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4.3 PCB Realization
Após um mês de namoro, Flávio e Daniele agendaram o casamento para o ano seguinte. O evento seria para o mês de setembro de 2008, porém em maio do mesmo ano, Daniele descobriu um tumor no ovário esquerdo e esse fato entristeceu o casal, pois as chances de terem um filho seriam mínimas. Após uma delicada cirurgia, os médicos afirmaram que os meses seguintes seriam fundamentais para que eles tentassem ter um filho, pois, depois deste período, não haveria mais essa possibilidade. Em dois meses, Daniele descobriu que estava grávida de Mara, atualmente com três anos de idade:
“O médico falou que a chance que eu teria de ter filho seria naquele momento pós-cirúrgico, pois teria uma pequena chance de passar o óvulo e eu engravidar. Após a cirurgia eu engravidei”.
A notícia da gravidez de Daniele surpreendeu o casal e gerou sentimentos antagônicos em ambos. Foi necessário antecipar o casamento em alguns meses e intensificar a construção da casa que o casal acabara de adquirir. Para eles, esse foi um momento mesclado por diversos sentimentos. Ao mesmo tempo em que ele ficou imensamente feliz, ela se refere a essa fase como “horrível”. Ela alega que esse momento foi ruim porque ela ainda estava se recuperando do problema no ovário e ao mesmo tempo ter que assumir uma gravidez de risco com todos os cuidados que isso requer, além da disponibilidade emocional e laboral que ela necessitava ter naquele momento. Daniele afirma que até demorou um pouco para se acostumar com a ideia de estar grávida, mas depois acabou aceitando. As expectativas e os sentimentos sobre o nascimento das crianças das famílias estudadas será discutido num item posteriormente.
A família Martins, conforme Genograma (Figura I) é composta ainda por Mara (03 anos), Clara (13 anos) e Claudia (24 anos), fazendo com que esta família esteja vivendo concomitantemente em três fases do Ciclo de Vida Familiar. Sobre esse
assunto, Carter e McGoldrick (2005) comentam que os dois subsistemas agora reunidos pelo recasamento podem vir de fases bem diferentes, e essa diferença de experiência e abordagem às atuais responsabilidades pode provocar uma considerável dificuldade, caso não seja explicitamente tratada pelos novos cônjuges. O casal conversou sobre isso, conforme afirma Daniele:
“Quando eu o conheci eu falei para ele que se ele fosse me assumir, ele deveria assumir minha filha junto. Não teria como me assumir sem minha filha. Automaticamente ele também tinha a filha dele, então pensamos em todos morarmos juntos. A gente mora numa casa grande, a filha dele morava numa casa apertada com a mãe dela. E daí ela pediu para ir morar com a gente. Tanto é que ela mudou pra lá a gente ainda tava de lua de mel. Então a ideia foi sempre permanecer a família junto do jeito que fosse”.
Para Flávio, também foi importante falar sobre esse assunto: “A gente sabia que se as coisas não fossem colocadas às claras, íamos passar por problemas. Mas depois que todos conversamos como ia ser a convivência de todo mundo, cada qual com sua responsabilidade, as coisas ficaram boas”. Apesar da conversa sobre o assunto, algumas dificuldades foram constatadas nas complexas relações desse sistema familiar, conforme veremos a seguir.
Para as famílias recasadas há o surgimento de novos papeis, relacionamentos complexos, algumas vezes, conflitantes e ambíguos. Nesse sentido, Carter e McGoldrick (2005) afirmam que ao invés de uma progressão passo a passo, do namoro ao casamento e à paternidade, as famílias recasadas precisam mergulhar instantaneamente em múltiplos papeis, como quando uma jovem adulta solteira se torna esposa e madrasta de várias crianças. Nessas situações, o relacionamento progenitor-filhos antecede o relacionamento de casal, com as óbvias complicações que isso traz. Foi o que aconteceu com a família estudada, tanto Daniele quanto Flávio assumiram imediatamente diversos papeis como o de mãe, esposa e madrasta, pai, padrasto e esposo, num momento repleto de desafios de várias naturezas para todo o sistema familiar. Ainda sobre esse assunto, Bernstein (2002) alerta que para os recentemente casados, o fato de tornar-se padrasto ou madrasta implica ter de reinventar um papel que se adapte às necessidades e aos momentos de vida das crianças e dos adultos envolvidos na nova situação familiar.
Sobre a dinâmica dos relacionamentos entre os diferentes subsistemas, teóricos como Nichols e Schwartz (2007), Calil (1987) e Minuchin, Nichols e Lee (2009) enfocam os subsistemas familiares em seus estudos. Os primeiros autores chamam atenção para o fato de que as famílias são diferenciadas conforme os subsistemas que dela fazem parte e que esses são determinados segundo a geração, o gênero ou os interesses comum de seus membros. Calil (1987) aponta para o fato de que, dependendo da forma como os subsistemas interagem entre si e com os outros sistemas mais amplos, é que cada família irá definir sua organização e estrutura de funcionamento. Ainda segundo essa autora, a especificidade de cada subsistema está vinculada às influências sociais e culturais a que a família está exposta e vai determinar a forma como a família se relacionará tanto com o meio como entre seus membros. Para Minuchin, Nichols e Lee (2009), em família com filhos pequenos, é importante ter em mente que os pais e esposos são dois subsistemas diferentes cada um deles com responsabilidades bem específicas. Para Daniele, conforme apontam os autores, é importante a diferenciação entre os subsistemas: “Nós dois temos que ter nosso espaço e as meninas os delas, mas às vezes a gente se atropela”. O “atropela” está atrelado ao fato da criança ainda permanecer interferindo na dinâmica do casal, conforme veremos.
Minuchin e Fischman (1990), afirmam que além da família ser vista como um todo único ela também é um sistema que faz parte de outros sistemas mais amplos, da mesma forma que dentro dela existem outras unidades menores que são os subsistemas, ou seja, pequenos sistemas como o dos pais (parental), dos filhos (fraternal), do casal (conjugal), entre outros. No presente estudo, abordaremos as relações entre os diferentes subsistemas: fraternal, parental (incluindo madrasta e padrasto) com o filial (incluindo enteadas) e parental.
Quanto à configuração do subsistema fraterno esta é definida como sendo formada pelos irmãos, todos os filhos e filhas de um casal (MINUCHIN, 1982). É possível encontrarmos na literatura diferentes tipos de irmãos: biológicos, adotivos, meio-irmão, irmãos políticos filhos de padrasto ou madrasta (WAGNER, 2002).
Diante dessa dificuldade de encontrarmos termos mais “adequados” e de unanimidade entre os autores, vamos aqui nos referir simplesmente às relações entre o subsistema fraternal compostas por irmãos ou irmãs sem nos aprofundarmos na
questão da nomenclatura. Daniele, fala sobre a relação das irmãs: “Uma das dificuldades é de Clara com a Mara, porque Clara é adolescente”. Nesta fala fica evidenciada a dificuldade aparentemente normal de relacionamento característica entre as diferentes faixas etárias das irmãs, com a qual Flávio parece concordar:
“É que na verdade a diferença delas é de 10 anos, então tudo pra pequena é novidade e tudo pra adolescente é “meu”. É natural que a pequena queira imitar a adolescente”.
Quanto à relação fraternal envolvendo as três irmãs, Daniele afirma que precisa intermediar as relações e impor limites, pois percebe uma competitividade entre elas:
“Quando a gente dá uma coisinha para Clara e pra Mara, a Claudia quer também. A gente tenta atender as três da melhor forma possível, mas ela tem comportamentos mimados e eu deixo claro que não quero essa competitividade entre elas”.
Para Bernstein (2002) a competição entre irmãos é determinada não apenas pela disponibilidade dos pais, mas pela maneira como eles se relacionam com os filhos. Segundo a autora, um progenitor que habitualmente tenta julgar as disputas entre irmãos encoraja a “rivalidade fraterna”. Um erro comum dos pais é considerar um dos filhos como culpado, em vez de considerar todos os envolvidos naquela ação como responsáveis por resolverem o problema. A fala de Daniele: “ela tem comportamentos mimados”, se referindo a sua enteada, deixa claro esse “julgamento” sobre a postura dela que acaba por estimular as disputas entre o subsistema fraternal. Outro fator que implica nessa complexidade é o fato de Daniele ser madrasta de Claudia, o que pode ser também um fator importante para manutenção dessa dinâmica. Sobre a relação com sua enteada, Daniele refere que a proximidade da idade delas, parece ser um fator que transforma a relação, numa relação que mais se parece com amizade.
“A minha relação com a filha dele, apesar de termos idade muito próximas, é de amizade mesmo. A gente sai junta, conversa. Eventualmente ela tem ciúmes de mim, o que é normal, porque como ela conheceu o pai já grandinha, ela também teve uma educação como a minha, muito simples”.
Numa relação de “amizade”, aparecem conflitos na forma de ciúmes que são evidenciados quando Daniele percebe uma competitividade entre enteada e madrasta em função da atenção de Flávio. Nessa situação, para Carter e McGoldrick (2005) as filhas normalmente se sentem mais responsáveis pelos relacionamentos emocionais numa família, ficando presas entre a lealdade e proteção à mãe biológica e conflitos com sua madrasta. As autoras ainda citam uma pesquisa feita por Bray (1986) que revelou que as meninas nas famílias com padrasto/madrasta apresentavam um estresse mais negativo do que os meninos nas famílias com padrasto/madrasta ou as meninas nas famílias nucleares. Desse modo, as relações nos diferentes subsistemas da família parecem estar em consonância com os estudos descritos na literatura. Porém nas famílias estudadas não existem meninos para que pudéssemos analisar a relação madrasta/padrasto com enteados do sexo masculino.
Sobre sua enteada, Daniele também tece críticas sobre a educação que ela recebeu da mãe e sobre a postura de Claudia frente à vida:
“Não sei se ele percebe, mas eu acho ela muito menina, muito meninona. A mãe ensinou assim. Ela não sabe cozinhar, não gosta de cuidar de casa, então ela não tem perfil nem pra se casar agora. Ela precisa amadurecer, passar num concurso público, pra depois sair de casa, mas ela nem dá atenção para mim”.
Outra dificuldade que pode acontecer na relação enteada-madrasta, segundo Andolfi (2002), é que um filho ou uma filha podem sentir que estão traindo um dos pais biológicos ou que estão cometendo uma afronta a eles. Talvez seja por esse motivo que Claudia não se permite a uma relação hierárquica com Daniele e ela é vista com uma “amiga” e desse modo não lhe deve obediência.
Na atividade de colagem (Figura VI), Claudia deixa evidenciada sua postura quando enfrenta situações de conflitos em casa e, nesses momentos procura se afastar temporariamente de casa como sua forma de “resolver” os problemas: “Quando eu vejo que as coisas estão pesadas por aqui eu saio com meu noivo e dou um tempo. Depois volto e fica tudo certo”.
Figura VI - Fragmento da colagem elaborada por Claudia3
Já na relação de Flávio com sua enteada, Clara, que é adolescente, ele se refere a dificuldades de impor limites, apesar de Daniele não se opor a isso:
“Qual a minha maior dificuldade com Clara? Ela não é minha filha, ela é minha enteada. Então eu tenho certa dificuldade de administrar a correção dela, tentar fazer alguma coisa de errado e eu corrigir. Essa é minha dificuldade, porque ela me peita, exceto quando eu já estou no meu limite daí eu vou e falo”.
Sobre isso, Carter (1995) chama atenção para o fato de a ligação pai/filho ou mãe/filho ter nascido antes da ligação dos cônjuges, às vezes muitos anos antes, o que representa uma dificuldade estrutural nas famílias reconstituídas, e tende a produzir rivalidades entre o progenitor e o enteado, como se a relação fosse do mesmo nível hierárquico. Nesse caso, nota-se certa rivalidade entre Clara e Flávio, e dificuldade em estabelecer o seu espaço, uma vez que para ele colocar limite, ele espera a situação chegar ao extremo, conforme mencionado por ele. Por outro lado, uma interessante pesquisa envolvendo filhos adolescentes de famílias recasadas (WAGNER; RIBEIRO; ARTECHE; BORNHOLDT, 1999), demonstrou que em muitas ocasiões um padrasto pode substituir, de forma satisfatória, a figura de um pai ausente. Sendo assim, é possível que haja melhora no relacionamento entre padrasto e enteada na família pesquisada.
Nesse sentido, Daniele ainda afirma que ele tem tentado dar limites para sua filha, até mais do que ela que é a própria mãe: “Ele corrige ela todos os dias até mais do que eu. Eu sempre dei autonomia para ele corrigir”. Bernstein (2002) acredita que
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O nome “Paola” encontrado no fragmento da colagem trata-se de nome encontrado no recorte de revista e não condiz com os nomes dos participantes que foram substituídos por nomes fictícios.
quanto maior a intimidade do relacionamento da mãe com o novo companheiro, menor é o acesso que a filha sente ter à mãe. Além disso, a filha pode sentir falta da exclusividade que costumava ter. Carter e McGoldrick (2005) afirmam que o ajustamento do adolescente à família reconstituída é mais difícil se comparado ao das crianças e levantam a ideia de que há alguns pontos em comum nessa fase em famílias recasadas com adolescentes: os adolescentes normalmente se ressentem mais nas mudanças maiores em seus padrões familiares habituais, e resistem a aprender novos papeis na nova configuração familiar neste momento, quando estão preocupados em afastar-se da família. Os adolescentes tendem a resolver suas lealdades divididas tomando algum partido ou jogando um lado contra o outro. E com relação aos padrastos/madrastas eles apresentam dificuldades especiais para educar e disciplinar um adolescente.
Clara expressa seu desejo relacionado a sua família das seguintes frases durante a colagem (Figura VI):
“Eu quero uma família de paz, mas acho que a gente é uma família boa (...). Nossa família é diferente porque tem gente diferente. Tem meu padrasto, a filha dele... é uma família diferente das outras”.
Figura VII - Fragmento da colagem elaborada por Clara
Sobre a dinâmica do subsistema conjugal, Daniele afirma:
“Nós somos cúmplices em tudo, né? Tudo que a gente vai fazer no lado profissional, pessoal, emocional, a gente se comunica, conversando, a gente tá sempre expondo os sentimentos de maneira mais clara possível”.
O relacionamento marital, segundo Braz, Dessen e Silva (2005), é um fator preponderante para a qualidade de vida das famílias, principalmente no que se refere às relações que pais e mães mantêm com seus filhos. Isto é, a qualidade da relação
pai/filhos e mãe/filhos, depende da qualidade das relações conjugais. No caso de Daniele e Flávio observamos que há um relacionamento marital pautado no respeito recíproco, o que pode contribuir para um relacionamento de qualidade com outros subsistemas.
Ao serem perguntados se existe algum ponto vulnerável no relacionamento do casal, a resposta de Daniele é a seguinte: “Mara, a bebezinha. As únicas vezes que a gente entra em conflito é por conta da educação dela. Por causa dela”. Flávio se defende: “Os conflitos são exatamente por conta disso. Ela briga com a menina e eu não brigo”. Em seguida, Daniele complementa: “Ele é bobo com a Mara, ela faz com ele tudo que você imaginar. E eu fico até de lado nessas horas. Tudo que ela quer fazer ele faz, até na hora que ela está dando birra, se jogando no chão, ele não faz nada. Ele só adula”. Sobre a divisão das tarefas relacionadas com os filhos e ao mesmo tempo conjugais, Bernstein (2002) chama a atenção que o casal nessa configuração de se conhecer bem, tem que se dedicar aos cuidados dos filhos, entre outros cuidados, sem perder o tempo e a energia para nutrir o relacionamento. Observamos uma dedicação de Flávio aos cuidados com a filha, porém Daniele parece não estar satisfeita com a “nutrição” do relacionamento conjugal.
Na atividade da colagem, a família realizou uma espécie de “árvore genealógica” com a “estrutura familiar” (Figura VIII). Clara refere sobre essa estrutura: “É sempre assim mesmo. A Mara é o centro das atenções desta casa”. Nota- se o tamanho da fotografia da criança que se encontra no centro é maior do que dos outros componentes. Eles também fizeram as ligações com as relações sanguíneas de Flávio com Claudia, Daniele com Clara e o casal com a criança, todos ligados com a cor vermelha. A ligação entre as “meia-irmãs” foi colocada na cor cinza.
Considerando a complexidade dessa família, que apresenta as características de uma família recasada, com filhos de outros relacionamentos, e que está vivenciando concomitantemente três fases do ciclo de vida familiar, embora sejam constatadas determinadas dificuldades, a família tem tentado superar os conflitos e desenvolver estratégias de enfrentamento.