Como já mencionamos na introdução, o desenvolvimento do campo literário no Brasil se alterna entre ciclos de maior e menor autonomia, entre um desenvolvimento maior e menor do mercado editorial, ora privilegiando certas formas literárias, ora desprezando outras. As duas primeiras décadas do século XX constituem uma baixa na ondulação histórica dos ciclos, o que faz Hallewell afirmar que
[...] qualquer escritor brasileiro que quisesse ver impressa uma obra sua deveria encomendá-la diretamente aos impressores, por sua própria conta, e depois incumbir-se da distribuição: era como se Paula Brito e Baptiste Louis Garnier nunca houvessem existido.
(HALLEWELL, 2005, p. 311-312) Na análise desenvolvida pelo historiador (cf. 2005, p. 309-340) é reservado um espaço de destaque a Monteiro Lobato, que atuou, através de várias iniciativas, a partir do final da década de 10, no sentido de restabelecer um mercado editorial no campo literário brasileiro que valorizasse as produções nacionais. Enquanto Candido resume a ação de Monteiro Lobato desta forma:
[...] Monteiro Lobato fundou e desenvolveu sua editora, marcada por alguns traços inovadores: preferência quase exclusiva por autores brasileiros do presente; interesse pelos problemas da hora; busca de uma fisionomia material própria, diferente dos tradicionais padrões franceses e portugueses; esforço para vender por preços acessíveis sem quebra da qualidade editorial.
(CANDIDO, 2006 [1981], p. 232) Hallewell, por sua parte, afirma que:
[...] foi em 1917 que um cafeicultor paulistano chamado José Bento de Monteiro Lobato deu os primeiros passos para o renascimento da atividade editorial brasileira e que iriam revolucionar as perspectivas do autor brasileiro.
Através da seleção da figura de Monteiro Lobato como exemplo de empreendedor do mercado editorial, podemos perceber as condições precárias do campo literário brasileiro no começo do século XX. Um dos indícios dessa precariedade se superficializa no esforço que Monteiro Lobato precisou investir na construção de um sistema de distribuição capaz de ser mais amplo do que a distribuição feita exclusivamente por livrarias, uma vez que estas eram escassas no território. Ainda segundo Hallewell, tal estratégia
[...] proporcionou a Lobato uma rede de quase dois mil distribuidores espalhados pelo Brasil – em todo tipo de loja de varejo, de farmácias a padarias [...] No entanto, esses dois mil eram pouco mais do que o número de pontos-de-venda disponíveis para o comércio de livros na França quase um século antes, ou seja, 564 livrarias e outros vendedores de livros em Paris e 922 nas províncias, totalizando 1486, em 1823! [grifo meu]
(HALLEWELL, 2005, p. 320) Para se ter uma ideia da dimensão do empenho de Lobato, basta citar uma passagem da carta de intenções que ele redigiu e enviou para estes diversos pontos comerciais espalhados por todo o país:
Vossa Senhoria tem o seu negócio montado, e quanto mais coisas vender, maior será o lucro. Quer vender também uma coisa chamada “livros”? Vossa Senhoria não precisa inteirar-se do que essa coisa é. Trata-se de um artigo comercial como qualquer outro: batata, querosene ou bacalhau. É uma mercadoria que não precisa examinar nem saber se é boa nem vir a esta escolher. O conteúdo não interessa a V.S., e sim a seu cliente, o qual dele tomará conhecimento através de nossas explicações nos catálogos, prefácios, etc. E como V.S. receberá esse artigo em consignação, não perderá coisa alguma no que propomos. Se vender os tais “livros”, terá uma comissão de 30 p.c.; se não vendê-los, no-los devolverá pelo Correio, com o porte por nossa conta. Responda se topa ou não topa. [grifos meus]
(LOBATO apud HALLEWELL, 2005, p. 320) O primeiro fato que chama atenção nessa apresentação de oportunidade comercial redigida por Lobato é a caracterização do livro como “um artigo comercial como qualquer outro”, circunstância que rompe já de início com o paradigma do objeto especial que o livro recebe através da denegação monetária aludida por Bourdieu. Convém contrapor essa definição de Lobato, que coloca o livro ao lado do bacalhau, com a prática instituída contemporaneamente pelas grandes redes de livrarias de cobrar uma taxa de destaque para que os livros fiquem expostos nas vitrines.
Em matéria publicada na Folha de São Paulo15, “Livrarias cobram para dar destaque nas vitrines”, encontramos um exemplo muito ilustrativo desse embate entre a aceitação e a denegação do caráter econômico da circulação de produtos dentro do campo literário. Perguntados sobre a cobrança, por parte das livrarias, de uma taxa que vai de R$ 700,00 a R$ 2.000,00 para garantir o destaque em posições estratégicas por períodos de 15 dias a um mês nas lojas, a assessoria de imprensa da Editora Rocco afirma que “não existe nada disso”, enquanto o diretor de vendas da Ediouro garante que “todas [as editoras] fazem isso”. Esse embate sobre a existência ou inexistência da prática tem como intuito realizar a manutenção da aura artística que cerca a mercadoria em questão. Isso fica claro com a afirmação da editora Boitempo, segundo a qual tal prática é “um contra-modelo, pois trata o livro como uma mercadoria entre outras”.
Para Lobato, agindo em um mercado incipiente e contando com uma distribuição precária, assumir o produto livro como “uma mercadoria entre outras” é uma estratégia importante para a implantação de condições favoráveis a seu empreendimento. Afinal, o livro é uma mercadoria, e talvez seja uma mercadoria mais vantajosa ao varejo do que aquele bacalhau, uma vez que, segundo Lobato, o varejista não precisa se preocupar com a qualidade da mercadoria ou sua divulgação (e, na proposta de Lobato de venda por consignação, nem sequer com um investimento inicial). Essa estratégia pode ser considerada inovadora na época de atuação de Monteiro Lobato, e foi seguidamente reforçada pela implantação de um projeto visual capaz de atribuir destaque ao produto:
Perfeitamente consciente do valor publicitário de uma atraente aparência externa de sua mercadoria, Lobato continuou a agir dessa maneira: “Chamei desenhistas, mandei pôr cores berrantes nas capas. E também mandei pôr figuras!”.
(HALLEWELL, 2005, p. 326) A ação de Lobato modificou as condições objetivas do campo literário, abrindo novos caminhos dentro de um mercado conservador, mais preocupado na manutenção das posições estabelecidas do que na criação de espaços para os recém-chegados. Neste sentido, há que se destacar também a predileção que Lobato teve em editar produtores que estivessem iniciando sua trajetória dentro do campo. É por este motivo que ele pode afirmar:
“Fui um editor revolucionário. Abri as portas aos novos. Era uma grande recomendação a chegada dum autor totalmente desconhecido – eu lhe examinava a obra com mais interesse. Nosso gosto era lançar nomes novos, exatamente o contrário dos velhos editores que só queriam saber dos ‘consagrados’.” Se algum destes se apresentava era polidamente dispensado: “Você já está graúdo, já tem nome. Arrume-se lá com o Garnier ou o Alves. Nós aqui somos para os que se iniciam”. [grifo meu]
(LOBATO apud HALLEWELL, 2005, p. 320) A ênfase no recém-chegado aí demonstrada poderá ser encontrada também na ação das incubadoras literárias, com a ressalva de que, no caso das incubadoras, não se faz necessário um grande investimento para a criação de um mercado ou de uma rede de distribuição, pois, como veremos, tais aparatos já estão dados dentro do campo literário contemporâneo.
Portanto, os processos de inserção de um recém-chegado nesse período do começo do século XX ainda dependiam de casos extraordinários, como é o caso de Lobato, ou da iniciativa individual dos produtores recém-chegados, sem que houvesse um conjunto de práticas estabelecidas e já trilhadas. É neste sentido que devemos interpretar a seguinte avaliação de Hallewell:
O fato de aparecer no livro o nome de um editor não exclui a possibilidade de o próprio autor ter assumido os custos da edição. Manuel Bandeira, por exemplo, pagou todas as edições de seus poemas até 1940. Houve até nomes fictícios de editoras, inventadas pelo autor para aumentar as chances de venda do livro, como as Edições Pindorama, cujo nome foi utilizado por diversos poetas de Belo Horizonte. Contudo, o público dos modernistas dos anos de 1920, como já indicamos, era tão limitado que, de modo geral, o máximo que podiam esperar era serem publicados em pequenas revistas, como Klaxon e Festa. Existiu de verdade uma Editora Klaxon de livros, mas, como a Pindorama, não passou de um conjunto de obras editadas por conta dos autores. Um vínculo efetivo entre a nova literatura e a nova atividade editorial só viria a estabelecer-se com o surgimento da José Olympio, em meados da década de 1930. [grifo meu]
(HALLEWELL, 2005, p. 325-326). Um dado interessante a ser ressaltado desse panorama é a noção, falsa, da trivialidade da autopublicação. Se no ciclo contemporâneo é fácil imaginar e listar as várias vias de autopublicação disponíveis dentro do campo editorial, há que se chamar atenção ao fato de que tais vias não são, historicamente, uma disponibilidade constante. Basta lembrar que até o estabelecimento de empreendimentos editoriais e oficinas gráficas economicamente independentes, os livros editados dependiam de uma permissão por parte
da Corte e de uma avaliação por parte da Inquisição (como é o caso, por exemplo, de Os Lusíadas).
A autopublicação, por mais corriqueira que nos pareça atualmente, trazia também entraves aos recém-chegados devido ao alto custo de produção em épocas sem as facilidades técnicas e industriais das quais o ciclo contemporâneo dispõe. Também cabe salientar que a autopublicação não é uma garantia de inserção dentro do campo literário, uma vez que uma obra, para circular dentro do campo, depende de fatores que vão além de sua existência enquanto objeto material. Sem a crítica, a recomendação e a distribuição ampla, uma obra autopublicada pode ter o mesmo impacto de um manuscrito engavetado.