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6. AVSLUTTENDE REFLEKSJONER

6.2 Oppsummering

Contextualizando o fetiche da “Globalização”

Segundo as indicações de François Chesnais, o chamado processo de ―Globalização‖ configura uma ―Mundialização do Capital‖. No livro intitulado ―Mundialização do Capital‖, uma referência de análise indispensável, este autor faz todo um diagnóstico crítico desse fenômeno contemporâneo, englobando-o como um processo de acumulação do capital, inserido numa tendência a financeirização econômica, em nível mundial, cujo propósito maior é a garantia da manutenção das taxas de lucros dos grandes conglomerados capitalistas, sobretudo os bancos e os fundos de pensão dos Países centrais. O autor acima citado tenta desmistificar o fenômeno da globalização. Com efeito, identifica tal expressão como o corolário do processo sócio-histórico impulsionado pela intensificação de fluxos de capitais. Tais fluxos, nos circuitos de financeirização econômica mundial, revelam uma predominância dos capitais das empresas transnacionais e dos fundos de pensão (CHESNAIS: 1996). Configura-se, a partir daí, um cenário adequado, em nível planetário, para as novas exigências de acumulação do capital, agora, com o desafio de enfrentar o acirramento da crise provocada pela redução do trabalho vivo e substancial aumento do trabalho morto.

106 Chesnais faz sua crítica contundente aos adeptos do ―globalismo irreversível‖, identificando a década de 80, do século passado, como sendo o começo do atual ciclo de acumulação do capital, de sua mundialização contemporânea. Indica que o termo ―globalização‖ foi cunhado, pela primeira vez, pelas ―business management schools‖ de Harvard, Columbia e Stanford, cujo objetivo era indicar uma era de liberalismo econômico radical apoiada na desregulamentação das economias dos estados nacionais.Para o autor, o termo ―globalização‖ por si só é ―vago e ambíguo‖, indicando, na verdade, o propósito de se evidenciar uma financeirização mundial como ―natural‖ e ―irreversível‖. Para tanto surgem propostas vazias, das quais o autor destaca a tese de ―adaptar-se‖, questionando ―adaptar-se a que‖? Desenvolvendo sua tese, Chesnais mostra que esta ―adaptação‖ passa pelas desregulamentações econômicas no sentido de favorecimento às livres transmutações de capitais, intensificando sua mobilidade em nível planetário. Para o autor, essas desregulamentações acabam resvalando no campo social, expressando-se na forma de redução de direitos históricos das massas de trabalhadores pelo mundo afora, objetivando à instalação de grandes empresas a custos cada vez menores, favorecendo à manutenção e constituição de grandes redes produtivas espalhadas pelo mundo. Para Chesnais: “Agora o capital está à vontade para por em concorrência as diferenças no preço da força-de-trabalho entre um País – e, se for o caso uma parte do mundo – e outro. Para isso, o capital concentrado pode atuar, seja pela via do investimento, seja pela terceirização”. (CHESNAIS, 1996:28).

Alves, outro crítico do ―globalismo irreversível‖, ressalta o surgimento, na década de 1980, de aspectos ―impressionistas‖ como as idéias de ―aldeia global‖ ou de ―sociedade global‖. Para o autor, a globalização se revela enquanto forma ideológica do capital do ponto-de-vista da generalização (ou globalização) da democracia representativa e do bem-estar social via desregulamentação dos mercados. Para consecução de tais objetivos, o capital lança mão do poder de regulação dos organismos internacionais, como o FMI (Fundo Monetário Internacional), a OMC (Organização Mundial do Comércio) e o Banco Mundial, cujos perfis são de caráter supranacionais, mas, que de fato, são controlados pelas economias centrais capitalistas capitaneadas, sobretudo, pelos Estados Unidos. Para Alves, os EUA são, em última instância, o gerente do ―processo global‖. Para o autor, ainda há de se levar em conta como reforço da globalização a ideologia da vitória

107 sobre o ―socialismo real‖ e a profusão das coalizões conservadoras pelo mundo, reivindicadoras de um acentuado liberalismo econômico.

Para Alves, no entanto, existem outros aspectos na constituição do processo global, a saber, a constituição de uma proposta humano-civilizatória, nos moldes do ―americanismo‖. O autor é enfático ao afirmar a supremacia do aspecto econômico no projeto de globalização. Há, inclusive, na visão do autor, um claro favorecimento ao fetichismo da mercadoria66. Sobre isso ele comenta:

Se predomina o aspecto econômico em detrimento da pluridimensionalidade da globalização (o novo economicismo) é porque a globalização, antes de ser um processo civilizatório, é, acima disso, mundialização do capital. (ALVES, 2001:44)

A partir das inferências de Alves, pode-se concluir que o processo de globalização, é mundialização do capital, é um reflexo da necessidade da ampliação do raio de ação do capital no seu movimento incontrolável e contraditório. Dessa maneira, a acumulação do capital incorpora o avanço da ciência e da técnica em seu benefício. Esses avanços científicos, orientados sob o predomínio do metabolismo do capital, não estão comprometidos com um processo global de satisfação social. Ao contrário, somente uma pequena parcela da população mundial é chamada a desfrutar dos benefícios do ―shopping center global‖. Na realidade, grandes massas de indivíduos são ―excluídas‖ dos benefícios da ―globalização‖. Neste sentido, o avanço cientifico revela-se como contraditório e não

66 O fetichismo da mercadoria em Marx sugere:

―A primeira vista a mercadoria parece ser uma coisa trivial, imediatamente compreensível. Analisando-a, vê- se que ela é algo muito estranho, cheia de sutilezas metafísicas e argúcias teológicas ‖ (K MARX, 1978 : 79) Na perspectiva marxista, há um encobrimento da real face das relações interpessoais baseadas na troca de mercadorias. E ele se propõe, então a construir uma argumentação que objetiva desmistificar o segredo da mercadoria. Na realidade o que autor demonstra é que no capitalismo as relações de sociabilidade são submetidas e mediadas por intermédio da compra e venda de mercadorias. As relações sociais são transformadas em trocas realizadas na esfera do mercado. Não se consegue mais visualizar os agentes sociais que ficam encobertos por esse tipo de relação. As pessoas e os produtos, frutos das mais diversas formas de tipos de trabalho, são vistos e reconhecidos como mercadorias prontas para o consumo. O caráter mágico advém da inserção do trabalho humano, a igualdade das relações assume a forma de produtos destinados ao mercado, as relações sociais assumem a forma de produtos e não de produtores. Há uma dissimulação da relação entre os homens, o produto de seu ofício é refletido como mercadoria. Há uma relação entre coisas e não entre pessoas, convertendo o humano em coisa. Conforme infere Marx: ―Em outras palavras, os trabalhos privados atuam como partes componentes do conjunto do trabalho social, apenas através das relações que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio destes, entre os produtores‖ (MARX, 1978:81)

108 serve a todos eqüitativamente. Faz-se mister, em consonância com o pensamento do autor, ressaltar a atualidade do pensamento de Marx:

O domínio do homem sobre a natureza é cada vez maior; mas, ao mesmo tempo, o homem se transforma em escravo de outros homens ou da sua própria infâmia. Até a pura luz da ciência parece só poder brilhar sobre o fundo tenebroso da ignorância. Todos os nossos inventos e progressos parecem dotar de vida intelectual as forças materiais, enquanto reduzem a vida humana ao nível de uma força bruta. Esse antagonismo entre a indústria moderna e a ciência, de um lado, e a miséria e a decadência, de outro, este antagonismo entre forças produtivas e as relações sociais de nossa época é um fato palpável, esmagador e incontrolável. (MARX, 1984: 91)

O capital, a partir da década de oitenta, impõe inovadoras formas contratendenciais à crise que lhe é imanente. Assim, recorre a um número significativo de alternativas até então originais, com especial atenção à incorporação maciça de tecnologias baseadas na microeletrônica, expandindo, conseqüentemente, sua composição orgânica. Com efeito, passa a exigir novas formas de trabalho ―ajustadas‖ à sua nova composição técnica, permitindo, já nesta época, formas flexíveis de utilização tanto do maquinário como da força-de-trabalho. Na década de oitenta criaram-se condições favoráveis para o avanço vigoroso do capital. Acerca deste processo, comenta Alves:

Os anos 80 podem ser considerados a „década das inovações capitalistas‟, da flexibilização da produção, da „especialização flexível da desconcentração industrial, dos novos padrões de gestão da força-de- trabalho, tais como just-in-time/Kanban CCQs e programas de Qualidade Total, da racionalização do trabalho e de uma nova etapa da internacionalização do capital, ou seja, de um patamar de concentração e centralização do capital em escala planetária. (ALVES, 1999)

Este novo patamar de acumulação capitalista, constituído a partir do avanço tecnológico e da inserção de novas formas de gestão de pessoas nas empresas, adotou a ―flexibilidade‖ enquanto modelo adequado ao suporte ideológico da ―desregulamentação‖ neoliberal, em voga neste período. Esta investida tecnológica apoiada, no âmbito superestrutural, por um denso discurso ideológico, ficou conhecida como ―acumulação flexível‖. Trata-se de uma ofensiva lógica e histórica do capital em contraponto a sua suposta ―rigidez‖ fordista. Nesta perspectiva, D. Harvey infere que a acumulação flexível

109 ―se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo‖ (1989).

A acumulação flexível, em verdade, é o reflexo de uma forte ofensiva do capital, em que a categoria ―flexibilidade‖ assume inúmeros desdobramentos, adquirindo formas múltiplas dentro da esfera da produção de mercadorias e da organização do trabalho. Nesta dinâmica de inovações na base técnica do capital, emergem formas variadas de pagamento e de trabalhos, mesclando antigas e novas formas de remuneração e de atividades, com destaque para moderna remuneração variável e a tradicional produção/remuneração por peça. Agora, pode-se variar, inclusive, o local de trabalho, podendo parte das tarefas ser realizada na indústria ―matriz‖, como também nas subcontratadas, ou até mesmo em casa. Enfim, as formas de trabalho variam tanto quantitativamente como qualitativamente, dando origem a uma diversificada e fragmentada ―classe-que-vive-do-trabalho‖ (ANTUNES, 1998).

Cabe salientar que o fenômeno da ―globalização‖ vem seduzindo outras inúmeras análises na esfera das Ciências Sociais de respeitáveis pensadores do mundo intelectual. Na realidade, a grande maioria das reflexões sobre este fenômeno foca na perspectiva de conferir prova de validade inconteste à tese liberal da eterna suscetibilidade do homem às trocas. Assim, a globalização aparece como um estágio superior dessa pulsão humana pelo mercado e pela concorrência, inexistindo, para sempre, no homem, quaisquer vestígios que apontem para a potencialidade de uma sociedade comunal-solidária sem o advento do mercado capitalista. O quadro conjuntural do final da década dos anos oitenta e início da década dos anos noventa do século passado aparentava conferir validade a esta tese. À época, era visível a queda do império soviético e seus satélites, considerados, até então, a única forma de ―socialismo real‖ efetivamente existente. Assim, muitos atribuíram aquele momento como o ―fim da história‖, a vitória contundente do mercado e do capitalismo sobre o socialismo e o comunismo. Aliado a este fato relevante, inúmeros representantes da nova direita mundial ascenderam aos governos de seus Países, com o propósito de levar às últimas conseqüências o processo de globalização.

Neste início de século, mesmo sem se dar ao trabalho de expor uma longa gama de indicadores socioeconômicos, as evidências no que se referem, por exemplo, aos

110 catastróficos índices de desemprego (quase a metade planetária da força-de-trabalho fora do mercado de trabalho formal), que atinge tanto às economias da periferia quanto às economias centrais, sugerem evidências que algo deu errado no propalado ―projeto global‖. Com efeito, houve repercussões desse fracasso da hipertrofia do mercado como realizador das necessidades humanas no campo político, inclusive, com rupturas ou adaptações de coalizões de centro-esquerda, antes inimagináveis, atestando a incapacidade dos pressupostos neoliberais no que se refere à gerência de políticas públicas centradas nas demandas sociais. Fenômeno de ruptura este bem representado inequivocamente na América Latina, sobretudo, nos casos da Venezuela, da Bolívia e do Equador.

Então, estabeleceu-se no campo intelectual conservador uma inquietante indagação: o que teria dado errado? Uma vez posta em prova a lei geral do equilíbrio, onde residiriam as causas de seu aparente insucesso? Perante este cenário de múltiplas dúvidas, grande parte do respeitável mundo acadêmico, antes entusiasta da globalização, preferiu tergiversar sobre a incompatibilidade do projeto neoliberal em si, atribuindo o insucesso à incompetência dos governos nacionais em consumar as reformas necessárias para a adaptação do Estado às diretrizes sob o imperativo da livre concorrência. Assim, não foi possível lançar bases transhistóricas para o fundamento da razão econômica revertida na ideologia sobre a progressão contínua das relações de troca sob a regência do sociometabolismo do capital. Com efeito, não se fazendo mais possíveis os invólucros de cunho ideológico do tipo ―globalização‖, depara-se com a acumulação capitalista em ―estado puro‖, emergindo as contradições imanentes ao movimento do capital na forma de crise do trabalho. Tal perspectiva acena para a possibilidade da imposição de novas regras às relações internacionais de produção, objetivando suprir as necessidades de retroalimentação do capital. Tais medidas, dentro da ordem, não podem ser diferentes do acionamento de incentivos para o revigoramento da acumulação do capital, com conseqüências ainda mais deletérias para uma fração cada vez maior da humanidade.

Diante deste cenário, de incontáveis incertezas, em que ―tudo parece estar invertido‖, em que ―tudo o que é sólido se dissolve no ar‖, surge a inquietante indagação: quais aportes teóricos são capazes de conferir explicação aos fenômenos referentes à intensa globalização dos mercados e a crescente financeirização econômica mundial?

111 Parece que a configuração atual aponta para um retorno às contribuições deixadas por Marx ainda no século XIX. De fato, são por inspiração neste legado marxista que surgiram (e surgem) os analistas mais lúcidos do chamado fenômeno da globalização. Neste ponto, cabe especial destaque às contribuições de François Chesnais, quiçá o autor de maior evidência de inspiração marxiana a tentar elucidar os fundamentos econômicos da dita globalização. Inegavelmente, Marx, a partir de suas contribuições, principalmente, nos seus escritos de Crítica à Economia Política, disponibiliza uma farta munição teórica aos que perseguem, do movimento do abstrato ao concreto, trilhas analíticas para compreensão dos atuais desdobramentos do sistema metabólico do capital, com destaque para a atual tendência à financeirização econômica e à acumulação rentista.

3.2 MARX E A TRANSNACIONALIZAÇÃO DO CAPITAL: DO MANIFESTO À