Para que fosse possível obter informações acerca da compreensão das pessoas sobre o modo de viver e seus comportamentos cotidianos em prol de uma vida mais saudável, escolheu-se substituir as questões que aparecem após a escala Likert do IGMA por um roteiro de entrevista contendo perguntas abertas.
A entrevista qualitativa, de acordo com Creswell(2010, p. 214), “envolvem questões não estruturadas e em geral abertas, que são em pequeno número e se destinam a suscitar concepções e opiniões dos participantes”. Destarte a entrevista acrescentada ao IGMA11realizada nessa pesquisa apresenta as seguintes perguntas norteadoras:
Você se considera uma pessoa saudável? Por quê?
Que hábitos seus proporcionam que você seja mais saudável? Que hábitos você considera que deveria ter para ser mais saudável? Como o posto de saúde contribui para que você seja mais saudável? Como a cidade contribui para que você seja mais saudável?
As três primeiras indagações tiveram como propósito identificar como as pessoas compreendem a saúde, se pela perspectiva biológica, ou como resultado de um estilo de vida fruto de suas escolhas, ou ainda pelo viés dos determinantes sociais da saúde. Com as duas últimas questões se buscou identificar se as pessoas consideram ou não que o CSF e a cidade se relacionam, e de que maneira, com a sua saúde. Objetivou- se adotar na elaboração das perguntas uma perspectiva positiva de saúde e por isso através destas se questionou a respeito dos hábitos saudáveis e não da doença.
Os dados obtidos a partir das entrevistas foram transcritos e explorados segundo a análise do discurso. Este método é descrito por Campos (2004) como um
conjunto de técnicas utilizados na organização e análise de informações com o intuito de buscar sentidos na análise de dados qualitativos. Uma vez que, como complementam Cavalcante; Calixto e Pinheiro (2014), esse método, embora possa também ser utilizado no aprofundamento de estudos quantitativos, tem como foco qualificar vivências e percepções dos sujeitos com relação a algum objeto ou fenômeno.
Quando voltada para dados quantitativos, a análise do discurso abrange grande número de informações e se propõe a identificar a frequência de aparecimento de determinadas características do discurso ou suas correlações. Já na análise de dados qualitativos, este método se detém à análise de um pequeno número de informações complexas e pormenorizadas e se propõe a identificar “a presença ou ausência de uma característica ou o modo segundo o qual os elementos do ‘discurso’ estão articulados uns com os outros” (QUIVY e CAMPENHOUDT, 1998, p. 227).
Creswell (2010) apresenta a sistematização dos procedimentos de análise do discurso em cinco passos. O primeiro passo é a organização e preparação dos dados para análise. O segundo consta da leitura de todos os dados a fim de se obter uma visão das informações. Em seguida, no passo três, realiza-se uma leitura detalhada com o objetivo de organizar o material em blocos de texto que formem uma unidade semântica. Em seguida, realiza-se a codificação do material para, no passo cinco, desenvolver uma discussão dos temas apresentados na narrativa; e no sexto passo, a interpretação das informações.
Já Campos (2004), Quivy e Campenhoudt (1998) e Minayo (2007) apresentam a sistematização dos procedimentos da análise do discurso em três etapas que consistem basicamente na preparação, exploração e interpretação dos dados. A sistematização em três momentos é a que melhor descreve os procedimentos seguidos neste trabalho. Uma vez que as informações obtidas por meio da entrevista foram, inicialmente, descritas e agrupadas em categorias convergentes. Em seguida, buscou-se estabelecer inter-relações com os dados conseguidos a partir da análise do IGMA para, por fim, interpretá-los à luz da teoria apresentada nos primeiros capítulos deste trabalho. Nesse sentido, a realização da análise do discurso dos dados da entrevista que foi acrescida ao IGMA ocorreu da maneira descrita a seguir. No primeiro momento os dados do IGMA foram digitados em um quadro composto por duas colunas principais (ver quadro 11). Na primeira, relativa às três primeiras perguntas da entrevista (questões 6, 7 e 8 do IGMA), estão os dados referentes à avaliação dos sujeitos acerca de sua saúde. Na segunda, referente a quarta e quinta perguntas da
entrevista (questões 9 e 10 do IGMA), estão os dados acerca de como os sujeitos entendem que a UBS e a cidade contribuem para a sua saúde.
Quadro 2 – Roteiro para distribuição das entrevistas
Fonte: Elaborado pela autora
Com o intuito de facilitar a atribuição das inter-relações entre a estima de lugar, identificada através do IGMA, e a implicação dos sujeitos com um modo de vida saudável, conseguida por meio da entrevista, todos os dados presentes nesses instrumentos, foram posteriormente, sistematizados em um único instrumento, conforme demonstrado no quadro 12.
Quadro 3 – Síntese do mapa afetivo do CSF São Geraldo e da entrevista sobre modo de vida saudável
Desenho
IDENTIFICAÇÃO: Sujeito: ___Sexo: F Idade: ____Escolaridade:__________ Renda: ______Tempo que freq. o CSF: ___________
ESTRUTURA: SENTIDO: QUALIDADE: SENTIMENTOS: METÁFORA: IMAGEM AFETIVA:
Avaliação dos sujeitos acerca de sua saúde Avaliação acerca de como o CSF e a cidade
contribuem com sua saúde Você se considera
uma pessoa
saudável? Por quê? proporcionam que você Que hábitos seus
seja mais saudável?
Você se considera uma pessoa saudável? Por quê?
Como o CSF contribui para que
você seja mais saudável?
Como a cidade contribui para que
você seja mais saudável? Fonte: Elaborado pela autora.
Na primeira linha do quadro estão dispostas as informações contidas no IGMA e nas demais as informações das entrevistas. A partir desse quadro foram selecionadas quatro variáveis a serem exploradas: a primeira é a estima de lugar que é classificada em estima de lugar potencializadora e despotencializadora, em termos de
Avaliação dos sujeitos acerca de sua saúde Avaliação dos sujeitos acerca de como a UBS e a cidade contribuem com sua saúde Você se considera uma pessoa saudável? Por quê? Que hábitos seus proporcionam que você seja mais saudável? Que hábitos você considera que deveria ter para ser mais saudável?
Como o posto
de saúde
contribui para que você seja mais saudável?
Como a cidade contribui para que você seja mais saudável?
pertencimento, agradabilidade, destruição, insegurança e contraste.Esta foi relacionada com as demais categorias que se referem à compreensão dos sujeitos a respeito de sua saúde, se se consideram saudáveis ou não.Em seguida a estima dos sujeitos foi relacionada com a percepção destes acerca da contribuição da UBS para a saúde. E por último, com a percepção das pessoas acerca da relação entre a cidade e a saúde.
Em seguida, foi realizada uma investigação estatística complementar a partir dos resultados do IGMA e da entrevista acerca do modo de vida saudável.
4.4.3 Análise estatística complementar: Análise de Equações Estruturais (AEE)
Para avaliar as relações entre a estima de lugar e as implicações dos sujeitos com um modo de vida saudável foi realizado uma análise de correlação, por meio da técnica de Análise de Equações Estruturais (AEE). Esta foi desenvolvida na primeira metade do século XX, mas seu uso só ganhou visibilidade nas ciências sociais e humanas a partir da década de 1970, quando são desenvolvidos métodos de estimação para estruturas de covariância de modelos estruturais e software que facilitam o seu uso (MARÔCO, 2014).
A AEE consiste em uma combinação de técnicas clássicas de Análise Fatorial e de Regressão Linear. No entanto, diferente dessas que buscam encontrar modelos teóricos que descrevam os dados encontrados, na AEE se parte de um quadro teórico estabelecido para se confirmar se este explica ou não a estrutura relacional dos dados. Dessa forma, como descreve Marôco (2014, p. 4), “A teoria é o motor da análise, contrariamente ao paradigma da estatística clássica em que os dados, e não a teoria, estão no centro do processo de análise”.
O autor chama atenção ainda para o fato de que na AEE, ao se verificar se o modelo proposto é adequado para explicar as relações entre os dados, não se afirma que este seja o único, ou seja, não anula outros modelos de explicação. Como o próprio autor diz, essa técnica “demonstra apenas que o referencial teórico considerado é adequado para os dados em observação, não excluindo, naturalmente, outros modelos teóricos igualmente defensáveis” (MARÔCO, 2014, p. 4).
Esse é um dos motivos pelo qual a AEE é adequada para ser utilizada em pesquisas nos campos das ciências humana e sociais que frequentemente se deparam com variáveis ditas latentes, ou seja, que não são diretamente observáveis e mensuráveis, como por exemplo, a estima de lugar que só pode ser verificada por
intermédio de outros múltiplos indicadores que sofrem várias outras influências, como pensamentos, sentimentos e percepções dos sujeitos com relação ao lugar. Assim sendo, essas variáveis latentes apresentam um grau de complexidade crescente de modelos teóricos explicativos, uma vez que cada indicador está amparado em uma teoria específica que justifica a sua pertinência na explicação da variável latente em questão.
Os modelos clássicos de análises, por tentarem estabelecer uma relação direta de causa-e-efeito e não levarem em consideração essa sistematização de diferentes modelos teóricos necessários para explicar as variáveis latentes, frequentemente, acabam por invalidar ou tornar pouco confiáveis os constructos que pretendem observar esses dados não mensuráveis diretamente, tornando-se, portanto, inapropriados para esse tipo de investigação.
A AEE, por sua vez, não pretende provar a existência de causalidade. Como explica Marôco (2014, p. 7) “Nada, num modelo de equações estruturais, permite provar a existência destas condições de causalidade. Apenas podemos demonstrar que o modelo suporta, ou não, a teoria de causalidade”. Dessa forma, ao se utilizar o modelo das equações estruturais, considera-se que a significância estatística de um modelo não deve ser usada para provar a veracidade das relações causais, uma vez que se considera que, “qualquer modelo é, quando muito, uma aproximação da realidade (MARÔCO, 2014, p. 7).
Na investigação descrita nessa dissertação, com base nos estudos apresentados nos capítulos anteriores, o modelo teórico a ser verificado com a AEE é que as estimas de lugar de pertencimento e agradabilidade potencializam o comportamento de implicação com o modo de vida saudável e que as estimas de destruição e insegurança despotencializam o comportamento de implicação com um modo de vida saudável. Foi acrescentado ainda a esse modelo teórico as associações entre as variáveis observáveis como renda, idade, tempo que frequenta a unidade de saúde e escolaridade com a estima de lugar dos sujeitos.
Os cálculos estatísticos foram realizados com o auxílio do software MPLUS que apresenta os principais métodos de estimação de AEE, estabelecendo correlações entre diferentes tipos de variáveis. Nessa pesquisa, as variáveis inseridas no MPLUS foram a estima de lugar, o modo de vida saudável, idade, renda, escolaridade e tempo que frequenta a unidade de saúde. A primeira, a estima de lugar, é uma variável latente que foi definida a partir dos dados obtidos com a escala Likert. As demais foram consideradas variáveis manifestas, para tanto, a variável considerada indicativa da
implicação com o modo de vida saudável foi a questão “Faz algo para se sentir mais saudável?”, uma vez que esta retrata o comportamento de mobilização ou não em prol de uma vida mais saudável.