3.5 Validitet, reliabilitet og overførbarhet
4.1.4 Oppsummering av funn
Dentre os estudos descritivos do gerúndio, merecem destaque, quer pela riqueza de detalhes quer pela grandiosidade da amostra e das discussões, a descrição feita por Cláudio Brandão em sua Sintaxe Clássica Portuguesa (1963)38 e o estudo histórico-descritivo de Campos (1972), em tese de doutoramento. Tivemos acesso apenas ao livro que dela resultou, publicado em 1980. Além desses, apresentamos também outras propostas de classificação que contribuíram para o andamento desta pesquisa.
2.5.1 O gerúndio na sintaxe clássica de Brandão (1963)
37
Os exemplos de 50 a 58 são de Cunha (1986).
38
Temos conhecimento da existência da tese de doutoramento de Cláudio Brandão intitulada “O particípio presente e o gerúndio em português”, de 1933, à qual, infelizmente, não tivemos acesso.
O gerúndio, em cujo emprego original era um simples instrumental, que funcionava como complemento circunstancial de meio (DOCENDO DISCIMUS = ensinando aprendemos), tinha valor de advérbio. Desse emprego original passou a exprimir outras ideias, tais como estado ou modo de ser, em geral transitórios, atribuídos quer ao sujeito, quer ao complemento de um verbo principal, conforme exemplos apontados por Brandão (1963, p. 478).39
(59) Os sacerdotes salios iam cantando e saltando pelas ruas. (60) Quirino achou os guardas vigiando.
Para o autor, “vê-se nesses dois exemplos que o gerúndio reveste-se do caráter nitidamente participial, desempenhando a função de predicativo respectivamente do sujeito e do objeto” (BRANDÃO, 1963, p. 478). Da afirmação de Brandão, há de se concordar que o caráter participial com função de predicativo aplica-se nitidamente ao exemplo (60), mas não se pode dizer o mesmo quanto ao exemplo (59), cujo valor circunstancial se mantém, o que explica um modo de ser da ação desempenhada pela perífrase (iam cantando), isto é, seu valor aspectual que se salienta pela junção do gerúndio ao verbo ir, tomado como auxiliar. Se substituirmos o gerúndio por um adjetivo correspondente, a noção participial fica evidente, como um caráter permanente do sujeito, mas não parece ser a mesma interpretação da oração construída com gerúndio. Comparemos, a este respeito, os desdobramentos a seguir:
(60) Os sacerdotes iam cantando e saltando pelas ruas. (60a) Os sacerdotes iam cantantes e saltitantes pelas ruas. (60b) Os sacerdotes cantantes e saltitantes iam pelas ruas.
(60c) Os sacerdotes iam pelas ruas e estavam cantando e saltando.
É da natureza dupla do gerúndio (substantivo verbal – compartilhava traços do verbo e do nome), portanto de sua natureza participial, conforme vimos nas seções anteriores, que provém seus valores atributivos e atividade (modo como se desenvolve o processo verbal). Se a incorporação das funções de particípio presente foram os motivos funcionais
39
para o amplo uso do gerúndio em Língua Portuguesa, esses traços funcionais não parecem ser suficientes para explicarmos as ocorrências de gerúndio nas perífrases verbais.
A partir do valor de particípio presente, Brandão classifica o gerúndio em três grandes tipos: o gerúndio apositivo, o gerúndio predicativo e o gerúndio atributivo. Os outros tipos apontados por Brandão (1963) são: o gerúndio absoluto, o gerúndio impessoal. Além disso, o autor traz uma seção com o título de outros empregos do gerúndio. Passemos a analisar essa classificação.
a) O gerúndio apositivo
Na descrição de Brandão (1963), o gerúndio apositivo “refere-se ao sujeito de um verbo regente, faz as vezes de uma oração relativa explicativa, de uma oração adverbial, de um adjetivo aposto de um advérbio ou locução adverbial” (BRANDÃO, 1963, p. 480). Com base nessa afirmação, o autor apresenta dois tipos de aposição do gerúndio em relação à oração principal: a aposição relativa (desempenha a função de adjunto adnominal) e a aposição adverbial (desempenha a função de adjunto adverbial).
Na aposição relativa, o gerúndio equivale a uma oração adjetiva em sua forma desenvolvida, é o gerúndio adjetivo, na nomenclatura de Campos (1980), conforme veremos na subseção 2.5.2 e ocorrências qualificadas como galicismos pelos gramáticos de Língua Portuguesa.
Na aposição adverbial, Brandão (1963) descreve as várias circunstâncias que o gerúndio pode assumir, começando pelas circunstâncias temporais (tempo simultâneo, tempo anterior e tempo posterior) e seguindo pelas circunstâncias adverbiais propriamente ditas: meio, modo, fim, causa, condição, consequência, concessão e extensão). As circunstâncias temporais não diferem (nem poderiam) das explicitadas por Cunha (1986) e por outros gramáticos, a que nos referimos na subseção anterior. O critério usado por Brandão para se reconhecer o tipo de circunstância expresso pelo gerúndio é, quase sempre, o da equivalência a uma oração subordinada adverbial desenvolvida precedida da conjunção que melhor expressa a referida circunstância. Contudo, vejamos o exemplo do emprego do gerúndio na circunstância de ‘extensão’, por nos parecer um termo menos corriqueiro (talvez, inexistente) nos compêndios gramaticais:
(61) Quanta cegueira e perversidade do coração humano, que assim se deixa enredar e seduzir pelo demônio, entrando (= a ponto de entrar) de parceria com seu inimigo declarado.40
O termo circunstância de extensão não nos parece claro para classificarmos tal circunstância como complemento de extensão, mesmo nos utilizando do expediente sintático da substituição das expressões a ponto de ou em termos de + infinitivo. A propósito, se substituirmos essas expressões por outras conjunções, teremos, logicamente, outras circunstâncias, tal como (para entrar = finalidade), como também se substituirmos por uma oração desenvolvida, no mesmo tempo e modo da oração principal, tal como (quando entra = temporal) – o que dificulta sobremaneira uma classificação tão discreta.
b) O gerúndio predicativo
O gerúndio predicativo tem valor de particípio presente e pode se referir ao sujeito ou ao complemento do verbo, servindo-lhe de predicativo, à semelhança do papel desempenhado pelos adjetivos na oração simples. O autor menciona que o gerúndio como predicativo do sujeito pode ser confundido com um complemento circunstancial de modo ou com uma oração relativa, parecendo-se esse último com o gerúndio apositivo. Por outro lado, o gerúndio, como predicativo do objeto, pode converter-se no infinitivo precedido da preposição a ou numa cláusula adjetiva (vi uma mulher dançando = vi uma mulher que
dançava).
Brandão esclarece que o gerúndio na função de predicativo do sujeito ocorre com: a) muitos verbos intransitivos; b) muitos verbos transitivos; c) verbos na passiva perifrástica; d) verbos na passiva pronominal e e) verbos reflexivos. Essa especificação dos verbos em que ocorre o gerúndio predicativo ainda nos parece insuficiente para classificar como complemento circunstancial de modo ou com oração adjetiva, o que merece algumas considerações.
Se o gerúndio, assumindo as funções de particípio presente, desempenha as funções de predicativo, quer do sujeito, quer do objeto, isso não se manteve em todas as situações daí provenientes. Vejamos, a partir dos exemplos dados por Brandão (1963), que a maioria das ocorrências de gerúndio referidas como predicativo do sujeito pode ser concebida,
40
verdadeiramente, como uma circunstância de modo desempenhada por uma oração reduzida de gerúndio.
(62) Virei de dentro bailando
O gerúndio aí empregado refere-se mais ao modo como a ação de vir é executada que ao sujeito que executa, isto é, as ações são simultâneas.
(63) Passando Jesus daquele lugar, o seguiram dois cegos, gritando e dizendo... O gerúndio nesse exemplo refere-se a uma especificidade ou característica momentânea do sujeito da oração principal, mas ainda assim o modo como a ação de seguir é executada também é expresso pelo gerúndio.
(64) Viram-se seiscentos prisioneiros arrastando cadeias.
Nesse caso, o gerúndio não se refere ao modo como o processo de ver é executado, mas a características da coisa que viu (por se tratar de voz passiva) = Viram-se seiscentos prisioneiros que arrastavam cadeias ≈ seiscentos prisioneiros arrastando cadeias foram vistos ≈ seiscentos prisioneiros que arrastavam cadeias foram vistos.
No que diz respeito ao predicativo do objeto, Brandão lista uma série de verbos com os quais o gerúndio predicativo do objeto pode ocorrer: ver, ouvir, pintar, representar,
figurar, introduzir, por, supor, imaginar, trazer, deixar, achar, considerar, dar, ter, lembrar.
Embora haja menos dúvida quanto à classificação do gerúndio como predicativo do objeto, essa classificação a nosso ver não depende exclusivamente do verbo que ocorre na oração principal, mas da relação que o gerúndio estabelece com o objeto ou com a oração principal. Ainda nesse uso, o gerúndio pode ser substituído por uma oração adjetiva desenvolvida.
(65) Ouvi, no poema de Job, a voz do Senhor perguntando a seu servo onde estava.
O gerúndio nesse exemplo não estabelece relação com o verbo ouvir, mas com o termo ‘a voz do senhor’, por isso classificado como complemento do objeto, mas ainda equivale a uma oração adjetiva desenvolvida (= que perguntava). Esses casos também são listados por Campos (1980) como gerúndio adjetivo, nomenclatura com a qual concordamos,
tendo em vista que desempenha a função de objeto toda a extensão da oração a voz do Senhor
perguntando a seu servo e não apenas o sintagma ‘a voz do Senhor’.
A classificação do exemplo a seguir depende da interpretação que se dê ao gerúndio, isto é, com que termo o gerúndio estabelece relação: se com a oração principal, ou seja, com o modo como a ação é desempenhada; ou com o clítico na função de objeto direto, equivalendo a uma oração adjetiva desenvolvida (= que dava e que murmurava).
(66) D. Jorge deixa-a dando aos ombros e murmurando. c) O gerúndio atributivo
Brandão (1963) afirma que, em muitos casos, é difícil decidir a diferença entre gerúndio predicativo e gerúndio atributivo, como no exemplo: Vieram ter a um vale, polo
qual atravessava a cavalo um donzel pequeno chorando (que chorava) em altas vozes. Para o
autor, em outros casos “o gerúndio assume, clara e insofismável, a função atributiva, a princípio com a ideia de tempo transitório, indicando um modo de ser, uma qualidade, uma atividade existentes em algo ou alguém somente dentro de certo período e em determinada situação” (BRANDÃO, 1963, p. 487) e acrescenta que “depois entra analogicamente a modificar um nome ou um pronome, atribuindo-lhes não mais qualidade ou atividade transitórias, mas duradouras e permanentes” (BRANDÃO, 1963, p. 487). Vejamos o exemplo usado por Brandão:
(67) Os homens parecem-se com meninos brigando (=que brigam) sobre a metade de uma maçã.
Segundo Brandão (1963, 487), “a lição dos grandes escritores e a observação da linguagem popular justificam o emprego do gerúndio atributivo nos seguintes casos”:
a) quando modificar nome ou pronome que sejam completamente preposicionados: ‘... viu Cesar no Templo de Hercules a imagem de Alexandre CONQUISTANDO o
mundo’.
(...)
b) quando se referir aos nomes ou pronomes predicativos de ser e parecer: ‘... Não era a hierarquia constituindo uma espécie de famílias militares. Em vez disto, era o individualismo revelando-se contra esse poder’
c) quando pertencer ao complemento objetivo do impessoal haver ou ao sujeito de existir, faltar, restar e seus sinônimos: ‘Devia haver dentro... muitos ministros RALANDO o material e BATENDO-o com desmedidos molinilhos’.(....)
d) quando em comparações, se ligar a nomes precedidos de como, qual, que e do que: ‘Lançar-me-ei fora como uma ave voando’. (...)
e) quando modificar nomes tomados em sentido indefinido ou geral: ‘ per alguas
vezes lhe mandou el rei mensageiros com êste recado LEVANDO-lhe dádivas e presentes’.(...)
f) quando indicar qualidade, propriedade, atividade transitórias ou permanentes atribuídas a certo ser: ‘... cabeleiras soltas ONDEANDO pelos ombros’.(...)
g) depois de alguns pronomes indefinidos, mormente os distributivos um... outro: ‘Quando era da vossa idade e estava em casa de meu pai nos longos serões e
espaçosas noutes de inverno, entre as outras mulheres da casa, delas fiando e outras DEVANDO (dobrando)... ordenamos’ (BRANDÃO, 1963, p. 487-490,
destaques do autor.) d) O gerúndio absoluto
O gerúndio absoluto, da descrição de Brandão (1963) “é aquele que tendo sujeito próprio não se prende diretamente nem ao sujeito, nem a outro termo da oração subordinante, servindo a esta de complemento circunstancial de tempo, causa, condição, consequência e concessão” (BRANDÃO, 1963, p. 491). Pode vir precedido da preposição em e pode apresentar as seguintes circunstâncias:
a) tempo simultâneo (= ao mesmo tempo que, no momento em que): ‘Vasco da
Gama foi surgir diante de Calicute EM se POENDO o sol.(...)
b) tempo anterior (= depois que, logo que): ‘EM SAINDO eles pela porta da
câmara, olhou ela e viu ainda jazer o conde João Fernandes morto.(...)
c) tempo posterior: ‘E a terra, abrindo a sua boca, devorou a Coré, MORRENDO
(= e morreram) muitíssimos’. (...)
d) causa: ‘Na cidade de Nápoles, estava sentenciado à morte um pobre homem a
que não valeram arrazoados nem embargos, nem a própria inocência,
PREVALECENDO (= porque prevalecia) contra tudo a prova das testemunhas.(...) e) condição: ‘Em qualquer terra, EM HAVENDO um par de testemunhas /
fidedignas (= se houver), prova-se tudo’.(...)
f) concessão: ‘Tal foi a caridade de S. Roque, não CHEGANDO (=ainda que não
chegasse) ser tal a caridade de S. Paulo’....)
g) consequência: ‘A ilha de Egina ardeu antigamente em tal peste que a varreu de
toda a espécie humana, ESCAPANDO unicamente el rei Caco’. (...) (BRANDÃO,
1963, p. 492-493, destaques do autor). e) O gerúndio impessoal
É o emprego do gerúndio, nas construções absolutas, com sujeito indeterminado, que adquire às vezes sentido passivo, sobretudo se a oração principal estiver na voz passiva, segundo Brandão (1963). Vejamos alguns exemplos apontados pelo autor:
(68) Pelo sertão dentro deste reino, indo para o poente, está situada a província de Conche.
Parece-nos que o gerúndio aí empregado modifica o sintagma ‘deste reino’, funcionando como gerúndio predicativo – Brandão (1963) – ou gerúndio adjetivo - Campos (1980): = pelo sertão deste reino, que vai para o poente, está situada a província de Conche.
(69) a rainha mandou saber novas de Clarimundo e, dando-lhe (= sendo-lhe dado) recado de que estava morto, ficou trespassada...
Pode-se apreender um valor temporal no gerúndio empregado nesse exemplo, funcionando como gerúndio absoluto – Brandão (1963) – ou gerúndio circunstancial - Campos (1980): = quando deram-lhe o recado de que estava morto, ficou trespassada. Portanto, a peculiaridade do gerúndio impessoal ser o fato de não se poder atribuir-lhe um sujeito determinado não nos parece suficiente para se lhe atribuir uma categorização à parte.
f) Outros empregos do gerúndio
Sob a categoria de ‘outros tipos de gerúndio’, Brandão (1963) reúne os gerúndios que ocorrem em duas situações:
a) O gerúndio que se emprega em frases narrativas ou descritivas nominais, com valor de infinitivo precedido da preposição a:
(70) Começaram o ofício da agonia, e as abelhas sempre crescendo e engrossando em número.
b) O gerúndio exclamativo e interrogativo:
(71) Cristo e o Vigário de Cristo ambos dormindo?
Esses tipos de gerúndio apresentados por Brandão (1963) poderiam ser redistribuídos nas categorias de gerúndio circunstancial e gerúndio adjetivo, tendo em vista as funções sintático-semânticas que assumem na estrutura oracional. Dividi-los em gerúndio
apositivo, gerúndio predicativo, gerúndio atributivo, gerúndio absoluto e gerúndio impessoal
justifica-se apenas do ponto de vista histórico, já que são derivados do particípio presente e do emprego absoluto do caso ablativo em Latim.
2.5.2 O estudo histórico-descritivo de Campos (1980)
Classificação bastante pertinente e referência para o estudo do gerúndio no Português é o estudo histórico-descritivo de Campos (1980), que pesquisou o gerúndio nos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, fazendo uma descrição das ocorrências de gerúndio no português arcaico e nas línguas românicas. No Português contemporâneo, a pesquisadora classifica o gerúndio em seis tipos: o gerúndio circunstancial, o gerúndio adjetivo, o gerúndio
coordenado, o gerúndio narrativo, o gerúndio exclamativo, o gerúndio interrogativo e exclamativo e, por fim, as perífrases formadas com gerúndio. Vejamos em que consiste cada
um desses tipos.
a) O gerúndio circunstancial
O gerúndio circunstancial, na definição de Campos (1980), exprime as várias circunstâncias de modo, tempo, causa, condição e concessão, que acompanham a oração principal (CAMPOS, 1980, p. 19). Este tipo de gerúndio pode ter ou não o mesmo sujeito da oração principal ou ainda vir precedido da conjunção em. Vejamos o exemplo a seguir:
(72) Assim se fez, e Itaoca, não podendo revelar o gênio criador, portou-se durante a guerra como a mais direitinha das Maria-vai-com-as-outras.41
b) O gerúndio adjetivo
O gerúndio adjetivo equivale a uma oração adjetiva, “embora a equivalência do gerúndio a uma oração adjetiva não seja total, isto é, não é sempre que se pode substituir uma oração adjetiva por um gerúndio” (CAMPOS, 1980, p. 20)
(73) Vê-se uma chaminé aflorando de um barracão de madeira e grandes toros empilhados à margem da corrente.42
c) O gerúndio coordenado
41
Os exemplos desta subseção são de Campos (1980, p. 47)
42
O gerúndio coordenado equivale a uma oração coordenada, com sujeito expresso ou subtendido, segundo Campos (1980). O gerúndio coordenado não expressa um valor circunstancial com a oração matriz à semelhança do gerúndio circunstancial, mas com ela mantém uma relação idêntica a desempenhada pelas conjunções coordenativas.
(74) E sacudiam a pedra dentro do poço, mergulhando para pegá-la no fundo.43 (mergulhando = e mergulhavam)
d) O gerúndio narrativo
O gerúndio, além de coordenar-se ao verbo da oração principal, “pode adquirir tal independência sintática, que chega a equivaler a um verbo num modo finito, mesmo sem vir coordenado a outro verbo finito” (CAMPOS, 1980, p. 77). Esses casos são classificados pela autora como gerúndio narrativo. Campos (1980) esclarece ainda que o gerúndio narrativo enquadra-se dentro de um tipo de orações que tem certo conteúdo afetivo, cujo predicado não é constituído por um verbo no modo finito.
(75) O sol entrando pela porta aberta que dava para o terraço. Batiam pratos na copa. O cachorro latindo para o Doutor Zózimo.
(entrando = entrava; latindo=latia)
e) O gerúndio Exclamativo e o gerúndio Interrogativo
Segundo Campos (1980), não há referência a esses dois tipos de gerúndio nas gramáticas das línguas românicas, nem nas gramáticas da Língua Portuguesa, a cuja ocorrência faz menção Brandão (1963). A autora afirma que do gerúndio exclamativo e interrogativo foram encontradas ocorrências isoladas que pouco provam a respeito de sua vitalidade nas fases anteriores da nossa língua e que esses dois tipos ligam-se, de certa forma, ao gerúndio narrativo, porque têm acentuado cunho afetivo e porque equivalem a um verbo no modo finito. Os exemplos (76) e (77) são de gerúndio exclamativo e interrogativo, respectivamente.
(76) - Ô diacho! E a gente precisando tanto de cobre, heim, Marcolino!
43
(77) Severino, (severo) - ... Fazendo jôgo sujo, hem, padre? f) Perífrases formadas com gerúndio
O gerúndio entra na formação de perífrases verbais com valor imperfectivo em quase todas as línguas românicas, segundo Campos. Quanto aos verbos que formam perífrases com gerúndio, a autora afirma que tais verbos dão à perífrase determinados valores aspectuais: aspecto progressivo com verbos ir e vir, aspecto iterativo com o verbo andar e, com o verbo estar, há uma “atualização da ação, isto é, a ação dá-se no momento em que se fala” (CAMPOS, 1980, p. 22).
(78) Não estou pedindo que o povo pegue em armas, incendeie os celeiros... A proposta de Campos (1980) é bastante relevante para o estudo do gerúndio, tendo em vista a representatividade da amostra analisada, o cuidado terminológico, os critérios de classificação. Há de se considerar, contudo, que alguns tipos de gerúndio poderiam ser categorizados em outros, para evitar sobreposição terminológica e funcional, como é o caso, por exemplo, do gerúndio exclamativo e interrogativo, vistos acima, que poderiam ser classificados como gerúndio adjetivo ou independente, já que a interrogação e a exclamação não estão vinculadas à forma ‘gerúndio’, mas correspondem a uma necessidade da situação discursiva.
2.5.3 A descrição de Móia e Viotti (2004)
Móia e Viotti (2004) identificam basicamente os mesmos tipos de gerúndio que Campos (1980): a) o gerúndio independente (incorpora o gerúndio narrativo e o emprego com valor imperativo), b) o gerúndio argumental, c) o gerúndio perifrástico (= perífrases formadas com gerúndio), d) o gerúndio adnominal (= gerúndio adjetivo) e e) o gerúndio circunstancial (= mesma nomenclatura). Embora os autores categorizem separadamente dois tipos de gerúndio (o gerúndio independente e o gerúndio argumental), não se referem a um tipo bastante produtivo no estudo de Campos (1980) - o gerúndio coordenado.
O gerúndio pode ocorrer em contextos sintáticos independentes, como quando empregado com valor imperativo (simples ou perifrástico) ou em frases nominais descritivas:
(79) Andando já para casa!44
(80) Mulheres vendendo tapetes no mercado. b) O gerúndio argumental
O gerúndio é assim chamado por preencher a estrutura argumental de um verbo, formando um período composto:
(81) Ana viu (um bicho estranho cavando a terra). (82) (Aves chocando contra aviões) não é uma situação.
Há de se considerar que o gerúndio que ocorre nas frases nominais descritivas também tem comportamento adjetivo, tendo em vista que modifica o nome a que se refere. Desse modo, a independência aplica-se ao gerúndio com valor imperativo, núcleo da estrutura oracional, completa de sentido, funcionando como um enunciado completo numa situação interativa e esse tipo de gerúndio não se confunde com nenhum outro, mas o mesmo não se pode dizer do gerúndio que ocorre nas frases nominais descritivas. Em se tratando do gerúndio argumental, há de se considerar que não é propriamente o gerúndio que preenche a estrutura argumental de um nome ou verbo regente, mas toda a oração de que ele é núcleo. Assim, o gerúndio argumental pode, dentro da estrutura argumental, modificar um nome (gerúndio adjetivo ou adnominal), como é o caso dos exemplos citados pelos autores em (81) e (82).