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4. Methods and Theory

4.3 Climate proxies

4.3.1 Oxygen isotopes

A história da descolonização belga ficou marcada por uma sucessão de acontecimentos que tiveram lugar a partir do ano de 1955. O primeiro desses acontecimentos foi a visita a Leopoldville do rei belga, Balduíno I, em Maio desse mesmo ano. Esta visita suscitou, inicialmente, uma enorme expectativa, quer aos africanos quer aos europeus203, no entanto, posteriormente, traduziu-se numa profunda desilusão cujo

catalizador foi um discurso decepcionante marcado pelo seu carácter profundamente

200 NDAYWEL, Isidore, Histoire génerale du Congo, p. 312.

201 Sobre esta questão importa esclarecer que dentro dos princípios “paternalismo” estabelecidos por Bruxelas, a vida das populações congolesas passou a ser pautada pelas autoridades. As povoações foram transferidas para junto das estradas, perderam as suas características peculiares, ao homem impôs-se o trabalho nas grandes empresas ou a cultura de determinados géneros alimentícios ou de exportação, repartindo-se os ganhos por via administrativa. As danças tradicionais foram, em quase todo o Congo, consideradas obscenas e, como tal, proibidas. A educação confinada às missões foi limitada à instrução primária. Sob os princípios do paternalismo os belgas impuseram ao Congo uma planificação que pautava, até ao absurdo, a vida privada dos nativos. Bruxelas manteve e defendeu uma segregação racial intransigente e obstinada. SANTOS, O Problema da África Actual, p. 11.

202 Relativamente a este aspecto pode-se ainda acrescentar o seguinte: O sistema belga de colonização, baseado ao mesmo tempo no assimilacionismo de marcha lenta e no preconceito de separação das raças encontrava-se dilacerado entre múltiplas contradições. Parecia-se mais ou menos, com o sistema inglês e francês, de cujas características híbridas conservava sobretudo os defeitos. KI-ZERBO, História de África-Vol.

II,, p.234.

203 Com efeito, enquanto os brancos esperavam concessões de maiores facilidades para a exploração dos recursos naturais da colónia e para apresentarem numerosas reclamações contra a administração colonial que estaria a abrandar as medidas repressivas contra os africanos, os congoleses esperavam precisamente o contrário. Aguardavam uma melhoria substancial das suas económicas e sociais e sobretudo o abrandamento da segregação racial. SAPIM, Francisco, A Luta pela Independência Catanga, p.73.

assimilista. Mais tarde, em Dezembro do mesmo ano, foi apresentado um plano para trinta anos que tinha como objectivo a emancipação política da África Belga. Este plano, elaborado pelo professor belga A. J. Van Bilsen204, professor do Instituto Ultramarino de

Antuérpia, economista e sociólogo de renome internacional, insistia na formação prévia de quadros, que garantissem uma transferência gradual de responsabilidade e de autoridade para as populações locais, e ainda, no estabelecimento de um sistema político federal baseado numa constituição que considerasse as particularidades étnicas, económicas, sociológicas e políticas da região205. Em Julho de 1956, o grupo Conscience Africaine, fundado

pelo Abade P. Joseph Maloula206 e animado por Joseph Iléo207, editou um manifesto no

qual expressava claramente a abolição da discriminação racial, o reconhecimento da personalidade africana e o direito à liberdade de expressão e cultural. Pouco tempo depois da publicação deste manifesto, a Association du Bas-Kongo (ABAKO)208, uma associação cultural do grupo étnico bacongo209, fundada em 1950 e presidida por Joseph Kasavubu210,

reivindicava uma maior emancipação política através da constituição de partidos políticos congoleses211.

Em 1957, a potência colonial belga organizou, pela primeira vez na história do Congo Belga, uma eleição popular, no entanto, o escrutínio não obteve o resultado pretendido; esta situação em vez de apaziguar as reivindicações populares ainda as acicatou mais. Mas foram os acontecimentos de 1958 que contribuíram para a aceleração do processo da independência. A Exposição Universal de Bruxelas foi o primeiro desses acontecimentos; esta reuniu no mesmo espaço os representantes de várias etnias e grupos culturais do Congo, permitindo a estes uma tomada de consciência relativamente à situação de “inferioridade” em que viviam e, ainda, motivá-los para uma vontade intrínseca de fazer

204 A publicação do “Plano Van Bilsen” originou profundas discussões na Bélgica e no Congo, onde ficou patente o extremismo das posições tomadas pelos colonos brancos enquanto os congoleses não deixaram fugir a oportunidade de o discutir apaixonadamente. Cit por. SAPIM, Catanga, p. 73.

205 KI-ZERBO, História de África vol.II, p. 236. 206 Bispo Auxiliar de Leopoldville em 1959.

207 Nasceu em 1922, em Leopoldville, seus pais eram originários do norte do Congo, fez os seus estudos de filosofia e de sociologia sendo depois encarregue do ensino de diversos cursos para africanos. Desenvolveu grande actividade no desenvolvimento do Instituto de Pesquisas e de Estudos Sociais instalado na Universidade de Lovanium ao mesmo tempo que era funcionário do “Office des Cites Africaine” (1959). Foi o redactor do referido manifesto. Chegou a ser encarregado, após a demissão de Lumumba, de constituir governo apesar de ter sido deposto rapidamente pelo primeiro golpe de estado de Mobutu. Em 1961 tentou, novamente, sem êxito constituir um governo de União Nacional. SAPIM, Catanga, p. 181-185.

208 Ver Anexo G (PRINCIPAIS PARTIDOS POLÍTICOS CONGULESES E CATANGUESES)

209 O Grupo étnico Bakongo habita uma extensa área desde as cidades de Leopoldville e Brazaville (Congo- Francês) até ao Oceano Atlântico, abrangendo o norte de Angola, uma parte do Congo-Brazaville e todo o Baixo-Congo. SAPIM, Catanga, p. 88.

210 Ver Anexo H (PRINCIPAIS INTERVENIENTES)

211 KI-ZERBO, História de África vol. II, p. 236; Ver também o Anexo D (PARTIDOS POLÍTICOS CONGOLESES E CATANGUESES).

algo para mudar as condições a que estavam sujeitos. Outro acontecimento importante foi a visita do General De Gaulle212 a Brazzaville, capital da actual República Popular do Congo que, num discurso efectuado no dia 24 de Agosto de 1958, ofereceu a independência às colónias francesas. As consequências no vizinho, Congo Belga, não se fizeram esperar, tendo os principais dirigentes políticos congoleses assinado uma petição213,

exigindo um plano que fixasse as diferentes etapas do processo de descolonização e a emancipação total do Congo214. Em Dezembro de 1958, em Acra, capital do Gana, teve lugar a Conferência Pan-Africana dos Povos Africanos, onde estiveram representados os movimentos independentistas do Congo, da África do Sul e de Angola. Nkrumah215

apresentou aí as quatro fases a serem respeitadas na luta africana: obter a liberdade e independência, consolidá-las, criar a unidade e a comunidade dos Estados Livres de África, proceder à reconstrução económica e social do continente africano216. Nesta conferência o povo congolês foi representado pelos líderes do Movimento Nacional Congolês (MNC), liderado por Patrice Emery Lumumba217, que obteve um impressionante sucesso pessoal,

em virtude de ter optado por um discurso altamente inflamado contra o poder colonial. Esse discurso constituiu um momento marcante uma vez que, representou o primeiro programa de acção estabelecido por um líder congolês contra o poder colonial. De regresso ao seu país, Lumumba foi recebido como herói nacional, tendo repetido o discurso perante uma multidão de congoleses, reivindicando, uma vez mais, a independência imediata do Congo218. Lumumba, através da sua acção política, foi apontado pelas autoridades colonizadoras como o principal responsável pelos tumultos populares, entre os diferentes

212 General e Estadista Francês (1890-1970). Encabeçou em Londres, por ocasião do armistício de 1940, a resistência francesa contra a Alemanha. Chefe do Governo provisório na Argélia, depois em Paris (1944- 1946), abandonou o poder, fundou a Reunião do Povo Francês (1947), e retirou-se, depois, da vida pública (1953). De volta ao poder em consequência dos acontecimentos da Argélia (1958), fez aprovar, por referendo, uma nova Constituição e tornou-se Presidente da Republica tendo renunciado em 1965. KOOGAN; LAROUSSE; SELECÇÕES, Dicionário Enciclopédico, vol. II, p. 1236.

213 Esta petição foi apresentada ao Ministro do Congo Pétillon. Ki-ZERBO, História da África Negra vol. II, p.237.

214 KI-ZERBO, História da África Negra Vol. II, pp. 236-237.

215 No dia 30, às zero horas, deixou a cidade de Acra e as suas funções o último governador-geral inglês do Ghana. NKrumah assume a presidência da república. GOMES, Matos, África em Chamas, p. 297.

216 Cit Por, GARCIA, Análise Global de uma Guerra, p. 61; Importa ainda esclarecer que esta foi a segunda conferência de Acra, a primeira decorreu em Abril do mesmo ano, sob a iniciativa de Nkrumah e de George Padmore seu conselheiro – reuniu representantes da África do Norte e da África Negra. Desta conferência destacam-se as duas moções votadas referentes à política africana: a primeira moção, de política geral, reafirmava a fidelidade à Carta das Nações Unidas, à Declaração Universal dos Direitos do Homem e à Declaração da Conferência de Bandung, denotando, deste modo, um forte sentido de unidade em relação ao Ocidente. No entanto, a segunda moção votada preconizava que deveria ser marcada uma data precisa para a independência de cada um dos territórios ainda sob domínio colonial. Cit Por, GARCIA, Análise Global de uma

Guerra, p. 60.

217 Ver Anexo H (PRINCIPAIS INTERVENIENTES). 218 KI-ZERBO, História da África Negra vol. II, p. 237.

grupos étnicos, que marcaram o ano de 1959219, tendo sido preso em Novembro do mesmo

ano.

Finalmente, de vinte de Janeiro a vinte de Fevereiro de 1960, as autoridades belgas convocaram todos os chefes políticos congoleses220 para uma mesa-redonda organizada em Bruxelas, com o objectivo de discutir o futuro da colónia. Os dois principais pontos da reunião foram a calendarização da independência e a constituição de um Estado Independente. Relativamente à primeira questão, a data fixada foi trinta de Junho de 1960, data esta que surpreendeu toda a opinião pública internacional, face ao favorecimento que os belgas garantiram à aceleração de todo o processo. No que concerne à segunda questão, e face às dificuldades de entendimento entre a tese federalista de Kasavubu e a tese de um Estado Unitário de Lumumba, estabeleceu-se uma república parlamentar, com um governo central forte e seis governos provinciais. Sendo assim, para assegurar a transição, foi instituída, uma constituição provisória chamada Lei Fundamental. As eleições realizaram-se em Maio de 1960, Kasavubu tornou-se no primeiro presidente da República e Lumumba o primeiro-ministro e chefe do governo221.