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Com a posse de Sarney, os acordos políticos expressos no Manifesto Compromisso com a Nação, elaborados pela Aliança Democrática, permaneceram valendo. Somente um ano após a posse o Governo começa a modificar a composição de governo. No entanto, a aliança PMDB/PFL, que garantiu a vitória da chapa Tancredo e Sarney, continuou a predominar nas equipes do Governo Federal.

Entre as primeiras medidas tomadas pela Nova República estava a emenda Constitucional n.º 25, aprovada em maio de 1985, que reformou o sistema eleitoral. A nova lei acabou com a obrigatoriedade do voto de chapa, permitiu que os parlamentares trocassem de partido sem restrições, legalizou a formação de

alianças entre partidos e eliminou a cláusula de exclusão nacional, antes necessária para alcançar a representação no Congresso. Os partidos agora só precisavam atingir o quociente eleitoral – número de votos válidos divididos pelo número de cadeiras – em um Estado. Estas mudanças fomentaram a criação de muitos novos partidos em quase todos estados da Federação. A nova emenda constitucional ainda aboliu o colégio eleitoral e instituiu eleições diretas para presidente da República; acabou com a eleição indireta de um terço dos senadores pelas assembléias estaduais; introduziu as eleições diretas para prefeito das capitais e das cidades consideradas “municípios de segurança nacional”, que durante o regime militar eram escolhidos pelos governadores, determinando a data de 15 de novembro de 1985 para a realização da votação nessas localidades. (MAINWARING, 2001).

No caso da capital do Estado do Espírito Santo, nas eleições municipais o eleitor podia contar com outras opções partidárias de oposição. Concorreram a esse pleito pelo PMDB o candidato Hermes Laranja apoiado pelo Governo do Estado. Já pelo PDS o empresário da construção civil e ex-prefeito Chrisógono Teixeira da Cruz; pelo PT concorreu o médico e líder sindical, Vitor Buaiz. Pelo recém legalizado Partido Comunista Brasileiro, o jornalista Jairo Regis que viu nesta eleição a oportunidade de divulgar as linhas ideológicas do partido e, finalmente pelo Partido Socialista Cristão, também recém-fundado, Amúlio Finamore, representante desconhecido e sem densidade eleitoral (ZORZAL, 1993, p. 78).

Além da importância da capital nas decisões políticas do Estado, atingir o cargo de prefeito de Vitória iria permitir às correntes ampliar as articulações e arregimentar, a partir da capital, o eleitorado dos municípios da Grande Vitória, que representavam 40% do total de eleitores do Estado (JÁ COMEÇOU..., 1985, p. 27).

O PMDB era o partido que abrigava a disputa mais acirrada. No cerne do partido as agremiações de diferentes tendências disputavam o lugar de pré-candidato. Além de ser o partido mais organizado do Estado, ocupava o governo e tinha à sua disposição a máquina estatal. Segundo a imprensa. o partido ostentava seis postulantes a candidatos no início daquele ano eleitoral, quando o retorno das eleições às capitais ainda não era uma certeza: os deputados estaduais Rosilda de Freitas, Antônio Pelaes e Paulo Hartung; o vereador Paulo Lindoso; o prefeito de

Vitória Berredo de Menezes; e o então diretor da Companhia de Processamento de Dados do Estado do Espírito Santo (PRODEST) e ex-candidato a deputado Federal Vitor Martins.

Apesar de não declarar o desejo de concorrer ao pleito da prefeitura municipal, Hartung defendeu em entrevista à imprensa no início daquele ano eleitoral, um perfil de candidato que aparentemente condizia com o seu.

Acredito que seria importante na capital o partido buscar a coligação com a oposição democrática (PDT e PT). Estes partidos não teriam dificuldades de compor com o PMDB, caso tenhamos um candidato de trânsito nestas agremiações (JÁ COMEÇOU..., 1985, p. 27).

Ainda segundo a matéria publicada a candidatura Hartung não provocaria no PT resistência à coligação, perante a necessidade de remover o “entulho autoritário” da legislação eleitoral.

O diretório municipal do PDS estava esfacelado e perdeu 2/3 dos seus quadros com a saída do ex-prefeito de Vitória em 1978 e ex-diretor da Ceasa, Wander Bassini. Ele havia pedido exoneração da secretaria da bancada pedessista e levado suas bases para o Partido da Frente Liberal. O ex-prefeito Chrisógono Cruz era o nome de maior peso para o enfrentamento com o PMDB. A partir das rivalidades existentes entre Elcio e Eurico Resende – principais lideranças do partido – se configuraria o embrião de forças que, posteriormente em 1985, fundariam o PFL – Partido da Frente Liberal, consolidando as divisões do PDS em partidos distintos (JÁ COMEÇOU, 1985, p. 27).

O PDT, ainda em fase de estruturação, não possuía densidade eleitoral no município de Vitória. Já o PT organizou através da diretoria municipal um grupo para formular uma plataforma para a capital, além da criação junto às entidades comunitárias do Comitê Pró-Diretas, com o objetivo de atrair a população para a importância do voto direto nas capitais.

Apesar do fraco resultado da eleição de 1982, o PT era o partido que mais havia crescido no Estado. Pesquisa do Instituto Gallup daquele ano indicava 8% de preferência do eleitorado para o Partido dos Trabalhadores, ficando apenas um ponto percentual, atrás do segundo colocado, o PDS (PT..., 1985, p. 19). O presidente do partido, Perly Cipriano, em entrevista à imprensa, disse acreditar que

a linguagem ideológica utilizado pelo PT naquela eleição contrastou com o conceito do “voto útil” amplamente divulgado pelo PMDB:

O PT deverá sair do discurso meramente ideológico e classista para colocações de maior penetração popular e que reflitam o momento político. Não devemos ser meros reprodutores de princípios, sem conseguir sensibilizar a todos de que nossas propostas são mais justas e plenamente realizáveis. [...] Hoje estamos organizados em 19 municípios do Espírito Santo e tudo indica que abriremos novos espaços. Podemos dizer que o partido está plenamente recuperado dos insucessos sofridos com a campanha das eleições de 82 (PT..., 1985, p. 19).

Antes de optar definitivamente por Hermes Laranja como candidato do PMDB, o governador Gerson Camata convidou o então deputado estadual Paulo Hartung para se tornar o candidato do partido. Hartung (2007) narra este fato

O Camata me chamou ao Palácio, eu era deputado estadual, e base dele na Assembléia. Naquela mesinha redonda que está lá até hoje, aonde ele trabalhava. Ele colocou a Rita (Camata) e me convidou formalmente para ser prefeito apoiado por ele e eu fiquei surpreso. Eu tinha obtido uma boa votação em Vitória, mas tinha outras lideranças em Vitória da base do Governador importantes, pedi a ele 24 horas para conversar com o grupo porque eu não sabia o que responder. Fizemos uma reunião às pressas, na varanda da casa, em que eu morei muitos anos, na Mata da Praia e discutimos noite adentro e chegamos a conclusão que não era hora (Informação verbal).

A influência da militância do partidão ainda se fazia notar no grupo. As deliberações ainda eram partilhadas e discutidas e, principalmente, a prudência com fortes doses de pragmatismo imperava nas decisões. Estrategicamente, alcançar o comando do poder executivo municipal contando apenas com o apoio do governador criaria a necessidade de um compromisso político para lideranças ainda em formação. O grupo considerou que seria indispensável angariar densidade eleitoral e reconhecimento da sociedade pelo trabalho desenvolvido. Pinto (2008) continua narrando o fato:

Naquele ano Camata sondou Paulo, mas na nossa visão, o que a gente achava é que não havia movimento popular, não havia inserção do Paulo na sociedade que o levasse para a prefeitura com base e agente achou que não seria bom, seria muito difícil, ou ele seria por demais dependente de uma articulação palaciana. Não teria força própria para poder administrar a cidade. Nada contra Camata. Camata foi uma pessoa muito importante para o Estado. Mas, para o que a gente queria, para uma coisa mais forte de política própria...a gente não queria que Paulo fosse um delegado do governador, mas que fosse uma pessoa que chegasse lá pelas próprias pernas, então nós achamos que era muito mais prudente solidificar o caminho dele.... (Informação verbal).

O Governador acatou a decisão do grupo. Porém, solicitou apoio ao candidato que viria a concorrer naquele pleito. Hartung (2007) levou a missão até o final, mas contra a sua vontade e a do grupo.

E acabou me levando para a campanha do candidato dele que não era muito a identidade do nosso grupo em Vitória, o Hermes Laranja. Nós tínhamos uma identidade maior com a UFES, com Vitor Buaiz. Para nós naquela época era melhor perder com Vitor Buaiz, que a gente perdia em casa com o nosso movimento de juventude, com nossos movimentos sociais do que ganhar com Hermes Laranja, mas evidentemente que a política é um processo e eu apalavrei, voltei ao grupo, contei a conversa e nós fomos para a campanha do Hermes. O Vitor cresceu na reta final da campanha, cresceu muito entre os nossos eleitores. No nosso início de carreira foi uma sofreguidão, você ta ali meio amarrado com um compromisso. Tem que viver essa experiência, dar a palavra, assumir compromisso e nós fomos com Hermes até o final. Ganhamos com Hermes. O grupo teve inclusive, participação na administração do Hermes, como tínhamos estado na administração do Berredo, lá atrás, quando o Berredo foi indicado. E ficou aquele sentimento no grupo, foi bacana porque na frente nós ajudamos a eleger Vitor para deputado federal.

O grupo apoiou a campanha de Laranja e não se absteve de arcar com o ônus da Frente Ampla do PMDB. Segundo as orientações do partido, aquele ainda era o momento do voto útil. Posteriormente o grupo iria participar de eleição de Vitor Buaiz para a Câmara Federal no ano de 1986, como veremos mais adiante. Pinto (2008) defende o apoio mediante a contradição do grupo:

Só que a gente tinha uma aliança com o PMDB que era real e que não era uma coisa só, vamos dizer assim, utilitarista, a gente achava que o PMDB era muito importante na luta pela ditadura. Ela não tinha acabado.... e de certa forma isso nos colocava na campanha de Hermes Laranja. Aí aquela história, ou você acredita que a política se faz com lealdade, ou não. A gente achava que Vitor era o melhor para a cidade, a gente sentia que estava mais de acordo como nosso coração. Ou a gente acreditava na frente ampla do PMDB naquela época.

Foi um negócio muito ruim, porque na medida em que a campanha de Vitor foi crescendo, foi uma coisa que mexeu muito com a gente, fez mal, mas eu acho que agimos certo naquele momento. A gente tinha um projeto de País. Ou a gente estava no PMDB ou a gente usava o PMDB. E essa nunca foi a nossa cabeça.

A eleição de 1985 foi marcada pelo crescimento do PT e com ele cresce a importância da sua principal liderança, o médico Vitor Buaiz. O favoritismo que era dividido entre Hermes Laranja e Chrisógono da Cruz foi ameaçado pelo candidato do PT que acaba conquistando um segundo lugar nas urnas. Essa performance proporcionou ao candidato do Partido dos Trabalhadores uma maior visibilidade e

densidade política, o que o leva a se eleger deputado federal pelo partido no pleito de 1986.

Figura 9. material de campanha

fonte: Arquivo pessoal de Paulo Hartung

O material de campanha de Paulo Hartug de apoio ao candidato do PMDB (FIGURA 9) ainda exaltava a luta do partido pela redemocratização e pregava o voto útil como argumento para a eleição de Hermes Laranja.

No ano de 1985, 25 partidos receberam ou estavam por adquirir registros no Tribunal Regional Eleitoral, compondo novas siglas de diversas colorações ideológicas e fisiológicas, incluindo o PC do B que enfim havia conseguido novamente a legalização após tantos anos de clandestinidade. Do grupo do partidão do movimento estudantil restavam poucos representantes nas fileiras do partido, um dos principais era Fernando Herkehhoff. Felício Correa voltaria ao partido,

concorrendo na eleição extraordinária de Vila Velha em 1987 e Fernando Pignaton também voltaria ao PCB nas eleições de 1988.

O partidão resolveu lançar como candidato a prefeito o jornalista Jairo Régis, com a preocupação de legitimar-se política e socialmente, mas não passou de um quarto lugar entre os cinco candidatos.

Na eleição municipal de 15 de novembro de 1985 compareceram às urnas 107.511 eleitores, sendo que 5.680 votaram nulo ou em branco. Na capital do estado haviam 131.679 eleitores aptos a votar.

Nome Votação Partido ou coligação

HERMES LEONEO LARANJA GONÇALVES Vice: Antônio Pelaes

45.629 PMDB VITOR BUAIZ

Vice: Kleber Perini Frizzera

28.287 PT CHRISÓGONO TEIXEIRA DA CRUZ

Vice: Jose Manoel Nogueira de Miranda

26.515 União Democrática (coligação PDS e PMN) JAIRO ARAÚJO REGIS

Vice: Mª de Fátima Santos Machado

1.084 PCB AMÚLIO FINAMORE FILHO

Vice: Edson Sampaio

322 PSC

TOTAL DOS CANDIDATOS 101.837

Quadro 1. Resultado da eleição municipal

Fonte: Material coletado no arquivo do Secretaria Judicial do Tribunal Regional Eleitoral, Vitória, ES.

Alguns membros do grupo se inserem na administração da Hermes Laranja como César Colnago que assume pelo período de um ano a Secretaria de Saúde e Robson Leite Nascimento a Secretaria de Serviços Urbanos, até a metade do mandato do prefeito.