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In document Essays on industrial organisation (sider 97-102)

“O senso de identidade nacional alemão era diferente do de outras nações, especialmente os da Europa ocidental, já que este senso se baseava na idéia de império, de uma cultura e de uma língua alemãs e não na idéia de território ou de razão de Estado. Isto se deve certamente a estrutura político-administrativa completamente sui generis que vigorava nos diversos principados e cidades imperiais que constituíam o chamado ‘Sacro Império Romano Germânico” (*)

A idéia de uma revolução social por meio de uma cultura genuinamente alemã, também pode ser buscada no desejo da burguesia alemã em firmar um novo paradigma burguês de cultura face à aristocracia, mas também na necessidade de - purgar o país da influência cultural francesa e italiana, que predominava nas classes sociais que detinham o poder. Certamente este desejo de romper com uma forma de cultura essencialmente imperialista (designada pelo termo Welsch, ou seja, romanesca), liga-se ao ódio germânico pelos franceses, originado dos excessos e violências que os exércitos de Louis XIV cometeram contra a população civil alemã, durante a chamada Guerra da Liga de Augusburg (1681-1697). É o que Barry Milington nos diz, em sua obra Wagner, Um compêndio:

“A cultura da classe social dominante, em outras palavras, dos príncipes e da aristocracia, estava inteiramente sujeita às influências francesa e italiana, de forma que a burguesia, com sua emergente consciência cultural, encara princípes como Frederico, o Grande, que escrevia melhor em francês do que em alemão, como representantes de um imperialismo cultural descrito como welsch, em outras palavras, romanesco.” (W, pág. 47)

Com a eclosão da Revolução Francesa em 1789 e sua conseqüente expansão imperialista pós 1792, muitos membros da classe média alemã, especialmente aqueles que viviam nas partes ocidentais do império, apoiou ativamente os ideais da Revolução (inclusive com alguns levantes de camponeses como os que se deram, por exemplo, na Saxônia), com o intuito de minar o sistema político feudal que se constituía na base do poder da aristocracia e dos príncipes

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(*) Millington, Barry - Wagner: um compêndio.Tradução de Luiz Paulo Sampaio e Eduardo Francisco Alves, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1995, pág. 45;

alemães. Não obstante, ao longo do avanço dos ideais franceses pelos territórios do Sacro Império Romano Germânico, os representantes do novo governo revolucionário representando os ideais burgueses começaram a se exceder em atitudes que feriam a soberania e os interesses políticos da burguesia alemã, que novamente teve de se unir aos príncipes e aos aristocratas para resistir ao invasor francês. Após 1804, com o avanço de Napoleão com suas pretensões ao domínio mundial, a antiga estrutura feudal que vigorava nos territórios do Sacro Império foi destruída, substituindo o antigo sistema feudal pelo chamado Rheinbund, ou seja, um grupo de Estados centrais, recém- formados e dependentes do domínio francês (a chamada Confederação do Reno), abolindo definitivamente o feudalismo nos territórios sob domínio francês. Em 1803, pelos termos de um decreto conclusivo estabelecido por uma comissão especial da Dieta Imperial, os príncipes alemães que haviam sido despojados de seus domínios localizados nas margens ocidentais do Reno, foram compensados com concessões de propriedades secularizadas da Igreja, enquanto territórios seculares menores eram reduzidos à condição de vassalagem, mediata em relação ao domínio francês e privados de seus direitos governamentais. Isto minou toda a base política do feudalismo e o sonho burguês do estabelecimento de uma estrutura política democrata, pareceu uma possibilidade real. Houve a emancipação do campesinato na Prússia, abolindo todos os laços feudais, abrindo caminho para o crescimento de uma classe de trabalhadores assalariados livres e, a partir disso, para o início do processo de industrialização na Alemanha (atrasado em relação aos dos demais países da Europa, devido à resistência de certas instituições feudais, como as guildas e as corporações de ofício). O sonho do surgimento de uma nova estrutura política democratico-burguesa que fundamentava-se numa nova consciência nacional alemã foi, entretanto, inviabilizado devido aos crescentes e constantes excessos imperialistas napoleônicos em solo germânico, levando a burguesia alemã a aliar-se com os poderes aristocráticos de Estados como Áustria e Prússia que, embora ainda feudais, passavam por um processo de reforma sob pressão das circunstâncias. Essa aliança contra o domínio napoleônico nos Estados alemães, levou ao fim do sonho das aspirações democráticas e nacionais baseadas em reformas políticas, fazendo com que a classe média culta da burguesia alemã se voltasse, como último recurso, ao sonho de uma revolução deflagrada por meio de uma cultura nacional, renunciando à luta por responsabilidades políticas. Após a derrocada final de

Napoleão e o estabelecimento do Congresso de Viena (Setembro de 1814), é formada, baseada no chamado princípio da legitimidade, a chamada Confederação

Germânica, formada pelos Estados alemães chefiados pela Áustria e pela Prússia,

tornando a instituir o antigo sistema feudal nos territórios germânicos, destruindo de vez o sonho da burguesia alemã de instituir um novo sistema de governo democrata em que ela teria uma participação efetiva. As chamadas “Guerras de Libertação”, de 1813 a 1814, contra o domínio napoleônico, representaram não somente uma luta pela sobrevivência nacional alemã, mas também uma luta pela sobrevivência dos principados absolutistas, de sistema feudal, contra os ideais burgueses e que acabaram triunfando com o Congresso de Viena, em 1814-1815 que, reunido pelas potências européias vitoriosas (Rússia, Inglaterra, Áustria e Prússia), sancionou a supremacia de forças conservadoras e reacionárias. As exigências do movimento de libertação nacional da classe média democrática, que havia ajudado a derrubar a hegemonia francesa em solo alemão, foram ignoradas e embora os democratas recebessem promessas de se estabelecer uma constituição nos Estados alemães (embora não representativa), a antiga estrutura de Estado absolutista permaneceu, em grande parte, inalterada. Essa insatisfação levou a classe média culta alemã não só a buscar o sonho de uma unidade nacional com bases não na política, mas na cultura, como também se constituiria no “gérmen” das revoluções de 1830 e 1848 que eclodiram, embora sem muito êxito, em solo alemão.

Após o término do Congresso de Viena (1814-1815), antigos principados alemães foram reunidos na chamada “Confederação Germânica”, sob a chefia da Áustria. Utilizando-se de violentos meios de opressão, o chanceler austríaco Clemens von Metternich passou a adotar uma política de repressão contra a oposição emergente, que era contra o domínio austríaco e era constituída pela burguesia alemã de inclinação liberal e nacional. Os chamados “Decretos de Carlsbad”, de 1819, é um bom exemplo da política repressora dos austríacos, que suprimiu todas as manifestações liberais na Alemanha. Não obstante, apesar de todos os meios opressivos e de sua política de repressão, com a eclosão da chamada Revolução de Julho, em Paris, no ano de 1830, muitos revoltosos locais reuniram-se buscando, através da revolta armada, derrubar os principados alemães de índole reacionária. Em 1832, intelectuais, trabalhadores e camponeses se reuniram na cidade alemã de Hambach, no Palatinado, numa grande assembléia popular, exigindo a abolição da monarquia, a unificação da Alemanha e a libertação

da Polônia, da Itália e da Hungria do jugo austríaco. Em 1844, em Königsberg, na Prússia, nasceu um movimento cívico que pretendia promover reformas democráticas nas várias províncias alemãs que estavam sob o domínio da Prússia. Nessa época, como resultado das mudanças que vinham ocorrendo nas relações econômicas de produção, o proletariado começa a surgir como um novo e importante segmento social que passou a adquirir cada vez mais força e se tornou um importante aliado do movimento burguês por mais democracia.

Mas certamente o auge das tentativas por parte da burguesia alemã de promover uma revolução democrática se deu no início de 1848 quando, a partir dos acontecimentos que se deram na França em fevereiro do mesmo ano, diversas revoltas camponesas eclodiram por todo o sul da Alemanha, até que em março de 1848, a revolta triunfaria em Viena e Berlim. Parece que finalmente a Revolução estava feita: o chanceler austríaco Metternich foi mandado para o exílio, assim como Guilherme, príncipe da Prússia. Os revolucionários instauravam governos de reforma e promoviam eleições democráticas por toda a Alemanha, visando a formação de uma Assembléia Nacional, que tinha como principal tarefa a elaboração de uma constituição democrática para a Alemanha. Não obstante, enquanto a esquerda republicana alemã unia-se aos direitistas, com o intuito de unificar todos os territórios de língua alemã numa nova pátria, os aristocratas contra revolucionários austríacos e prussianos reorganizaram seus exércitos e apoiados pela Rússia e pela Inglaterra, duas poderosas potências hostis à revolução, contra atacaram e sufocaram ferozmente os revolucionários alemães.

Embora houvessem tido valorosas tentativas por parte da esquerda democrata em sublevar o povo que, através de uma revolta armada, implementaria uma constituição por meios revolucionários à Alemanha, após uma série de lutas sangrentas, prevaleceu a força militar austríaca e prussiana: a contra-revolução havia triunfado e a luta por uma Alemanha democrática e unida estava perdida pelas próximas gerações.

Portanto, com a derrocada do ideal liberal de implementação de uma revolução política de cunho social-democrata, a classe média e a intelectualidade alemãs voltam-se para o projeto de uma revolução cultural e nacional tipicamente alemãs. Seria esse o projeto que Wagner, antigo revolucionário político frustrado, aderiria através de sua arte.

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