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De acordo com Drucker (1992), o empreendedorismo é um fenômeno cultural, ou seja, é fruto dos hábitos, práticas e valores das pessoas; segundo o referido autor, no contexto geral existem famílias que são consideradas mais empreendedoras do que outras, assim como lugares onde o empreendedorismo se faz mais presente.

O mesmo autor afirma que pode-se aprender a ser empreendedor através da convivência com outros empreendedores, que de certa forma são influenciados por pessoas que consideram como modelo a ser seguido; nesse sentido, para entender o comportamento dos empreendedores faz-se necessário, inicialmente, recorrer à ciência da psicologia, que estuda o comportamento humano, com a finalidade de buscar um entendimento das variáveis que originam a relação entre o homem e mundo que o cerca.

Segundo Kornijezuk (2004), um dos precursores sobre o estudo do comportamento empreendedor, destaca-se McClelland, que define os empreendedores relacionando-os à sua necessidade de sucesso, de reconhecimento, e ao desejo de poder e de controle. As primeiras pesquisas realizadas por esse autor definem o que ele denominou de “necessidade de realização” do indivíduo como a principal força motivadora do comportamento empreendedor.

De acordo ainda com McClelland (1961), o sucesso empresarial não consiste apenas no desenvolvimento de habilidades específicas, tais como finanças, marketing, produção, etc.; e nem apenas de incentivos creditícios e/ou fiscais, mas também das habilidades atitudinais empreendedoras, através do aperfeiçoamento de tais características. Fomentado por inúmeros

experimentos, o indivíduo empreendedor tem uma estrutura motivacional diferenciada pela presença marcante de uma necessidade específica: a de realização, que é o ponto chave para o desenvolvimento de suas demais características que o tornam empreendedor.

Na teoria de McClelland (1961), a motivação humana responde, pelo menos em parte, pelo crescimento econômico de uma nação. Em sua teoria, a motivação humana compreende três necessidades dominantes:

1. Necessidade de realização 2. Necessidade de poder 3. Necessidade de afiliação

No que diz respeito à necessidade de realização, garante que é a necessidade que o indivíduo tem de realizar um bom trabalho e ser reconhecido; são pessoas que gostam de assumir responsabilidades, e correm riscos calculados na busca do sucesso e do reconhecimento pelo grupo no qual se encontram ou ainda os indivíduos com alta necessidade de realização “[...] parecem preocupar-se bastante com a boa execução da sua tarefa, com o intuito de aprender como executá-la melhor à medida que avançam”. (MCCLELLAND, 1972, p.72).

[...] poderíamos legitimamente esperar que pessoas com fortes motivos de realização buscassem situações em que lhes fossem possíveis obter a satisfação da realização [...] fixam pra si próprias os padrões de realização, e tendem procurar mais arduamente e com maior êxito alcançar os padrões que estabeleceram para si próprias. (idem).

Gordon (1993, p.129) descreve a necessidade de realização como a necessidade de realizar e demonstrar a competência profissional, de cada vez mais assumir tarefas difíceis que se caracterizem como desafios, pois a resolução destes desafios traz o reconhecimento.

Já a necessidade de poder se define como “[...] uma preocupação com o controle dos meios de influenciar uma pessoa”. Conforme Gouveia e Batista (2007, p.4), esta necessidade exprime o desejo de influenciar ou controlar, ser responsável e ter autoridade sobre outros. Uma elevada tendência para o poder está associada a pessoas que procuram por posições de liderança, bem como ao interesse de obter e manter posições de prestígio e reputação.

A necessidade de afiliação é relacionada ao desejo de estabelecer relacionamentos pessoais próximos, de procurar evitar conflitos e constituir amizades fortes, com confiança e compreensão mútua; é uma necessidade social, de companheirismo e apoio, para desenvolvimento de relacionamentos significativos com pessoas (GOUVEIA; BATISTA, 2007, p.3).

Por sua vez, Bowditch e Buono (2002, p.43) relatam que a necessidade de afiliação traz certa influência na tomada de decisões pelo empreendedor, na medida em que a necessidade de aceitação pessoal influenciará o nível de agressividade (cordialidade), de objetividade e de competição com que conduzirá seus negócios.

Sobre afiliação e poder, Bowditch e Buono (2002, p.43) destacam que alguns indivíduos são motivados pelas necessidades sociais, enquanto outros serão motivados pela necessidade de atingir metas e conquistar poder e influência sobre outras pessoas, portanto, “[...] as necessidades de afiliação e poder governam as relações interpessoais do indivíduo”.

No entanto, vários são os autores que descrevem sobre o perfil do empreendedor; entre eles, pode-se citar Leite (2002), que reflete a formação de um perfil profissional baseado no empreendedorismo e enfatiza, sobretudo, algumas características peculiares: são multifuncionais com domínio de informática, fazem o que gostam, possuem amplo conhecimento das diretrizes e princípios básicos de administração, de modo a desenvolver habilidades específicas à gestão de negócios e resultados, transparecem competência para trabalhar em equipe.

Ainda mencionando Leite (2000):

Algumas características marcantes, como autoconfiança e otimismo; capacidade de assumir riscos calculados e responder positivamente aos desafios; adaptabilidade e flexibilidade diante das mudanças; conhecimento dos mercados e do ramo de negócio em que atua; desejo de ser independente criativo e com forte necessidade de realização; é líder dinâmico, com forte senso de iniciativa; é perseverante e dotado de excelente percepção, com grande visão para o aproveitamento de oportunidade. (LEITE, 2000 p.67).

Nesta perspectiva, Leite (2000) descreve que para avaliar o perfil das características do comportamento empreendedor é importante analisar os fatores apresentados no quadro 2.

QUADRO 2: Características do Perfil Empreendedor na Visão de Leite (2000)

Características Empreendedores

Alta Necessidade de Realização Trabalham com a expectativa de alcançar os mais elevados níveis de realização.

Assumir Riscos Não se amedrontam com a possibilidade de correr

riscos, embora optem por riscos calculados e não excessivos.

Saber Resolver Problemas São lideres inatos e geralmente os primeiros a identificar possíveis problemas e a arranjar possíveis soluções

Necessidade de Status Encontram satisfação em símbolos de sucesso

exteriores a si mesmos. Gostam que os negócios que construíram sejam admirados, mas ficam sem jeito quando o elogio lhes é dirigido diretamente. Não permitem que as necessidades ligadas ao status interfiram na missão empresarial.

Elevados Níveis de Energia Empreendedores são, na maioria, dedicados, dispostos e prontos a trabalhar. Podem trabalhar por períodos longos e contínuos de tempo enquanto constroem seus negócios.

Possuir Autoconfiança São indivíduos extremamente autoconfiantes,

acreditando nas suas competências e capacidades. Acreditam ser capazes de mudar a ordem dos acontecimentos e ser mestres da própria vida.

Desapego Emocional Não permitem que seu relacionamento emocional

atrapalhe o sucesso do empreendimento.

Necessidade de Satisfação Pessoal Devido ao fato de serem motivados por uma necessidade extrema de satisfação pessoal, possuem, na maioria das vezes, pouco interesse em qualquer forma de estrutura organizacional. Encaram a maioria das atividades organizacionais com desdém e têm dificuldades de trabalhar em grandes empresas.

Para Filion (1999), dentre as características peculiares do indivíduo empreendedor, a criatividade, a capacidade de estabelecer objetivos e persegui-los, a busca de identificar oportunidades, tomada de decisões moderadamente arriscadas e a busca pela inovação são marcantes no comportamento do empreendedor. O referido autor acredita que o indivíduo empreendedor consegue detectar ambientes favoráveis a negócios, pela facilidade de identificação de oportunidades de negócio e cria caminhos para a implantação do plano e sua possível execução; mas, para detectar oportunidades de negócios: “é preciso ter intuição, intuição requer entendimento, e entendimento requer um nível mínimo de conhecimento”. (FILION, 1999, p.58).

Segundo Timmos (1994) e Hornaday (1982), citados por Dolabela (1999, p. 45), vinte e sete são as características típicas de um empreendedor: ter um “modelo”, uma pessoa que o influencia; ter iniciativa, autoconfiança, autonomia, otimismo, necessidade de realização; trabalhar sozinho (o processo visionário é individual); ter perseverança e tenacidade para vencer obstáculos; considerar o fracasso um resultado como outro qualquer, pois pode aprender com os próprios erros; ser capaz de dedicar-se intensamente ao trabalho e concentrar esforços para alcançar resultados; saber fixar metas e alcançá-las; lutar contra padrões impostos; diferenciar-se; ter a capacidade de descobrir nichos; ter forte intuição; ter alto comprometimento, crendo no que faz; criar situações para obter feedback sobre seu comportamento e saber utilizar tais informações para seu aprimoramento; saber buscar, utilizar e controlar recursos; ser um sonhador racional; criar um sistema próprio de relações com empregados; ser orientado para resultados, para o futuro, o longo prazo; aceitar o dinheiro como uma das medidas de seu desempenho; tecer “rede de relações” (contatos, amizades) utilizando-a intensamente como suporte para alcançar os seus objetivos e considerar a rede de relações internas (sócios, colaboradores) mais importante que a externa; conhecer muito bem o ramo de atuação; cultivar a imaginação e aprender a definir visões; saber traduzir pensamentos em ações; ser proativo: definir o que quer e aonde quer chegar, buscando o conhecimento que permitirá o alcance de seus objetivos; criar um método próprio de aprendizagem: aprender a partir do que se faz; ter capacidade de influenciar as pessoas com as quais lida; assumir riscos moderados; ser inovador e criativo; ter alta tolerância à ambiguidade e à incerteza; manter um alto nível de consciência do ambiente em que vive.

Para Dornelas (2001), além dos atributos encontrados em administradores, os empreendedores são visionários, indivíduos que fazem a diferença, sabem explorar as

oportunidades, são determinados e dinâmicos, dedicados ao trabalho, otimistas e apaixonados pelo que fazem, independentes e construtores do próprio destino, acreditam que o dinheiro é consequência do sucesso nos negócios, possuem liderança incomum, sabem construir uma rede de relacionamentos externos à empresa, planejam cada passo do negócio, possuem conhecimento, assumem riscos calculados e criam valor para a sociedade pela qual o empreendimento encontra-se inserido, em busca de soluções para melhorar a vida das pessoas.

Diante do contexto sobre o perfil do empreendedor vale ressaltar a afirmação de Drucker (2003, p.31), de que a inovação é o eixo central do espírito empreendedor; não existe espírito empreendedor sem a inovação, pois ela é o seu instrumento específico. Os empreendedores inovam continuamente e a inovação, de fato, cria uma série de recursos para os empreendedores. Além da inovação, outro aspecto do espírito empreendedor é o conhecimento – o que permite ampliar a inovação. Ainda segundo o mesmo autor, a inovação baseada no conhecimento é a “superestrela” do espírito empreendedor, e se difere das demais inovações em suas características básicas: “duração, taxa de perdas e nos desafios que apresentam para o empreendedor”.

Segundo Leite (2012), para conferir o potencial empreendedor de um indivíduo que almeja ser empreendedor faz-se necessário conhecer as características e traços marcantes de um empreendedor de sucesso, conforme demonstrado no quadro 3.

QUADRO 3: Características X traços marcantes de um empreendedor de sucesso

Características Traços Marcantes

Autocontrole Gostam de ter controle sobre todas as atividades que executam Procura de resultados Procuram atividades que demonstrem progressos orientados por

objetivos. Possuem um sentido para o desenvolvimento das suas ideias.

Auto direção São auto motivados e possuem um desejo extraordinário de sucesso.

Análise de Oportunidades

Analisam todas as opções por forma a assegurar o seu sucesso e minimizar os riscos

Pensamento Criativo Não são rígidos em termos de pensamento e irritam-se com pessoas que digam “fazemos isto desta forma, porque sempre se fez assim”.

Resolução de Problemas

Sabem como vão avaliar e selecionar alternativas, mesmo que ocasione novos problemas, reduzindo a magnitude do problema inicial.

Pensamento Objetivo Quando os empreendedores encontram solução para um problema, irão executá-lo com a maior quantidade de pessoas qualificadas que encontrarem para evitar pôr em causa os seus próprios juízos. Valorizam Equipe Reconhecem a importância da equipe para o alcance dos objetivos

do empreendimento

Fonte: Leite (2012, p.137)

Portanto, pode-se dizer que o espírito empreendedor é o conjunto de aspectos e características que formam a personalidade de um empreendedor e é também a chave para um caminho de sucesso. Apesar da diferença de abordagem dos autores, pode-se notar que todos concordam que as características que formam o empreendedor baseiam-se nos conceitos de iniciativa, inovação, criatividade, oportunidade e disposição para assumir riscos, podendo ser classificadas em 10 grupos: busca de oportunidade e iniciativa; persistência; comprometimento; exigência de qualidade e eficiência; riscos calculados; estabelecimento de metas; busca de informações; planejamento e monitoramento sistemático; persuasão e rede de contatos; independência e autoconfiança.

Diante de estudos realizados sobre conceitos e comportamento empreendedor, pode-se levar em consideração alguns aspectos em comum citados por diversos autores a respeito do tema em questão, conforme quadro 4 resumido abaixo:

QUADRO 4: Características X traços marcantes de um empreendedor de sucesso Características AUTORES Schumpeter (1934) McClelland (1961) Drucker (1974) Timmos (1978) Filion (1991) Dolabela (1999) Leite (2002) Dornelas (2005) Pró-ativo X X X X X X Inovador X X X X X X X X Visionário X X X X Criativo X X X X X X Tolerante ao risco X X X X Motivado X X X X X Perseverante X X X Autoconfiante X X X Líder X X X Necessidade de realização X X X Determinado X X X X X Independência X X X X Comprometido X X X X

Fonte: Kuratko, D. F. & Hodgetts, R. M. (1995, p.58), adaptado pela autora.