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6. Dataanalyse

6.5 Oslo Børs og industriproduksjon

O texto a seguir refere-se a uma das discussões ocorridas durante a oficina de zoneamento realizada em Iguape, no salão paroquial, nos dias 15 e 16 de maio de 2009. Em determinado momento da oficina fui acompanhar as discussões do grupo da EEJI. Quando cheguei, os participantes estavam em meio a uma polêmica discussão, que aparentemente já vinha exaltada há algum tempo. Discutia-se sobre a liberação ou não da entrada de outras pessoas na EEJI na época das festas tradicionais dos moradores que ainda habitam o interior da UC.

Aqui gostaria de abrir um parêntese. Tradicionalmente na região da Juréia existem festas que reúnem pessoas de outras comunidades e às vezes, parentes que estão na cidade. Essas festas congregam muito da cultura tradicional local. Em geral, são associadas a mutirões e ao Fandango. Estas manifestações já foram muito mais expressivas no passado. Segundo alguns moradores, os anos de proibições e conflitos em relação à questão ambiental, afetaram as festividades. Ainda assim, em alguns locais, essa manifestação cultural resiste.

Pois bem, pelas discussões das quais participei, os moradores locais manifestavam-se pedindo que fosse permitido que nas festas, pessoas de fora entrassem na ESEC. Alegavam que muitas dessas (pessoas de fora) são parentes e amigos vindos das outras UCs vizinhas ou pessoas que moraram na Juréia, mas que agora estavam na cidade. Pelo pouco que vi, percebi que alguns pesquisadores presentes estavam resistentes, posicionando-se contrariamente a essa reivindicação. Em uma das falas que mais me chamou atenção, Lucas, da Salve os Pássaros, falava de forma muito incisiva que se fosse deixar entrar, tudo bem! Mas que deveria ser colocada uma cláusula que não poderia ser cobrado ingresso para as festas religiosas,

“pois quando envolve dinheiro é complicado, a gente sabe como é, descaracteriza...”dizia Lucas.

Neste momento fiquei muito incomodado e pedi a palavra, Marcia Helena do OG que moderava esse grupo, recusou, dizendo para mim que a discussão já estava acontecendo há algum tempo e que daria os encaminhamentos, pedindo minha compreensão. Pelo que entendi estavam sendo discutidas de forma separada, festas religiosas e festas culturais e a discussão de festas culturais ainda retornaria no dia seguinte.

No dia seguinte eu acompanhava o grupo da EEJI quando o assunto foi retomado, agora com foco nas festas culturais. Lucas da salve os pássaros é o primeiro a se manifestar. Com atitude de superioridade, ele expressa sua opinião dizendo novamente que se fosse “liberar”, que não deveria ser cobrado, pois “quando envolve dinheiro descaracteriza a cultura e a gente sabe como é complicado...”

Eu peço a palavra e sou o primeiro a se manifestar de forma contrária, digo que dormi com aquilo na cabeça e falo:

Lucas! Nós pesquisadores estamos de fora desta situação, é muita invasão nós decidirmos se essas pessoas podem ou não cobrar por uma manifestação da cultura delas. Não podemos pensar que cultura tradicional é algo estático e congelado no tempo e no espaço, eles estão sob influencia da sociedade capitalista como nós. Ontem se discutia aqui sobre a cobrança nas festas religiosas e hoje nas culturais como se fossem diferentes, mas será que são? Eu não vou à igreja católica dizer se é certo ou errado ela cobrar o dízimo, não vou à igreja evangélica dizer se eles estão certos ou errados em pegar dinheiro das pessoas e não vou à comunidade tradicional dizer se eles podem ou não cobrar em festas religiosas e da cultura deles! Concordo com o Mauro que ontem dizia que isso deve ficar a critério de cada comunidade.

(fala do autor da pesquisa na Oficina de Zoneamento)

Ao fim de minha fala a população local me aplaude e algumas pessoas reforçam o que falei.

Magali da Academia pede a palavra, diz que está muito triste, começa a chorar e sai da sala onde estava acontecendo o trabalho deste grupo.

Mauro da OMJ reforça minha fala dizendo: “é isso mesmo, cada comunidade deve decidir. Se eu fizer um fandango na minha casa, é o meu quintal, é a minha cultura e se eu quiser cobrar eu vou cobrar!”

Mauro ri e fala: “não paga, mas também não vai!”

Essa discussão se encerra com a fala da Roberta do OG que diz que a discussão estava se perdendo um pouco do foco do trabalho, que era discutir o zoneamento e não questões tão específicas assim.

Com isso fica no registro a permissão da entrada de pessoas para as festas sem mencionar nada sobre a questão da cobrança.

Magali voltou à sala para outras discussões e lá permaneceu. Na primeira oportunidade eu a abordei e disse que gostaria de conversar com ela, pois se fosse minha fala que a tivesse magoado, eu gostaria de esclarecer minha posição e meus pontos de vista.

E ela me disse:

Léo, eu estou muito triste. Na noite de ontem vi o Jornal Nacional que mostrou uma reportagem dos índios que estavam dançando para americanos em troca de dólares. E quanto mais os americanos pagavam mais fervorosamente os índios dançavam. É isso que queremos? Vender essa cultura? Estamos perdendo a Estação Ecológica em nome dessa cultura e agora vamos vendê- la? (grifo meu). (Magali da Academia – oficina de Zoneamento)

Então eu disse:

Eu concordo que os índios dançando para os americanos em troca de dólares não é bom. Mas não sou eu proibindo os índios de dançar em troca de dólares que vou resolver o problema cultural deles. Se eu quero isso tenho que fazer um trabalho de base e que eles reconheçam se isso é bom ou não! (fala do autor, oficina de Zoneamento)

Enquanto eu falava, Magali desconsiderou minha presença e começou a conversar com outra pessoa que se aproximou dela. Eu toquei em seu ombro, agradeci a atenção e me distanciei.

A visão demonstrada por Lucas da Salve os pássaros em relação à tradicionalidade, nos leva a crer que sua compreensão nega as influências que as comunidades tradicionais sofrem das sociedades urbanas e contemporâneas. A Juréia está a cerca de 200 Km da maior cidade do país. Os moradores, mesmo os mais isolados, certamente vão às cidades próximas com alguma freqüência, para diversas finalidades. Entre elas adquirir produtos que não detêm, para os quais com certeza necessitarão de recurso financeiro.

Essa forma de interpretar o conceito de população ou de atividade tradicional pode ser comparada ao “relativismo cultural”, o qual Canclini (1982) afirma que fracassou como corrente na antropologia, por se apoiar numa concepção ingênua de poder. Segundo este autor o relativismo cultural:

imagina que cada cultura existisse sem saber nada das demais, como se o mundo fosse um vasto museu habitado por economias auto-suficientes, cada uma na sua vitrina, imperturbável diante da proximidade das demais, e repetindo invariavelmente os seus códigos e suas relações internas.

Podemos ainda comparar esse entendimento de tradicionalidade com a postura das pessoas da Inglaterra do século XVIII que encaravam o campo como sinônimo de pureza e inocência, influenciados por poetas e pintores que retratavam essas áreas desconsiderando as tensões sociais e os aspectos práticos da vida (THOMAS, 1998).

Os que defendiam que não deveria haver cobrança nas festas, para que não fosse descaracterizada a cultura, possivelmente desconsideram as tensões, relações e influencias que as comunidades de áreas naturais sofrem dos ambientes urbanos e do modo de vida capitalista. Canclini (1982) afirma que: “Mesmo os grupos étnicos mais remotos são obrigados a subordinar a sua organização econômica e cultural aos mercados nacionais, e estes transformam-se em satélites da metrópole, de acordo com uma lógica monopolística.”

Desta forma podemos afirmar que os habitantes das áreas naturais sejam elas na Mata Atlântica no litoral de São Paulo ou em meio a Amazônia, em geral sofrem influências das sociedades urbanas que os cercam. Estas comunidades também sofrem influências das mídias de massa, assim como nós, nos centros urbanos, também sofremos. Grande parte das residências, mesmo em comunidades isoladas, possui televisão e antena parabólica. Sendo assim, quando um cidadão do centro urbano senta em sua sala e liga a televisão, ele estará compartilhando das mesmas influencias que os cidadãos das florestas e das áreas rurais. Embora estas possam evocar diferentes respostas por parte dos diferentes grupos de espectadores, ambos os grupos estão sob suas influências.

Canclini (1982) também afirma que as práticas culturais são ao mesmo tempo econômicas e simbólicas, sendo que o estudo de sociedades tanto arcaicas quanto

capitalistas demonstrou constituírem o econômico e o simbólico, “uma totalidade indissolúvel”.

Não defendemos que as UCs devam contribuir para a transformação da cultura em mercadoria do capital. No entanto, não podemos nos prestar à ingenuidade de pensar que as populações tradicionais permanecerão nas áreas naturais sem precisar de recursos econômicos para suprir suas necessidades como todos nós. O desafio torna-se ainda maior, dadas as influências externas que inevitavelmente chegam a essas comunidades pelos veículos de massa, o que podem seduzi-las ao desejo dos supostos confortos dos ambientes urbanos.

As culturas estão em constante transformação. Não negando isso, podemos avançar no discurso e na prática para além da discussão de se os moradores locais poderão cobrar ou não por suas manifestações, como se essa atitude fosse um marco que definisse o descaracterizar ou não de sua cultura. As UCs e as populações locais podem ser responsáveis por uma re-significação na relação entre sociedade e natureza. Para tal, deveremos trabalhar na transformação cultural fornecendo subsídios para que as populações locais de áreas naturais protegidas possam ao mesmo tempo ter acesso aos benefícios da sociedade moderna de forma compatível com a conservação ambiental e manterem suas raízes.

A postura de Magali (academia), ao afirmar que estaria perdendo a

ESEC em nome da cultura local parece negar as influências da sociedade moderna sobre as culturas tradicionais. Parece também reproduzir os valores que motivavam a criação de Áreas Naturais Protegidas como “laboratórios vivos para as ciências naturais” como o Parque Nacional Suíço criado em 1914 para servir como laboratório nos Alpes.

4. 2 Diferentes saberes, olhares e demandas.

Oricurí madurou Oi, é sinal que Arapuá já fez mel Catingueira fulorou lá no sertão Vai cair chuva a granel Arapuá esperando Oricurí Madurecer Catingueira fulorando Sertanejo esperando chover Lá no sertão Quase ninguém tem estudo Um ou outro que lá aprendeu ler Mas tem homem capaz de fazer tudo, doutor Que antecipa o que vai acontecer... (Oricurí - João do Vale / José Cândido)