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Omskrivingslogikk som spesifikasjonsformalisme

3.4 Sammenligning av Creol og AOP

4.1.1 Omskrivingslogikk som spesifikasjonsformalisme

Pode não ser óbvio, em um primeiro momento, o motivo de os videologs terem sido escolhidos como um material de análise adequado para esta pesquisa. Com o intuito de eliminar essa e outras possíveis dúvidas, este capítulo busca proporcionar um melhor entendimento da natureza desse gênero. O videolog ou vlog é

uma forma predominante do vídeo “amador” no Youtube, tipicamente estruturada sobre o conceito do monólogo feito diretamente para a câmera, cujos vídeos são caracteristicamente produzidos com pouco mais que uma webcam e pouca habilidade em edição. Os assuntos abordados vão de debates políticos racionais a arroubos exacerbados sobre o próprio Youtube e detalhes triviais da vida cotidiana. (Burgess e Green 2009 apud Montanha, 2011, p. 154)

Trata-se, pois, de uma mistura do gênero da conversação com o do diário – combinação bastante conveniente a esta pesquisa, já que ambos os tipos de produção costumam ser informais. Quase tudo nos videologs, aliás, costuma propiciar a informalidade: o cenário, normalmente, é a casa – ou, mais especificamente, o quarto – do autor (ambiente pessoal, privado); a complexidade da produção do vídeo é mínima, tipicamente limitada a edições feitas pelo próprio autor, quando tanto; ainda, a ferramenta que hospeda os vídeos permite que os espectadores respondam ao autor por meio de comentários escritos, aos quais ele pode reagir em vídeos posteriores. Esse último fator caracteriza o autor como um indivíduo acessível e próximo a seus ouvintes, distanciando o gênero do videolog do gênero do jornal televisivo, por exemplo, em que, como aponta Montanha (2011, p. 163), “a abertura à interação é limitada e pautada pelo modelo tradicional de comunicação (emissor-mensagem-receptor)”.

A única variável que parece ter o potencial de reverter a informalidade do

videolog (bem como o de intensificá-la de vez) é o assunto discutido. Canais

dedicados à criação de videologs com posicionamentos relacionados a temas polêmicos, como política, religião, laicidade, feminismo e vegetarianismo, tendem a exibir comportamentos linguísticos mais formais, justamente por carregarem uma carga de debate, associada a uma busca por adesão e respeitabilidade. Esses

videologs menos pessoais e mais argumentativos podem, mesmo, trazer amostras

de edição mais sofisticada, intercalando o discurso do autor com, por exemplo, trechos de entrevistas ou documentários que fundamentem a posição tomada. Uma vez que, assim como em um debate, a exposição de argumentos-chaves

preestabelecidos é essencial ao sucesso desses vídeos, eles costumam ser marcados por produções linguísticas nitidamente menos espontâneas, podendo o nível de planejamento prévio à gravação variar desde a anotação de pontos principais até a aparente memorização completa de um roteiro. É por esse motivo que esses vídeos foram, em geral, descartados durante a coleta do corpus deste trabalho. Vale frisar, por outro lado, que certos videologs mantêm suas características de informalidade e espontaneidade mesmo ao lidar com questões polêmicas, o que permitiu que alguns vídeos desse grupo (embora não muitos) fossem selecionados.

Esta investigação dá prioridade, assim, àqueles vídeos que trazem as qualidades aqui tidas como prototípicas dos videologs: linguagem espontânea e informal; planejamento de fala limitado à anotação de pontos-chaves; produção simples e de natureza ou aparência amadora. Vídeos desse tipo constituirão a parte mais substancial do material de análise, isto é, o corpus primário, e qualquer outra sorte de material eventualmente analisada neste trabalho terá um papel primariamente contrastivo.

Resta, então, conhecer melhor esses videologs considerados modelares do gênero, no que interessa a este trabalho. Suas gravações costumam ser iniciadas com um propósito específico: a exploração de um tópico que pode variar desde eventos coletivos, como os protestos de junho de 2013, até experiências particulares. Porém, bem aos moldes da conversação, raramente os videologs se mantêm do começo ao fim restritos ao assunto que inicialmente os impulsionou, sendo habitual que uma produção, ao término de seu curso, tenha passado por dois ou três temas relativamente independentes.

Tal ausência de planejamento estende-se ao plano linguístico. A fala é marcada por correções e hesitações. O vocabulário é simples e o falante não parece censurar o uso de palavras-tabus, o que, de um ponto de vista sociolinguístico, funciona como mais uma forte evidência da ausência de automonitoramento. No que diz respeito à construção, a informalidade do meio em que se produz esse gênero costuma propiciar uma despreocupação em relação ao seguimento da norma padrão. Interessa notar, ainda, a possibilidade da ocorrência de construções “anômalas”, que não parecem enquadrar-se em nenhum caso de opção entre variante padrão e variante não padrão (como a escolha entre ir à padaria – variante padrão – e ir na padaria – variante não padrão). Esses casos parecem constituir

verdadeiros acidentes linguísticos, frutos da complicada tarefa de pensar simultaneamente em o que dizer e em como dizer, inerente à oralidade (Hilgert, 2011). A primeira ocorrência adiante traz uma concordância de número gramatical que não segue nem a norma padrão nem o molde diastrático estigmatizado (que seria nos meu(s) sonho), e a segunda ocorrência traz uma opção de regência bastante incomum para o verbo discorrer:

(11) por algum motivo no meus sonhos eu não consigo a/atirar... (PC-1)

(12) e como geralmente pessoas não estão bem se elas falassem assim “não:: eu não tô bem na verdade” e começasse a discorrer pelo assunto que ela não tá bem... eu não ia ter muito como ajudar e ia me arREPENder de ter perguntado como ela tava... (PC-1)

Não se deve, no entanto, tomar a ausência de planejamento e monitoramento como absoluta: trata-se da gravação de um falante que não apenas sabe que está sendo gravado, mas produz seu texto especificamente para ser gravado. Esse falante, em princípio, preocupa-se com a imagem que passará de si. Também é ele quem determina, na etapa final do processo, se o videolog será disponibilizado ao público ou não. Ao assistir à própria gravação, está em seu poder decidir se sua fala está adequada para a publicação e, se lhe parecer necessário, cancelar ou refazer o vídeo – recurso obviamente inexistente na conversação. Nesse ponto, portanto, o

videolog aproxima-se da escrita, já que o papel e o lápis, unidos ao tempo, permitem

ao escritor formular e reformular uma produção quantas vezes isso lhe parecer necessário. Na discussão dessa faceta dos videologs, não se pode deixar de mencionar a ferramenta da edição, que, embora sutil, elimina diversos momentos de preparação entre cada fala do autor, na tentativa de tornar o vídeo mais dinâmico. Esses cortes, porém, podem fazer a diferença entre haver ou não acesso aos instantes em que mais fica evidente o fato de que a produção acontece em tempo real, com suas formulações, silêncios e truncamentos. Assim, a ciência (e intenção) por parte do autor de estar sendo gravado, bem como a filtragem a que seu trabalho é submetido antes de ser publicado, novamente nos leva à seguinte conclusão: o

corpus ideal para a análise dos recursos linguísticos em sua forma mais espontânea

seria composto por gravações de falantes que não tinham ciência de estarem sendo gravados. Este trabalho, no entanto, parte do pressuposto de que os videologs – ao menos os selecionados – são permeados por uma atmosfera suficientemente

informal e relaxada para que a análise se desenvolva de forma satisfatória, especialmente quanto ao objeto em investigação.

Como discutido no capítulo 2, há uma disparidade significativa entre os

videologs no que diz respeito à ocorrência de discurso na 1ª pessoa do singular. Em

geral, o surgimento desse tipo de discurso está diretamente vinculado ao grau de subjetividade do tema tratado, como evidencia a diferença entre certos vídeos do

corpus: enquanto um videolog em que o autor discorre sobre as ações

supostamente condenáveis de uma ministra traz apenas 15 ocorrências de 1ª pessoa do singular em sete minutos de gravação, um videolog em que outro autor discorre sobre seus gostos e hábitos pessoais traz nada menos que 74 ocorrências em cinco minutos. É importante ter em mente, no entanto, que, mesmo nos vídeos em que o autor não está falando de si, as ocorrências de 1ª pessoa do singular não são inexistentes; como demonstra a comparação que se acaba de fazer, elas diminuem, mas não desaparecem por completo. As causas do surgimento da 1ª pessoa do singular nessas produções menos subjetivas, em que o tema é pouco ligado à pessoa do autor, são inúmeras e imprevisíveis, mas abaixo estão algumas que são frequentes o suficiente para merecer menção.

a) a expressão de opinião:

(13) eu acho que todo mundo é assim (...) (FM-1) b) a indicação de (des)conhecimento:

(14) eh:: eu não sei:: o QUE tá acontecendo eh:: nos últimos tempos (...) (FM-1) c) e a indicação de fonte:

(15) eu/ ontem eu vi uma notícia... [DF-2])

Finalmente, cabe oferecer um exemplo de um produtor de videologs, isto é, de um vlogueiro. Em razão de um cumprimento amplamente satisfatório dos requisitos da seleção, boa parte do material eleito para a investigação é proveniente do mesmo autor: o vlogueiro PC Siqueira, que se tornou famoso no meio com seu canal, chamado “Mas Poxa Vida”. Quase sempre ultrapassando o marco das duzentas mil visualizações, seus vídeos refletem o molde anteriormente descrito: os temas variam entre os problemas sociais e o mundano; as edições são limitadas a cortes e efeitos relativamente simples (por exemplo, preto e branco em momentos específicos); a linguagem é informal, não planejada e não monitorada, sem

restrições quanto ao emprego de palavras-tabus. A ausência de roteiro fica confirmada no seguinte trecho de entrevista concedida por PC Siqueira (Jesus, 2011, p. 12-13):

Sai naturalmente. Não planejo. Só às vezes quando tem um assunto muito em voga e acho pertinente comentar, aí eu penso um pouco antes. Mas basicamente as idéias são tidas no meio da gravação.

(...) Eu falo com o conhecimento que tive a partir de jornais e notícias. Não faço um estudo profundo. Não é um ensaio, são somente opiniões, vontade de falar.

As informações até aqui apresentadas sobre os videologs permitem sua classificação de acordo com o conjunto de traços proposto por Vilela e Koch (2001) para o que chamam de gêneros utilitários. Esse grupo é formado pelos gêneros não literários, isto é, por “esquemas de ação complexos normalizados socialmente que estão ao dispor do falante de uma língua” (Vilela e Koch, 2001, p. 543), e, portanto, inclui o videolog. Os três traços propostos pelos autores envolvem a presença (física) do interlocutor, o canal do texto e a preparação envolvida na enunciação. Assim, o videolog pode ser classificado como um gênero monologal (e não dialogal)6, falado (e não escrito) e espontâneo (e não refletido).

A esses três critérios podem ser somados outros quatro propostos por Helbig (1975, apud Vilela e Koch, 2001, p. 541): a publicitação do enunciado linguístico, a especificidade do partner, a modalidade de tratamento do tema (explicativa, descritiva, argumentativa, associativa) e o grau de contenção ou esforço teórico da comunicação. Os videologs enquadram-se de forma positiva no primeiro critério, uma vez que são vídeos expostos publicamente na Internet. Quanto ao segundo critério da lista, embora alguns videologs sejam direcionados a públicos específicos, como é o caso de canais relacionados a videogames ou maquiagem, o videolog aqui considerado prototípico trata de assuntos de interesse geral, não havendo especificidade do partner. A modalidade do tratamento do tema, por sua vez, não é

6 Preferiu-se, durante a classificação dos videologs, a oposição monologal/dialogal à oposição

monológico/dialógico. O termo dialógico – que, segundo Bres (2005, p. 49), é derivado não do

substantivo comum diálogo e sim do termo bakhtiniano dialogismo – diz respeito à propriedade

intrínseca a todo enunciado de ser, de alguma forma, direcionado a outros enunciados. O termo

dialogal, por outro lado, diz respeito a uma propriedade mais concreta e facilmente verificável: uma

produção é dialogal se envolve falantes em alternância de turno. Os videologs são negativos quanto a esse traço, isto é, normalmente envolvem um falante que discursa sozinho (embora obviamente seu discurso seja direcionado a alguém). Diante disso, classificar os videologs como monologais e não dialogais pareceu mais apropriado do que classificá-los como monológicos e não dialógicos. A distinção aqui resumida é exposta de forma mais aprofundada em Bres (2005).

fixa nos videologs como o é em uma receita ou em uma discussão científica. Assim como as conversações, a maioria dos videologs não tem toda a sua extensão restrita a um só tipo textual, o que, muito provavelmente, é uma consequência da já mencionada fácil transição entre temas envolvida no gênero. Por fim, o grau de contenção ou esforço teórico da comunicação no videolog comum é baixo, uma vez que o falante desse gênero não costuma filtrar sua produção nem recorrer a artifícios complexos para expor suas ideias: novamente, apesar de monologal, o gênero assemelha-se à conversação, e não exige grande esforço didático.

A descrição que se acaba de desenvolver está resumida no quadro a seguir, em que os critérios “modalidade de tratamento do tema” e “grau de contenção ou esforço teórico na comunicação” foram reformulados de modo a permitir uma classificação dicotômica, positiva ou negativa:

Gênero Monologal Falado Espontâneo Público

Videolog + + + +

Gênero Associado a partner específico Associado a tipo textual fixo contenção ou Associado a esforço teórico

Videolog - - -

Os videologs são, portanto, um terreno de análise novo e atraente para linguistas, especialmente para aqueles que se encontram diante da difícil tarefa de encontrar material produzido em baixa (ou nula) monitoração. A eventual análise de outro tipo de material no decorrer deste trabalho será devidamente sinalizada.