apenas por mantenedores, e destinada a só executar serviços de manutenção de software.
5 RESULTADOS
Este capítulo descreve os resultados obtidos por meio da aplicação da pesquisa. A apresentação dos resultados está dividida por grupos focais, onde as opiniões são analisadas separadamente, adicionadas de algumas correlações entre resultados, concordantes ou divergentes, de diferentes grupos. Posteriormente, nos capítulos 6 e 7, os principais achados são sumarizados, discutidos e analisados de acordo com as suposições e com o embasamento teórico do estudo. O início das quatro próximas seções traz uma breve descrição de características semelhantes aos participantes, informadas pelos mesmos por meio do Apêndice 3, pelas quais os sujeitos foram classificados em seus respectivos grupos focais.
As entrevistas dos grupos focais foram analisadas com vistas à busca de indícios, a partir dos quais, seguindo o quadro teórico e a base conceitual adotados, procedeu-se a uma tentativa de reconstituição dos possíveis processos formadores dos sentidos da manutenção de software. Para isso, algumas hipóteses foram aventadas como prováveis fontes das informações, modelos e valores que atuam na produção dos sentidos atribuídos à manutenção: (i) definição e causas da manutenção de software; (ii) práticas e natureza do trabalho do mantenedor; (iii) valores profissionais e organizacionais atribuídos à manutenção; e (iv) a influência do termo “manutenção”, considerando a ideologia da linguagem.
A análise será acompanhada de exemplos com trechos das declarações dos participantes, cujos nomes não serão revelados, para que sejam preservadas suas identidades e seus anonimatos. Para isso, os profissionais entrevistados serão identificados pelo seguinte código [Gn-Pn], onde “Gn” significa o grupo focal de número n, e “Pn” o participante número n. Assim, o participante 3, do grupo focal 1, por exemplo, será identificado por [G1-P3].
Os textos entre parênteses representam adições nas falas dos participantes – feitas pelo próprio transcritor –, para que algumas expressões fiquem mais bem entendidas. Essas palavras inseridas não foram propriamente ditas pelos participantes, porém fazem parte do contexto das sentenças, e visam uma melhor compreensão dos exemplos.