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4.2 Battery Temperature Test
Lucas e Camila se conheceram há 10 anos, quando ele trabalhava como policial militar numa escola perto da casa dela. Segundo Camila, Lucas já era conhecido de sua família, mas nunca havia cogitado a ideia de um dia ficarem juntos.
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O nome “Kátia” encontrado no fragmento da colagem trata-se de nome encontrado no recorte de revista e não condiz com os nomes dos participantes que foram substituídos por nomes fictícios.
Quando os dois começaram a namorar, ela estava saindo do seu primeiro casamento e ele já havia se separado de sua primeira esposa. Camila se refere ao seu casamento anterior como “muito complicado” e afirma que a separação foi “com muito sofrimento, um casamento com muita perturbação, agressões verbais e físicas”. Para Falke e Férez-Carneiro (2011), a violência conjugal é muito mais comum do que se imagina. Agressões físicas e psicológicas entre maridos e esposas fazem parte do dia a dia de um grande número de famílias, apesar de, em muitos casos permanecerem encobertas pelo silêncio e pelo segredo familiar. Embora Camila não tenha explorado muito esse tema, percebe-se que ela se desfez do casamento violento que, nesses casos, podem trazer para a pessoa que sofreu esse tipo de violência sentimentos como sofrimento, tristeza e medo, como afirmam Monteiro e Souza (2007).
Por esses motivos, ela não queria se casar novamente, pois conheceu Lucas apenas um mês após sua separação. Sua intenção era ter um namoro, sem compromissos sérios, e ela não esperava que o namoro evoluísse para um casamento, mas quando percebeu que ele era o “homem da sua vida” quis logo se casar.
Sobre esse início do segundo relacionamento e seu estado emocional na ocasião, Camila afirmou:
“Na época eu estava carente, tinha sofrido uma separação (...). A gente se conheceu numa festa, ele já tem uma ‘pinta’ de ser muito paquerador, ele veio me paquerar e eu estava carente e a gente ficou junto. Eu percebi que ele era um homem que eu sempre quis ter. Uma pessoa paciente, generosa, madura, maravilhosa. Coisas que eu não tive no meu ex-marido. Então eu logo falei com ele pra gente casar, lacei ele logo”.
Discutindo as questões de gênero ligadas ao casamento, Carter e McGoldrick (1995) afirmam que as mulheres tendem a antecipar o casamento com entusiasmo. Por outro lado, os homens aproximam-se do casamento com uma típica ambivalência e medo de ser “apanhado numa armadilha”, mas, segundo ainda as autoras, eles se saem melhor no estado casado, em termos psicológicos e físicos, do que as mulheres. Camila se entusiasmou com o casamento quando percebeu que Lucas era o homem da sua vida, e ele não ficou ambivalente e também aceitou facilmente o casamento. Outro ponto que merece destaque é que ambas as mulheres deste estudo sentiram-se atraídas
pela maturidade dos seus respectivos esposos. Sobre a repercussão da idade dos homens na paternidade, discutiremos em outro ponto desta pesquisa.
Para Lucas, separado do seu primeiro casamento há 1 ano, o que o atraiu em Camila foram características que ele julga importantes para um relacionamento:
“Eu gostei da maneira dela se divertir, curtir a vida, ela era alegre e eu mais parado. Ela tinha uma conversa muito boa, que me fazia levantar o astral e foi indo, até a gente resolveu ficar juntos e ela me laçou pra casar”.
O recasamento para Papp (2002) é como o “triunfo da esperança sobre a experiência”, o que é uma combinação de sonhos e pesadelos, pois, apesar do conhecimento, do entendimento e da experiência que tenham adquirido, quando as pessoas se separam e se vêem novamente diante da possibilidade de um novo relacionamento, a tendência é que tenham sua ingenuidade e seus recursos agravados até o limite e esperam reencontrar o elo vital que escapou de suas mãos anteriormente. Observamos que, embora Lucas e Camila tivessem seus primeiros casamentos “mal sucedidos”, ambos tiveram a esperança de que o novo relacionamento seria diferente, mesmo que a experiência mostrou, principalmente para Camila no primeiro relacionamento, violência e maus tratos, conforme ela mesma relatou. Para esse casal, parece que o “recasar” significou tentar a superação dos elementos não resolvidos dos relacionamentos anteriores em detrimento de uma esperança do novo casamento dar certo.
Após o namoro, que durou poucos meses, Camila e Lucas se casaram. Ambos tinham filhos de relacionamentos anteriores. Sobre esses relacionamentos, ambos afirmam que têm contatos com seus ex-cônjuges apenas para tratar sobre os assuntos relacionados aos filhos. Camila afirma que a primeira filha “precisa do contato com o pai. Ele não freqüenta minha casa, mas ele busca ela, eles saem juntos (...). E minha filha considera que ela tem dois pais, um que criou e o biológico. O nosso contato é pouco e apenas para coisas relacionadas a minha filha”. Lucas também se relaciona com sua ex-esposa quando se trata de assuntos ligados às filhas, apesar de serem adultas: “eu sou bem amigo da minha ex. Às vezes ela precisa de alguma coisa das minhas filhas ela me liga, e eu ajudo da maneira como eu consigo”.
Essa relação com os ex-cônjuges, tanto de Camila quanto de Lucas estão de acordo com as ideias de Carter e McGoldrick (1995) quando afirmam que apesar das complexidades das famílias recasadas, é importante preservar um bom relacionamento de co-paternidade aberto entre os ex-cônjuges e realizar o divórcio emocional diferenciando os papeis de todos os envolvidos na relação. Bernstein (2002) também acredita que quanto mais as pessoas souberem diferenciar, entender e aceitar a situação de ex-cônjuges, melhor tende a ser o futuro delas, caso queiram buscar novos relacionamentos. O casal em questão mantém esse relacionamento respeitoso e parece não ter queixas com relação aos ex-cônjuges.
Percebemos que é importante que todos os membros da família recasada tenham clareza dos seus papeis e funções dentro desse complexo sistema familiar. Os genitores têm função essencial em estruturar e delimitar as relações dos filhos permitindo o contato com seus pais e mães, além de precisarem compreender que os ex-cônjuges nunca serão ex-pais ou ex-mães dos seus respectivos filhos.
Quanto à escolha do cônjuge, Carter (1995) afirma que há uma grande influência transgeracional nessa escolha e na formação das relações afetivas, em um processo que institui certa continuidade entre as gerações. No genograma da família de Camila foram encontradas sete separações, incluindo a do próprio pai. No genograma de Lucas, encontramos três separações. Sobre esse assunto Penso, Costa e Ribeiro (2008) referem que esse processo de transmissão que leva à repetição de padrões de relacionamento é especialmente visível nas relações conjugais. Conforme observamos, essa repetição, no caso de Camila e Lucas, até o presente momento não tem significado dificuldades que não sejam capazes de serem superadas.
2. Família com filhos pequenos, filhos adolescentes e filhos adultos – fases