• No results found

7. Oppsummering

7.2 Forslag til videre forskning

O deboche dos pesquisadores em relação à fala do pescador sobre “quanto mais tira, menos termina”, nos leva a tecer algumas considerações. Possivelmente esses pesquisadores não consideram a possibilidade de conhecimentos válidos serem elaborados a partir da observação prática da vida e das próprias atividades realizadas pelos moradores da Juréia. Desse modo, não têm condições para compreender uma simples, mas aparentemente paradoxal frase “quanto mais tira, menos termina”. E é possível que nunca compreendam. Continuarão a pensar que esta é mais uma das crendices que ouviram de pessoas simples por aí.

A postura dos pesquisadores debochando seja dos conhecimentos tradicionais, seja das demandas das comunidades, demonstra que temos muito o quê superar em relação aos intercâmbios entre diferentes saberes e suas complementaridades.

Canclini (1982), ao discutir o conceito de pensamento selvagem de Lévi-Strauss, afirma que não devemos colocar em oposição a magia e a ciência, o pensamento mítico e o racional. Em sua opinião, o pensamento selvagem e o científico não correspondem

a etapas do desenvolvimento humano superiores ou inferiores em uma escala. Temos que colocá-los em paralelo como distintos.

A visão demonstrada por parcela dos pesquisadores, certamente confirma a predominância da ideologia preservacionista no debate. O principal argumento sempre era em relação à natureza, aos atributos naturais. Se passar um ser humano irá prejudicar, talvez daqui a 200 anos! É isso? E os palmiteiros e caçadores? Dá para pedir para eles não passarem por 200 anos?

A fala do morador em relação à tal zona intangível nos leva a pensar em que tipo de medidas, de fato, têm sido efetivas na conservação das áreas naturais. As famosas zonas intangíveis na realidade se tornam intangíveis a quem afinal? Pois já está evidente que invasores, extrativistas clandestinos, caçadores ilegais entre outros grupos de índole duvidosa não procuram consultar e respeitar os planos de manejo ao decidir em que áreas eles irão desenvolver suas práticas ilegais.

A simples determinação de que uma zona não deva sofrer com a interferência humana, não garantirá a proteção esperada. Desta forma, a questão a ser enfrentada é a possibilidade de regulamentar o uso das áreas, construindo regras de forma coletiva, que de fato sejam legitimadas pelas populações locais. Isso deverá ser muito mais efetivo do que assumir que as zonas intangíveis serão respeitadas ou que as proibições de coleta de marisco surtirão os efeitos desejados de preservação ambiental.

Continuamos a definir zonas intangíveis, brigando por como ficará no papel o traçado oficial das mesmas, enquanto de fato, essas áreas continuam entregues às práticas ilegais. E como ilegais, permanecem não acompanhadas de estudos e monitoramento de impactos. Neste sentido, mesmo que continue proibida a extração de marisco nos costões da Juréia, ninguém obedece nem obedecerá a essa regra.

Com esse tipo de atitude por parte dos planejadores, perde-se a oportunidade de um trabalho de acompanhamento, em que conhecimento local e conhecimento científico poderiam ser aplicados na manutenção tanto dos mariscos, como da segurança e hábitos alimentares das populações locais. Este procedimento poderia garantir o alimento daqueles que de qualquer forma irão realizar tal coleta e proporcionar um monitoramento do recurso de forma conjunta e participativa, onde os

pesquisadores seriam aqueles que estão nas universidades e aqueles que vivem no local, sem hierarquias, sem donos da verdade.

Acredito que com uma pesquisa na qual os moradores sintam-se realmente participantes, o alcance seria diferente. Mesmo no caso de se constatar que seria preciso reduzir a extração, pois a teoria do “quanto mais tira menos termina” não é ilimitada em seu alcance. Avalio que como co-partícipes do processo de geração de conhecimento, os moradores da comunidade não relutariam em concordar com as medidas necessárias. Possivelmente ajudariam a “guardar” o recurso, para que eles próprios possam continuar a desfrutar dos mesmos no futuro. Da mesma forma, tantos casos descritos em pesquisas que constataram em áreas e recursos apropriados de forma comunal, que as comunidades locais apresentam normas para regular a utilização dos recursos naturais. E as instituições locais, muitas vezes, respondem às situações de desgaste dos recursos visando à sua manutenção e evitando a “tragédia dos comuns” (Feeny et al, 1990; Berkes, 1996; Ostrom 1990; McKean e Ostrom 1995; Berkes 1996).

Mas enquanto as regras forem impostas, embora possam aparentar serem aceitas pelo povo, simplesmente serão ignoradas.

A construção participativa de normas de gestão das áreas naturais deve ser acompanhada do compartilhamento de informações e de linguagem adequada para que as populações locais possam efetivamente se apropriar dos símbolos, métodos e linguagem de tais processos.

Ao longo da elaboração do plano de manejo, a OMJ realizou um projeto próprio que proporcionou esse tipo de experiência aos moradores11.

A conduta dos pesquisadores, ao desqualificarem o conhecimento e as demandas das populações locais, certamente contribui para uma visão deturpada da ciência. Também demonstra que alguns cientistas colocam sua forma de saber como superior à dos demais participantes. Essa postura não é compartilhada por todos os pesquisadores nem mesmo por todos aqueles relacionados ao plano de manejo. Foram expressas principalmente, mas não apenas, por um grupo de pesquisadores com os quais interagi apenas na oficina de Zoneamento.

A oficina de Zoneamento foi marcada por inúmeros confrontos e desentendimentos entre pesquisadores do Plano de Manejo e a população local. Em parte atribuo isto à forma como são feitos os planos de manejo no estado de São Paulo e em outras regiões.

Existe um trabalho intenso que é realizado pelos pesquisadores antes das oficinas participativas ou em paralelo. Desta forma, quando os pesquisadores vão para uma oficina para a participação da comunidade na elaboração do plano de manejo, muitas vezes eles já têm uma proposta, em geral bem organizada.

Entre os pesquisadores muitas vezes existe grandes diferenças de postura. Há os que acreditam ser importante a participação das pessoas na construção, estando dispostos a rever inclusive as propostas que levaram. Enquanto outros se colocam como superiores, como os letrados que detêm a solução. Em geral, estes não são dispostos a rever suas propostas já pré-estabelecidas e normalmente sustentam posturas e argumentos preservacionistas.

Utilizarei um exemplo hipotético para me expressar. Um pesquisador de grandes mamíferos pode constatar em sua pesquisa a presença de onça pintada em determinado local de uma UC. Esse pesquisador provavelmente utilizou dos métodos mais reconhecidos entre armadilhas fotográficas, registro de pegadas entre outras. Com isso o pesquisador olhará no mapa e determinará uma área que ele considera que deverá ser intangível. Ou ainda, que a área deve mesmo ser uma UC de proteção Integral. E essa será sua proposta no momento de participação: uma zona já traçada no mapa. Este pesquisador pode ter feito toda sua pesquisa sem consultar a população local. Afinal, na visão deste, se é uma UC de Proteção Integral, a população nem mesmo deveria estar ali.

Pois bem, esse pesquisador pode não se envolver com a população em momento algum. Mas, possivelmente irá à oficina de Zoneamento. Já que tem que ser participativo, ele precisará no mínimo defender sua proposta já pré-estabelecida.

Da mesma forma, em alguns casos, como presenciados na Juréia, a comunidade também se organiza e leva suas propostas pré-estabelecidas. No entanto, esta, em geral não conta com o mesmo “arsenal” de argumentos técnicos que os pesquisadores

detêm e a negociação torna-se desequilibrada. Desta forma, confrontos entre as populações locais e alguns pesquisadores são inevitáveis.

O desafio é avançarmos para uma construção coletiva onde não negociaremos a partir das várias propostas pré-estabelecidas e sim possamos construí-las juntos. Para tal os pesquisadores devem compreender a importância de cada demanda das comunidades e respeitar sua simbologia e saberes próprios. Da mesma forma, as populações locais devem respeitar e compreender a importância das pesquisas e dos atributos da natureza que as UCs pretendem proteger. Isso somente será possível através de uma relação dialógica entre os sujeitos.

A discussão e demanda em relação à pesca esportiva demonstra que as populações locais defenderão seus interesses argumentando ou buscando apoio para tal. É compreensível que uma família que dependa de certa atividade econômica defenda sua prática a qualquer custo. Porém, temos conhecimento acumulado suficiente para propor alternativas econômicas que possam satisfazer às necessidades materiais sem comprometer os atributos naturais das UCs.

Por algum tempo, Wilson e sua esposa demonstraram aspereza no relacionamento comigo. Até que organizei uma saída de campo de estudantes da pós graduação da ESALQ para a região da Juréia. Contratamos os serviços de Wilson nesta ocasião, para nos levar com seus barcos até alguns dos sambaquis localizados no interior da EEJI. A partir dessa ocasião, ele mudou sua forma de se relacionar comigo, possivelmente por ver concretamente outra forma de obtenção de renda, alternativa à pesca esportiva.