O objetivo do estudo foi comparar os efeitos de dois tipos de tratamento para síncope vasovagal, já que um tratamento definitivo ainda é inespecífico (WHITE & TSIKOURIS, 2000; GRUBB, 2005). Para isso, ambos os grupos tiveram que seguir a recomendação de aumento da ingestão de água e sal, já comprovados que melhoram os sintomas (EL-SAYED & HAINSWORTH, 1996; MANGRU et al., 1996; LU et al., 2003; JORDAN, 2005).
Após a anamnese inicial os pacientes aprenderam a reconhecer os sintomas, a evitar o gatilho, e a adotar postura de decúbito, o que BRIGNOLE (2005) considera suficiente para a maioria dos pacientes. Assim se observa uma diminuição dos eventos sincopais. Isto é visto ao analisarmos os resultados obtidos: na primeira semana de tratamento, observa-se 61 episódios sincopais, sendo 11 eventos no grupo treino e 50 no grupo medicamento. Os episódios de sensação de desmaio, por outro lado, foram relatados mais frequentemente (118 no grupo treino e 129 no grupo medicamento – total de 247 episódios). Ou seja, ao reconhecer os sintomas que precedem à síncope, os pacientes adotavam a postura de decúbito e a evitavam.
É interessante salientar que a maioria dos estudos que avaliaram algum tipo de tratamento para pacientes com síncope vasovagal utilizaram a recorrência de síncopes como método de avaliar a eficácia terapêutica (GRUBB et al. 1994; MTINANGI & HAINSWORTH, 1998), a negativação de um segundo tilt test (KINAY, 2004; ABE et al., 2002 E 2003) ou a recorrência dos sintomas ao longo do tratamento (WINKER 2004 e 2005; LAFUENTE et al., 2004).
Este estudo utilizou-se da recorrência dos sintomas para avaliar a eficácia terapêutica. Para isso, foi feita uma análise da média da freqüência dos sintomas, a qual verificou,
comparativamente, se um grupo obtivera melhores resultados que o outro grupo. Os resultados indicaram que os sintomas relacionados à síncope vasovagal diminuíram tanto no grupo treino (p<0,0001) quanto no grupo medicamento (p=0,0020), porém mais acentuadamente no grupo treino (p=0,0172). Foi utilizada ainda, a análise de freqüência dos sintomas ao longo do tratamento através de um recordatório semanal. Os resultados também indicam uma diminuição dos sintomas ao longo do tratamento em ambos os grupos, e que, além disso, o grupo treino teve menor freqüência média dos sintomas (p<0,01 em 7 sintomas) comparado ao grupo medicamento (p<0,01 em 2 sintomas).
Outros estudos já haviam comprovado que exercícios físicos melhoram a intolerância a postura ortostática (MTINANGI et al., 1996; MTINANGI & HAINSWORTH, 1998; WINKER, 2005), ou ainda que, indivíduos aerobicamente condicionados têm melhor tolerância ortostática do que indivíduos pouco condicionados (SHVARTZ, 1996). Por outro lado, há vários estudos que comprovam a melhora dos sintomas com o uso de fluoxetina (GRUBB, 1993a, 1993b, 1994a e 1994b; SAMOIL & GRUBB, 1995; LAFUENTE, 2004), o que também foi comprovado neste estudo (p=0,0020). Porém, WHITE & TSIKOURIS afirmam que efeitos colaterais como náuseas, insônia, ganho de peso, e disfunção sexual podem impedir a terapia a longo prazo (WHITE & TSIKOURIS, 2000), o que não ocorreria com o treinamento físico. E, ainda, BRIGNOLE em 2003 afirma que não há dados suficientes que sustentem o uso de alguma terapia farmacológica em síncope vasovagal.
Havia a intenção de realizar um segundo tilt test para avaliar a eficácia terapêutica, porém este foi recusado pela maioria dos voluntários, o que não gerou problemas na avaliação dos resultados, pois, apesar de o tilt test ser amplamente aceito como a mais valiosa ferramenta de avaliação de pacientes com síncope de origem desconhecida, é apenas indicado
para o propósito de diagnóstico, e não é recomendado para avaliar a eficácia terapêutica na síncope vasovagal (SHELDON, 2004; BENDITT & SUTTON, 2005; BRIGNOLE, 2005).
Os voluntários realizaram tanto exercícios aeróbios quanto exercícios resistidos, de musculação. O protocolo utilizado confirma os estudos de WINKER et al. e LIGHTFOOT et al. O primeiro estudo concluiu que exercícios de endurance (apenas exercícios aeróbios – corrida) melhoraram os sintomas da maioria dos pacientes com intolerância ortostática (WINKER et al., 2005). Já o segundo estudo concluiu que exercícios resistidos podem reduzir a estase venosa pelo aumento do tônus muscular (LIGHTFOOT et al., 1994).
Não foi objetivo deste estudo verificar o mecanismo responsável pela melhora dos sintomas de SVV nos grupos, porém há comprovação científica que o aumento de massa magra nos membros inferiores evita o represamento venoso que contribui para as respostas vasovagais (CONVERTINO et al., 1988). No estudo de MTINANGI & HAINSWORTH foi demonstrado um aumento da tolerância à posição ortostática em pacientes com síncope SVV que foram submetidos a treinamento físico aeróbio. Aumentos no volume plasmático e redução dos níveis de vasopressina circulante foram observados nesses pacientes (MTINANGI & HAINSWORTH, 1998). CONVERTINO et al. também demonstraram aumentos significativos no volume de plasma circulante em indivíduos submetidos ao treinamento físico aeróbio numa intensidade moderada (CONVERTINO et al., 1984).
Há uma tendência ao uso de tratamento não farmacológico para pacientes com diagnóstico de síncope vasovagal. KINAY et al. afirmam que o tilt training deve ser considerado como estratégia de primeira linha para tratamento (KINAY et al., 2004). Estudo realizado por LAFUENTE et al. (2004), constatou que o aumento na ingestão de sal e água, bem como o tilt training demonstraram grande valor em prevenir a recorrência da síncope em um grupo de pacientes. O tratamento farmacológico tem um papel importante, mas não há
uma medicação específica associada a uma melhora significante no controle dos sintomas (LAFUENTE et al., 2004), principalmente em pesquisas utilizando os fármacos em tratamento de longa duração (BENDITT et al., 1999).
Deve ser considerado ainda que um importante objetivo do tratamento de pacientes com SVV é o aumento dos fluidos extracelulares e do volume plasmático. Isso pode ser alcançado com um aumento da ingestão de sal, exercício físico e elevação da cabeceira da cama durante a noite (WIELING, Van LIESHOUT & HAINSWORTH, 2002).
Em suma, o tratamento da síncope vasovagal ainda é incerto e deve ser avaliado para cada paciente. Segundo BRIGNOLE (2005), em geral, aprender a natureza da síncope vasovagal e saber evitar o gatilho são suficientes para a maioria dos pacientes. Tratamento adicional pode ser necessário em pacientes com alta freqüência de sintomas, ou seja, quando a síncope é freqüente e altera a qualidade de vida, ou quando a síncope é recorrente e sem sintomas premonitórios, expondo o paciente a um alto risco de trauma físico. Tratamento “físico”, não farmacológico, está emergindo como uma nova linha de frente de tratamento de síncope vasovagal, como o tilt training e as manobras de pressão/contração.
CARVELATTI et al. (2001), reportaram que a educação do paciente no que diz respeito mecanismo, prognóstico, e sinais premonitórios da SVV feita por um grupo de enfermeiras e médicos diminuiu efetivamente a razão de recorrência sincope.