5. Chronology
5.2 Age model
Durante todo o primeiro exílio de Tchombé os rumores de uma nova secessão do Catanga, apoiada pelos fortes efectivos militares que permaneciam em Angola e no interior daquele território, foram uma constante, ao mesmo tempo, a situação económica e social do Catanga agravava-se dia após dia, fazendo crescer a convicção que só o regresso de Tchombé poderia salvar o país de uma catástrofe286.
No entanto, só em Março de 1964 é que se verifica, segundo Ian Colvin, o ponto de viragem. Numa visita de Averell Harriman287 ao Congo, secretário dos assuntos
africanos, teve a oportunidade de confirmar, pessoalmente, a situação precária da província do Catanga. No final desta visita Harriman fez, perante o embaixador americano no Congo, Godley, o seguinte desabafo: “Não posso deixar de censurar em três pontos a política da
ONU no Congo. Primeiro: não fizeram um acordo com Tchombé; segundo: envolveram o Catanga numa guerra; terceiro: não fizeram treinos nem criaram disciplina no exército congolês, que constituía a sua missão principal. A força da ONU era suficientemente numerosa para recear qualquer ataque”288
. Este
285 Binza porque se reuniam numa vivenda do bairro elegante de Binza, nos subúrbios de Leopoldville. Era composto por Bomboko, Mobutu, Adoula, Nendaka, Ndele. Era uma espécie de CIA, existente no Congo, encarregada de escolher políticos adequados para o governo como «uma força de choque anticomunista». COLVIN, Ian, Tchombé, p. 183. Em 1962 o Jornalista Andrew Tully, escreveu, sobre o assunto: “Os esforços da CIA para que fosse escolhido um homem forte para o Congo foram bem sucedidos porque Mobuto, fruto das suas origens, não só contava com o apoio das massas como dominava as forças armadas; a CIA surgiu com o indivíduo necessário no momento exacto – É seguro afirmar que Mobutu foi descoberto pela CIA”. TULLY, Andrew, CIA, The Inside Story, p.178.
286 SAPIM, Catanga, p. 437.
287 O presidente dos EUA Johnson nomeou Averell Harriman, com longa experiência na carreira de embaixador, secretário dos assuntos africanos. COLVIN, Tchombé, p. 196.
desabafo fazia antever o apoio norte-americano ao regresso de Tchombé e, também, o
“reactivar do mito da reconstrução do Congo a partir de Elisabethville”289
.
É neste cenário, após catorze meses de exílio, que Tchombé chegou a Leopoldville a 26 de Junho de 1964, às cinco da madrugada290, tendo sido convidado, a 9 de Julho, pelo Presidente Kasavubu a constituir um novo governo central.
A experiência de Tchombé como Primeiro-Ministro do Congo foi, no entanto, bastante curta e muito conturbada, tendo para isso contribuído decisivamente a rebelião de Stanleyville291. O rescaldo desta rebelião obrigou Tchombé a uma actividade intensa e
marcou o apogeu da sua carreira como Primeiro-Ministro. Apresentado à comunidade internacional como o grande responsável pelos massacres, que ocorreram durante aquela intervenção, sofreu uma enorme contestação levada a cabo, nomeadamente, pela opinião pública dos países africanos292.
Internamente e face ao relativo sucesso das iniciativas políticas293 desencadeados
por Tchombé, o antagonismo entre Kasavubu e o líder catanguês acentuou-se, posteriormente, Kasavubu percebeu que era intenção de Tchombé afastá-lo da presidência e o relacionamento político entre ambos tornou-se, desta forma, insustentável. Nessa altura, aconselhado pelos norte-americanos e pelos belgas, interessados em impedir que Tchombé chegasse ao topo da magistratura, decide demitir o Governo Central de
289 SAPIM, Catanga, p. 440.
290 Segundo Ian Colvin, ninguém acorreu a esperá-lo, apenas um motorista fardado que o conduziu velozmente à residência do primeiro-ministro, onde Adoulá lhe apareceu em pijama tendo-lhe dirigido as seguintes palavras: “Você regressou sem quaisquer condições”, o que significava que as condições teriam que ser estudadas. E num tom trémulo terá ainda dito: “Você Tchombé…é a única solução”. COLVIN, Tchombé, p.201.
291 Stanleyville foi tomada pelos rebeldes, liderados por Gaston Soumialot, chefe do governo provisório dos Territórios Libertados no Congo Oriental, no dia 5 de Agosto de 1964. Só com a intervenção norte- americana e belga, em Novembro desse ano, previamente autorizada por Tchombé, a cidade foi libertada. Depois da operação de Stanleyille produziu-se uma onda de contestação internacional contra os massacres levados a cabo pelos paraquedistas belgas, contra Tchombé, o Governo Central e Mobutu que terá sido, segundo Ian Colvin, o grande mentor da operação. COLVIN, Tchombé, p. 235-252.
292 Tchombé decide então fazer mais um périplo pela Europa e encontra-se com De Gaulle, em Paris, e com Salazar em Lisboa. Durante a sua estadia em Paris teve um encontro com Marcello Mathias, na embaixada de Portugal em Paris. Marcello Mathias fez um relatório a Oliveira Salazar sobre este encontro com Tchombé e relativamente ao que terá surgido da reunião deste dirigente com De Gaulle Matias relatou o seguinte: “Tchombé declarou que essa conversa se revestira de grande cordialidade e do maior interesse prático. Assentara-se em que a França concederia empréstimos a longo prazo à Republica Democrática do Congo, destinados a tornar possível a importação por esta de mercadorias francesas (…). AHD – Maço 1093, PAA, Processo 960,16: Relato de uma conversa entre Marcello Mathias e Tchombé em Paris, 1965.
293 Resolveu o problema do contencioso belgo-congolês, obteve uma melhorai significativa em termos económicos para o país e organizou um grande partido político de âmbito nacional “CONACO” que obteve enorme apoio popular por todo o país e tudo levava a crer que se transformasse na grande força partidária que, provavelmente, o conduziria à Chefia do Estado. SAPIM, Catanga, p. 443.
transição294. Foi desta forma que terminou a sua carreira como primeiro-ministro, carreira
esta que durou apenas quinze meses. A sua destituição alterou significativamente o curso da política externa do Congo que tinha como objectivo colocar o país à cabeça dos estados africanos de língua francesa295.
Para Kasavubu o eleito, passa a ser Evariste Kimba296, antigo ministro do Catanga e
que tinha sido demitido por Tchombé. A impotência de Kimba para estabilizar o Congo politicamente foi total. Esta situação foi aproveitada por Mobutu, com o apoio da CIA297, para levar a cabo um novo golpe de estado. E na noite de vinte e quatro para vinte e cinco de Novembro de 1965, Mobutu demite o chefe de Estado e auto nomeia-se Presidente da Republica mandando, de imediato, ocupar os principais pontos estratégicos da capital298.
Face à instabilidade que se vivia no Congo299 e depois de Mobutu o ter colocado à
margem dos destinos políticos do Congo, Tchombé decide300, em Dezembro de 1965, partir para a Europa a fim de iniciar o seu segundo exílio. E com este exílio as esperanças num Catanga Independente foram desaparecendo.