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Mara nasceu logo após o casamento, ou seja, o casal estava iniciando também sua vida conjugal. Descreveremos aqui como se tornou a dinâmica familiar após o

nascimento da criança, uma vez que esta está em constante transformação. Para Carter e McGoldrick (2005), a presença dos filhos nos primeiros estágios do ciclo de vida familiar, impede o estabelecimento de um relacionamento de cônjuge-para-cônjuge exclusivo, que antecede a assunção da paternidade. Uma das principais dificuldades apontadas pelo casal, principalmente por Daniele, foi relacionada à questão conjugal. Após o nascimento de Mara o casal relata conflitos no casamento devido ao fato de não conseguirem colocar limites para que a criança durma no seu próprio quarto. Apesar de várias tentativas de Daniele para que isso acontecesse, Mara ainda divide a cama com o casal.

“Tudo começou assim: ela não ficava no berço sozinha de jeito nenhum. Ela tinha cólica e ela ficava no colo dele, porque ela só parava de chorar no colo dele. Comigo ela só queria mamar por causa do cheiro do leite, mas com ele, ela ficava mais tranqüila e dormia. Só que quando colocava ela no berço ela acordava, daí ele trazia ela pra cama e foi só assim que ela conseguia dormir, quando ela vinha pra cama. E até hoje está assim”.

Para Flávio, o fato da criança dormir com o casal não afeta em nada o casamento e foi Daniele quem tentou, mas sem sucesso, colocar limites nesse sentido, especialmente porque não recebeu ajuda do seu esposo como declara:

“Eu já estava no meu limite, eu estava num nível de estresse muito alto. Isso porque na cama ela me chuta a noite inteira. Ela encosta nele e me bica, me chutando. Daí eu falei pra ele: ‘ou ela sai da cama ou eu saio porque eu não tô mais agüentando’(...). Eu coloquei a grade no quarto dela e ela chorou, chorou, chorou... era ela chorando no quarto dela e ele chorando no nosso quarto com dó dela. No início foi assim, até que no terceiro dia ela se acostumou, mas quando dava quatro ou cinco horas da manhã ela corria pra nossa cama. Ele tirava a grade de madrugada”.

Chamamos atenção sobre um dos problemas comportamentais mais sérios apresentados por crianças que estão geralmente associados, de maneira aberta ou velada, a um dos pais para apoiar os desejos da criança contra a vontade do outro, o que na abordagem estrutural é chamada de “criança triangulada” (MINUCHIN; FISHMAN, 2003). Observamos que Flávio age contrariando a vontade de Daniele em favor das vontades de Mara, o que significa para esse casal a existência de conflitos na esfera conjugal.

O ambiente em que as crianças nascem, segundo Bradt (1995) pode ser um ambiente em que não exista nenhum espaço para elas, exista espaço para elas ou exista um vácuo que elas devam preencher. Outra questão relevante apontada pelo autor, é que a presença de uma criança na casa impede que os pais tenham privacidade, mesmo em seu próprio quarto. Existe a ameaça de tempo excessivamente curto e níveis excessivos de preocupação ocupando a mente do marido e da esposa para que eles possam ter intimidade sexual. As esposas podem colocar o sexo sem intimidade na categoria dos deveres conjugais a serem mantidos num mínimo. Os maridos, tentando virtuosamente serem maridos e pais bons e trabalhadores, interpretam a aparente falta de interesse de suas esposas como uma rejeição, ou deixam de perceber todo o duro trabalho que elas realizam. Porém, ao contrário do que nos aponta Bradt (2005), é Daniele quem denuncia que a sexualidade do casal está afetada em função da presença constante da filha no quarto e seu esposo mantém-se calado, não se posiciona a esse respeito e aparentemente não apresenta mudanças comportamentais que poderiam transformar essa dinâmica com a qual a esposa está insatisfeita.

Sobre a dinâmica de sua família, Daniele a classifica como “bagunça”. Em sua fala ela relata:

“Essa bagunça afeta tudo, principalmente o sono, porque eu não consigo dormir, ele dorme sem problema, mas eu fico cansada e como ela está sempre na cama, fica muito difícil até para namorar, a gente nem tem mais os nossos momentos”.

Seguindo mais adiante nessa discussão, ela afirma: “E tem a questão da intimidade que não dá pra ser como eu queria, pois quando a criança está no quarto não dá, e ela dorme praticamente todo dia no nosso quarto”. Um fator relevante é que Flávio facilita a permanência da criança no quarto e não se esforça, como sua esposa relata, em fazer com que a criança durma em seu próprio quarto. A literatura nos esclarece que uma esposa que seja uma “perseguidora emocional”, frustrada com o distanciamento do marido, pode passar a perseguir os filhos. Uma criança, por outro lado, sensível à perturbações da mãe, fica capturada na triangulação e começa a atuar de alguma forma (MINUCHIN; NICHOLS; LEE, 2009). Essa premissa deve servir de alerta para que a dinâmica familiar não se transforme numa dinâmica com um grau de nocividade maior para o desenvolvimento de seus membros. Neste estudo não ficou

evidenciada nenhuma “atuação” ou apresentação de um sintoma claro e grave por parte da criança, nem uma “perseguição” por parte da mãe.

Sobre a intimidade do casal, Flávio afirma que “não tem nada a declarar” e não se posiciona sobre os comentários de sua esposa. Dessa forma, acreditamos que exista uma dificuldade no relacionamento sexual do casal, o que gera conflitos e certo distanciamento emocional entre ambos enfraquecendo esse subsistema.

Na família Silva, para Camila a sexualidade do casal também piorou após o nascimento de Aline: “A gente tem um problema na vida íntima, sexual, eu me queixava e me queixo e ele falava que a gente tem que dar prioridade pra ela”. Ainda sobre esse tema, em outra fala, Camila novamente se queixa da falta de momentos íntimos do casal:

“Depois que ela nasceu afetou na parte de relacionamento sexual. Porque a criança dorme no nosso quarto, então isso afetou muito. O resto está normal, acho até que ficamos mais unidos, mas nessa parte sexual piorou”.

Bradt (2005) apresenta uma interessante pesquisa realizada por Belsky e colaboradores, afirmando que a qualidade conjugal declina modestamente, mas seguramente desde o período anterior até o posterior ao nascimento dos filhos. Este declínio é mais pronunciado para as mulheres do que para os homens. Aquelas famílias que experenciam mais satisfação conjugal antes do nascimento, experimentam mais satisfação conjugal depois do nascimento. Com a mudança no número de membros da família, das tarefas, das exigências, as chances de diálogos privados, de intimidade, ficam reduzidas. Porém, além desses fatores ficarem reduzidos, incluímos aqui o fator idade atrelado aos homens pesquisados neste estudo, uma vez que se trata de pessoas de meia-idade, e o interesse e as condições físicas para o relacionamento sexual podem ficar comprometidos com o passar do tempo. Por outro lado, esses homens são casados com mulheres jovens que têm geralmente uma vida sexual mais ativa na faixa etária na qual se encontram. Masters e Johnson (1988) afirmam que homens na meia-idade, no segundo casamento, podem enfrentar dificuldades sexuais e baixo interesse sexual devido a preocupações diversas como tensão financeira, relação com a esposa atual e com a ex, relação com enteados/enteadas, entre outras. Segundos esses autores essas dificuldades podem ser superadas se houver um investimento do casal em “reparar” essa situação.

Sobre esse assunto Lucas justifica:

“Ela dorme no nosso quarto porque ela ainda é muito pequena. Depois que ela crescer ela vai sair do quarto, mas por enquanto a gente tem que manter ela por perto mesmo”.

Camila evidencia seu descontentamento e demonstra tentar mudar a situação: “Eu já falei tanto pra tirar ela do quarto, mas ele é teimoso e deixa a menina lá. Ele fica acostumando ela mal”. Sobre essa questão Minuchin e Fishman (2003) afirmam que uma das tarefas mais vitais do subsistema conjugal é o desenvolvimento de limites que protege os esposos, dando-lhes uma área de satisfação de suas próprias necessidades psicológicas sem a intrusão dos parentes do cônjuge, dos filhos e de outras pessoas. A adequação com que estão traçadas essas fronteiras é um dos aspectos mais importantes e que determinam a viabilidade da estrutura familiar. Nas duas famílias estudadas observamos a falta do espaço do casal e a dificuldade que os homens encontram em estabelecer fronteiras e limites entre os subsistemas envolvidos nessa questão.

É importante mencionar que os homens, cuja relação afetiva é bastante próxima com suas filhas, facilitam a permanência das crianças no quarto do casal e não se queixam da perda de intimidade sexual após o nascimento da criança. Ao contrário, as duas esposas referem um afastamento íntimo do casal, tentam, sem êxito, transformar a situação e se mostram preocupadas e insatisfeitas. Outra questão que pode gerar nessa dinâmica é a competitividade das mães com as filhas. Em uma fala de Camila fica evidenciada essa questão: “Eu cheguei até a pensar que ele tinha deixado de gostar de mim por causa dela”.

Corroborando com os resultados encontrados num estudo realizado com um casal recasado por Kunrath (2006), percebemos que grandes e muitos são os desafios encontrados pelas famílias estudadas. Percebemos nesta pesquisa a dificuldade em manter o espaço para o casal, em termos de programas ou saídas sem os filhos. Dessa forma, identifica-se o quanto o espaço da conjugalidade ficou prejudicado, em ambos os casais, após o nascimento das crianças.

5. Quem educa, a mãe ou o “pai-avô”? As influências das histórias