5. Analyse
5.3 Prioritering og tilpasning
5.3.2 Et rammeverk for å håndtere den risikobaserte reguleringens utfordringer
Os dados do inquérito por questionário foram analisados por meio de duas técnicas estatísticas: abordagem descritiva (médias simples) e abordagem multivariada (análise fatorial de componentes principais - ACP).
Embora a abordagem multivariada (ACP) seja a técnica preferencial de análise do nosso caso de estudo, por ser uma abordagem mais sofisticada que permite maior robustez e profundidade dos
outputs e sua interpretação, recorremos também a uma análise descritiva mais simples que permite
uma primeira aproximação aos dados, para posterior complexificação e problematização dos mesmos. Esta escolha dupla, prendeu-se com o fato de a ACP não ter produzido a robustez (consistência interna das dimensões) aconselhada pela literatura para todas as dimensões de análise (Alpha de Cronbach > 0.60), como será explicado no ponto 3.3.1. Análise Multivariada dos Dados. Dito isto, esta análise é estatisticamente válida e correta e, por isso, optámos por apresentá-la, até porque nos ajuda a ir mais longe nalgumas questões que só assim seriam levantadas, em particular sobre implicações para futuras investigações neste campo de abordagens quantitativas de medição de realidades sociais subjetivas, que complementem as qualitativas.
3.3.1. Abordagem descritiva dos dados
Antes de iniciar a abordagem descritiva dos dados, convém referir que para análise dos mesmos recorremos ao programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), software de análise
estatística e tratamento de dados, particularmente vocacionado para as Ciências Sociais (Martinez e Ferreira, 2007). A versão utilizada foi o SPSS 14.0.
3.3.1.1. Caracterização da amostra (ver Anexo 3)
A amostra é constituída por 95 indivíduos moradores em três freguesias do concelho de Lisboa, que são uma aproximação formal e administrativa ao bairro da Mouraria. Destes, 55 (58%) residem na freguesia de Socorro (o “coraçao” da Mouraria), 20 (21%) residem na freguesia de S. Cristóvão/S. Lourenço e os restantes 20 (21%) residem na freguesia limítrofe dos Anjos (a que pertence o Largo do Intendente) (Figura A3.1, Anexo 3).
Dos 95 inquiridos obtiveram-se 87 respostas validadas, representando 92% do total. As 8 respostas não validadas referem-se a casos em que os inquiridos responderam que não tinham ouvido falar do Plano de Regeneração da Mouraria da CML (PrM) e/ou das obras de melhoria do bairro. Estes números mostram bem a visibilidade do PrM no território, nem que seja, como aconteceu muitas vezes, pelo seu lado de obra urbana no espaço público.
Das 87 respostas validadas, 59 (68%) referem-se a moradores que não são naturais da Mouraria e as restantes 28 (32%) referem-se a moradores naturais da Mouraria, conforme a Figura A3.2 (Anexo 3). Estes números refletem bem a história de fixação demográfica do bairro, com a maioria da sua população a vir de fora, por via de fluxos migratórios que caraterizaram o país e a cidade Lisboa durante a 2ª metade do séc. xx. Cidades secundárias e do interior procuraram a capital à procura de melhores condições de vida, conforme visto na história sobre o bairro apresentada anteriormente.
A Figura A3.3 (Anexo 3) apresenta a distribuição dos 87 respondentes validados por tempo de residência na Mouraria. A maioria dos inquiridos, 45 (52%), reside na Mouraria há mais de 20 e menos de 50 anos; 30 inquiridos (34%) residem na Mouraria há 20 anos ou menos; e 12 (14%) há mais de 50 anos. De salientar que mais de ¾ dos respondentes vive na Mouraria há mais de 10 anos refletindo, portanto, uma forte fixação da população residente inquirida. A média do tempo de residência na Mouraria é de 30 anos e o percentil 75 localiza-se nos 45 anos.
Relativamente ao género, 39 (45%) respondentes são do sexo feminino e 48 (55%) são do sexo masculino, conforme a Figura A3.4 (Anexo 3).
têm até 35 anos de idade e 20 (24%) têm mais de 65 anos. A idade média dos respondentes é de 53 anos e o percentil 75 localiza-se nos 65 anos, o que revela uma população residente envelhecida, de acordo com o perfil do bairro. A Figura A3.5 (Anexo 3) apresenta a distribuição dos respondentes por grupo etário.
A Figura A3.6 (Anexo 3) apresenta a distribuição dos respondentes por grau de escolaridade. Dos 87 respondentes, 68 (78%) possuem até a escolaridade mínima obrigatória, sendo que apenas 15 (17%) tem graduação superior e apenas 4 (5%) possuem curso médio/profissional.
A distribuição das ocupações profissionais é muito diversificada mas pouco qualificada. Há registo de 10 desempregados e 24 reformados (totalizando 39% dos respondentes), o que corrobora a realidade de bairro com fragilidades sociais.
No que respeita à composição do agregado familiar, 49 (56%) respondentes vivem sozinhos ou num agregado com dois elementos, conforme os resultados apresentados na Figura A3.7 (Anexo 3). Apenas 8 (9%) vivem em agregados com mais de 4 elementos. O número médio de elementos do agregado familiar é 2,6 e o percentil 75 localiza-se em 4.
Quanto à nacionalidade dos respondentes, 79 (91%) são portugueses e 4 (5%) são naturais de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Há ainda dois cidadãos italianos, um espanhol e um nepalês (nota: os Censos de 2011 revelam que 28% dos moradores das duas maiores freguesias da Mouraria [Socorro e S. Lourenço-S. Cristóvão] são estrangeiros; admitimos que a pouca expressão de estrangeiros que obtivemos se pode dever a alguma dificuldade em inquirir esta população pois grande parte não fala, ou fala mal, português) (Figura A3.8, Anexo 3).
Finalmente, no que respeita ao rendimento anual líquido do agregado familiar é de salientar que 37 (43%) inquiridos não responderam a esta questão. Dos que responderam, 28 (32%) auferem menos de 10.000 Euros anuais e 44 (51%) auferem menos de 30.000 Euros anuais. Apenas 6 (7%) declararam auferir mais de 30.000 Euros líquidos anuais, conforme se pode verificar na Figura A3.9 (Anexo 3). Note-se que a renda mínima anual bruta nacional é de cerca de 10.000 Euros.
Em resumo, os inquiridos residem maioritariamente na freguesia do Socorro, no coração da
Mouraria e cerca de 1/3 são naturais do bairro. Cerca de 2/3 dos inquiridos residem na Mouraria há mais de 20 anos, o que revela uma tendência forte para a fixação das populações locais. Há, no entanto, um grupo com alguma relevância de novos moradores, eventualmente atraídos pelas novas potencialidades existentes no bairro, sua centralidade e, até então, preços da habitação mais
atrativos quando comparados com outros bairros do “centro histórico” de Lisboa nobilitados (Chiado, Baixa, Alfama, Castelo S. Jorge).
A amostra é equilibrada em termos de género mas revela uma população algo envelhecida, com cerca de ¼ dos inquiridos com mais de 65 anos. Menos de 1/5 dos inquiridos são jovens até aos 35 anos.
Os inquiridos possuem maioritariamente um grau de escolaridade baixo, aparentemente compatível com a estrutura etária da população residente e sua realidade sócio-cultural. No entanto, quase 1/5 dos inquiridos têm formação de nível superior.
Os agregados familiares têm uma dimensão média mas mais de ¼ são indivíduos sozinhos.
A grande maioria dos inquiridos tem nacionalidade portuguesa. Finalmente, embora quase metade dos inquiridos não tenham referido o nível de rendimentos do agregado familiar, cerca de 1/3 declararam ter um nível de rendimentos baixo.
Concluindo, consideramos que a amostra reflete bastante bem o perfil, conhecido, do bairro. De fato, houve um grande cuidado no trabalho de campo para que isso se verificasse.
3.3.2. Outputs: percepções dos moradores e suas interpretações
Nesta secção, faremos a análise e (uma) interpretação dos resultados do inquérito por questionário, complementada pela informação recolhida nas 32 entrevistas realizadas. Esta interpretação será feita à luz de todo o conhecimento que alcançámos durante este tempo sobre o bairro da Mouraria e em diálogo frequente, sempre que possível e relevante, com a literatura estudada.
A primeira sensação que nos invadiu de forma imediata e forte através da fala transversal dos moradores da Mouraria e, confessamos, com alguma surpresa inicial, foi a de que não lhes é nada estranho um forte “espírito de lugar” e de “orgulho local” (Fortuna, 2011), caraterísticas que se dissipam em contextos urbanos mais amplos e de mais acentuada mobilidade de pessoas e mercadorias, mesmo aceitando que seu bairro tem diversas problemáticas que produzem uma imagem negativa para quem os olha de fora (marginal, degradado, pobre).
de símbolos culturais e históricos que assumem como seus e que remetem para a história da própria cidade (mitos, lendas, tradições) –, e atribui um sentido de existência do bairro e de si mesmos num contexto de representações do centro histórico de Lisboa ou, até, da própria cidade total.
Na fala dos moradores, percebe-se que a centralidade do bairro, seu lugar de “berço do Fado” (disputado com Alfama), seus mitos e lendas, por exemplo, da Severa (a prostituta a quem é atribuída a origem do fado) e do Martim Moniz (figura militar a quem lendariamente é atribuído o sucesso da conquista da cidade de Lisboa aos Mouros), sua tradição boêmia e as suas fortes redes de vizinhança e afetos pouco comuns em contextos urbanos contemporâneos e potenciada por histórias partilhadas de migração do interior para a grande cidade nos anos 1940/50/60 e por dedicação a profissões semelhantes (as peixeiras, as vendedoras de flores, as criadas, os fadistas, etc), são os fatores que mais são lembrados e ativados para construir/afirmar a importância do bairro e, até, sua superioridade em comparação com outros “bairros populares”, em constante disputa. Os moradores parecem reproduzir, assim, uma certa narrativa estetizada e patrimonializada da Mouraria. Já Cordeiro (2003), como vimos anteriormente, reconhece que certos bairros, certas atividades profissionais, certas festividades, certas sonoridades, em conjunto, contribuem para a criação de uma auto e hetero imagem do lugar “bairro popular”/ “típico”, que se confunde com seus moradores num processo de construção cultural do popular urbano. No nosso entendimento, e com base nas conversas que tivemos, os moradores da Mouraria interiorizaram esta narrativa do “típico” e “popular” e vêem-se e assumem-se (também) dessa forma.
Embora este seja um discurso mais ou menos transversal, não podemos induzir o leitor no erro de que a Mouraria é una no seu espaço, na sua rede social e na sua auto-imagem. Muito pelo contrário. O discurso atrás reproduzido está muito ligado aos “filhos do bairro” Menezes (2012) , por um lado, e, por outro, a moradores mais recentes, tendencialmente mais jovens e que vieram em busca, exatamente, dessa simbologia do “popular” e seus modos de convivência cotidiana, representado num ideal de vida comunitária, simples e autêntica de “bairro” (“marginal
gentrifiers”?40 (Malheiros et all, 2012), voltaremos a este tema mais à frente, no ponto sobre nobilitação). Mas os “filhos do bairro” (os de dentro), olham hoje para a Mouraria também com um outro olhar de estranhamento, pela descaracterização e transformação que o bairro viveu nas 40 “Referindo-se aos gentrifiers pioneiros, Rose (1984) desenvolveu o conceito de “marginal gentrifier”,
conceptualizando-os como algo específico, distinto da gentrification mainstream e dos seus protagonistas-tipo. Este movimento, designado como “marginal gentrification”, corresponde, grosso modo, a franjas menos privilegiadas das novas classes médias, que apresentam uma significativa clivagem entre um capital escolar e cultural elevado e um nível mais baixo de capital económico.(...) Particularizando, valoriza as áreas antigas da cidade centro pelo seu urbanismo distintivo, pela sua arquitetura típica e pelos seus bairros históricos tradicionais, pelas “suas gentes” genuínas, pelo seu cosmopolitismo e pelo seu comércio de proximidade e de pequena escala” (Mendes et al., 2012, p.
últimas décadas, em particular pelo aumento da diversidade étnica, que parece diminuir a tal intensidade do “popular” e “típico”. Dinâmicasde alteridades num bairro que se promove “multicultural”.
Na verdade, a Mouraria está longe de produzir uma visão una e homogénea. Num bairro com 28%41 de população imigrante (Lisboa tem 8,7%42), homogeneidade é de fato difícil. Conforme Mendes (2012) coloca, “há várias Mourarias”, isto é, apesar dos discursos progressivamente associados ao bairro, não se encontra um consenso sobre a Mouraria, sobretudo naquilo que é a valorização e promoção da sua identidade, interna e externa. A dissonância mental e emocional sobre o que é a Mouraria revela-se um denominador comum, seja ao nível do seu território, dúvidas nas suas fronteiras ou falta de identificação com as imagens produzidas e veiculadas. Ou seja, há uma diversidade de visões e formas de conceber a Mouraria.
Menezes (2012)43 também concorda com a existência de várias Mourarias, sublinhando que existe “uma dimensão popular, metropolitana, bairrista, patrimonial e marginal e também a
negação de tudo isso”. A Mouraria é quase como um caleidoscópio de imagens, algumas vêm do
passado e a elas se vão acoplando outras, no jogo complexo das permanências e mutações do espaço urbano.
A convergência ou divergência de visões da Mouraria, por dentro e por fora, de quem a visita, de quem a retrata e de quem a habita, não deixa de ser um retrato ao mesmo tempo real e imaginado do bairro. Existe a Mouraria de degradação e reabilitação, de tradições e transformações, de autóctones e imigrantes, e existe a Mouraria idealizada, romantizada, turística, cosmopolita, inventada, e ambas coexistem no mesmo lugar.
Também ao nível da compreensão cognitiva e emocional dos limites do bairro há disputas interessantes. Enquanto visto de fora o Bairro parece ser percepcionado como “uma” Mouraria (espacialmente), embora não se saiba muito bem onde começa e termina, visto de dentro, as leituras não são tão simples.
De fato, há várias Mourarias: construções mentais, emocionais e simbólicas do bairro confirmadas pelo nosso trabalho de campo junto dos moradores. “A Mouraria é só essa parte aqui” foi uma frase ouvida nas conversas que fomos tendo com as pessoas do bairro (sendo o “só essa parte aqui” em referência apenas ao pedaço do centro histórico da Mouraria). Nesta aproximação à 41 Censos 2011. Jornal Rosa Maria, nº 5.
42 Censos 2011. Instituto Nacional de Estatística (INE). 43 Entrevista Jornal Rosa maria, nº 5, 2013.
realidade material do bairro da Mouraria feita a partir de dentro, a definição do bairro pareceu-nos, por vezes, mais fragmentada do que a que de fora se tem. Embora uma visão mais abrangente e una da Mouraria também seja possível para seus moradores, ela não impediu, contudo, que em certas situações algumas subdivisões tenham surgido claramente, como se de micro-bairros se tratassem, sendo três as zonas que mais se opõem: Mouraria (Socorro), S. Cristóvao-S.Lourenço e Martim Moniz (e, mais recentemente, Intendente) (ver Fig. 2 - Introdução).
Interessante observar que parece existir uma certa hierarquia social e simbólica, estando S. Cristóvão-S. Lourenço no topo dessa hierarquia e Martim Moniz e Intendente no final. Martim Moniz entra nestas representações como o lugar do “outro” que está dentro (o imigrante), enquanto que Intendente é representado como o (antigo?) locus da marginalidade, já que era onde se concentravam os fenômenos de droga e prostituição. Hoje símbolo da renovação do bairro, por quem olha de fora, já que foi alvo da intervenção mais visível de todo o bairro, incluindo instalação de arte pública de Joana Vasconcelos, e foi tomado simbolicamente pelo poder público durante a intervenção (o Gabinete do Presidente da CML transferiu-se para o local). Porém, Intendente e Martim Moniz, não são entendidos como Mouraria, pelo menos pelos moradores autóctones.
Depois dessas primeiras sensações das evidências empíricas, nos lancemos, então, na análise mais objetiva do questionário. Comecemos pela questão de percepção geral sobre o PrM e seus efeitos, conforme representado na Figura 11.
Percepção Global dos Impactos do PrM
Numa primeira fala, os moradores são bastante indiferentes e inócuos ao tema, como que se a intervenção também não lhes provocasse nenhuma sensação em particular, muito menos de mudança. De forma geral, todos gostam de mostrar que conhecem o PrM e ainda melhor seu bairro e respetivas necessidades. A ideia mais unânime numa apreciação geral do PrM é a de que, embora lhe reconheçam valor e boa vontade, duas questões se levantam: um, não sentem que tenha impactado na melhoria da sua vida individual; dois, acham que muita coisa ficou por fazer, principalmente em relação às condições de habitabilidade dos moradores, à recuperação do edificado e a melhoria do espaço público e equipamentos culturais e sociais. Mas todos são unânimes em reconhecer que o PrM foi positivo para o bairro e que é bom que tenha sido executado. Ou seja, sentem uma necessidade profunda de melhorias no bairro (constantemente referenciado como “esquecido”, “abandonado”), por isso lhes agrada a intervenção (“está mais bonito”, “eu gosto da minha Mouraria agora”), mas sentem que não foi suficiente. Interessante
verificar que as duas dimensões melhor classificadas na pergunta sobre a avaliação global percepcionada dos impactos do PrM foram “embelezamento do bairro” (39%) e “mais turistas
no bairro” (37%), conforme Figura 11, abaixo reproduzida.
De fato, com base no output representado na Figura 11, quando questionados sobre sua percepção do impacto geral do PrM num conjunto de aspetos sócio-espaciais, escolhendo os dois que consideravam os mais relevantes, os moradores selecionaram maioritariamente o
“embelezamento do bairro” (39%) e “mais turistas no bairro” (37%).
Figura 11 – Percepção do Impacto Global do PrM
É interessante notar que tal percepção revela uma primeira tendência dos moradores para associarem o PrM a uma “operação de cosmética” do bairro, como também referido nas entrevistas, essencialmente vocacionada para não moradores, como é o caso dos turistas ou visitantes de outras partes da cidade de Lisboa, como é possível inferir também da percentagem de inquiridos (23%) que optaram por considerar que o PrM confere maior abertura do bairro à cidade.
Porém, ao mesmo tempo, há um claro orgulho em ter um bairro “mais bonito” e mais visitado pelo “outro” (sendo aqui a questão da alteridade representada pelo que vem de fora – o visitante; forma diferente de “o outro” imigrante que convive no bairro). Ou seja, fica claro que, para os moradores, uma operação de embelezamento do bairro não impacta positivamente dimensões funcionais e objetivas da sua vida, mas podemos concluir que existem dimensões subjetivas de “percepção positiva do seu lugar”, “reputação”, “auto-estima”, entre outras, que são positivamente acionadas (conforme veremos na medição destes respetivos indicadores). Importante lembrar, como
Abertura do bairro à cidade Embelezamento do bairro Mais cultura no bairro Mais oportunidades no bairro Mais apoio social no bairro Mais turistas no bairro
0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 40% 45% 23% 39% 14% 14% 29% 37%
nota Evans (2005) que benefícios e impactos subjetivos positivos podem acontecer numa comunidade, em especial em lugares com alguma simbologia, por haver maior cuidado com o “legado” dessa comunidade e seu território e a recuperação do prestígio de equipamentos, lugares, símbolos, mesmo que a população local não faça uso deles e/ou não retire benefícios individuais (ou nem tenha interesse objetivo sobre eles), mas vêem valor para “outros” e sentem orgulho na transformação do seu espaço e na melhoria da sua reputação externa.
Como se verá mais adiante, há outros indicadores que nos remetem para percepções negativas ou não positivas face ao PrM, no que diz respeito ao cotidiano dos moradores e sua vivência do bairro e seus espaços.
Daqui decorre que os responsáveis pelo PrM não podem deixar de ter em consideração este facto e atuar em conformidade num futuro próximo, seja através da melhoria da comunicação com a população, aumentando o conhecimento dos residentes sobre algumas das reais preocupações que estão subjacentes a esta intervenção e que não são do conhecimento geral, seja pelo ajustamento do programa onde ainda for possível.
Também é relevante a percentagem de inquiridos (29%) que referem que o PrM gera “mais
apoio social” aos moradores da Mouraria, o que é um reconhecimento da dimensão social do
projeto, numa lógica de regeneração também do lado humano do território e particularmente importante para os grupos de risco ou mais carenciados. Conforme vimos, o PrM tinha uma clara intenção de intervir no sentido da “revitalização social” do bairro, com um plano e uma equipa desenhados especificamente para tal – o PDCM e o GABIP/Mouraria – e esta avaliação dos moradores é um primeiro reconhecimento desse caminho já percorrido. No entanto, não podemos deixar de notar que, em termos da percepção dos moradores, aparece atrás de dimensões mais viradas para fora como é o caso do turismo.
Nas antípodas do acima mencionado, os aspetos relevantes menos selecionados são “mais
cultura no bairro” (14%) e “mais oportunidades no bairro” (14%). Ou seja, o que deveria ser
estruturante para favorecer a capacitação da comunidade – cultura e novas oportunidades – não aparece como relevante em termos de impacto (no sentido de melhoria) da implementação do PrM.
No caso da categoria “cultura” esta classificação tão baixa parece-nos paradoxal de alguma forma e levanta algumas questões.
reabilitado, que caia na categoria mais tradicional e mais visível de infra-estruturas culturais (museu, biblioteca, teatro, etc.), o que dificulta a materialização objetiva de “mais cultura” no bairro, por parte dos moradores. Quando confrontados com essa realidade, os moradores são praticamente unânimes em afirmar que não têm novos equipamentos ou ofertas culturais para usar no bairro, como pode ser visto no gráfico de rede que inclui a representação desta dimensão de análise (Fig.12, em baixo).
Nossa hipótese é a de que a ativação cultural operada no bairro pelo PrM, seja através da reinvenção das tradições (Fado, por exemplo), seja pela reabilitação ou valorização de equipamentos e/ou lugares (percurso turístico-cultural, por exemplo), seja ainda pelo novo calendário de atividades culturais (festivais, concertos, “evening economy”, etc.), embora não sendo promotora ostensiva da exclusão dos moradores tradicionais da Mouraria, também não é a eles primordialmente dirigida. De fato, entendemos que esta utilização instrumental da cultura é de cunho turístico e economicista, no sentido de promover, quer uma nova “economia da cultura” no bairro, quer a atração de visitantes de fora que participem numa nova dinâmica de consumo(s) no