5 Methodology
5.4 Design cycle
Querer que tudo, absolutamente tudo, em uma paisagem, um recanto, uma civilização pertença a um sistema formado por relações contraditórias, não seria um sonho de fi lósofo centralizador? Não valeria mais a pena aceitar que esta paisagem, este recanto, esta civilização foram formados na sucessão de longas se- dimentações históricas, de elementos que pudessem ter tido relações de causalidade
ou de interdependência, mas que pudessem também não ter tido, e se justapuse- ram muitas vezes ao preço de desgastes mútuos? ... Será que os geógrafos – entre
outros – não deveriam ver o mundo como fecundo em questões e não como um sistema do qual acreditam possuir a chave?
Pierre Gourou, Riz e Civilisation
S
e o homem abandonasse todos os ecossistemas cultivados do planeta, estes retornariam rapidamente a um estado de natureza próximo daquele no qual ele se encontrava há 10 mil anos. As plantas cultivadas e os animais domésticos seriam encobertos por uma vegetação e por uma fauna selvagem infi nitamente mais poderosas que hoje. Os nove décimos da população humana pereceria, pois, neste jardim do Éden, a simples pre- dação (caça, pesca e colheita) certamente não permitiria alimentar mais de meio milhão de homens. Se tal “desastre ecológico” acontecesse, a indústria — que não está à altura de sintetizar em grande escala a alimentação da humanidade e não o fará tão cedo — seria um recurso paupérrimo. Tanto para alimentar vinte milhões de homens como para alimentar cinco, não há outra via senão continuar a cultivar o planeta multiplicando as plantas e os animais domésticos, dominando a vegetação e a fauna selvagem.Mas o retorno à natureza não passa de uma doce utopia e a indústria alimentícia uma quimera ainda não amadurecida. Da mesma forma a ideia, comumente admitida, segundo a qual o melhor meio de responder às necessidades futuras da humanidade seria estender ao planeta o gênero
Marcel Mazoyer • Laurence Roudart
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de agricultura motorizada, grande consumidora de nutrientes minerais, desenvolvida nos países industrializados há meio século, é também uma concepção enganosa. Com efeito, para dotar pelo menos um quarto dos agricultores dos países em desenvolvimento de meios de produção tão caros, seria preciso investir milhões e milhões de dólares, quer dizer, algo muito acima do arrecadado anualmente nesses países. Ora, isso evidentemente é impossível de ser feito em um curto prazo histórico. Além do mais, subs- tituindo homem por máquinas, esse gênero de desenvolvimento colocaria no mercado de trabalho os três quartos da mão de obra agrícola mundial, o que dobraria o número de desempregados no planeta. Em uma época em que ninguém tem a pretensão de dizer que o desenvolvimento da indústria possa extinguir o desemprego já existente, mensuramos as consequências econômicas sociais e políticas desastrosas provocadas por tal catástrofe.
A HERANÇA AGRÁRIA DA HUMANIDADE
Apesar dos milhões gastos em sua promoção, a agricultura “moderna”, que triunfou nos países desenvolvidos utilizando muito capital e pouca mão de obra, penetrou apenas em pequenos setores limitados dos países em desenvolvimento. A grande maioria dos agricultores desses países é muito pobre para adquirir maquinário pesado e grandes quantidades de insumos. Aproximadamente 80% dos agricultores da África, 40% a 60% dos da América Latina e da Ásia continuam a trabalhar unicamente com equipamentos manuais, e apenas de 15% a 30% deles dispõem de tração animal. A agricultura moderna está, portanto, muito longe de ter conquis- tado o mundo. As outras formas de agricultura continuam predominantes e ocupam a maioria da população ativa dos países em desenvolvimento.
É claro que entre essas agriculturas, as mais prejudicadas e as menos produtivas são inevitavelmente marginalizadas, mergulham na crise e são eliminadas pela concorrência das agriculturas mais poderosas. Mas aque- las que têm os meios para subsistir e progredir, revelam uma criatividade imensa e continuam a desenvolver-se segundo seus próprios caminhos. É um erro considerar essas agriculturas tradicionais e imutáveis, diferentes daquelas praticadas nos países desenvolvidos. Elas estão em transformação contínua e participam da criação da modernidade. E seria outro erro imaginar o desenvolvimento agrícola como uma pura e simples substituição dessas agriculturas pela única reconhecidamente moderna, a agricultura motorizada e mecanizada. Sem dúvida essa agricultura moderna se estenderá muito ainda e prestará imensos serviços. Entretanto, é difícil pensar que ela possa ser, ao mesmo tempo, adaptada ao mundo todo e sustentável a longo prazo, sobretudo se levarmos em conta o esgotamento provável das reservas de fosfato, das quais ela é uma fabulosa consumidora.
História das agriculturas no mundo
Tendo em vista o papel que deverão representar todas as agriculturas do mundo na construção de um futuro possível para a humanidade, é inquie- tante constatar como a opinião e os espíritos esclarecidos atuais estão dis- tantes das realidades agrícolas, e a que ponto aqueles que se encarregam da agricultura desconhecem toda a riqueza da herança agrária da humanidade.
Certamente, não faltam trabalhos que tratam de agricultura entre histo- riadores, geógrafos, antropólogos, agrônomos, economistas e sociólogos. Apesar da riqueza e do valor desses trabalhos, falta nesse terreno, ao que parece, um corpo de conhecimentos sintéticos que explique as origens, as transformações e o papel da agricultura no futuro do homem e da vida, em diferentes épocas e nas distintas partes do mundo; um corpo de conheci- mentos que possa, ao mesmo tempo, integrar-se à cultura geral e constituir uma base conceitual, teórica e metodológica para todos aqueles que têm a ambição de intervir no desenvolvimento agrícola, econômico e social.
De fato, para serem legítimos, os projetos e as políticas de desenvolvi- mento agrícola devem, sem sombra de dúvida, responder às necessidades das populações implicadas, estar certos de sua adesão e suscitar sua partici- pação, sem o que as intervenções não serão efi cientes. Mas devem também apoiar-se em uma real competência: do mesmo modo que um médico não saberia auscultar com segurança, fazer um diagnóstico e indicar um tratamento sem conhecimento prévio de anatomia, fi siologia, reprodução, crescimento e envelhecimento humanos, não saberíamos fazer a análise de uma agricultura, formular um diagnóstico e propostas apropriadas de projetos e de políticas de desenvolvimento sem nos apoiamos em um co- nhecimento sistemático sobre organização, funcionamento e dinâmica dos diferentes tipos de agricultura.
Este livro tem como objetivo tentar construir esse tipo de conhecimento, na forma sintética de uma teoria das transformações históricas e da diferenciação
geográfi ca dos sistemas agrários. Tal teoria avançaria apoiada em numerosas
observações diretas, sem as quais nada de original poderia ser concebido, mas também sobre observações referenciadas por outros e sobre uma sú- mula de conhecimentos históricos, geográfi cos, agronômicos, econômicos e antropológicos dos quais ela se enriqueceu consideravelmente no curso das últimas décadas. Uma teoria necessária para apreender a agricultura em sua complexidade, diversidade e movimento.