A fala do terceiro, que passa a ser interlocutor, traz o referente do vlogueiro como uma informação “fixa”: a questão é se o vlogueiro acharia bonito o caminhão de lixo parar de vir. Trata-se, assim, de uma questão de sim ou não (de achar bonito ou não achar bonito); enfim, de polaridade. O referente do vlogueiro, representado por cê nessa fala e por zero na seguinte, está estático nessa troca de informação, isto é, não há espaço para que a resposta o substitua por outro referente. O cê da pergunta e o zero da resposta não constituem, portanto, informação dinâmica (Furtado da Cunha, 2010, p. 161), isto é, não contribuem para o avanço da comunicação. De forma semelhante à dos exemplos monologais, o falante reaproveita as informações recentemente explicitadas. Essa possibilidade de recuperar um referente já mencionado no discurso, mesmo sob diferentes formas, é o que, supõe-se, possibilitou um sujeito zero onde normalmente haveria um sujeito expresso.
As ocasiões em que a combinação [ø + desinência não exclusiva] surge sem que haja uma clara motivação para isso são especialmente raras. Das 21 ocorrências dessa combinação, a maioria se assemelha aos exemplos vistos nesta seção. Os poucos exemplos em que não havia um sujeito de 1ª pessoa expresso no discurso recente e, mesmo assim, a oração trouxe sujeito zero são, na maior parte, formados com o advérbio também ou com o verbo conjugado no pretérito imperfeito
queria:
(49) a tia dela descobriu e aí... a gente teve que terminar... mermão MERmão... eu fiquei MUIto MUIto mal... sabe o que que é terminar com uma menina que você deu o primeiro beijo? primeiro beijo?... beleza... tam/ ø também não ia morrer com nove ano né?... (WN-2)
(50) mas na verdade o que a maioria das pessoas quer é assim “não ø não tô bem na verdade (?) tô aqui eu queria tar em outro lugar... ø peguei um ônibus pra chegar aqui ø quase vomitei por causa do cheiro de fumaça ø tô ganhando pouco ø trabalho de sábado o máximo de diversão que eu tenho é um PlayStation 2 eu tô com dívida na faculdade eu sofro de enxaqueca faz tempo... e você é feio e é a única pessoa que tá falando comigo ø queria tar falando com uma pessoa bonita”... (PC-1)
(51) bom pessoal é isso essas foram as minhas respostas à tag eh “como eu leio”... ø queria agradecer mais uma vez ao Lucas do canal Sem Tempo Pra Ler [...] (LL-1)
(52) ((início do vídeo)) bom ø queria uma:: resposta pro vídeo do PC Siqueira onde ele fala sobre religião... (DF-2)
Tanto também quanto queria, portanto, parecem favorecer a omissão do sujeito pronominal em situações em que ele quase sempre é explicitado. A relação entre essas duas palavras e a escolha entre eu e zero continuará a ser explorada durante as análises dos outros potenciais fatores condicionantes da realização do sujeito.
6.3.2 – Um fator pouco óbvio para o fenômeno em questão: a polaridade dos enunciados
Comparada à exclusividade desinencial, a polaridade é, certamente, uma candidata menos evidente à inclusão em uma pesquisa sobre a realização do sujeito pronominal. Parece adequado, portanto, apresentar os dois motivos que levaram à inclusão desse fator nesta investigação.
O primeiro é relacionado a prosódia. Parte-se da hipótese de que os operadores da negação podem ocupar um espaço no fluxo da oração que, em construções positivas, é ocupado pelo sujeito eu. Em outras palavras, dentro dessa hipótese, a posição preenchida por eu na construção positiva Eu sei cozinhar seria preenchida pelo operador de negação na construção negativa Não sei cozinhar. Isso tornaria o surgimento do eu prosodicamente inviável e, portanto, desfavorecido. Devido à relevância que essa hipótese atribui à presença sonora dos termos no enunciado, neste trabalho são considerados casos de polaridade negativa apenas aqueles que trazem os operadores formais da negação12, como não, nem, nunca, e o operador (átono e coloquial) num. Isso significa que, para os propósitos deste trabalho, uma construção como Eu deixei de trazer o lagarto tem polaridade positiva, a despeito do claro valor semântico negativo da locução deixei de trazer.
O segundo motivo é relacionado à associação entre negação e pressuposição. É bem-estabelecida a noção de que a negação implica mais compartilhamento de informação entre falante e ouvinte do que a afirmação (Chafe, 1973; Givón, 1993, 2001; Neves, 2011). Em outras palavras, quando, diante de uma pergunta como E aí, alguma novidade?, um falante constrói um enunciado
12 Não há nenhuma ocorrência de jamais no material selecionado, o que parece indicar um
afirmativo, é possível (e provável) que todas as informações nele contidas sejam novas; por outro lado, quando, nessa mesma situação, o falante constrói um enunciado negativo, ele normalmente estará negando o que acredita ser uma expectativa ou crença do ouvinte, ou, ao menos, trabalhando com informações que considera dadas ou acessíveis. Como exemplifica Givón (2001, p. 370), se o falante, questionado sobre potenciais novidades, responder Minha mulher está grávida, a comunicação normalmente será bem-sucedida; no entanto, se esse mesmo falante responder Minha mulher não está grávida, é provável que suscite uma reação como
Ué, era para ela estar?, marcada pela surpresa do ouvinte diante do aparente
tratamento de uma informação nova como informação compartilhada.
Também é importante destacar que a negação é um fenômeno que opera com um âmbito de incidência: em um enunciado negativo, a porção afetada pela negação pode variar desde toda a proposição em questão até apenas um de seus constituintes. Veja-se a seguinte exposição de Neves (2011, p. 293-4): em um enunciado como Você não tem coragem de matar um homem, supondo-se entoação enfática em um homem, o escopo da negação abrangeria apenas o complemento do segundo verbo. O que se nega, nesse caso, é que o ouvinte tenha coragem de matar, especificamente, um homem (talvez ele tenha coragem de matar outros seres). Supondo-se entoação enfática em matar, por outro lado, o escopo da negação seria limitado ao segundo verbo: nesse caso, o que se nega é que o ouvinte tenha coragem de, ao lidar com um homem, matá-lo (talvez ele tenha coragem suficiente apenas para ameaçá-lo ou agredi-lo). No primeiro caso, é no constituinte um homem que se faz uma alteração com relação à afirmação virtual correspondente (Você tem coragem de matar um homem); no segundo, é no constituinte matar que se faz essa alteração. Isso faz desses dois constituintes, nas situações em que são negados, a informação mais relevante ao avanço da comunicação e, portanto, a menos passível de omissão.
Em um primeiro momento, a exposição feita até aqui sobre a associação entre negação e pressuposição pode parecer não ter relação com a realização do sujeito pronominal. No entanto, o vínculo entre negação e pressuposição interessa a este trabalho pelo fato de que, entre um ambiente permeado por pressuposições e um ambiente livre de pressuposições, o primeiro é mais favorável a omissões. Assim, por ser a negação um contexto em que normalmente há bastante informação compartilhada entre falante e ouvinte, e em que apenas a porção negada precisa
necessariamente ser trazida à superfície, parece fazer sentido esperar que a omissão do eu seja mais frequentemente licenciada em orações negativas.
6.3.2.1 – Resultados quantitativos
Foi com a finalidade de testar as hipóteses apresentadas nos parágrafos anteriores que se fez uma divisão binária entre as ocorrências que trazem operadores formais de negação (coluna “polaridade negativa”) e as que não os trazem (coluna “polaridade positiva”). Os resultados, em números absolutos e em porcentagens, podem ser observados a seguir:
QUADRO 7 - RELAÇÃO ENTRE REALIZAÇÃO DO SUJEITO EU E POLARIDADE
Sujeito
Polaridade positiva Polaridade negativa
Ocorrências Porcentagem Ocorrências Porcentagem
Expresso 1142 79,3% 182 68,9%
Zero 298 20,7% 82 31,1%
TOTAL 1440 100% 264 100%
Quantitativamente, o levantamento confirma a correlação entre polaridade negativa e omissão do sujeito eu: ainda que levemente, a negação favorece o sujeito zero, sendo a taxa de preenchimento nas orações negativas 8,8 pontos percentuais mais baixa que a taxa geral de 77,7%, e 10,4 pontos mais baixa que a taxa observada em orações positivas.
Com a finalidade de possibilitar a identificação de eventuais variações diatópicas na influência da polaridade sobre a realização do sujeito eu, os dados individuais de cada região estão expostos a seguir:
QUADRO 8 - RELAÇÃO ENTRE REGIÃO DO BRASIL E REALIZAÇÃO DO SUJEITO EU COM POLARIDADE POSITIVA E NEGATIVA
Região
Polaridade positiva Polaridade negativa
Sujeito expresso Sujeito zero Sujeito expresso Sujeito zero
Centro-Oeste 72,8% 27,2% 73% 27%
Nordeste 78,2% 21,8% 35,3% 64,7%
Norte 82% 18% 70% 30%
Sudeste 83,3% 16,7% 70,5% 29,50%
Sul 74,7% 25,3% 71,4% 28,6%
Embora haja certa uniformidade entre a maioria das regiões, a influência da polaridade sobre a realização do sujeito eu mostra-se levemente mais estratificada do que a influência da exclusividade desinencial sobre esse mesmo fenômeno. Os informantes do Nordeste, apesar de exibirem preenchimento semelhante ao das outras regiões em orações positivas, mostram-se especialmente sensíveis ao poder da negação de favorecer o sujeito zero: nas orações negativas, a taxa de preenchimento desses informantes foi de aproximadamente 50% da apresentada por informantes de outras regiões.
De qualquer forma, o Quadro 8 torna claro que as taxas de preenchimento exibidas no Quadro 7 (79,3% em orações positivas e 68,9% em orações negativas) não são números acidentais resultantes de variações extremas de uma ou outra região, e sim uma média razoavelmente representativa de todas as cinco regiões. Todas elas apresentam taxas de preenchimento mais altas com polaridade positiva e mais baixas com polaridade negativa, com a exceção da região Centro-Oeste, cuja fuga a essa tendência é desprezível (0,2%).
Por fim, resta apresentar a relação entre cada um dos quatro operadores de negação encontrados e o preenchimento do sujeito pronominal de 1ª pessoa do singular:
QUADRO 9 - RELAÇÃO ENTRE REALIZAÇÃO DO SUJEITO EU E OPERADORES DE NEGAÇÃO
Sujeito não num nunca nem
Expresso 76,5% 38,7% 53,8% 75%
Zero 23,5% 61,3% 46,2% 25%
Embora os números totais de nunca e nem sejam baixos demais (13 e 8, respectivamente) para permitir generalizações, o Quadro 9 revela um fato relevante sobre a forma num: trata-se de um operador de negação altamente favorável ao sujeito nulo, o único a criar um ambiente em que a omissão do eu supera (consideravelmente) a explicitação. Essa descoberta será explorada mais adiante.
6.3.2.2 - Análise dos resultados
Embora a seção de análise dos resultados do capítulo anterior tenha sido dividida de acordo com as quatro combinações possíveis a partir do cruzamento entre realização do sujeito e exclusividade desinencial, julgou-se que esse tipo de organização não seria igualmente frutífero no caso da polaridade. Uma vez que as hipóteses que levaram à inclusão da polaridade como ponto de investigação são relacionadas a propriedades da negação, o interesse seria quase inteiramente concentrado nas ocorrências de polaridade negativa, não havendo muito a ser dito isoladamente sobre as ocorrências positivas. Preferiu-se, portanto, tomar essas hipóteses como ponto de partida para a análise dos resultados, passando por comentários sobre as diferentes combinações quando apropriado.
6.3.2.2.1 - A hipótese da motivação prosódica13
Como explicado anteriormente, a inclusão da polaridade como um ponto de interesse nesta pesquisa é parcialmente devida à hipótese de que, em uma oração negativa, o operador de negação ocupa uma posição prosódica que normalmente pertenceria ao sujeito e, assim, desfavorece a expressão deste último constituinte. O levantamento dos dados do corpus confirma a esperada correlação entre polaridade negativa e apagamento do pronome eu. Apontar com exatidão a parcela desse apagamento que deve ser atribuída à motivação prosódica em questão, no entanto, é tarefa mais complexa. Para resolver essa dificuldade, talvez seja útil entender o processo de elaboração de uma oração negativa.
Se alguma das quatro combinações possíveis do cruzamento entre realização do sujeito eu e polaridade pode ser tomada como uma construção “padrão” (em sentido não prescritivo), essa combinação provavelmente seria [eu + polaridade positiva]. Primeiramente, esta é, de longe, a combinação mais frequente, compondo 67% do corpus. Além disso, [eu + polaridade positiva] é a combinação que mais se aproxima da estrutura canônica sujeito-verbo-complemento, em que está implicado um sujeito explícito. Finalmente, pelos critérios da marcação (Givón, 1993, p. 178) já discutidos neste trabalho, é bastante claro que, entre as construções negativas e as positivas, são estas últimas as não marcadas. Tudo isso aponta para a ideia de que a construção positiva é o ponto de referência a partir do qual o falante cria uma construção negativa. Em outras palavras, seria a partir de uma oração virtual como
(53a) eu tive motivo...
que o falante elabora a oração real a seguir: (53) eu não tive motivo... (WN-2)
Em alguns casos, esse processo pode exigir adaptações. O eu de (53a) é mantido em (53); no entanto, em situações em que não há motivação suficiente para mantê-lo, ele é eliminado. Isso fica bem ilustrado com a forma verbal sei14, que,
13 Deve-se deixar claro que todas as observações aqui feitas sobre prosódia e (a)tonicidade são fruto
de uma escuta “a ouvido nu”, isto é, são feitas com base na mesma audição do corpus que é
acessível a um ouvinte comum. Uma escuta auxiliada por aparelhos capazes de medir ondas sonoras pode revelar informações não descobertas pela presente análise.
14 O verbo saber exibe um comportamento curioso com relação à realização do sujeito de 1ª pessoa
do singular, inobservável em um corpus monologal. Quando um indivíduo, em resposta a uma declaração de seu interlocutor, responde ø sei, ele demonstra estar atento à interação e autoriza o
apesar de estar acompanhada de sujeito expresso em absolutamente todos os casos de polaridade positiva (excluídas as ocorrências da expressão relativamente fixa sei lá), surge frequentemente com sujeito zero em construções negativas. Tome- se como exemplo a passagem (54):
(54) ø não sei se isso acontece de verdade... (PC-4)
Se a forma sei está associada a sujeito explícito em 100% das orações positivas, e surge com sujeito zero na oração negativa (54), é relativamente seguro sugerir que, fosse (54) uma oração positiva, o sujeito seria explícito, e que, portanto, o zero que se nota em ø não sei se isso acontece de verdade é um produto do mencionado processo de elaboração de uma oração negativa.
As ocorrências de polaridade negativa – incluindo-se aqui as combinações [eu + polaridade negativa] e [ø + polaridade negativa] – são muito menos frequentes do que as de polaridade positiva: estas compõem 84,5% do corpus, enquanto aquelas somam 15,5%. O fato de as construções negativas serem menos frequentes leva a esperar que seu uso envolva mais restrições do que o das construções positivas.
O favorecimento do sujeito zero na polaridade negativa, apesar de verificável em um levantamento sistemático, não é facilmente perceptível em uma incursão descompromissada pelo corpus: mesmo entre as construções negativas, o sujeito expresso supera o sujeito zero. Isso sugere que, mesmo se se mostrar verdadeira a hipótese de que propriedades prosódicas (e informativas) da negação favorecem o apagamento do eu, os fatores que normalmente favorecem sua explicitação permanecem atuantes em contextos negativos – e disso resultam as 182 ocorrências da combinação [eu + polaridade negativa] que aqui estão em análise. Não é difícil encontrar exemplos de orações negativas com sujeito expresso que claramente são produto de motivações desinenciais, de jogos de contraste ou de uma mistura dos dois, expostos a seguir nessa exata ordem:
(55) e os gatinhos sempre vinham do vizinho iam lá em casa pra matar o meu periquito... daí -- que estranha essa frase -- mas aí eu não gostava... (BV-1)
(56) ø não sei imitar o Sílvio Santos... todo mundo sabe imitar mas eu não sei... (PT- 1)
interlocutor a prosseguir com o texto. Quando, por outro lado, o indivíduo, nessa mesma situação, responde eu sei, ele avisa ao interlocutor que a informação que lhe está sendo passada como nova na verdade já lhe é conhecida, isto é, sinaliza que a comunicação não foi bem-sucedida. Trata-se, enfim, de um caso em que a variação entre eu e zero atinge o plano semântico.
(57) cara uma vez o cobrador me puxou pra dentro da Van e me colocou na Van eu nem queria entrar nela... (AL - 1)
O que se descreveu até agora pode ser resumido da seguinte forma: a polaridade negativa favorece o sujeito nulo, embora não suficientemente para que ele ultrapasse a marca dos 50% e se apresente como a opção preferida dos falantes. O fato de esse favorecimento não ser tão expressivo indica que a negação não anula aqueles fatores que normalmente levam os falantes à explicitação do eu, e a observação das ocorrências parece validar essa hipótese. Partindo desse princípio – de que a maior porcentagem de sujeitos nulos das construções negativas não é resultado de uma ausência das motivações existentes nas construções positivas –, resta buscar propriedades da negação que possam tornar o pronome eu mais dispensável. Chega-se, então, à questão anteriormente aludida: quantos dos 10,4 pontos percentuais que separam as orações negativas das positivas são devidos à inconveniência prosódica de explicitar o eu onde há um operador de negação? É óbvio que não se alcançará uma resposta exata, mas espera-se, ao menos, identificar o grau de importância desse fator no fenômeno em questão.
Primeiramente, cabe apontar que, se há uma motivação prosódica por trás da resistência do sujeito nulo nesse contexto, não há, em princípio, razão para acreditar que essa motivação seja restrita a operadores de negação. Em outras palavras, faz sentido esperar que o obstáculo prosódico gerado pelos operadores de negação seja igualmente gerado por outros elementos colocados na mesma posição sintática. Duarte (1995, p. 77) reforça essa hipótese, sinalizando que o sujeito nulo é favorecido quando a posição em questão é ocupada por operadores de negação, advérbios e pronomes clíticos. Para a autora, a presença desses elementos em uma sentença de sujeito nulo “parece constituir um condicionamento prosódico, como se o elemento clítico e o sujeito pronominal fossem intercambiáveis”. Já foi mencionado neste trabalho o poder exibido pelo advérbio também de propiciar o apagamento do sujeito em contextos que favorecem seu preenchimento, como em (49).
Quanto aos pronomes clíticos, sua intercambialidade com o pronome eu não fica confirmada neste corpus. Há apenas duas ocorrências de sujeito de 1ª pessoa do singular seguido do clítico te, e ambas trazem sujeito expresso. Das 34 ocorrências em que um sujeito de 1ª pessoa do singular é acompanhado do clítico
me, apenas 4 (11,8%) trazem sujeito zero. Essas ocorrências, três das quais
(58) e aí você fala... “porra... ø me fodi... de novo”... (WN-2)
(59) testando microfone:: pela quinquagésima terceira vez eu não aguento mais... tá tá funcionando agora... ø me sinto estúpido com esse negócio na mão ø pareço o Sílvio Santos... (PT-1)
(60) tudo bem senhoras e senhores ø estou aqui que nem um babaca com esse microfone na mão... ø me sinto ridículo com essa merda... (PT-1)
(61) acontecesse isso comigo se a minha casa pegasse fogo e eu ficasse com a cara do Michael Jackson caindo toda derretida eu me matava eu me jogava no rio e ø esperava morrer afogado... eu enchia a banheira... ø me atirava nela e ø jogava o secador ligado (...) (PT-1)
É interessante notar que, embora numericamente a presença do clítico não se tenha mostrado um obstáculo à explicitação do eu, a segunda ocorrência listada (ø
me sinto estúpido com esse negócio na mão) traz um sujeito zero após uma
mudança de referente-sujeito, contexto que, como será discutido mais à frente, é um forte aliado do sujeito expresso.
Diante do que acaba de ser exposto sobre operadores de negação, advérbios e pronomes clíticos, passa a interessar a esta pesquisa verificar se a presença de qualquer elemento linguístico entre o sujeito e o verbo afeta a realização do sujeito
eu. Os resultados quantitativos dessa verificação estão expostos no Quadro 1015:
QUADRO 10 - RELAÇÃO ENTRE REALIZAÇÃO DO SUJEITO EU E INTERVENÇÕES ENTRE O SUJEITO E O VERBO
Sujeito
Com elemento interveniente Sem elemento interveniente
N Porcentagem N Porcentagem
15 É necessário declarar que os números exibidos no Quadro 10 têm valor mais estimativo do que os
números dos quadros anteriores. Enquanto é relativamente simples determinar se uma desinência é particular à 1ª pessoa do singular ou se um verbo está acompanhado de um operador de negação, decidir se há um elemento interveniente entre um sujeito e um verbo nem sempre é tão descomplicado. O problema, naturalmente, está nas ocorrências de sujeito zero: como, diante de uma construção como Às vezes vou pra alguma reunião, precisar a posição do zero? Em outras palavras, como determinar se, munida de sujeito explícito, a construção em questão seria Às vezes
eu vou pra alguma reunião ou Eu às vezes vou pra alguma reunião? Buscou-se solucionar esse
problema com atenção à prosódia das sentenças e à topicalidade de seus constituintes; no entanto, permanece necessário registrar a possibilidade de, em alguns casos, as suposições quanto à posição do zero terem sido falhas.
Expresso 309 72,9% 1014 79,3%
Zero 115 27,1% 265 20,7%
TOTAL 424 100% 1279 100%
A hipótese de que a presença de um elemento linguístico – trate-se de um operador de negação ou de qualquer outra palavra – entre o sujeito e o verbo propicia o apagamento do sujeito não foi conclusivamente corroborada pelos