Segundo Hopper e Thompsom (1980), um grande número de evidências sugere a importância da transitividade nas gramáticas das línguas naturais, uma relação crucial que tem um número de consequências previsíveis na gramática, cujas propriedades são discursivamente determinadas. Partindo da noção tradicional de transitividade, pela qual o termo é entendido como uma propriedade de uma cláusula completa, de modo que uma ação é transferida completamente de um agente a um paciente, os autores estabelecem que a transitividade diz respeito à eficácia com que essa ação se realiza, isto é, está relacionada à
pontualidade ou à telicidade de um verbo, à consciência do agente, à referencialidade do objeto e ao grau de afetação do objeto, por exemplo.
Considerando-se que a noção clássica de transitividade envolve, pelo menos, dois participantes, já que envolve a transferência de ação um participante para outro, os autores propuseram parâmetros de transitividade para medir graus de transitividade das cláusulas. Os parâmetros são:
Figura 6 – Parâmetros de Transitividade
Alta Transitividade Baixa Transitividade (A) Participantes 2 ou mais participante, A e O. 1 participante
(B) Cinese Ação Não-ação
(C) Aspecto Télico Atélico
(D) Pontualidade Pontual Não-pontual (E) Volição Volitivo Não-volitivo (F) Afirmação Afimativo Negativo
(G) Modo Real Irreal
(H) Agentividade A alto em potência A baixo em potência (I) Afetabilidade
do Objeto
O totalmente afetado O não-afetado (J) Individuação
do Objeto
O altamente afetado O não-individuado
Fonte: Hopper e Thompson, 1980, p. 252.
Cada componente de transitividade revela a efetividade ou a intensidade com que a ação é transferida de um participante para outro: a) nenhuma ação pode ser transferida a menos que dois participantes estejam envolvidos; b) ações podem ser transferidas de um participante para outro, ao passo que estados não podem; c) uma ação vista de seu final, uma ação télica, é mais efetivamente transferida de um participante para outro que uma ação em que não se possa prever o seu final; d) ações cumpridas sem nenhuma fase de transição entre o início e o fim tem maior efeito de transferência entre os participantes que ações que estão inerentemente em processo; e) o efeito da ação no participante paciente é tipicamente mais evidente quando o agente é apresentado como agindo propositalmente; f) ações que são transferidas (polaridade afirmativa) ou não são transferidas (polaridade negativa); g) uma ação irreal ou que é apresentada em um mundo irreal é menos efetiva que uma ação que corresponda ao um evento real; h) um participante com alta agentividade pode transferir a ação de modo mais efetivo que um agente com baixa agentividade; i) o grau com que uma ação é transferida está relacionado ao grau de afetação do objeto e j) uma ação pode ser mais efetivamente transferida para um paciente que é individuado que para um paciente que não é.
São traços de objeto individuado em oposição a um objeto não-individuado: próprio, humano, animado, singular, contável, referencial e definido.
Hopper e Thompson (1980) observaram que as línguas dispõem de estruturas morfossintáticas que refletem o grau de transitividade de uma cláusula e aos quais os parâmetros de transitividade estão correlacionados. Contudo, os autores julgaram necessário especificar uma noção semântico-pragmática que incluísse todos os parâmetros, um princípio pragmático único, isto é, alguma função discursiva universal que estivesse ligada aos componentes de transitividade. Os pesquisadores observaram que os falantes organizam seu discurso de acordo com objetivos comunicativos e com a percepção que têm das necessidades dos ouvintes, isto é, nas diversas situações de interação, muitas partes do que é dito são mais relevantes que outras. Aquela parte do discurso que não contribui de modo imediato para a meta do falante, mas que amplia ou comenta sua meta é chamada de FUNDO (em inglês,
backgrounding). Por outro lado, o material discursivo que supre o ponto principal do discurso
é chamado FIGURA (em inglês, foregrounding). Como não conseguimos dar atenção a tudo na mesma medida, na produção do discurso, marcamos, por diferentes meios, a distinção entre trechos mais importantes e outros menos importantes, conforme os objetivos da atividade comunicativa. A organização de nosso discurso em figura e fundo configura o relevo discursivo (grounding), que é determinado por traços linguísticos, dentre os quais está a transitividade. Os autores enunciaram a seguinte hipótese: orações que são figura têm mais traços de alta transitividade; já orações que são fundo têm traços de baixa transitividade. No texto, as orações que são figura formam “sua coluna vertebral ou o seu esqueleto”, formam sua estrutura básica; ao passo que as orações que são fundo “dão carne” ao esqueleto, são elementos adicionais à sua coerência estrutural.
Diversas línguas naturais dispõem de mecanismos morfológicos e sintáticos que refletem o relevo discursivo, isto é, servem para avisar ao ouvinte que determinada parte do texto é figura e para a elaboração de paradigmas verbais especializados nessa distinção relacionados a tempo e aspecto. Dentre as estratégias mais comuns para indicar que determinada oração é figura ou fundo está a oposição entre ação completa x ação incompleta, mas os autores afirmam que “o ouvinte infere o relevo discursivo não a partir de um traço
morfossintático, mas de um grupo de propriedades e nenhuma delas é uma característica exclusiva de figura” (HOPPER e THOMPSON, 1980, p. 283-284, tradução nossa).85
Em Inglês, as formas gerundivas do verbo (-ing forms) sempre indicam ação incompleta; seu uso em nominalizações e na subordinação revelam que elas são invariavelmente fundo. Contudo, não há uma marca específica de figura e uma sentença em Inglês, fora de seu contexto, não pode ser categorizada inequivocamente como uma cláusula do tipo figura ou fundo (HOPPER e THOMPSON, 1980, p. 283, tradução nossa)86
Em línguas como o Inglês, asseveram os autores, orações do tipo figura não são marcadas, mas, em vez disso, são indicadas ou interpretadas como tal a partir de uma base probabilística, e a probabilidade de uma oração ser interpretada como figura é proporcional ao seu grau de transitividade (na escalada de transitividade).
Givón (2001) define a transitividade como um fenômeno complexo que envolve os componentes sintático e o semântico e, para tanto, o evento transitivo é definido pelas propriedades semânticas do agente, do paciente e do verbo na oração em que tal evento ocorre: a) agentividade: ter um agente intencional, ativo; b) afetamento: ter um paciente concreto, afetado; c) perfectividade: envolver um evento concluído, pontual. Esses traços semânticos são, em princípio, uma questão de grau. Entende-se por afetação no objeto alguma alteração física nesse objeto, conforme as concepções de Givón (1984): a) objeto criado (He
built a house = Ele construiu uma casa), b) objeto totalmente destruído (They demolished the house = Eles demoliram a casa), c) mudança física no objeto (She sliced the salame = Ela
fatiou o salame), d) mudança de lugar do paciente (He rolled the wheelbarrow = Ele empurrou o carrinho de mão), e) mudança superficial = (He bathed the baby = Ele banhou o bebê), f) mudança interna (They heated the solution = Eles aqueceram a solução), g) mudança com um instrumento implicado (He hammered the nail = Ele martelou o prego), h) mudança com modo implicado (She smashed the cup (‘break’ completely) = Ela espatifou a chícara (‘quebrar’ completamente).
3.3.1 A transitividade e o relevo discursivo nas construções com gerúndio
85
The audience infers grounding not from a single morphosyntactic feature, but from a CLUSTER OF PROPERTIES, no single one of which is exclusively characteristic of foregrounding.
86
In English, the –ing forms of the verbs Always indicate incomplete action; their use in nominalizations and in subordination shows that they are invariably backgrounded. However, there is no single marker of foregrounding, and an English sentence out of its context cannot always be assigned unambiguously to a foregrounded or backgrounded clause-type.
No que diz respeito às orações gerundivas em Língua Portuguesa, objeto desta tese, há de se verificar, de fato, se seu emprego é semelhante ao emprego das formas gerundivas do Inglês no que diz respeito ao relevo discursivo. No que diz respeito à transitividade nas construções gerundivas, as ações são transferidas de modo mais eficaz em construções com gerúndio composto, por ter sujeito correferencial a uma oração principal e expressar uma ação perfectiva. Nas orações perifrásticas em que a perífrase gerundiva é o núcleo de uma oração principal, a transferência da ação não se completa, tendo em vista o caráter progressivo da ação expressa nessas construções. Nas orações reduzidas, temos casos de baixa e alta transitividade. Vejamos os exemplos a seguir.
(139) Este soberano, achando o reino n’uma dissolução extrema, e desmantelamento geral das forças (...) em vez de buscar remediar estes males, mais acabou de enfraquecer e destruir o pouco que ainda restava dos laços governativos. (E 19 2 HGC 64)
O gerúndio aí empregado tem sujeito (este soberano) e rege complemento (o reino n’uma dissolução extrema), mas não há transferência de ação e, consequentemente, não há afetação do objeto, e a oração em destaque recebe os traços correspondentes à baixa transitividade.
Um dos traços semânticos mais salientes do gerúndio é seu valor aspectual progressivo, cujo emprego, em tese, não é esperado para expressar pontualidade, mas para expressar situações incompletas, que deveriam ser interpretadas como fundo. Por outro lado, a progressividade também pode ter uma interpretação télica, isto é, a ação progressiva pode ser descrita do ponto de vista do seu término e não do seu progresso ou pode expressar uma ação recém-concluída.
(140) No hall, os decoradores trabalham, terminando as pinturas das paredes. (B 20 1 CC 22)
(141) Acabando de sorver a pitada, o nosso estudante desatou a rir como um doudo. (B 19 1 AM 27)
No que diz respeito às construções com o gerúndio composto (verbo ser ou ter no gerúndio + particípio do verbo principal), seu emprego expressa situações perfectivas, com transferência ou não de ação.
(142) D. Affonso, sendo imediatamente avisado por sua irmã, apressou em vir a Zamora, depois de ajustar paz e aliança com o generoso Al-mamon ((E 19 2 HGC 93)
(143) D. Urraca, tendo com effeito passado as segundas núpcias com o rei de Aragão, D. Affonso I, enlace muito mal succedido para ambos, separados por mais de uma vez um do outro e accusada também de affeições illicitas, accendeu no reino discórdias civis (E 19 2 HGC 114)
Os sujeitos do gerúndio composto nos exemplos acima são correferenciais aos sujeitos das orações desenvolvidas (... apressou... e ...acendeu..., respectivamente). A interpretação que se pode dar à primeira oração sendo avisado é de passividade do sujeito (e, portanto, não há transferência de ação) e da oração tendo passado é de agentividade do sujeito (em tese, não há razão para interpretarmos a construção tendo passado as segundas núpcias como voz passiva). Desse modo, a construção tendo passado revela, de forma evidente, a transferência de ação, por um sujeito agente, para um objeto afetado em uma oração que é fundo – há, portanto, elevado grau de transitividade, conforme os parâmetros de Hopper e Thompson (1980) e conforme as propriedades do agente, do verbo e do objeto de Givón (2001). O gerúndio aí empregado ocorre em circunstância adverbial (temporal) a partir da qual outras ações devem ser interpretadas.
A relação entre o relevo discursivo e os parâmetros de transitividade não é categórica, mas é apresentada em termos de tendência por Hopper e Thompson. Dessa discussão, somos impelidos a considerar que há uma hierarquia da função pragmática relevo discursivo sobre os critérios de transitividade, isto é, uma oração não transitiva pode ser figura e vice-versa, porque línguas como o Português dispõem de outros mecanismos semântico- pragmáticos para por em relevo determinadas partes do discurso, inclusive orações completas, como as estruturas topicalizadas e clivadas a seguir:
(144) Em vindo o padre Bartolomeu Lourenço, poderá Blimunda, se não tem trabalhos de lavar ou cozinhar que ao tanque a levem ou ao forno a retenham, ou se não prefere assistir a Baltasar passando-lhe o martelo ou a turquês (...) (E 20 2 MC 54)
(145) E era metendo-se na pele dos heróis de romance que ele se vingava das impertinências dos fregueses do Bazar Continental, das perseguições do gerente e da magreza do ordenado. (B 20 1 CC 100)
Sendo assim, cabe, também, considerarmos a distribuição do relevo discursivo a partir das considerações de Talmy (1975), que segue mais de perto a Psicologia de Gestalt. Talmy parte do princípio de que figura (figure) e fundo (ground) são um par de categorias semântico-cognitivas, cuja relevância mostra, em termos de eventos semânticos de movimentos ou localização, que um objeto físico move-se ou é localizado em relação a outro. Em relação a um evento significativo como um todo, cada objeto carrega uma relação distintiva e significativa de figura ou de fundo. Assim, Talmy define o objeto figura como “um ponto que se move, ou é conceitualmente movível, cujo caminho ou localização são concebidos como uma variável de particular valor de uma questão saliente” (TALMY, 1975, p. 419)87. Já o objeto fundo é definido como “um ponto de referência, que tem uma configuração estática em quadro de referência, em relação ao qual o caminho ou a localização da figura recebe a localização” (TALMY, 1975, p. 419).88
Nas definições apresentadas por Talmy, as noções de figura e fundo poderiam ser mal interpretadas, como relacionadas a um evento dentro do qual há um objeto que se move e outro que é estático, mas o que se movimenta é a atenção focalizada no objeto que é figura em relação ao objeto que é fundo, em termos de saliência informacional, como se pode ver nos exemplos retirados do autor:
(146 a) A bicicleta (figura) está perto da casa (fundo). (146 b) A casa (figura) está perto da bicicleta (fundo).
O autor argumenta que os exemplos acima só podem ser considerados sinônimos se representarem duas formas inversas de uma relação simétrica e especificarem, por exemplo, a distância exata entre os dois objetos, mas não significam a mesma coisa, porque, em (146 a) a casa é localizada dentro de um quadro (que implica a vizinhança, o mundo, etc), e que é usada como ponto de referência para a localização do objeto bicicleta; em (146 b) a
87
The FIGURE object is a moving or conceptually movable point whose path or site is conceived as a variable the particular value of wich is the salient issue (tradução nossa).
88
The GROUND objetct is a reference-point, having a stationary setting within respect to which the FIGURE’s path or site receives characterization (tradução nossa).
significação é reversa, que não ocorre conforme as exigências do mundo familiar e, portanto, é uma sentença diferente de (146 a).
As relações simétricas não alçam, necessariamente, um objeto à condição de figura, porque não se trata apenas de inversão simétrica dos objetos. O autor cita como exemplos as situações seguintes:
(147) Onde está a lâmpada?
a) A lâmpada (figura) está perto da cadeira (fundo). b) A cadeira (figura) está perto da lâmpada (fundo).* c) A lâmpada (figura) está sobre a cadeira (fundo). d) A cadeira (figura) está embaixo da lâmpada (fundo)* (148) Onde está a cadeira?
a) A lâmpada (figura) está perto da cadeira (fundo).* b) A cadeira (figura) está perto da lâmpada (fundo). c) A lâmpada (figura) está sobre a cadeira (fundo).* d) A cadeira (figura) está embaixo da lâmpada (fundo)
As respostas marcadas com asteriscos indicam que as frases são inaceitáveis porque não são respostas adequadas à questão. Essas categorias são marcadas por meio da prosódia e, em casos de inversão, o contorno melódico ascendente vai indicar que elemento deve ser interpretado como figura.
(149) Onde está a lâmpada?
a) A cadeira (fundo) está perto dela (figura)
Essas considerações são importantes para esta pesquisa, porque estamos avaliando construções que, em tese, teriam baixo grau de transitividade e não poderiam ser avaliadas em termos dos parâmetros de transitividade propostos por Hopper e Thompsom (1980). Assim,
analisaremos a distribuição das construções gerundivas com base na saliência informacional das orações no período oracional.