5.3 Kiil/Strandli
5.4.3 Eier av Hjalmarnaustet – Part B4
É a partir desta perspectiva de nicho que a coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras, foi criada75
. Com a proposta de selecionar um conjunto de 16 escritores, entre recém-chegados e outros já estabelecidos, teve como objetivo bancar a estadia desses agentes em diversas partes do mundo durante um mês, para que fosse colhido material para a produção de um romance que tratasse do tema Amor, sendo que o contrato estipulava de antemão que os direitos de adaptação cinematográfica também estavam incluídos no pacote oferecido aos escritores.
O dinheiro para essa aventura - cerca de R$ 1,2 milhão, contabilizando todos os produtos finais - vem, em parte, da Lei Rouanet. Todos os autores recebem o mesmo valor pelos direitos autorais e pela cessão de direitos ao cinema.”Estamos num momento fértil, em que a literatura brasileira vem encontrando novos nomes”, diz o editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras.76
Mesmo que o período de viagens tenha acabado, apenas 11 dos livros foram lançados até agora, sendo que o título de André de Leones, Como desaparecer completamente, acabou saindo pela Rocco. Os participantes e os títulos publicados são esses:
título publicado autor Cidade
Cordilheira (2008) Daniel Galera Buenos Aires
O filho da mãe (2009) Bernardo Carvalho São Petersburgo
Estive em Lisboa e lembrei de você (2009) Luiz Ruffato Lisboa
Como desaparecer completamente (Rocco, 2010) André de Leones São Paulo
Do fundo do poço se vê a lua (2010) Joca Reiners Terron Cairo
O único final feliz para uma história de amor é um acidente (2010) João Paulo Cuenca Tóquio
Nunca vai embora (2011) Chico Mattoso Havana
O livro de Praga: narrativas de amor e arte (2011) Sérgio Sant’Anna Praga
Ithaca Road (2013) Paulo Scott Sidney
Digam a satã que o recado foi entendido (2013) Daniel Pellizzari Dublin
75
Os textos e matérias referentes ao projeto Amores Expressos foram coletados no seguinte endereço: http://subrosa3.wordpress.com/2007/03/25/amores-expressos-retirado-de-ane-xos-de-ane-aguirre/
Barreira (2013) Amílcar Bettega
Barbosa Istanbul
Lourenço Mutarelli Nova York Cecília Gianneti Berlim Reinaldo Moraes Cidade do México Antônio Pellegrino Bombaim
Antônio Prata Xangai
A coleção, idealizada em 2007 por Rodrigo Teixeira da RT produções, causou muita polêmica no campo literário brasileiro no momento de seu anúncio, principalmente pelo motivo de ter em seu projeto inicial o incentivo da Lei Rouanet, um instrumento de renúncia fiscal do governo federal que contempla projetos culturais, mas que acabou por ser abandonada. A polêmica foi levantada, principalmente, por escritores que consideraram sua exclusão do projeto uma afronta pessoal.
Será que se trata, afinal, de uma jogada de marketing brilhante pela capacidade de “esquentar” uma atividade – a ficção made in Brasil – sabidamente pouco atraente para investidores? Ou de um chamativo bolo midiático em que a ficção entra no papel de cereja? Ou ainda, como escreveu com rapidez no gatilho o escritor Marcelo Mirisola (uma das incontáveis ausências na lista dos 16) em carta publicada na “Folha” de domingo, de uma ação entre “amigos de farra”, com “um ou dois figurões acima de qualquer suspeita” para disfarçar?
Segundo a diretora editorial Maria Emilia Bender, a Companhia das Letras se associou ao projeto porque seis dos selecionados são autores da casa e porque ele dá à editora a oportunidade de “eventualmente abrir seu leque para um autor brasileiro novo, coisa que a gente está sempre buscando”. No entanto, manifestações de insatisfação entre outros escritores da Companhia levam Maria Emilia a frisar que o projeto não é da editora, mas de Rodrigo Teixeira. “A plêiade, digamos, não foi eleita por nós”, diz. Acrescenta que todos os autores, mesmo os que têm vínculo com a casa, toparam correr o risco de ter o livro rejeitado. “Isso nós deixamos bem claro aos organizadores, mesmo porque a lista é bem heterogênea no que diz respeito à experiência”, afirma.77 [grifo meu] O processo de acusação dos incluídos por parte dos excluídos demonstra como as posições disponíveis no campo são disputadas continuamente em um campo literário bem desenvolvido. A necessidade que a Companhia das Letras tem em se eximir da responsabilidade pela escolha dos nomes é um negaceio que pretende resguardar seu
capital simbólico da acusação de favoritismo, uma tentativa de afastar a polêmica do seu entorno. Entretanto, como afirma a diretora editorial da Companhia, o interesse da editora na realização do projeto é total, uma vez que é uma oportunidade para a captação e legitimação de agentes recém-chegados. Vamos analisar como a polêmica se estabeleceu, a partir da carta aberta mandada por Marcelo Mirisola para a seção “Painel do Leitor” da Folha de São Paulo, em resposta à matéria que divulgou a existência do projeto:
Bonde das letras
"Vou reunir meus amigos de farra e pleitear uma grana da Lei Rouanet. Foi isso o que Rodrigo Teixeira e o escritor João Paulo Cuenca fizeram -e conseguiram R$ 1,2 milhão ("Bonde das letras", Ilustrada, 17/ 3). E, pra coisa não ficar tão ostensivamente chapa-branca, incluirei -além de mim- um ou dois figurões acima de qualquer suspeita no cardápio. Depois, basta procurar um editor generoso e idealista. Se for sócio de um banco, melhor. Só faltou um dado à reportagem: cada "escritor" embolsará R$ 10 mil, além de estadia, passagens e traslados ao redor desse mundão de Deus. Um mês de vida boa. Espero que escrevam grandes livros e relatem suas experiências na festa de Paraty do próximo ano. Assim é que se faz literatura no Brasil."
MARCELO MIRISOLA , escritor (São Paulo, SP)78 Mirisola, nascido em 1966, é um autor com dez livros publicados, sendo que sua estreia se deu com o romance Fátima fez os pés para mostrar na choperia (Editora Estação Liberdade, 1998). Sua entrada no campo foi saudada, na época, como uma promessa de renovação da literatura contemporânea. Entretanto, aos poucos, com o surgimento de outros recém-chegados, a posição de Mirisola foi progressivamente se tornando periférica. Segundo o autor79,
Foi o Nelson de Oliveira, na famigerada coletânea Geração 90, quem quis me pregar esse carimbo de “outsider”. Diferentemente dos outros autores, eu não tinha títulos, não tinha doutorado, não tinha merda nenhuma para acrescentar à minha biografia senão os livros que havia escrito. Isso não queria dizer necessariamente que eu era um “outsider”.
O discurso de Mirisola é orientado pela percepção da necessidade do acúmulo de capital simbólico e capital social para a participação nas negociações que conformam o campo. Por ocupar uma posição legitimada porém descentrada, sua estratégia de tomada de posição para reivindicar uma maior inserção no campo precisa se valer daqueles pressupostos desligitimadores que enfatizam as relações constitutivas do campo sob um
78
Aqui reproduzido integralmente. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1803200710.htm – publicado em 18 de março de 2007, último acesso em 10 de outubro de 2014.
aspecto personalista estrito, onde imperaria o “compadrio”. A crítica que Mirisola realiza não deixa de ser um movimento complementar do processo legítimo e legitimizador que projetos editorias como o Amores Expressos promove no campo. Trata-se de um movimento de distinção, que amplifica tanto o capital específico de cada participante quanto as relações objetivas constituintes do campo (entre autores, agentes, editores, críticos e leitores).
Em resposta a Mirisola, Sérgio Sant’Anna, um dos selecionados para o projeto, faz uma longa preleção na qual inclui sua trajetória literária, que é descrita em tom de penúria, mas de fato esclarece as condições de formação e acumulação simbólica pelas quais passam os agentes recém-chegado. A trajetória de Sant’Anna, um dos “figurões” que dão legitimidade estabelecida ao projeto, também demonstra que alguns dos procedimentos identificados no campo contemporâneo do século XXI já estavam em desenvolvimento.
Avisado por uma amiga que comentários irados e espumantes estavam chegando em grande quantidade à coluna Todoprosa, no site NoMínimo, fui lá conferir. E, na verdade, apesar dos ressentidos e invejosos (poucos) achei a coisa muito bem humorada. Mas é repugnante que um mau-caráter como o tal de Arnaldo diga que eu fui ao Programa Internacional de Escritores, na Universidade de Iowa, EUA, com uma bolsa da Ditadura Militar. Fui selecionado para o programa pela Fundação Ford, que me concedeu a bolsa e passagens, para mim e minha mulher. Isso depois de uma apreciação de meu livro de estréia, O sobrevivente, em edição das mais modestas, custeada por meu pai, com um empréstimo que nunca paguei. Também o pessoal da Ford no Rio me submeteu a uma entrevista. Arnaldo também dá uma de dedo-duro falando na caixa de maconha que me apresentaram, como boas-vindas, assim que cheguei. Mas que tolice, maconha lá era fumada como aqui se toma cafezinho. E garanto a todos que a vida americana, naquela época, era muito melhor do que na era Bush. Quanto às minhas relações com a Ditadura, eu respondia na época a um Inquérito Policial Militar, presidido pelo Marechal Nilo Horácio de Oliveira Sucupira, por minhas atividades subversivas no exercício de minhas funções de Auxiliar de Escritório e sindicalista, na Petrobrás, meu primeiro emprego, em BH. Décadas depois fui anistiado e meus documentos estão lá, na Comissão de Anistia. Mas prefiro terminar essa nota brincando com Marcelo Mirisola. Meu caro Mirisola,você se esqueceu de que no ano passado me pediu uma carta de recomendação para uma bolsa da Secretaria de Cultura de São Paulo, para ser sustentado, só escrevendo, durante um ano? Não se lembra de que recomendei você como uma verdadeira sumidade de nossas letras? Será que o seu ressentimento de agora é por se considerar um bolsista municipal, enquanto outros vão escrever, como eu, em lugares lindos e que inspiram amores, como Praga? Mas concordo que você foi injustiçado, não sendo incluído em Amores Expressos. Sugiro que essa injustiça seja reparada e você vá escrever uma história de amor na Transilvânia.
Abraços. Sérgio Sant’Anna. [grifos meus]
Primeiro, é importante destacar a participação de Sant’Anna no Programa Internacional de Escritores da Universidade de Iowa. Tal programa está ligado ao Programa em Escrita Criativa da mesma universidade, um dos primeiros cursos dedicados à escrita criativa, em funcionamento desde 1936. A participação nesse programa é um equivalente distante do processo de profissionalização que encontramos nas Oficinas Literárias que agora se multiplicam no campo contemporâneo. De certo modo, a trajetória de Sant’Anna é uma realização estrutural de algumas características presentes no lastro histórico do campo contemporâneo, características essas que se tornariam dominantes na atualidade. É por isso que podemos estabelecer uma homologia entre essa trajetória e a dos agentes recém- chegados que participaram do projeto, a partir do que se torna possível perceber uma tendência no processo de maturação do campo, que passa pela experiência do recém- chegado tal como viemos explorando até agora.
Outro ponto a ser destacado é o desvelamento, por parte de Sant’Anna, da economia de trocas simbólicas que cercam a posição do estabelecido, com poder de distinção capaz de instituir a hierarquia dos agentes através de “recomendações” de mérito. Como já pudemos analisar, o poder de indicação é um índice da eficácia da consagração, e pode ser considerado como o principal capital disponível a um agente do campo literário. A capacidade de determinar o câmbio das relações objetivas do campo é o meio pelo qual se estabelecem as reputações, os nomes, as “marcas”.
Este tipo de iniciativa programática representada pela coleção Amores Expressos, voltada ao nicho da literatura brasileira contemporânea, é mais um dos índices do desenvolvimento do campo literário brasileiro atual, do qual todos os agentes ainda não estabelecidos tem o interesse desinteressado em participar. Vamos analisar agora mais algumas questões que demonstram o modo pelo qual as questões levantadas até agora, acerca da posição do escritor sua configuração no campo contemporâneo, se articulam com as disputas simbólicas pelas posições de prestígio, relacionadas a projetos como este.
Dos títulos publicados até agora pela coleção, dois autores escolheram tematizar explicitamente a posição do escritor no campo contemporâneo, reproduzindo em parte aquela homologia entre a forma mercadoria e a forma estética que está por traz da necessidade do livro bonito, como já analisamos.
No romance de Daniel Galera, Cordilheira, a voz que articula a narrativa é de Anita van der Goltz Vianna, uma jovem escritora que alcançou certo sucesso com seu primeiro
romance – uma obra que acabou por ser renegada pela autora, junto com a possibilidade de seguir na carreira de escritora. Alguns anos depois da publicação desse romance de estreia, a personagem é convidada para o lançamento de uma tradução para o espanhol, e viaja até Buenos Aires num momento em que ainda está de luto pela morte do pai (sua mãe morrera no parto), de luto pelo suicídio de uma amiga e de luto pelo fracasso de sua relação com Danilo, com quem “morou junto” durante 3 anos (desde a morte do pai) e que se recusava a gerar um filho seu.
Durante a mesa redonda montada por seus editores argentinos para o lançamento da tradução, Anita tem o primeiro contato com Holden – ou Diego Parisi – um escritor de um romance só que participa junto com outros amigos escritores de um pacto ficcional.
Neste pacto, que serve de motor da narrativa, Anita conhece toda uma horda de escritores recém-chegados que fazem as vezes de pactuantes, determinados a viver em ato seus personagens, abdicando de sua personalidade para desempenhar na realidade o que imaginaram para a ficção. Este pacto está fundamentado na obra de um suposto escritor guatemalteco, Jupiter Irrisari (tão ficcional quanto Anita ou Holden, mas aparentemente com realidade suficiente para que o resenhista do jornal Estadão o tomasse por um escritor histórico real). Uma das epígrafes do romance de Galera é atribuída a Irrisari: “Imaginar o inexistente é um ato de paixão pela vida, mas viver o imaginado requer um amor duradouro e, sobretudo, um compromisso”. Como bem coloca Rosana Correa Lobo,
Aos poucos quem assume o papel de coadjuvante na narrativa é a própria literatura, que vai mediar a relação de Anita com a cidade e os portenhos. As referências literárias são muitas: Holden, o nome do novo namorado da narradora é o mesmo do protagonista do Apanhador do campo de centeio (1951), de Salinger. Parsifal – o herói da ópera homônima de Wagner (1882) – é um dos membros da seita. Referências à obra de Julio Cortázar, mais precisamente ao Clube da Serpente – grupo de escritores portenhos que vivem na Paris de 1960 - presente em Jogo da amarelinha (1963), também estão presentes.
(LOBO, 2010, p.60) Podemos ver como os temas que orientaram essa narrativa são os mesmos presentes nas relações objetivas do campo a que dão forma à agência dos recém-chegados no ciclo contemporâneo, tal como explicitamos até agora. As angústias, os debates, as viagens para feiras, a acumulação simbólica, a performance do habitus (que na narrativa toma forma também pela referência ao cânone literário moderno), a tradução por uma pequena editora de outra língua são todas situações paradigmáticas que dão forma à constelação de atos de
um agente do campo literário que ocupa a posição de recém-chegado. E, mesmo dentro dessa celebração do discursiva e ficcional do fazer literário, há espaço para um tom de desdém para com o estatuto do literário. Em certo momento, a narradora, Anita comenta que
[Holden] e seus amigos mostravam ser o tipo de gente que leva a literatura a sério demais, que só consegue pronunciar essa palavra como se ela tivesse inicial maiúscula. Oh, meu Deus, a Literatura. Usavam tanto essa palavra que ela já saía gasta de suas bocas.
(GALERA, 2008, p. 79) O rebaixamento pelo abuso que aparece aí codificada possui também uma camada interpretativa na qual a literatura poderia ter seu status resgatado no momento em que se tornasse um dado corriqueiro, sem grandes reservas de “seriedade”. De certo modo essa proposta estética é realizada no romance de Sérgio Sant’Anna, O livro de praga, no qual o narrador se confunde abertamente com a voz autoral. A partir desse dispositivo narrativo a posição do escritor, agora ocupando uma posição estabelecida, é tematizada em sua relação com um projeto editorial cujas características descritas pretendem reproduzir aquelas da coleção Amores Expressos.
Em suas aventuras e desventuras sensualmente picarescas, o narrador, em certo momento, utiliza sua situação para conseguir uma audiência com uma exclusiva pianista dominatrix, justificando que
Faço parte de um projeto privado que envia escritores brasileiros a várias cidades do mundo, como Pequim, Tóquio, Cairo, fora as de sempre, Berlim, Paris, Nova York, para escreverem histórias de amor ambientadas na cidade que coube a cada um. Para mim foi designada Praga e fiquei muito feliz com isso. Me interessa tudo na cidade, inclusive as manifestações artísticas, como esse concerto. A música desperta fantasias sobre as quais se pode escrever, inclusive fantasias amorosas, ainda que um amor platônico, da alma.
(SANT’ANNA, 2011, p. 14) Há um certo tom colonialista nessa caracterização das cidades montada pelo narrador, que coloca o exótico do oriente e em contraste com o corriqueiro de um mundo facilmente acessível (as capitais do capital), que contemporaneamente são percebidas como uma extensão do quintal, um espaço de trânsito livre construído pela dinâmica de trocas transnacionais do campo.
O ato de escrever é apresentado como uma habilidade, na qual o escritor seleciona “fantasias sobre as quais se pode escrever”. Essas fantasias, que na passagem aparecem como desejos difusos, estão ligadas diretamente a tensões pulsionais que orientam toda a vida psíquica agindo na história. O que pode ser dito, ou escrito, é regulado de perto pelas condições de possibilidade dos campo do saber e do poder. O ato da escrita, portanto, não é mais o local da ruptura pela qual o inconsciente aflora desimpedido, liberto das malhas das injunções constritoras, como queria a imaginação romântica. Em sua Primeira contribuição à psicologia do Amor, Freud comenta que
Os escritores [de ficção] estão submetidos à necessidade de criar prazer intelectual e estético, bem como certos efeitos emocionais. Por essa razão, eles não podem reproduzir a essência da realidade tal como é, se não que devem isolar partes da mesma, suprimir associações perturbadoras, reduzir o todo e completar o que falta.
(FREUD, 2006 [1910], p. 171) Ou seja, se considerarmos o fazer literário também como sendo essa conciliação entre o impulso inconsciente e as demandas supressoras, a literatura não teria mais a possibilidade de se posicionar contra suas próprias condições de existência, servindo, pelo contrário, como um instrumento de construção e reiteração narrativa dos pressupostos (ideológicos, materiais, políticos, discursivos) que orientam as trocas entre os diversos campos da agência humana intra-histórica. É neste sentido que Franco Moretti pode afirmar que
[...] o prazer “estético” não pode se fundar na percepção de um “retorno” do inconsciente, mas em seu exato oposto: a contemplação de um compromisso bem sucedido. A conciliação “formal” não é o modo, o simples meio pelo qual se obtém prazer: é o seu fim, sua verdadeira e única substância. O prazer não está no fato de se ter “afrouxado” um pouco as amarras da censura, mas no fato de se ter redesenhado, com precisão, as esferas de influência das diversas forças psíquicas. Isso permite que o sujeito “amarre” seu incômodo, pelo menos por enquanto, o que garante aquela “redução de tensão” que, para Freud, caracteriza todas as formas de prazer.
(MORETTI, 2005 [1983], p. 39) A conciliação entre os impulsos desestruturantes do inconsciente e as demandas estruturantes da realidade tensiona a forma (estética, discursiva, social) e imprime sua marca, a partir da qual se torna possível investigar os modos de estabelecimento do consenso que servem de coordenada para a ordenação do instinto em habitus civilizado (a
constelação de pressupostos que gera o sentimento íntimo de moral, de bom senso, dos bons costumes). É neste espaço de tensão entre o desejo e a necessidade que devemos interpretar os rendimentos narrativos aqui analisados. Sérgio Sant’Anna aprofunda a questão de sua posição realizando uma apresentação ao mesmo tempo bonachona, formal e sistemática, da dinâmica pela qual um projeto como o do Amores Expressos é executado.
Em São Paulo eram cerca de nove e trinta da manhã e contactei Roberto