Contrariamente aos Australopitecos, que não pertenciam ao gênero Homo, classifi ca-se nesse gênero duas espécies antigas e há muito desaparecidas, ambas bem diferentes do homem atual.
A primeira dessas espécies, às vezes contestada, é o Homo habilis, o homem ágil ou engenhoso, cujos traços encontrados no leste e no sul da África remontam há 3 milhões de anos. Sua capacidade craniana variava de 500 a 800 cm3, e seus restos de sua dentição atestam um regime onívoro. A ele são atribuídos os primeiros instrumentos fabricados intencionalmente, como as pedras lascadas. São pedras escolhidas por seu volume e sua forma, que sofreram a transformação mais elementar: foram confeccionadas pelo choque com outra pedra (percussão direta e indireta), com vistas a obter uma borda afi ada utilizada para fraturar, cortar, raspar. As lascas de formas variadas, resultantes do tamanho destes seixos, eram também utilizadas como faca, raspadores etc. (G. Burenhul, op. cit.).
A segunda dessas espécies, Homo erectus, o homem posto de pé, tem sua existência atestada entre 1,7 milhão de anos e 200.000 anos antes de nossa Era; é provável, todavia, que essa espécie se perpetuou mais tarde. Esses Homo erectus não eram tal qual vemos e compreendemos o homem de hoje. Seu volume craniano era da ordem de 1.000 cm3, o dobro daquele
História das agriculturas no mundo
dos Australopitecos, porém somente dois terços daquele do homem atual. Os ossos de seu crânio testemunham circunvoluções do cérebro pouco numerosas, logo um volume de matéria cinzenta relativamente reduzido e seu aparelho vocal, semelhante àquele do recém-nascido humano de hoje, não lhe permitia sem dúvida dispor de uma verdadeira linguagem articulada. De resto eram, às vezes, chamados Pitecantropos, ou seja, “macacos-homens”.
Os Homo erectus teriam aparecido no leste da África há 1,7 milhão de anos. Depois, aos 1,5 milhão de anos, eles teriam ocupado a maior parte desse continente e colonizado amplamente a Europa e a Ásia. Adaptados aos climas quentes e temperados, eles não podiam aventurar-se nas pla- nícies frias do Norte do mundo antigo e não puderam portanto chegar à América da extremidade oriental da Sibéria. Se eles ocuparam a Indonésia, então ligada ao continente, não puderam atingir nem a Austrália nem a Oceania, pois provavelmente ignoravam a navegação. Todavia, apesar de seus limites e lentidão, essa colonização se estendeu muito mais além do que a dos Australopitecos e dos Homo habilis.
Na Eurásia, os Homo erectus se confrontaram com longos períodos glaciais (de – 1,2 milhão a – 700.000 anos, de – 600.000 a – 300.000 anos e de – 250.000 a – 120.000 anos) e ocuparam, então, grutas e cavernas. Começaram, sem dúvida, a utilizar o fogo, cujos primeiros traços remontam há 500.000 anos, mas nesta época seu uso não era generalizado. Supõe-se que o fogo era então de origem natural (incêndios, raios, fogos espontâneos em pân- tanos etc.), e que se o Homo erectus sabia conservá-lo, não sabia produzi-lo. Desde sua origem, os Homo erectus fraturavam seixos e fragmentos de sílex para fabricar, tirando lascas de uma face, instrumentos com uma ou duas extremidades cortantes (uma lâmina em cada extremidade): trata-se de cortadores monofaciais, simples ou duplos. Foi somente um milhão de anos mais tarde, aproximadamente 700.000 anos antes de nossa Era, que apareceram, na Europa e na África, os primeiros instrumentos talhados nas duas faces, os bifaciais. No sudeste da Ásia, a indústria de seixos sumaria- mente talhados e instrumentos obtidos pela retirada de lascas em uma das faces durou muito tempo e pensava-se ainda há alguns anos atrás que essa parte do mundo não conhecera os bifaciais. Mas as descobertas recentes, pouco numerosas ainda, mostram que essa região conheceu, por sua vez, sem dúvida tardiamente, a indústria dos bifaciais. (I.-C. Glover, 1994).
No início, os bifaciais são muito grosseiros, seu perfi l é sinuoso e a pedra que lhe serve de matéria-prima não era talhada em toda a superfície. Mas a partir de 250.000 anos antes de nossa Era os bifaciais são mais fi namente talhados graças às técnicas de talhe cada vez mais elaboradas. Talvez o próprio Homo erectus tenha inventado esse procedimento muito efi caz de talhe de pedra chamado de talhe levaloisiano: enquanto que, até então, a forma fi nal de um instrumento era obtida por retoques sucessivos de
Marcel Mazoyer • Laurence Roudart
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uma determinada pedra escolhida para esse fi m, com o talhe levaloisiano, talha-se primeiro um tipo de grande bifacial, que é por sua vez desbastado em lascas com formas diversas e bem-defi nidas. Em seguida, cada uma das lascas serve, por sua vez, para fabricar um instrumento particular: ponta, raspador, faca, buril, trinchetes etc. É, no entanto, possível que se deva atribuir essas atividades aperfeiçoadas a precursores do Homo sapiens (Pré-neandertalianos ou Pré-sapiens).
Sabe-se pouco quanto à organização social dos Homo erectus. Parece entre- tanto, que a partir de 400.000 anos antes de nossa Era, ou até mesmo antes, que a caça aos grandes mamíferos isolados (elefante, urso, rinoceronte...) os tenha conduzido a organizarem-se em pequenos grupos de 5 a 10 caçadores, cada grupo de caça correspondendo a uma pequena comunidade de algumas dezenas de indivíduos. Esses grupos, geralmente nômades, estabeleciam acampamentos mais ou menos permanentes, e talvez edifi cassem alguns abrigos rudimentares.
Assim, contrariamente aos Australopitecos, os Homo habilis e os Homo
erectus tiveram uma verdadeira história técnica e cultural, que os levou dos
seixos simplesmente talhados aos bifaciais especializados, da predação simples à caça organizada de grandes animais, do nomadismo à ocupação de grutas e ao estabelecimento de abrigos. Supõe-se, além disso, que eles desenvolveram um mínimo de linguagem para comunicação. Sua história técnica corresponde ao paleolítico antigo (ou inferior), que é o mais longo período da Pré-história.