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Quando se tem como objetivo apontar os fatores que determinam a realização de um sujeito pronominal, seja este o eu ou qualquer outro pronome, é imprescindível saber até que ponto as desinências verbais são capazes de apontar cada combinação número-pessoal de forma inequívoca. Um sujeito de uma pessoa gramatical cujas desinências lhe são exclusivas tem, em princípio, menos necessidade de surgir na superfície textual do que um sujeito construído com verbo cujas desinências são compartilhadas com outra(s) pessoa(s) gramatical(is). Em outras palavras, seria de supor que quanto mais as formas verbais na 1ª pessoa do singular trouxerem desinências associadas unicamente a essa pessoa e esse número, menor será a necessidade, na língua em questão, de que o falante explicite o eu para garantir a interpretação correta da estrutura argumental. A seção que aqui se inicia, portanto, tem como meta apresentar os casos em que há e os casos em que não há exclusividade desinencial do sujeito de 1ª pessoa do singular no português brasileiro atual.

Primeiramente, veja-se, adiante, o paradigma conjugacional do presente do indicativo tradicionalmente associado a um verbo regular, como cantar:

canto cantas canta cantamos cantais cantam

Tem-se aí um modelo em que a cada número e pessoa gramatical se liga um morfema distinto. Essa mesma situação de exclusividade desinencial em todas as pessoas e números verifica-se em outros dois paradigmas do modo indicativo: o futuro do presente (cantarei, cantarás, cantará, cantaremos, cantarão) e o pretérito perfeito (cantei, cantaste, cantou, cantamos, cantastes, cantaram).

Mesmo na configuração tradicional (em que a 2ª pessoa mantém suas desinências próprias), quando se passa desses três paradigmas de tempo-modo para outros, deixa de haver exclusividade desinencial absoluta no quadro, ou seja, a exclusividade desinencial deixa de abranger todas as pessoas gramaticais. Observe- se, abaixo, o mesmo verbo cantar conjugado no pretérito imperfeito do indicativo:

cantava cantavas cantava cantávamos cantáveis cantavam

Como se pode observar, no pretérito imperfeito do indicativo, a mesma terminação -ava – composta pela vogal temática a, desinência modo-temporal -va e desinência número-pessoal zero – serve tanto para a 1ª quanto para a 3ª pessoa do singular. Decorre disso que, ao utilizar essas formas, o falante não mais pode contar com a desinência para indicar com precisão que o sujeito é da 1ª (ou 3ª) pessoa do singular. Tal paradigma de conjugação com formas idênticas para essas duas pessoas no singular é o que se verifica em todos os outros quadros modo-temporais regulares que não foram mencionados.

De qualquer forma, no âmbito geral, o que se tem, na conjugação tradicional da língua portuguesa, é um panorama em que a 1ª pessoa, apesar de frequentemente compartilhar suas formas com a 3ª pessoa, apresenta certo grau de exclusividade desinencial. Afinal, nos quadros em que as desinências não são exclusivas, elas são compartilhadas com apenas mais uma combinação número- pessoal, e não com todas, como acontece, por exemplo, no pretérito da língua inglesa. Ainda, o fato de dois dos paradigmas modo-temporais em que as desinências de 1ª pessoa são exclusivas (o presente e o pretérito perfeito do indicativo) ocorrerem com muito alta frequência na língua contribui para a sensação de que, na maioria das vezes em que se usa um verbo na 1ª pessoa, ele traz uma desinência exclusiva. Assim, a 1ª e a 3ª pessoas do singular mantêm um grau

considerável de exclusividade desinencial, e as outras combinações de pessoas e números apresentam, nesse mesmo quesito, um grau ainda mais elevado.

Essa configuração, em que normalmente é possível identificar a pessoa e o número de um sujeito pela especificação morfológica do verbo a que ele está ligado, fez que a língua portuguesa fosse, historicamente, considerada um idioma pro-drop, isto é, um idioma propício ao pronoun dropping, ou à supressão de pronomes (com referência, naturalmente, aos pronomes-sujeitos). E é exatamente a perda dessa propriedade que se vem notando em épocas mais recentes da língua, estreitamente acompanhada (e, estima-se, causada) por uma mudança em todo o panorama conjugacional que até aqui se apresentou (Duarte, 1995).

A mudança de que se fala é a gradual perda dos pronomes-sujeitos tradicionais de segunda pessoa (representados nos pronomes tu e vós), no lugar dos quais passam a operar você e vocês, que, por terem originariamente um substantivo como núcleo (vossa mercê), conjugam verbos com a forma tradicional da 3ª pessoa. Não se trata de um fenômeno restrito a algumas poucas regiões: em todo o país, o pronome vós mostra-se quase extinto, praticamente restrito a empregos estilísticos; o pronome tu, embora tenha ainda uso expressivo em certas regiões, costuma vir acompanhado das formas tradicionalmente associadas à 3ª pessoa. Isso não significa que a combinação [pronome tu + desinências tradicionais de 2ª pessoa] esteja extinta: ela ainda ocorre no idioma, mas, sobretudo no corpus selecionado, está em nítido desuso.

Assim, nesses casos, em que não se usa nem o vós nem o tu (e, por consequência, nem as desinências tradicionais da 2ª pessoa), cria-se um paradigma em que as formas verbais de 2ª e 3ª pessoa são idênticas, o que reestrutura o quadro conjugacional anteriormente exibido:

canto canta canta cantamos cantam cantam

Embora no caso do presente do indicativo a mudança em questão não impacte diretamente a 1ª pessoa, que mantém sua exclusividade desinencial, é bastante significativo o que ocorre nos tempos-modos em que a 1ª e a 3ª pessoas do singular já eram representadas pela mesma desinência zero:

cantava cantava cantava cantávamos cantavam cantavam

Nesses casos, a mesma forma verbal passa a ser compartilhada por todas as pessoas gramaticais no singular. E, conforme indicado, isso vale não apenas para o pretérito imperfeito do indicativo, mas também para diversos outros tempos-modos.

A inovação do paradigma conjugacional que aqui se descreveu se verifica na produção de todos os treze falantes do corpus principal. Não há nenhuma ocorrência de desinência tradicional de segunda pessoa do singular ou do plural nas gravações desse grupo. Assim, quando, neste trabalho, se fizer referência ao pronome-sujeito da 2ª pessoa do singular utilizado por esses falantes, esse será o pronome você.

Pela lógica de que a possibilidade da supressão de pronomes depende da existência de uma rica especificação morfológica na conjugação verbal, a mudança aqui apresentada torna o português brasileiro uma variedade com menos espaço para o fenômeno pro-drop. É claro, no entanto, que o fenômeno da realização do sujeito não se resume a exclusividade desinencial. Aceitar essa suposição significaria desprezar todos os outros potenciais fatores de influência, como estatuto informativo, polaridade e contexto sintático. Além disso, se tudo dependesse, de fato, desse único fator, a resposta à pergunta que motiva este trabalho já estaria dada, bastando declarar que o pronome eu não ocorreria quando a desinência do verbo fosse suficiente para indicar a 1ª pessoa do singular, e ocorreria quando ela não o fosse. Um brevíssimo exame do corpus basta para que tal concepção caia por

terra, já que a presença de desinência exclusiva claramente não é suficiente para que o eu deixe de surgir na superfície:

(16) eu tenho tido problemas de insônia ultimamente... (PC-1)

(17) eu aposto que quem inventou essa teoria tá rindo até hoje... (BZ-2) (18) eh:: eu nasci de oito meses... (BV-1)

Se, de um lado, é óbvio que a desinência exclusiva não dispensa, por si, o preenchimento do sujeito, de outro, determinar se a desinência não exclusiva é capaz de exigi-lo requer maior aprofundamento, sendo esse um tema a ser retomado mais à frente.

A exclusividade desinencial é, enfim, um fator que, embora já de início se mostre não decisivo, tem alta relevância na investigação. Afinal, quando o pronome

eu aparece junto a um verbo com desinência não exclusiva, a assunção padrão será

a de que a razão principal de sua presença é possibilitar a identificação do sujeito. Mesmo os casos em que o pronome eu aparece juntamente a um verbo com desinência exclusiva têm seu valor investigativo: esses casos sinalizam para o analista que o que quer que tenha motivado a explicitação foi, provavelmente, um fator de peso; afinal, fez que o sujeito eu surgisse quando, em princípio, não era “necessário”.