3.5 Validitet, reliabilitet og overførbarhet
3.5.4 Etisk refleksjon
O gerúndio em Latim tem semelhança com o gerundivo (ou particípio futuro passivo) quanto à forma, mas tem significado e funções diferentes. Almeida (1980) aponta as seguintes diferenças entre uma e outra função:
a) O gerundivo ocorre em voz passiva; enquanto o gerúndio latino ocorre na voz ativa;
b) O gerundivo tem a função de adjetivo verbal, declina-se em todos os casos e declinações, concordando com o nome a que se refere; ao passo que o gerúndio latino é substantivo verbal, que se declina pela 2ª declinação e nos casos genitivo, dativo, ablativo e acusativo apenas;
c) O gerundivo é uma forma participial (particípio futuro passivo); já o gerúndio latino é uma variação do infinitivo;
d) O gerundivo indica qualidade, uma vez que é adjetivo; por outro lado, o gerúndio latino indica uma coisa (um estado de coisas).
Segundo Campos (1973), a função do gerúndio e, em parte, a do gerundivo, é a de completar a flexão do infinitivo, uma vez que este não tem flexão própria e só ocorre com valor nominal no nominativo e no acusativo. Para a autora, “a diferença fundamental entre o gerúndio e o gerundivo é que este último é usado normalmente quando se tem objeto direto, ficando o primeiro reservado para as construções intransitivas” (CAMPOS, 1973, p. 384).
Campos (1973) estabelece as seguintes diferenças entre gerundivo e gerúndio: a) No genitivo e no ablativo sem preposição, é facultativo o uso de uma ou de outra forma, quando há objeto; não havendo, só se emprega o gerúndio.
(9) "Tum Caesar: Equidem, inquit, Crasse, ita sum cupidus... te. . . audiendi..." (Cic, De Or., II , 4, 16)16 = “Então, disse César: na verdade, Crasso, estou tão desejoso de
ouvir-te...”.
(gerúndio no genitivo, com objeto)
b) No acusativo e no ablativo preposicionados, no genitivo, precedido por causa e
gratia, e no dativo, encontra-se o gerúndio quando o verbo não tem objeto e o gerundivo,
quando o verbo se constrói com objeto:
(10) “. . . quas ego mihi semper in administranda republica proponens reanimum
et mentem meam ipsa cogitatione hominum excellentium conformabam.” (Cie, Pro Arch., VI,
14)17 = “... e eu, colocando-os sempre diante de mim ao administrar a república, moldava o
meu espírito e a minha mente no próprio pensamento destes homens excelentes”. (gerundivo no ablativo preposicionado, com objeto).
Assim, pode-se perceber que o gerúndio (substantivo verbal) e o particípio presente (adjetivo verbal) cumulavam nuanças funcionais do verbo e do nome, e indicavam ações progressivas do verbo e características permanentes (cursivas, progressivas) do nome. Há fortes evidências de que, graças às nuanças de aspecto progressivo, tenha ocorrido uma competição funcional entre gerúndio e particípio presente.
A noção de aspecto progressivo é, portanto, o traço fundamental das construções com gerúndio, visto que pressupomos ser esse o traço comum a todas as ocorrências de gerúndio e que se manteve em todas as línguas romanas, como veremos na seção seguinte. Essa posição parece ser também a de Pereira (1935), quando lista as funções do gerúndio e seu emprego no Português, principalmente no que diz respeito às dúvidas de emprego do gerúndio ou da oração adjetiva.
(...) o gerundio ahi assumindo a feição de adjuncto attributivo do sujeito e do complemento é conversível na oração relativa ou adjetiva.
Não obstante a conversabilidade do gerundio na oração relativa, nesses dois casos, nem sempre ha perfeita equivalencia entre esta e aquelle e a pureza da linguagem póde reclamar um e outro na tradução do participio latino. Do acertado da escolha depende o emprego correto do gerundio. Qual o critério? A falta desse criterio é que
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O exemplo é de Campos (1973).
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tem dado origem a toda confusão e incerteza no emprego do gerundio. Para resolver, em grande parte o intrincado problema, devemos procurar esse critério no próprio carater grammatical do gerundio e da oração relativa. O gerundio, retendo sempre seu caracter de facto verbal, evoca espontaneamente a noção de tempo, de actualidade da acção, o que não acontece com a oração relativa. Esta exprime meramente a idéa adjectiva de particípio, a simples qualidade ou estudo, sem qualquer circumstancia temporal. (PEREIRA, 1935, p. 539-540).
O gerúndio assumiu todas as possibilidades que eram expressas através do particípio presente em Latim, tanto as que indicavam as qualidades transitórias quanto as que indicavam as qualidades permanentes, o que se configura como a primeira situação de variação que se estabeleceu ainda no Latim e se estendeu pelos primeiros anos de formação de nossa língua.
Silveira Bueno (1958) afirma que o particípio presente era uma forma concorrente com o gerúndio no Português arcaico, mas foi substituído pelo gerúndio e pelas orações relativas adjetivas. As formas terminadas em -nte (de particípio presente) são apresentadas como a gramaticalização do particípio presente em adjetivos simples como pedinte, ouvinte, etc; substantivos como estudante, assistente, crente, etc; e palavras invariáveis (advérbio) como não obstante, não embargante.
Para Campos (1972), o particípio presente teve pouca frequência no Português e esteve atrelado quase sempre a textos eclesiásticos, quando pouco se usava o gerúndio, como em:
a) orações circunstanciais, regendo complementos
(11) En’ o nome de Deus, El rei don Afonso pela gracia de Deus rei de Portugal, sendo sano e saluo, temente o dia de mia morte...18
b) orações adjetivas
(12) O terceiro, que sempre se ponham pallavras que sejam dereita linguagem, respondentes ao latim.19 c) como adjetivo 18 Exemplos de Campos (1972) 19 Idem.
(13) Certamente não somos abastamtes pera elo, pola multidão dos nossos pecados.20
d) como nomes e expressões estereotipadas que deram origem a conjunções, preposições e locuções prepositivas e conjuntivas.
(14) ...ensina os homees a serem bõos caualgantes.21
(15) Et nom embargante que dos seus direytos possa dar aaquelle que for mais amado...22
Campos (1973) afirma que a distinção existente entre o ablativo do gerúndio e o particípio presente, que era rigorosa no período clássico, desfez-se no período tardio, onde era comum o uso de uma forma pela outra, conforme exemplo.
(16) "...quod... in redeundo cum idem pomerium transiret, auspicari esset oblitus..." (Cie, Nat. Deor., I I , 4, 11) = ...porque... ao voltar, como atravessasse o pomério, tinha-se esquecido de tomar os auspícios...23
(gerúndio preposicionado) (in redeundo = rediens)
Said Ali (1921) argumenta que, no Português clássico, a frequência de uso do gerúndio aumentou e se começou a usar o gerúndio para dar forma concisa e elegante às orações subordinadas. Segundo o linguista, identificar as terminações -ndo do verbo português como o caso ablativo do Latim é uma postura meramente morfológica, em que se descartam a significação e as funções herdadas pelo gerúndio do particípio presente.
Como as demais linguas romanicas, o idioma portuguez não herdou do gerúndio latino senão a forma ablativa. Termina nosso gerúndio em –ando, -endo ou -indo, conforme a conjugação a que pertence o verbo. Tem aplicação muito mais ampla que em latim, fazendo as vezes do particípio presente, o qual perdeu a função verbal, passando a servir de adjetivo e substantivo (SAID ALI, 1921, p. 160)
20 Idem. 21 Idem. 22 Idem. 23 Idem.
Pereira (1907) afirma que tanto em Latim quanto em Português antigo, o particípio era constituído pelas formas terminadas em –nte, mas no Português moderno, as formas terminadas em –nte tornaram-se meros adjetivos ou substantivos, passando o gerúndio a exercer as funções próprias do particípio presente.
O gerundio confunde morfologicamente com o participio presente e difficil é discriminá-los pelo sentido um do outro. Por isso muitos grammaticos não fazem a distincção entre particio presente (amando) e o gerúndio (amando).
Tendo-se archaizado em portuguez, como já monstrámos, o participio presente em ante, ente e inte oriundo do particípio presente latino, o gerundio em ando assumiu todas as suas funcções, não perdendo, entretanto, as que lhe eram próprias.
A differença, pois, entre gerundio e particípio presente é toda funccional, e nem sempre claramente discriminavel. (PEREIRA, 1907, p. 304)
Pereira (1935) adverte ainda que a construção particípio presente com genitivo, que fazia o particípio presente perder as nuanças verbais, transformando-o em mero adjetivo, era restrita no Latim clássico, mas teve amplo desenvolvimento no Latim vulgar, quando se observa a variação entre o particípio presente e o gerúndio, afirmando haver registros disso na gramática de Chassang:
Nella temos o germe da lucta que se travou entre o particípio presente e o gerúndio que deu em resultado a victória deste e o desapparecimento quasi completo do particípio presente. A lucta iniciou-se no b. lat. onde o gerundio substituía por vezes o particípio do lat. clássico. (PEREIRA, 1935, p. 533).
O gramático informa-nos também que o particípio presente sobreviveu até o século XVI, com sua respectiva força verbal, sendo substituído pelo gerúndio, configurando- se uma mudança na língua.
Deste uso archaico que sobreviveram alguns vestígios em phrases feitas, taes são: temente a Deus, não obstante isso, tirante isso, mal soante, bem fallante, dependente de, adherente a, passante de (...) Fóra esses resquícios da antiga syntaxe, o particípio deixou-se dominar inteiramente pelo gerúndio (PEREIRA, 1935, p.533).
Dessa competição que teve início ainda no Latim clássico e que se concretizou, segundo Pereira (1935), no século XVI, o gerúndio absorveu grande parte das funções exercidas pelo particípio presente, que foi distribuído em duas classes gramaticais em português, substantivos (negociante, estudante, etc) e adjetivos (falante, temente, fervente etc), e ampliou sua carga funcional, compensando as perdas de funções que sofreu para o infinitivo.
Se na passagem do Latim para o Português, o gerúndio sofreu restrições funcionais, perdendo funções para o infinitivo, o processo parece ter se invertido em seguida. As construções com gerúndio ganharam uma multiplicidade funcional, podendo, inclusive, ocorrer como núcleo da predicação verbal e não apenas como circunstancial a ela. Esse comportamento, sem dúvidas, deu às construções com gerúndio saliência funcional na oração, visto que passou a ocorrer dentro de construções altamente previsíveis na estrutura oracional. É o que pretendemos demonstrar com o mapeamento funcional das ocorrências de gerúndio em Língua Portuguesa.