Os estudos encontrados tomam a realização de atividade física/ sedentarismo, o comportamento alimentar, consumo de álcool e cigarros e estresse como aspectos relevantes para se analisar o modo de viver como saudável ou não. Muitos desconsideram as condições de vida, o contexto sociocultural, econômico no qual os indivíduos estão inseridos, bem como, a possibilidade de acesso à informação, à alimentação saudável, a espaços adequados de lazer e habitação, condições de trabalho que favoreçam uma qualidade de vida para o trabalhador e sua família. E analisam a mudança de comportamentos ou não a partir da perspectiva da adesão ou não adesão às prescrições dos profissionais da saúde.
No que se refere à relação entre modos de viver e adoecimento Paz et al (2011), ao buscarem descrever o estilo de vida de pessoas hipertensas atendidos pela ESF, constatam que o controle da pressão arterial está associado a terapêutica medicamentosa e não medicamentosa. Esta última se refere à redução de peso, dieta balanceada, atividade física, diminuição da ingestão de sódio e álcool e medidas associadas como abandono do tabagismo. Esta perspectiva é corroborada por Chaves et
al (2015) quando apontam, a partir de um estudo realizado com pacientes ambulatoriais, que a mudança no estilo de vida diminui o risco de doenças cardiovasculares.
Figueiredo e Asakura (2010) igualmente objetivaram caracterizar o perfil dos pacientes hipertensos atendidos por uma equipe de saúde e conhecer as dificuldades para adesão ao tratamento proposto pela equipe. Para tanto realizaram entrevistas com 54 pacientes atendidos em um centro de saúde em São Paulo. A partir destas, observaram que há eficácia da mudança do estilo de vida no controle da pressão arterial. Dessa forma, com esses estudos confirma-se a eficácia do controle de doenças cardiovasculares, no entanto revela-se, com as pesquisas acima descritas, que a problemática consiste é na não adesão das pessoas aos programas de mudança nos modos de vida.
Na mesma perspectiva também Stopa, et al (2014); Costa, et al (2011); Goes, et al (2015); Nobre et al (2006), entre outros, amparados na concepção de estilo de vida como “padrões adotados pelos indivíduos que fazem parte de suas atividades diárias e influenciam positivamente ou negativamente a saúde dos mesmos” (PAZ et al, 2011, p. 469), apresentam como problema o fato dos cidadãos-usuários da Atenção Básica não aderirem às orientações acerca de um estilo de vida saudável. E atribuem a não adesão a características como idade avançada, baixa escolaridade e nível socioeconômico das pessoas.
Assim, esses estudos desconsideram, portanto, o que Barata (2009) chama de desigualdade social em saúde. Esta se refere às diferenças sociais injustas que “sistematicamente colocam alguns grupos em desvantagem com relação à oportunidade de ser e se manter sadio” (BARATA, 2009, p. 12).
Além disso, ao apontar como problema a não adesão doscidadãos-usuários, estas pesquisas revelam uma visão fundamentada no modelo biomédico de saúde, na qual as pessoas devem ser passivas diante do saber médico hegemônico. Uma vez que o conceito de adesão está fortemente voltado para a relação de concordância entre a prescrição médica e o comportamento do paciente. Como pode ser vista na definição apresentada por Gusmão e Mion Junior (2006, p. 23), a adesão é caracterizada como o “grau em que o comportamento de uma pessoa representado pela ingestão de medicação, o seguimento da dieta, as mudanças no estilo de vida, corresponde e concorda com as recomendações de um médico ou outro profissional da saúde”.
Dessa forma, demandar adesão por parte dos cidadãos-usuários significa querer que estes tenham uma postura passiva, apenas de obediência às exigências
prescritas pelo profissional. Esta perspectiva contradiz as propostas da Política de Promoção da Saúde que aponta a necessidade da população se tornar cada vez mais participante e, portanto, implicada com o processo de saúde.
No que se refere à prática de atividade física, seus benefícios são amplamente divulgados nos meios de comunicação de massa, no entanto é necessário considerar estudos que revelam que jovens com melhores índices de escolaridade e poder aquisitivo, bem como, pessoas residentes em bairros com melhores condições sociais e acesso a áreas públicas de lazer tendem a praticar mais atividades físicas (BOCLIN; FAERSTEIN; LEON, 2014; FREITAS, 2010). Haja vista que aqueles com menores condições socioeconômicas têm menos acesso a espaços públicos de lazer e piores condições para se deslocarem para os grandes centros urbanos que tenham esses ambientes.
Outro aspecto relevante a se considerar ao tratar dos modos de viver, como já apontado anteriormente, são as condições de trabalho. Santos e Marques (2013) ao investigar as condições de saúde, o estilo de vida e as características do trabalho de professores de Bagé, RS, constatam que quanto maior o tempo de serviço, pior é o índice de percepção geral da saúde desses profissionais, o que sugere que as condições de trabalho são geradoras da percepção negativa da saúde. Diante disso, indicam “que dirigentes e instituições, no âmbito da educação, estimulem seus profissionais na adoção de hábitos positivos de estilo de vida” (SANTOS; MARQUES, 2013, p. 845).
Vedovato e Monteiro (2008) também com o propósito de caracterizar o perfil sociodemográfico, o estilo de vida, as condições de saúde e de trabalho de professores da rede estadual de ensino, realizam um estudo com 468 professores estaduais de duas cidades do interior de São Paulo, Campinas e São José do Rio Pardo, no período de agosto a dezembro de 2005. Igualmente concluem que os professores estão expostos a riscos, no entanto, estes se dão pelas próprias condições que essa atividade impõe, como a exposição ao estresse, baixa remuneração e jornadas exaustivas de trabalho. Diante disso, diferente do estudo anterior, os autoresconsideram que se trata de um problema de saúde coletiva, portanto, chamam atenção para a importância dos governantes em elaborar e adotar medidas relacionadas à promoção e prevenção de saúde dos professores.
Além de professores, também a atividade de motorista propicia um modo de viver pouco saudável, pois proporciona hábitos de sedentarismo, inadequados hábitos alimentares, sobrepeso e uso de tabaco e outras drogas, conforme apresenta Masson e
Monteiro (2010). Diante disso, as autoras apontam a necessidade de se discutir políticas de prevenção de doenças e promoção de saúde específica para os motoristas.Conforme trabalho anterior, aqui também se direciona os resultados para sugerir políticas de prevenção e promoção direcionadas para o setor governamental e não na esfera individual.
Pesquisa realizada com policiais de Recife, cujo propósito foi analisar as relações entre estilo de vida e aspectos sociodemográficos e ocupacionais de policiais militares, revelou que os PMs em sua maioria têm um modo de vida considerado como não saudável. Diante disso, os autores indicam a adoção de medidas de promoção e prevenção com o intuito de reduzir as vulnerabilidades dessa profissão e melhorar a qualidade de vida desses profissionais. E embora a pesquisa tenha mostrado que os policiais têm uma longa jornada de trabalho, sobretudo de trabalho extra para complementar a renda, sugerem ainda que sejam criadas estratégias de incentivos de prática de atividades físicas e medidas educativas para orientação de uso de álcool e fumo (FERREIRA, BONFIM e AUGUSTO, 2011).
Os estudos citados ao tratarem das condições de saúde e trabalho apontam para uma inter-relação entre as condições sociais, ambientais e o estilo de vida das pessoas no que concerne à nutrição, prática de atividade física e estresse.
É importante salientar que apesar de muitos autores citados anteriormente, como Ferreira et al (2011), Santos e Marques (2013), Boclin, et al, (2014); Freitas, et al (2010) aludirem a questões socioambientais como aspectos que influenciam o estilo de vida, acabam indicando em suas discussões que é necessário o investimento em educação e saúde para que os sujeitos adotem hábitos mais saudáveis. Dessa forma, acabam culpabilizando os indivíduos com relação ao processo de saúde, pois ao focarem como proposta de intervenção a educação em saúde, consideram que o estilo de vida é fruto do desconhecimento e da escolha solipsista dos sujeitos. E desconsideram que devam ser tomadas medidas governamentais voltadas para a melhoria das condições sociais e ambientais dos locais onde se vive.
Faz-se necessário atentar para análises que revelam que ter conhecimento sobre qual deve ser o modo de vida saudável não é suficiente para ser saudável. Chaves, et al (2015), em um trabalho que teve como objetivo avaliar os efeitos de um programa educativo sobre a mudança de estilo de vida para prevenção cardiovascular, iniciaram um programa de educação em saúde com 15.000 pessoas e ao término de sua pesquisa contavam com apenas 460 sujeitos. Com esse estudo, os autores mostraram que a
mudança no modo de vida diminui o risco de doenças cardiovasculares e concluem que a ação educativa tem resultados significativos, mas a grande problemática é a adesão das pessoas ao programa de mudança de comportamento.
Da mesma forma, Paz, et al (2011) em um estudo cujo objetivo era descrever o estilo de vida de pessoas hipertensas atendidos por uma equipe de saúde, em Piraí, RJ, concluem considerando que os sujeitos conhecem quais medidas com relação ao modo de vida devem ser tomadas para que se mantenha o controle da pressão arterial, mas a adesão a essa mudança não é satisfatória.
Figueiredo e Asakura (2010) também se deparam com a mesma problemática em um estudo realizado por uma equipe de saúde em São Paulo. Os pesquisadores apresentam a eficácia da mudança do estilo de vida no controle da pressão arterial, mas apontam a não adesão como o grande problema. Revelam ainda que “Embora os pacientes demonstrem ter conhecimento da doença, não se observou associação entre o conhecimento ou o seguimento das orientações” (FIGUEIREDO e ASAKURA, 2010, p. 786).
Considera-se que os profissionais da saúde ao demandarem adesão por parte dos sujeitos ancoram-se em relações firmadas na passividade do sujeito-usuário do sistema de saúde. Pois ao profissional da saúde cabe dizer o que é bom ou ruim, certo ou errado e prescrever comportamentos que devem ser seguidos para se livrar da doença, ou no caso em questão, ter uma vida saudável.
Diante disso, aponta-se, neste trabalho a perspectiva de se pensar a implicação dos sujeitos com um modo de vida saudável. Entendendo implicação, a partir de Heller (1993), como sendo o envolvimento ou comprometimento que é possibilitado a partir do sentido que as pessoas atribuem ao que seja um modo de viver saudável. Esta produção de sentido, por sua vez, “consiste numa criação resultante tanto de suas interações face-a-face, quanto de suas relações com signos e outros sentidos que circulam nas tessituras sociais” (BARROS, et al, 2009, p. 179).
Considera-se, dessa forma, que esta segunda perspectiva está de acordo com a proposta de participação da Política de Promoção da Saúde, e se revela no sentido de favorecer a expansão da potência de ação do outro, proporcionando às pessoas vivenciarem a alegria, serem livres, ativas e autônomas.
Diante das constatações de que a educação em saúde, muitas vezes, não é suficiente para impulsionar a mudança de comportamento, resta buscar compreender: o que leva à implicação dos sujeitos com um modo de viver saudável? Considerando a
interdependência entre ambiente e saúde, apontadas nas Declarações da Promoção da Saúde, como promover um ambiente possibilitador de um modo de vida saudável? A relação pessoa-ambiente pode possibilitar uma implicação com o modo de viver saudável? A estima de lugar pode ser um indicador de implicação com o modo de vida saudável? Esta implicação tem relação com uma maior participação social em prol de um modo de vida saudável?