Na opinião dos entrevistados, os valores atribuídos a um crescimento profissional estão estreitamente ligados às tecnologias (no caso deste estudo, às linguagens de programação) dos sistemas com os quais o profissional trabalha. Assim, se um profissional de software está trabalhando com tecnologias de ponta10, o mesmo sente-se mais valorizado pelo mercado de trabalho, e isso o faz sentir-se valorizado profissionalmente. Conseqüentemente, se o profissional trabalha com tecnologias consideradas antigas e ultrapassadas (descontinuadas até por seus próprios fabricantes) – por exemplo, linguagens de programação não mais ensinadas nos cursos universitários – o mesmo sente-se desvalorizado, uma vez que o mercado não o absorve facilmente, principalmente no caso dos profissionais terceirizados. Essas atribuições de sentidos revelam que as redes de valores em torno do profissional de software, não só possuem significações que o avaliam e o classificam como valorizados profissionalmente – de acordo com a tecnologia ou a linguagem com a qual esse profissional trabalha –, como também tornam tal contexto como fato social e senso comum.
Pela própria natureza da atividade, mantenedores de software sempre estão trabalhando com o passado (GLASS, 2006), uma vez que os sistemas já foram escritos anteriormente. Dessa forma, é muito difícil que um software em fase de manutenção use tecnologias de ponta, com as quais, muito provavelmente, um mantenedor ficará privado de trabalhar. Por meio da análise dos aspectos abordados pela instrumentalização do saber, durante o processo de ancoragem da representação, observa-se que o sistema de interpretação constituído pelo sujeito mantenedor – o qual funciona como um código comum que permite classificar indivíduos – faz com que o
10 Tecnologias ditas como mais atuais como, por exemplo, uma linguagem de programação voltada para o
mesmo sinta-se desvalorizado profissionalmente, isto é, excluído da classificação social de profissionais valorizados.
Assim, verifica-se o processo de ancoragem, por meio do enraizamento da representação no sistema de pensamento, cujos sentidos aqui estão voltados para a valorização profissional do mantenedor de software. Nesse processo, acabam por prevalecer esquemas resistentes, ou seja, a valorização ligada à tecnologia, os quais impedem que os profissionais assimilem seu valor profissional desassociado da tecnologia dos sistemas com os quais trabalham.
De acordo com Alves-Mazzotti (2005), compreender os aspectos simbólicos relacionados às interações entre sujeitos pertencentes a grupos que são objeto de exclusão e sujeitos que os excluem permite uma atuação mais direta, e, conseqüentemente, mais eficaz no que se refere à orientação de práticas que favoreçam a inserção social de grupos excluídos de seus direitos fundamentais. Isto se torna ainda mais relevante quando se sabe que, muitas vezes, práticas excludentes não são conscientes para seus agentes (ALVES-MAZZOTTI, 2005), como parece ser o caso de grande parte dos profissionais de software que trabalham com a manutenção de sistemas.
Do ponto de vista das organizações, quanto mais expertise detiver sobre um sistema legado, mais valorizado um profissional se torna. Normalmente, isso acontece pelo fato do profissional dominar o software e suas tecnologias, resolvendo as demandas para os serviços no sistema (correções, evoluções, etc.) mais facilmente e mais rapidamente, o que, conseqüentemente, parece ser menos oneroso para a empresa. Também, à medida que as tecnologias vão envelhecendo junto com seus sistemas, mas difícil se torna para acharem-se profissionais qualificados no mercado de trabalho, que sejam especialistas em tais tecnologias, as quais, geralmente, não são mais ensinadas nas universidades. Dessa forma, os valores organizacionais atribuídos aos mantenedores estão diretamente relacionados ao grau de domínio dos mesmos sobre os sistemas que mantém e suas respectivas tecnologias (linguagens, paradigmas, etc.), constituindo assim a rede de significações em torno do valor do profissional para a empresa.
Analisando os processos de formação e fixação das representações – objetivação e ancoragem –, sob seus aspectos de serem dialeticamente relacionados, nota-se que os valores organizacionais, isto é, os valores atribuídos pela empresa, parecem desaguar na rede de significados que envolvem a manutenção, basicamente representados pelos sistemas legados.
Todavia, os valores profissionais, do ponto de vista dos próprios profissionais, tendem a se afastar das significações atribuídas à representação da manutenção de software. Isso parece explicar o fato de, apesar de ser considerado como muito importante para a empresa, possuindo habilidades que o qualificam como um super profissional e um herói, nenhum profissional desejar exercer o papel de mantenedor.
Assim, parece existir um conflito de valores, e provavelmente de necessidades também, entre os profissionais de software e as organizações. Por um lado, as empresas valorizam os profissionais, porque precisam deles, com experiência e expertise em seus sistemas legados e em fase de manutenção, cujas tecnologias e paradigmas com os quais foram construídos dificilmente se mantêm como de ponta – pelo menos para a perspectiva do mercado de trabalho. Enquanto isso, os profissionais de software apenas se sentem valorizados quando estão trabalhando com novas tecnologias, quase sempre impostas pelo mercado, normalmente encontradas nos sistemas em desenvolvimento, ou seja, em novos sistemas. Logo, por esse prisma, é muito provável que o profissional de software que trabalha com manutenção nunca se sinta valorizado, ainda que, dentro da organização, ele seja bem visto. Isso caracteriza uma distorção dos elementos da manutenção (como “importância”, por exemplo), os quais, durante a construção seletiva de sua representação, parecem ser suprimidos, configurando, assim, o efeito de subtração.
7.5.1 Considerações
Parece haver uma inversão de valores, no sentido das reais necessidades que motivam evoluções tecnológicas. Enquanto a evolução tecnológica fluir no sentido do mercado para as organizações, ou seja, enquanto o mercado ditar aquilo que as organizações devem ter em seus parques tecnológicos, será muito difícil um mantenedor se sentir valorizado e motivado com o que faz. O fato é que o mantenedor estará sempre trabalhando com tecnologias passadas, as quais ficam cada vez mais distantes das novas tecnologias que o mercado constantemente apresenta como solução para diversos problemas.
Pelo contrário, quando esse fluxo for direcionado pelas reais necessidades das organizações – motivadas por seus verdadeiros problemas –, assumindo o sentido organização- mercado, as realidades das organizações serão mais importantes que as novidades do mercado.
Dessa forma, dominar as tecnologias que as organizações precisam será mais importante do que dominar aquilo que o mercado diz – quase que impondo – ser atual e, por isso, importante.
Entra-se assim numa discussão política – na qual este trabalho não pretende aprofundar-se –, onde são identificados aspectos da realidade capitalista, a qual estimula o consumo de bens e serviços sempre novos e supostamente melhores. Dessa forma, quem não consegue acompanhar tal ritmo, torna-se desatualizado, portanto pouco valorizado. Com isso, a idéia de manutenção acaba assumindo uma conotação equivocada, principalmente quando sistemas de software são vistos como produtos de consumo, como sapatos, carros, etc.
Geralmente, nos modelos mentais de consumo, está enraizada a idéia de que um produto, uma vez pronto e comercializado, torna-se menos valioso. Por exemplo, diz-se que um automóvel, depois de fabricado e montado, imediatamente ao sair da concessionária, adquirido por um consumidor, passa a valer 30% menos. Da mesma forma, um imóvel, depois de construído, passa a se desvalorizar, à medida que vai envelhecendo, principalmente pelas causas de efeitos naturais (desgaste das estruturas metálicas por meio da corrosão, por exemplo). A maioria desses produtos possui características físicas e materiais, as quais, por vários motivos, passam a se deteriorar, estragar ou quebrar com o passar do tempo.
Diferentemente desses tipos de produtos, um software não se estraga ao longo dos anos. Muito pelo contrário, pode-se deduzir que um sistema de software torna-se cada vez melhor, à medida que o mesmo torna-se mais antigo. Por exemplo, erros achados no início da atividade operacional do software não são mais encontrados, uma vez que, ao longo do tempo, foram detectados e corrigidos. Da mesma maneira, funcionalidades não contempladas pelo sistema em seu momento de concepção puderam ser adicionadas, tornando o software sempre compatível com a realidade, e assim acompanhando a própria evolução da sociedade.
Talvez estudos mais aprofundados possam esclarecer os efeitos que sistemas de software vistos como produtos de consumo causam na maneira da manutenção de software ser percebida e entendida.