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5.0 Resultatene av intervjuene

5.1.2 Part B1

Vamos tratar agora dos travamentos ideológicos sofridos pelo campo da produção literária e cultural durante o ciclo que vai da instituição da Ditadura Militar em 1964 até os desenvolvimentos subsequentes que conformam as décadas que incluem o processo de redemocratização, travamentos esses que sobredeterminaram macroestruturalmente tanto a produção quanto a circulação dos produtos simbólicos. Segundo a avaliação de Flávio Carneiro,

A ditadura que se radicaliza no final dos anos 60 e se estende por toda a década de 70 será marcada, entre outras coisas, pela rígida censura à produção intelectual e artística, o que, por sua vez, irá gerar uma literatura de combate, cujo adversário aparece de forma bem definida: o autoritarismo do governo militar. [grifos meus]

(CARNEIRO, 2005, p. 26) Para Flora Süssekind (cf. 2004, p. 98), a formas literárias do período aliam os recursos do fantástico, do naturalismo, da literatura social e do subjetivismo autobiográfico em uma tentativa compensatória frente aos entraves da censura oficial, procurando utilizar o campo literário como um suplemento que pudesse dar conta do déficit de um discurso crítico crítico presente nos meios de comunicação de massa, como o jornal e a televisão, que já haviam se instituído como veículos hegemônicos da produção cultural. Por um lado, há um afastamento das construções ficcionais orientadas exclusivamente pelas necessidades estéticas e imaginativas dos produtores, enquanto há um investimento nas formas verídicas, com a dominância de um realismo documental, presente em produções literárias que tomam os contornos do parajonarlismo e dos contos-verdade. Sobre tal estado de coisas, Flora Süssekind afirma que:

Esta ficção de mãos dadas com o jornalismo foi a que encontrou maior sucesso de público e a que reuniu talvez o maior número de fiéis praticantes nos decênios de 1970 e 1980. Coube a ela retratar um Brasil nem sempre visível a olho nu e inenarrável pela grande imprensa. E criar para o escritor uma imagem que parecia oscilar entre marginalidade semelhante à dos personagens que representava e o heroísmo de um “Robin Hood” de classe média que se imaginava sempre ao lado “dos fracos e oprimidos”. [grifos meus]

(SÜSSEKIND, 2004, p. 99) A disputa discursiva pelos espaços de produção do sentido que ocorre neste ciclo, entre o jornal e a “literatura jornalística” de depoimento, esclarece uma das dinâmicas do funcionamento polissistemático do campo neste momento, no qual a produção de discursos dos veículos jornalísticos se encontra completamente submetida às determinações do campo político, através de dispositivos de censura por vezes instalados diretamente dentro das redações.

Outro aspecto de destaque desse ciclo histórico é o papel periclitante que assume o intelectual e o produtor de bens simbólicos imerso no contexto ditatorial, que sente sobre si, por um lado, a pressão de uma posição historicamente construída de contestação e, por outro, a necessidade de agência dentro dos campos culturais e de poder, sejam quais forem

suas relações polissistemáticas apresentadas pelas constelações das posições presentes nestes campos. A tétrica comédia de gato e rato entre produtores e censura, exacerbada em publicações como O Pasquim, leva os agentes a ocupar essas posições cuja tensão é constituidora das posições possíveis no campo cultural e literário. Naquele momento, no qual o Estado adquire um papel de maior proeminência na regulação das condições de produção dos campos culturais, a avaliação de Flora Süssekind esclarece que:

Nesse estranho jogo entre produção e supressão, firma-se, no entanto, nova postura do Estado frente à cultura. Desta vez não se trata simplesmente de reprimir seus opositores ou de tirar-lhes a maior parte do público. Estamos agora diante de uma terceira tática no campo da cultura. E as palavras de ordem passam a ser cooptação e controle sobre o processo cultural. [...] Tornam-se mais importantes, portanto, as alianças com figuras de oposição, com elementos capazes de mobilizar a opinião pública. E, estratégia mais ousada, assiste-se, no Governo Geisel, à tentativa de programar, estabelecer por meio de uma Política Nacional de Cultura os rumos da produção intelectual no país. [grifo meu]

(SÜSSEKIND, 2004, p. 37-38) Os processos de cooptação e controle empregados pelo aparato ditatorial buscam agir diretamente sobre o fluxo de capital simbólico dos agentes dentro do campo literário. São essas estratégias que estratificam o campo segundo aquelas coordenadas que se tornaram uma das chaves interpretativas do ciclo, a oposição entre agentes centrais (os cooptados) e agentes periféricos (os “malditos”). A subordinação forçada do campo literário ao campo político pode ser considerada um processo que é subproduto da inserção e supervalorização do capital simbólico político dentro do campo literário, circunstância que transforma as relações internas ao campo literário em redes de controle da produção que são comandadas a partir do campo político.

Na avaliação de Candido, realizada em chave completamente despolitizada, tal pressão da repressão aparece como tendo um papel formador dos contornos do campo, que instaurou, durante a década de 1970, um ambiente que também favoreceu uma “legitimação da pluralidade” em certa parcela das produções do campo literário. Para Candido,

Não se trata mais de coexistência pacífica das diversas modalidades de romance e conto, mas do desdobramento destes gêneros, que na verdade deixam de ser gêneros, incorporando técnicas e linguagens nunca dantes imaginadas dentro de suas fronteiras. Resultam textos indefiníveis: romances que mais parecem reportagens; contos que não se distinguem de poemas ou crônicas, semeados de sinais e fotomontagens; autobiografias com tonalidade e técnica de romance; narrativas que são cenas de teatro; textos feitos com a justaposição de recortes, documentos, lembranças, reflexões de toda a sorte. A ficção recebe na carne mais sensível o impacto do boom jornalístico moderno, do espantoso incremento de revistas e pequenos semanários, da propaganda, da televisão, das vanguardas poéticas que atuam desde o fim dos anos de 1950, sobretudo o Concretismo,

storm-center que abalou hábitos mentais, inclusive porque se apoio em reflexão

teórica exigente. [grifo meu]

(CANDIDO, 2006 [1979], p. 253) Paralelamente a essa cultura oficial, que passa pelos agentes legítimos do campo, vemos também o surgimento de instâncias alternativas, que ocupam posições marginais no campo de produção de bens simbólicos, as quais se valem, muitas vezes, das condições de possibilidade técnicas disponíveis fora do paradigma industrial e que, contemporaneamente, são consideradas o momento alto de inovação dentro do campo literário referente a esse ciclo. Na avaliação feita por Heloísa Buarque de Hollanda, em 1974, é constatado que

A capitalização crescente do nosso mercado editorial tem significado para os novos autores um fechamento sistemático das possibilidades de publicação e distribuição normais. Na tentativa de superar este bloqueio que os marginaliza, tais autores são levados a soluções que por mais engenhosas são sempre limitadas. Já há quem fale de uma “geração mimeógrafo”, de uma poesia pobre, que se vale dos meios os mais artesanais e improvisados de difusão, num âmbito necessariamente restrito. [grifo meu]

(HOLLANDA apud SÜSSEKIND, 2004, p. 121) O bloqueio mercadológico instaurado participa da lógica de censura imposta pelo campo do poder e determina a posição alternativa a ser assumida pelos produtores recém- chegados, o que estabelece o adequado contexto de interpretação do predicado alternativo nesta conjuntura sócio-histórica. As produções alternativas são uma alternativa às produções que estão em concordância com o paradigma imposto pelo campo do poder legítimo, percebido como conservador, de “direita”.

Entretanto, como podemos acompanhar na análise de Roberto Schwarz, presente no artigo “Cultura e política, 1964-69” (1992 [1978], p. 61-92), tais produções alternativas estão, por sua vez, sobredeterminadas estruturalmente pela relativa hegemonia cultural da esquerda. “Esquerda” percebida como contestadora, inovadora e engajada (na disputa

política pelo campo do poder, sendo que à direita vencedora interessava o engajamento na disputa mercadológica pelo campo econômico transnacional) – destituída de uma posição de privilégio no campo do poder legítimo (e, portanto, do exercício legítimo da violência física), mas firmemente instituída em uma posição legitimada – e legitimadora – no campo das produções culturais (e, portanto, detentora legítima do poder de exercer a violência simbólica).

Sob esta perspectiva, os valores de contestação e inovação das produções alternativas não são, em sua relação com o campo cultural, uma alternativa, mas uma adequação ao paradigma estabelecido pela relativa hegemonia da esquerda. A existência e o funcionamento de tais disposições e posições é um dos subprodutos das coordenadas heurísticas estabelecidas a partir do golpe de 1964 (chamado, lembremos, de revolução de 64 pelos partidários da “direita”), por sua vez tributárias das coordenadas instituídas na bipolarização do campo político internacional, ocasionada pela divisão (territorial, de mercados, de matérias primas e de mão de obra) operada ao final da II Guerra Mundial.

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