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Buscou-se nesta pesquisa investigar como os fenômenos de mentoria e flow se apresentam na vivência de profissionais de empresas instaladas no complexo portuário de Suape em Pernambuco. Observou-se a ocorrência de relações de mentoria, a ocorrência de experiências de flow e algumas relações entre estes dois constructos, que serão exploradas neste capítulo.

Muitos gestores perceberam a existência de relações de mentoria em sua vida. De forma geral, estes gestores apontaram características das relações que sugerem a existência das funções de mentoria definidas por Ragins & Kram (2007). Entre as funções de carreira, a que mais se apresentou de forma espontânea para os gestores foi a função de coaching, com a troca de conhecimento e o desenvolvimento das capacidades do mentorado. Entre as funções psicossociais, as diversas características que sugerem um modelo de mentor surgiram como um ponto diversas vezes percebido pelos gestores.

Apesar de mais evidentes as funções de coaching e de modelagem de papeis, as demais funções também se mostraram presentes na percepção dos gestores. As outras quatro funções de carreira, entre as quais patrocínio, atribuição de tarefas desafiadoras, exposição e visibilidade e a proteção foram percebidas como parte das relações de mentoria dos gestores, em maior ou menor intensidade. As funções psicossociais de aceitação, aconselhamento e amizade também foram percebidas de forma espontânea como característica da mentoria.

Houve maior dificuldade na percepção de forma espontânea pelos gestores da existência das funções de proteção e patrocínio, principalmente associada a figura do mentor. Este fato pode ter sido influenciado pelo ambiente e atuação das empresas pesquisadas. A

pressão por resultados e a limitação de prazo definido neste tipo de atividade pode ser um fator que dificulta a percepção espontânea dessas funções. Ao analisar as funções através do instrumento de Noe (1988) praticamente todas as funções de mentoria foram evidenciadas nos gestores que perceberam esta relação em suas vidas. A função de patrocínio obteve uma média que sugere uma ocorrência mais do que frequente, mesmo com uma menor percepção espontânea dos gestores. A função de proteção obteve uma média de ocorrência pouco abaixo de frequente, alinhada com a pouca percepção espontânea deste tipo de função nas relações de mentoria.

Das nove funções da mentoria analisadas através do instrumento de Noe (1988), a função psicossocial de amizade ficou com uma frequência baixa, com ocorrência abaixo de ocasionalmente. Esta frequência pode ser ocasionada por um entendimento diferente do internacional sobre o que significa e representa amizade para os profissionais brasileiros. Alguns dos gestores citaram na percepção espontânea a existência de amizade na relação. Além disso, o ambiente predominantemente masculino observado pode ter uma visão diferente sobre amizade, o que pode ter influenciado as respostas referentes a esta função.

Para o caso das experiências de flow, nem todos os gestores perceberam este tipo de ocorrência. Pouco mais da metade da amostra estudada percebeu este tipo de ocorrência. Os demais gestores não perceberam de forma espontânea experiências de flow no ambiente de trabalho, o que pode sugerir alguma dificuldade para a ocorrência de flow nas condições estudadas.

Para os gestores que experimentaram a ocorrência de flow, alguns dos componentes definidos por Nakamura & Csikszentmihalyi (2009) foram percebidos de forma espontânea pelos gestores, como o equilíbrio entre desafios e habilidades. O componente de equilíbrio entre tarefas desafiadoras e as habilidades necessárias para superá-las, que é uma das principais características das experiências de flow, foi um dos itens percebidos por boa parte dos gestores.

A clareza do que deve ser realizado também surgiu nas observações dos gestores, assim como a experiência autotélica, o feedback imediato e a concentração. A percepção do componente de experiência autotélica foi explicitada por alguns dos gestores. O prazer e o sentimento de que a atividade é necessária para se viver, conforme citado por um dos gestores, remetem à execução da atividade pela simples satisfação de realiza-la.

Foram percebidos benefícios resultantes tanto das relações de mentoria como das experiências de flow. O crescimento profissional e o crescimento pessoal foram percebidos como benefícios resultantes de ambas experiências. A melhoria dos resultados e o desenvolvimento de habilidades e de conhecimento foram apontados como benefícios relacionados à carreira profissional. A autoconfiança, o comprometimento, o sentimento de que se é capaz para conclusão de atividades complexas são apontados como benefícios pessoais.

Ao realizar a análise das experiências de flow através do instrumento de Jackson & Ecklund (2004) foi verificada a ocorrência de todos os componentes. A clareza das metas e a experiência autotélica foram observados com maior intensidade pelos gestores. Nenhum dos componentes observados obteve um escore abaixo de 3,5, não havendo, portanto, uma frequência baixa em nenhum dos componentes que caracterizam experiências de flow.

Associações entre relações de mentoria e experiências de flow foram observadas nesta pesquisa. Dos gestores que perceberam a ocorrência de flow, muitos apontaram que receberam orientações de gestores ou colegas de trabalho para a execução da atividade em que experimentou flow. Esta conclusão pode sugerir uma relação do suporte fornecido por estes indivíduos, mentores ou não, com a ocorrência de flow. O desenho de tarefas desafiadoras também é apresentado como papel do mentor por O’Neill (2005). Desta forma, os desafios que podem ser desenhados por um mentor e que foram apontados como uma das razões da ocorrência de flow, podem ser equilibrados pelas habilidades e pela aquisição do conhecimento que o indivíduo pode receber, por exemplo, de um mentor.

Algumas características foram percebidas como facilitadores das experiências de flow. Uma destas se assemelha à função de patrocínio, com a busca pelas oportunidades da organização. A função de coaching é outra característica, com o apoio, a orientação e a busca por resultados. Exposição e aceitação, com liberdade para atuar, foram características também apontadas como facilitadores das experiências de flow. O patrocínio, o coaching, a exposição e aceitação são funções da mentoria, sugerindo que possa haver uma relação entre estes constructos.

As correlações entre as funções de mentoria e os componentes de flow sugerem a existência de algum tipo de associação entre eles. Dentre os componentes de flow, os que apontem maiores relações são os de feedback imediato, de clareza das metas e de fusão da ação com a consciência. Das funções de mentoria, as que apresentam maiores relações são as de patrocínio e de exposição.

As maiores correlações observadas foram entre os componentes de feedback imediato e fusão da ação com a consciência, e as funções de patrocínio e exposição. Esta relação pode sugerir que, ao perceber que está sendo considerado para movimentações da organização (patrocínio) ou que seu trabalho está aparecendo para os tomadores de decisões (exposição), o indivíduo perceba de forma imediata o resultado das suas atividades (feedback imediato) e suas ações passem a ser espontâneas (fusão da ação com a consciência).

Outras correlações foram observadas, em maior ou menor grau, sugerindo relações de grande parte das funções de mentoria com os componentes das experiências de flow.