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A respeito do ponto de partida da filosofia, o estudo anteriormente conduzido nos permitiu uma aquisição daqui por diante irrenunciável, a saber, que a filosofia consiste na tarefa de reintegrar conscientemente reflexão e prospecção — ou seja, de integrar cada vez mais e de forma inteligente, o que é já integrado concretamente —, a fim de promover o progresso do pensar em ato e, consequentemente, da vida. Portanto, a filosofia não é o resultado exclusivo do trabalho da reflexão, mas dele também não pode prescindir.

Isso terá consequências fundamentais para o prosseguimento da pesquisa que estamos realizando. Acompanhando de perto o desenvolvimento do Le point de départ, no qual se discute a natureza da pesquisa filosófica, buscamos esclarecer qual o verdadeiro sentido de “pensar”, para a partir daí descobrir não só se realmente a filosofia e a metafísica são consequências do pensar reflexivo, mas também se elas se limitam exclusivamente à lógica que o caracteriza.

Ora, não obstante a proposta do Parmênides, não havendo como pensar filosoficamente sem colocar em marcha o processo da reflexão, ou melhor, não havendo como pensar absolutamente sem refletir, não há dúvidas de que a reflexão será uma condição indispensável ao conhecimento filosófico e, assim, à metafísica. Entretanto, não nos é menos claro agora que a filosofia, com o seu modo próprio de conhecimento ou sua racionalidade, não se limita exclusivamente ao pensar reflexivo, não só porque não se dá nenhum pensar reflexivo isolado, como também porque a especificidade da pesquisa filosófica é marcada justamente pela tarefa de elucidar a prospecção por meio da reflexão, reintegrando-as. Em suma, a reflexão é condição, embora não exclusiva, da filosofia. A descoberta desse seu papel de “co-condição” da pesquisa filosófica permite redimensionar o sentido da reflexão.

Dito isso, devemos nos perguntar se respondemos também à segunda parte de nossas exigências. Pretendíamos não só descobrir se a filosofia e a metafísica eram um resultado do pensar reflexivo, como também, mais radicalmente, se elas se limitariam a sua lógica ou modo de inteligibilidade. Descobrimos que elas são seus resultados, embora não exclusivos, e já podemos também afirmar que não se limitam à sua lógica. Se a filosofia não está limitada à lógica reflexiva, embora dela também possa fazer uso, qual a natureza da lógica que a sustenta e que caracteriza sua cientificidade?

Já mencionamos algo a esse respeito, mas a questão precisa ser melhor esclarecida. Para tanto, parece-nos essencial fazer recurso ao estudo de outro texto fundamental do blondelianismo: Principe élémentaire d’une logique de la vie morale. Buscaremos, por esse movimento da pesquisa, melhor explicitar a natureza da racionalidade especificamente filosófica, mostrando-a como dominada por uma lógica, a da vida moral, que é o fundamento

da lógica reflexiva. Isso fazendo, alcançaremos uma maior clareza a respeito do porquê a depreciação da reflexão, tal como é entendida tradicionalmente, não implica ipso facto a depreciação da filosofia ou da metafísica. Esse será o objetivo do próximo capítulo.

Do que discutimos até agora, depreende-se que o ponto de intersecção entre pensamento e prática se dá no próprio viver — prática ou ação. Na ação que é ele, as ideias são integradas no agir e o agir nas ideias. Essa é a origem e a meta do conhecimento filosófico. Sua percepção conduz a uma mudança profunda no modo como são compreendidos a lógica do pensar abstrato e o determinismo da realidade concreta, sendo redimensionada a compreensão da noção de “necessidade” aplicada às ideias e ao agir e, assim, a própria concepção da lógica.

Anteriormente já consideramos a antinomia a partir da qual Blondel conduzirá sua pesquisa em Principe élémentaire. Ela diz respeito à dificuldade em se falar em uma lógica da vida moral: como seria possível uma ciência moral, ou seja, da ação livre ou autônoma e, ao mesmo tempo, sustentada por uma necessidade que lhe sirva de princípio lógico ou de inteligibilidade? A importância da resposta a essa questão está em que ela diz respeito ao ponto de intersecção entre ideias e agir, sobre o qual nos referíamos anteriormente. Se uma lógica da vida moral é viável, ela dirá respeito à comunhão entre ideias e ações.

Para a filosofia da ação, essa comunhão se dá na reintegração entre prospecção e reflexão, que é o conhecimento em ato, cujo estudo é fundamental para o que entendemos ser a proposição de uma metafísica ainda possível, a ser explicitada nesse nosso presente escrito em seu devido tempo. Em Principe élémentaire, Blondel descreve seu esforço por extrair o princípio elementar120 que preside o desenvolvimento, ao mesmo tempo solidário e original, das ideias e das ações, ou seja, do conhecimento em ato. Assim, esse princípio será a pedra fundamental de uma dialética que domina ideias e ações, sem anular ou sacrificar uma à outra, superando o dualismo que aí pode ser insinuado.

Para lançar luz sobre a realização desse projeto, Blondel procurará considerar três perguntas: a) que obstáculos obscurecem a questão da relação entre pensamento e ação, levando a respostas incompletas, que repropõem desses o dualismo? b) Como é possível e mesmo necessário, por sua própria natureza, que o problema seja posto de um modo diferente de como o faz os que sustentam o dualismo? c) Em que sentido uma lógica moral não só possui um princípio próprio, mas ainda como esse princípio constitui a pedra fundamental da lógica geral?

120Como nos diz Álvaro Pimentel, o qualificativo “élémentaire” é uma noção de derivação kantiana:

“Blondel utiliza, em seu título, uma distinção consagrada por Kant, na Critica da Razão Pura, em que o ‘elementar’ diz respeito a um princípio universal e necessário, válido, portanto, para toda moral em geral” (PIMENTEL, 2008, p. 81).

Esse percurso nos elucidará porque será preciso prepor à lógica especulativa, constituída a partir do ponto de vista da negação e da oposição (da apóphasis e da antíphasis), uma lógica da vida moral, constituída a partir do ponto de vista da privação (da héxis e da stérēsis), fortalecendo as bases para o que será a reinterpretação da filosofia como uma tarefa e, consequentemente, para uma reafirmação das pretensões da racionalidade metafísica.

3.1. ESCLARECIMENTO DA DIFICULDADE DA QUESTÃO

É costumeiro conceber que nosso agir e nosso pensar estejam unidos entre si. De fato, não é difícil constatar que nossas decisões possam ser levadas a termo em nossas ações: agora quero mover meu braço, decido por fazê-lo e o movo. Não só meus atos parecem estar unidos entre si por meio de um vínculo, que permite que sejam identificados justamente como “meus”, mas também, pelo menos aparentemente, esse mesmo vínculo serve de ligação entre meu pensar e minha conduta.

Que aparentemente as coisas estejam assim, demonstra-se facilmente. No entanto, não é tão simples explicar a solidariedade entre nossos atos e desses com o pensar. De alguma forma, o liame ou vínculo aí está e pede para ser interpretado e erigido como verdade necessária (Cf. Principe élémentaire, p. 368), entretanto, a lógica interna ou a inteligibilidade que governa o encadeamento dessas solidariedades não se oferece tão facilmente a nossa compreensão.

Como explicar a relação de cumplicidade que se cria entre meu pensar e minha ação? Essa questão se torna ainda mais problemática quando consideramos não uma ação qualquer, mas uma ação voluntária: como explicar a síntese que é a ação voluntária, concomitantemente enraizada em nossa materialidade corporal e na idealidade de nossa consciência? E, ainda mais, como explicar que na ação voluntária essa cumplicidade se traduz também em normas morais? Como explicar a influência dos ideais morais sobre nossa ação? Teriam eles alguma justificação racional? Essas são questões tão antigas quanto a própria filosofia. Entretanto, a seu respeito não conseguimos estabelecer progressos substanciais. A fundamentação científica da moral continua a ser um problema insolúvel. Mas, por quê?

No escrito que estamos considerando, Blondel ensaia uma resposta: porque se insiste em colocar a questão de modo inadequado. Posto como o propõem o naturalismo e o formalismo moral, esse problema é insuperável. Sem provas ou refutações definitivas, naturalismo e formalismo moral se opõem, fundando-se mutuamente pela alimentação de um