Finalmente, a proposta deste terceiro capítulo é a de seguir a trajetória do Circo Chiarini especificamente em sua primeira temporada no Brasil, pautados pela ótica de como
ele estava “se fazendo” no período indicado. Posto isso, o objetivo é contemplar desde a
organização do espetáculo (artistas e atrações) até sua itinerância; dos aspectos técnicos e operacionais da atuação do circo até sua relação social, política e cultural com as cidades por onde passou.
Dessa maneira, como partimos da multiplicidade de trajetórias, relações e produções artísticas que o Circo Chiarini vivenciou em sua estada no Brasil de 1869 a 1872, encaramos o fazer desse circo a partir do seu próprio dinamismo, com o olhar atento ao que ele pôde nos revelar sobre sua existência e atuação, e nos balizamos pela questão de como a linguagem circense está incessantemente moldando-se e transformando-se em confluência com as relações sociais e culturais de cada época.
Ao "caminharmos" com o Circo Chiarini, é possível perceber a dimensão da complexa construção artística, empresarial, publicitária, arquitetônica encabeçada pelos circos e o quanto a arte circense dialogou, incorporou e foi protagonista do que estava acontecendo nesse período em termos artísticos, tecnológicos, culturais e políticos.
Em função disso, optamos por traçar narrativas das experiências do Chiarini, estabelecendo apenas subdivisões temáticas abrangentes, uma vez que o próprio percurso do circo trouxe à tona variados recortes temáticos que se entrecruzam e que são recorrentes como, por exemplo: meios de transporte, "fazer a praça", atrações e artistas, itinerância, propagandas, espaços físicos e de atuação, logística e organização do circo, entre outros.
Todos os temas fazem parte do conjunto das ações desenvolvidas pelos circenses,
tendo como proposta a produção do circo como espetáculo. O ir embora de uma “praça”, o
desmontar a estrutura, o desfile dos animais pelas ruas até o embarque; e, como diziam as propagandas circenses no século XIX: "etc. etc. e etc.", torna-se um espetáculo à parte, uma verdadeira passeata de demonstração dos transportes utilizados, das atrações artísticas e da logística, sendo estes alguns recortes temáticos possíveis e que ocorrem o tempo todo no fazer circense.
Com isso, a trajetória do Circo Chiarini pôde nos proporcionar diversos cenários não só para dentro dele mesmo, mas no sentido de nos apresentar e/ou permitir visibilidade de
parte significativa da produção da época, seja nos territórios circenses, teatrais, políticos, tecnológicos, nas ruas, nas praças, nos teatros etc.
3.2. TEMPORADAS DO CIRCO CHIARINI NO BRASIL
A permanência de Giuseppe Chiarini, no Brasil, deu-se nos períodos de 1869 a 1872 e 1875 a 1877. A "Companhia", chegada de Buenos Aires, Argentina, estreou no Rio de Janeiro em 6 de novembro de 1869 (A Reforma, 1869) e deixou a então capital do Império aproximadamente em maio de 1870 (A Vida Fluminense, 1870). Nesse mesmo ano temos registro do circo novamente na Argentina no período de 25 de maio a 27 de novembro de 1870 (La Tribuna, 1870).
O Despertador, jornal do Estado de Santa Catarina, informa que a "Companhia Equestre e Ginástica dirigida pelo Sr. Chiarini" chegou no mês de maio de 1871 em Rio Grande, município do Estado do Rio Grande do Sul, vinda de Montevidéu, Uruguai. Nos meses seguintes trabalharam em Porto Alegre e Pelotas e estrearam em agosto no Rio de Janeiro (A Republica, 1871). Na cidade do Rio de Janeiro, o circo de Giuseppe Chiarini permaneceu até o início de 1872 e, posteriormente, trabalhou na Bahia, Pernambuco e Pará antes de retornar para os Estados Unidos (Correio do Brazil, 1872).
Em sete de outubro de 1875 a "Companhia Chiarini" novamente aportou em Belém, no Pará, conforme a nota: "No vapor 'Ontario', entrado ante ontem a noite dos Estados Unidos, veio a Companhia Chiarini, já conhecida do nosso público". (O Liberal do Pará, 1875)
No mês seguinte o Circo Chiarini já se encontrava na capital maranhense (Diário do Maranhão, 1875) e em Pernambuco (O Cearense, 1875). Em 25 de dezembro, o "Grande Circo Chiarini" estreou no Rio de Janeiro (O Globo, 1875), onde permaneceu até abril de 1876. Do período de maio a agosto atuou em São Paulo, Campinas, Taubaté e Pindamonhangaba, retornando para a cidade do Rio de Janeiro em setembro. Somente em janeiro de 1877 Giuseppe Chiarini partiu do Rio de Janeiro, depois de uma longa temporada em Niterói, para a região sul do Brasil, sendo que em março e abril daquele mesmo ano ele atuou no Rio Grande do Sul e, em seguida, novamente na Argentina.
Sobre o início dessa segunda temporada do circo de Giuseppe Chiarini no Brasil, temos a seguinte nota:
principiar no dia 15 deste mês os seus espetáculos. Estes durarão 15 dias e em seguida pretende vir para o Maranhão. A sua viagem até o Brasil é curiosa e interessante. Composta de grande pessoal e meios artísticos, estava em S. Francisco da Califórnia, onde fez furor. Atravessou o continente americano até Nova York no Grande Oriental (caminho de ferro interoceânico) em 16 dias, e de Nova York partiu imediatamente para o Pará, levando 14 dias na viagem marítima. Empregou, portanto, 30 dias em fazer uma viagem com imensas bagagens, que em outros tempos requeria três meses. A companhia compreende 20 artistas, entre eles algumas jovens famosas e de grande talento ginástico e hípico, 10 assistentes, 28 cavalos árabes, ingleses e americanos, 2 zebras, 1 girafa, 1 búfalo (Bisonte), um grande mono, e alguns tigres. Traz um circo portátil e mecânico para 2000 pessoas, contendo perto de 30 camarotes. Dará aqui apenas 10 espetáculos. É digna da atenção do nosso público. (O Cearense, 21/10/1875)