4. Methods and Theory
4.3 Climate proxies
4.3.2 Carbon isotopes
No dia trinta de Junho de 1960, o rei Balduíno da Bélgica presidiu às celebrações da independência e, ao mesmo tempo, vivenciou um dos momentos mais embaraçosos da sua história política. Lumumba brindou o monarca belga com um discurso altamente inflamado onde estava plasmado todas as humilhações de um passado amargo222.
Lumumba não conseguiu, no entanto, conter a eclosão de uma guerra civil logo no dia seguinte ao das comemorações. O principal foco de instabilidade surgiu da força pública colonial223, única força armada que servia de sustentação ao recém-eleito governo
219 Os maiores motins da história da colónia tiveram lugar em 4 de Janeiro de 1959 obrigaram a uma violenta intervenção do exército belga três dias depois, provocando 49 mortos africanos e 101 feridos. SAPIM,
Catanga, p. 108.
220 Importa referir que este terá sido uma das principais dificuldades com que se deparou o Governo Belga: estabelecer o critério adequado à designação das diversas representações das Provinciais congolesas, dos partidos políticos e dos chefes tradicionais. SAPIM, Catanga, p. 110.
221 KI-ZERBO, História da África Negra vol. II, p. 238.
222Excertos do discurso de Lumumba: “Nenhum congolês esquecerá que a independência foi conquistada com uma luta
feita de lágrimas, fogo e sangue. As feridas são frescas e dolorosas demais para que possamos afastá-las da nossa memória.”
Outra passagem: “Vimos as terras espoliadas, a lei desigual para brancos e pretos, as perseguições políticas e religiosas, as
casas magníficas para os brancos e as palhotas para nós. Quem pode esquecer os enforcamentos e tiroteios em que pereceram tantos dos nossos irmãos?”. Cit por, GOMES, África em Chamas, p. 297.
223 Relativamente a esta força importa esclarecer que de acordo com os acordos assinados, entre as autoridades belgas e congolesas, em 29 de Junho de 1960, a força pública colonial transformar-se-ia no Exército Nacional Congolês (ENC), ficaria com um efectivo de 25000 soldados negros, enquadrados por
congolês, que se amotinaram contra os oficias belgas224. O sentimento era de
inconformismo uma vez que, segundo eles, nada se tinha alterado, a urgência de colocar africanos nos quadros superiores era premente. Foi neste contexto que surgiu Joseh Mobutu225 como elemento preponderante das fileiras, partindo-se para uma situação de
violência generalizada com perseguições e violações contra a população branca, provocando uma debandada súbita, de alguns milhares de pessoas, em direcção ao Congo- Brazzaville226.
Este motim foi apenas o catalizador de uma situação que se tornou muito mais caótica quando Moisés Tchombé, Governador da Província do Catanga, proclamou a secessão dessa província e a constituição de um Estado independente, alegando como motivo a instabilidade que se vivia e a proximidade de Lumumba ao bloco de leste227,
privando, o Congo dos seus recursos essenciais. Esta questão irá ser abordada de forma mais detalha, no capítulo seguinte, quando analisarmos a Independência do Catanga.
O caos imperava e a impotência para solucionar a instabilidade vivida era mais do que evidente. Os pedidos de ajuda à ONU e, mais concretamente, ao bloco de leste, que via nestes acontecimentos uma janela de oportunidade para a estabelecer uma presença soviética em África, provocavam, no outro lado do Atlântico, um sentimento de grande hostilidade e, ao mesmo tempo, de desconfiança228.
A pressão diplomática da Bélgica, Inglaterra e, sobretudo, dos EUA, a crescente influência da Central Intelligence Agency (CIA) na política congolesa229, a oposição do GCC e no Parlamento contra Lumumba, convenceram Kasavubu a demiti-lo no dia cinco de Setembro de 1960, originando a primeira crise constitucional do Congo. Posteriormente, Lumumba acusando Kasavubu de ilegalidade demite-o assistindo-se a um acontecimento verdadeiramente inédito e, ao mesmo tempo, insólito: o Chefe de Estado demitiu o
oficias belgas e comandado por um general da mesma nacionalidade. Antes da independência a Força Publica era geralmente consideradacomo uma tropa de elite, em quem a administração colonial depositava a maior confiança e a quem frequentes vezes tinha recorrido para abafar motins urbanos e conflitos tribais. SAPIM,
Catanga, p. 203.
224 Num Campo Militar perto de Thyseville, 50 Oficias e Sargentos foram cercados por 2500 soldados negros. Os soldados negros reclamavam aumento de vencimentos, pagamento adiantado dos soldos, facilidades de promoções e expulsão imediata dos oficias belgas que deviam ser substituídos por oficias congoleses que seriam então assistidos por oficias brancos. GOMES, África em Chamas, p.299.
225 Ver Anexo H (PRINCIPAIS INTERVENIENTES). 226 JANKE, Peter, O Banho de Sangue do Congo, p. 141. 227 JANKE, Peter, O Banho de Sangue do Congo, p. 141. 228 JANKE, Peter, O Banho de Sangue do Congo, p. 142.
229 Cf. DEVLIN, Larry, Chief of Station, Congo. Larry Devlin foi o chefe da delegação da CIA, em Leopoldville, durante os acontecimentos que marcaram a independência do Congo-Belga.
Primeiro-ministro e este demitiu o Presidente230. Aproveitando todos estes acontecimentos,
o Coronel Mobutu, organizou o seu primeiro golpe de estado, instituindo uma administração composta por universitários, a que deu o nome de “Colégio dos Comissários”231
. É neste cenário que Lumumba é destituído e, posteriormente, detido, numa tentativa frustrada de conseguir chegar a Stanleyville232, cidade onde estavam instalados os
seus apoiantes, liderados por Antoine Gizenga233. No final do ano de 1960, o Presidente
Kasavubu e o Coronel Mobutu viam, desta forma, a sua posição reforçada. Assistia-se a um afastamento, cada vez maior, entre o governo conduzido por Gizenga, que se considerava herdeiro de Lumumba, e no horizonte vislumbrava-se uma a aproximação a Moisés Tchombé.
Em Janeiro de 1961 dá-se outro acontecimento que marcou, profundamente, a história do Congo: Lumumba é assassinado234. Com este acontecimento a contestação aumentou e o governo de Gizenga ganhou alguma credibilidade sendo, reconhecido por certos países como único dirigente legítimo do Congo235. Era urgente encontrar uma
solução governativa para o Congo, no sentido de evitar uma situação de violência generalizada. A solução passou por um novo governo, liderado por Cyrille Adoula236 e por
230 Relativamente a este assunto importa ainda recordar que, segundo Andrew Tully, na sua obra “CIA, The
inside story”, atribuiu a esta organização toda a preparação e destituição de Lumumba, referindo a pressão e as
garantias que os norte-americanos deram a Kasavubu para demitir o Primeiro-ministro, a quem acusavam de comunista e atribuindo também àqueles serviços secretos, não só a descoberta de Mobutu como sobretudo a organização do seu golpe de estado. Terá sido inclusivamente a CIA, segundo Tully, que terá convencido
Mobutu a encerrar, no dia 17 de Setembro de 1960, as embaixadas da URSS e da Checoslováquia e a expulsar
os seus diplomatas. TULLY, Andrew, CIA, The Inside Story, pp. 178-187. 231 Cit por. SAPIM, Catanga, p. 260.
232 Sobre esta fuga importa referir que Patrice Lumumba consegue fugir de Leopoldville na noite de 27 para 28 de Novembro. Após o anúncio do seu desaparecimento iniciou-se por todo o Congo uma incrível “caça ao homem” com a colaboração até de aviões norte-americanos que de noite e de dia vasculhavam todas as estradas e caminhos que da Capital conduziam à Província Oriental para onde se calculava que ele queria fugir, para se reunir com o Governo que Antoine Gizenga tinha constituído em Stanleyville, em oposição ao de Leopoldville e que se intitulava o único Governo legal do país. Terá sido na povoação de Mweka no Kasai que os soldados de Mobutu alertados e guiados pelos aviões da CIA conseguem prender Lumumba no dia 1 de Dezembro de 1960, quando ele se encontrava já relativamente próximo de uma zona controlada pelos seus partidários. SAPIM, Catanga, p. 263.
233 Gizenga era o herdeiro político de Lumumba. JANKE, O Banho de Sangue no Congo, p. 142. In AAVV. A
Guerra no Mundo.
234 Relativamente a este ponto duas teses se colocam. A primeira defende que terá sido Mobuto com o apoio da CIA responsável pelo assassinato de Lumumba, a segunda defende que terá sido o dirigente do Catanga,
Tchombé, o responsável. Fruto da investigação efectuada, tendo como base a obra do historiador belga, Jules Chomé,”L’Ascension de Mobutu”, citada por Sapim, estamos mais inclinados para acreditar na primeira tese.
Pode-se, também, aprofundar este ponto com a leitura da obra de Madeleine Kalb, The Congo Cables, no capítulo dedicado ao assassinato de Lumumba (pp. 175 à 195) onde fica claro o envolvimento da CIA.
235 KI-ZERBO, História da África Negra Vol.II, p. 239.
236 Nasceu em Leopoldville em 13 de Setembro de 1921 pertencente à etnia mongala, fez os seus estudos no Instituto São José em Leopoldville, de 1941 a 1952 (…) Aderiu ao partido Socialista belga em 1954 e foi em Leopoldville representante legal da “Acção Socialista” e dirigente sindical muito activo da Federação Geral dos Trabalhadores belgas. SAPIM, O Catanga, p. 178. Adoulá, segundo Freire Antunes, também terá sido
Gizenga, mas as divergências eram de tal forma profundas que esta administração limitou- se a gerir o caos que se vivia no país. Esta aliança durou pouco tempo, Gizenga acabou por romper com Adoula e regressou a Stanleyville provocando, desta forma, o recrudescimento da violência contra o Governo Central de Leopoldville. Este “separação” culminaria com a prisão de Gizenga, em Janeiro de 1962237.
Adoula viria a tomar conta dos destinos do país até ao regresso de Tchombé, em Junho de 1964, para chefiar o GCC, período que assume uma importância crucial para a nossa investigação e sobre o qual iremos dedicar o próximo capítulo.
4. A Influência dos Grupos Políticos Angolanos do Congo nos Acontecimentos