3. Teori
3.3 En sammensatt reguleringsstrategi
3.3.1 Påkrevd selvregulering: kombinasjon av direkte kontroll og selvregulering
Considerações Finais
Como já foi discutido anteriormente, a cidade de Caicó no ano de 2006 possuía 616 logradouros públicos, sendo 89 com denominação feminina. Ainda é oportuno destacar que além da superioridade numérica de espaços com nomes de pessoas do sexo masculino, também os locais e logradouros públicos de evidência na paisagem urbana de Caicó possuem nomes masculinos. E por último, descobrimos que a cidade só ganhou seus primeiros locais e logradouros públicos com nomes de mulheres caicoenses entre o final da década de 1960 e início dos anos 1970. Nesse sentido, notamos de modo inconfundível, na toponímia de Caicó, uma notória discriminação contra as mulheres. Assim, buscando compreender porque a cidade de Caicó só instituiu seus primeiros locais e logradouros públicos com nomes de mulheres, entre o final da década de 1960 e inicio dos anos 1970, optamos por começar discutindo as mudanças espaciais na cidade de Caicó, desde sua formação como vila, até os anos 1970. Neste sentido, ao discutirmos os significados e a função dos topônimos na formação e modificação da urbe, constatamos que as designações dos primeiros logradouros da cidade eram atribuídas pela população e muitos desses nomes foram escolhidos tendo como referência elementos da natureza, (Rua do Sol), prédios públicos, (Rua da Cadeia), igrejas, (Praça do Rosário), ou morador ilustre (Rua dos Medeiros).
Entretanto, com o passar do tempo muitos desses nomes foram substituídos, visando construir uma memória relacionada aos episódios sociais, políticos e econômicos de um período. Então, vamos encontrar na cidade de Caicó, durante o Império, a Rua Sete de Setembro, a Praça da Independência e a Rua da Independência. E com a consequente mudança do sistema político do Império para a República, as cidades brasileiras passaram a sofrer mudanças urbanas e as elites passaram a defender que o Brasil carecia se modernizar e buscar o progresso segundo o padrão europeu. Desse modo, os ideais de progresso e civilização inspiraram a elite de Caicó, as quais passaram a modificar a configuração urbana da cidade, a partir da edificação de prédios públicos.
Além disso, verificamos que a nomenclatura dos locais e logradouros públicos de épocas anteriores foi modificada. E os novos locais e logradouros públicos passaram a ser batizados com nomes de representantes do poder nacional (Praça Washington Luís), do poder local (Praça José Augusto) e do poder religioso (Praça D. José Delgado). Portanto, os locais e logradouros públicos de Caicó se tornaram recanto de homenagens aos detentores do poder secular do Estado e do poder religioso. Ainda é significante destacar que muitos desses
homenageados pertenciam a famílias tradicionais que ocuparam o poder político, econômico e religioso na cidade e no Estado. Ou seja, a existência de tributos a representantes do poder político e religioso e a indivíduos reconhecidos da comunidade local, nos leva a compreender que nomear é dotar certas pessoas de prestígio social e fazer delas modelos para a construção da identidade coletiva da cidade.
Também é válido frisar que a maioria dos locais e logradouros públicos possui nomes de homens que exerceram as funções de coronéis, capitães, intendentes, padres e bispos. Assim sendo, apesar do número de logradouros públicos com denominação feminina ter se acentuado enormemente a partir do ano de 1973, quando a cidade de Caicó só possuía duas ruas com nomes de mulher, não podemos deixar de destacar, a partir dessa diferença numérica, que a toponímia da cidade continua sendo um lugar de discriminação contra as mulheres
E as razões que explicam o fato das mulheres estarem ausentes da toponímia urbana de Caicó, até os anos de 1960, é que durante séculos predominou a idéia de que as mulheres tinham por função ficarem em casa cuidando dos filhos, sendo o trabalho realizado fora de casa relacionado com a ideia de miserabilidade. Também devemos lembrar que predomina a idéia de que a rua é um espaço caracterizado pela agressividade, infortúnio, hostilidade e combates; com isso, as pessoas do sexo feminino nas ruas eram vistas como indivíduos desprotegidos. Nesse sentido, a rua era considerada um espaço estritamente masculino, existindo assim uma lógica em batizar esses espaços com nomes de pessoas do sexo masculino. Lembremos também que durante gerações a mulher foi proibida de votar e ser votada, dessa forma, os representantes do poder público eram homens que homenageavam outros homens.
Entretanto, a partir dos anos de 1930 e 1940, as exigências das mulheres começaram a ser atendidas; a exemplo do direito de poderem votar e serem votadas, de ingressarem nas instituições escolares e de participarem do mercado de trabalho. Conforme a autora Mary Del Priore, a partir da segunda metade do século XX ―(...) o país viveu um momento de ascensão da classe média. Ampliava-se, sobretudo para as populações urbanas, as possibilidades de acesso à informação, ao lazer e ao consumo454‖. No tocante às transformações econômicas no Brasil, o presidente Juscelino Kubistchek programou um projeto desenvolvimentista, gerando um surto industrial, fato que contribuiu definitivamente para uma forte urbanização do Brasil. E em Caicó, as usinas de beneficiamento e comercialização de algodão estimularão o
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processo migratório de pessoas do campo e das cidades circunvizinhas para a cidade, em busca de novas oportunidades de trabalho, educação, saúde e lazer que acarretaram a expansão do seu sítio urbano.
Consideremos, que o aumento populacional e a expansão do sítio urbano de Caicó coincidiu com a ditadura militar e com a segunda onda do movimento feminista, o qual questionou a idéia de destino biológico reprodutor das mulheres. Para as feministas, as mulheres tinham o direito de vivenciarem sua sexualidade e afetividade. Assim, o surgimento da pílula anticoncepcional nos anos 1960, possibilitou as mulheres dissociarem a atividade sexual da reprodução, com um substancial ímpeto em suas vidas. Ou seja, a pílula anticoncepcional possibilitou que as mulheres pudessem ter uma vida sexual e escolherem ter ou não ter filhos, quando tê-los e quantos não tê-los. É ainda válido destacar que esse período será marcado pelo significativo ingresso das mulheres na escola e a sua entrada no mercado de trabalho. Entretanto, esse processo de qualificação fortaleceu a relação existente entre o gênero feminino e certas atividades profissionais vistas como atributos femininos. Portanto, vamos encontrar as mulheres caicoenses exercendo as funções de professoras, secretarias, vendedoras, lavadeiras, engomadeiras, babás e domésticas. Essas profissões são desvalorizadas socialmente por serem consideradas de menor habilidade técnica ou científica. Nesse sentido, há uma constante hierarquia de gênero destinando os melhores cargos e os maiores salários para as pessoas do sexo masculino.
As três primeiras mulheres caicoenses homenageadas e que tiveram seus nomes gravados na toponímia urbana de Caicó foram: Joaquina Dantas Gurgel, Generina Vale e Júlia Augusta de Medeiros. A partir da análise de suas trajetórias pessoais buscamos discutir as relações de gênero presentes na cidade de Caicó e suas transformações ao longo dos últimos cinquenta anos. Para isso, articulamos uma série de questionamentos visando orientar a pesquisa. Nesse sentido, as primeiras questões levantadas aqui foram as seguintes. - Quem eram essas três caicoenses? - Que lugares e espaços elas ocuparam em Caicó?
É importante lembrar que essas mulheres nasceram e vivenciaram muitas das alterações econômicas, sócio-culturais e políticas, conectadas com a ocorrência da Segunda Guerra Mundial, a qual teria promovido a abertura de espaços para as mulheres. Também é importante destacar que a Segunda Guerra Mundial e seus principais desdobramentos geraram importantes alterações na cidade de Caicó. Entre elas, as melhorias urbanas e o desenvolvimento de atividades no setor secundário, (usinas de beneficiamento), e terciário (lojas, escolas, hospitais, banco), as quais motivaram a gradativa incorporação das mulheres ao mercado de trabalho. Logo, as mulheres caicoenses passaram a serem vistas fazendo
compras em lojas, indo e vindo do trabalho e se divertindo nos cinemas, bailes e praças. Também é importante lembrar que a ativa entrada das mulheres caicoenses no espaço público estava vinculada ao reconhecimento delas como sujeitos, seja dando opiniões, seja refletindo, seja participando diretamente da vida política. Devemos ainda acrescentar que a expansão econômica da cidade, instituiu a necessidade de atividades e de serviços bancários. Assim, este processo estimulou, por exemplo, a utilização do trabalho feminino no Banco Rural de Caicó, tendo sido o cargo de gerente ocupado por Generina Vale, que a levou a ter destaque na cidade. Entre as justificativas utilizadas pelo prefeito Francisco de Assis Medeiros para batizar uma das ruas de Caicó com o seu nome foi, justamente, o fato da homenageada ter ocupado um cargo de chefia no Banco, espaço que geralmente era ocupado por pessoas do sexo masculino.
Também Júlia Medeiros ocupou vários espaços públicos, ao exercer o magistério, a atividade jornalística e a atividade política. Nesse sentido, podemos afirmar que ela ao ocupar esses espaços rejeitou as funções de mãe, esposa e dona de casa que eram consideradas como ―naturais‖ ao sexo feminino. Ainda é importante lembrar que a participação de Júlia Medeiros no magistério, sua participação na imprensa, suas práticas filantrópicas e o avanço do feminismo acabaram por abrir caminhos para que ela chegasse à Câmara Municipal, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo de vereadora na cidade. Nesse sentido, podemos afirmar que ela representa a mulher moderna, independente e voluntariosa. Ela tinha lucidez nas determinações, aventurou-se no mundo da razão e transitou em espaços reconhecidos como masculinos.
Já Joaquina Dantas Gurgel, a Mãe Quininha, representa a imagem da viúva perfeita, segundo os princípios morais e católicos, à medida que, mesmo tendo enviuvado muito jovem, permaneceu fiel à memória de seu esposo, mantendo o recato público e devotando-se à criação de seus filhos, tendo, para isso, que assumir a tarefa de provedora do lar. Ela simboliza a líder de família que, no entanto, para manter o respeito público e a autêntica autoridade diante da família e da comunidade, precisou se anular enquanto mulher, abrir mão de seus prazeres, de seus encantos físicos, de sua mocidade, de sua sexualidade.
Também devemos ressaltar que ela exerceu profissões que eram entendidas, naquele período, como as mais apropriadas ao sexo feminino, como a de costureira, artesã, doceira e parteira, atividades que no imaginário social do período, eram apreciadas como profissões apropriadas às mulheres. Nos papéis sociais que exerceu em vida encontram-se as justificativa para que a mesma tivesse seu nome perpetuado na toponímia da cidade. Sua vida simbolizaria valores como o cuidado com o próximo, a bondade, a caridade, o recato, o sacrifício, o
pioneirismo, a maternidade e a religiosidade, vistos socialmente como associados ao feminino. Ela representaria valores e possuía qualidades que deveriam ser seguidas pelas novas gerações de mulheres da cidade.
Nesse sentido, é pertinente aqui destacar que mulheres como Mãe Quininha, Generina Vale e Júlia Medeiros não temeram o seu presente, cheio de convencionalismos, incoerências e limitações. Enfim, devemos frisar aqui que essas três mulheres são fruto de seu tempo. Além de terem nascido e vivido no mesmo período, também foram contemporâneas no tocante às homenagens. A presença de seus nomes na toponímia urbana de Caicó marcou e simbolizou um processo de mudanças que vinha ocorrendo, no que se refere às relações de gênero e ao lugar ocupado pelas mulheres socialmente. Suas trajetórias de vida bastante singulares deixam perceber que já era possível às mulheres não apenas dar nome a espaços, mas ocuparem espaços e lugares antes proibidos para elas. Se foram pioneiras em ter seus nomes imortalizados na toponímia da cidade é porque souberam e tiveram coragem de ser pioneiras também em suas vidas.