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Creol sin tilnærming til arveanomali

3.1 – CONCEITOS GERAIS

Como foi apontado na Introdução, o trabalho tem sua base teórica projetada dentro da teoria funcionalista, em especial em suas propostas mais convergentes (Halliday, 2004; Dik, 1997; Givón, 1993; 1995; Coseriu, 1992; Hengeveld e Mackenzie, 2008). Como explicita Neves (2013, p. 16), um trabalho embasado no Funcionalismo traz como assunções básicas: a impossibilidade de descrever a língua e, por consequência, a gramática como um sistema autônomo (Givón, 1995); a compreensão das formas da língua não como um fim em si mesmas, mas como meios para um fim (Halliday, 2004); a integração, na gramática, dos componentes sintático, semântico e pragmático (Dik, 1997; Givón, 2001); a susceptibilidade da gramática às pressões do uso (Givón, 1993); e, de especial relevância para esta investigação, a necessidade do falante de fazer escolhas simultâneas dentre opções oferecidas pela gramática (Halliday, 2004).

Ainda segundo Neves (2013, p. 17), são pontos centrais de investigação dentro desse aparato de uma teoria funcionalista da linguagem: as relações entre discurso e gramática; a liberdade do falante de, dentro de certas restrições, organizar suas construções de acordo com suas motivações pragmáticas; a distribuição da informação no texto e a importância que o falante atribui a cada bloco informacional; o fluxo de informação e o fluxo de atenção, ou seja, a maneira como os blocos informacionais surgem no texto e são direcionados pelo falante para a absorção do ouvinte. Nesse sentido, têm papel fundamental neste trabalho tanto a classificação de blocos informacionais (como dados, acessíveis ou novos) quanto a noção de contrastividade, conforme propostas por Chafe (1994) em sua discussão sobre o custo de ativação da informação.

Como pesquisa relacionada a formalidade e informalidade em linguagem, este trabalho também deve, naturalmente, buscar sustentação na corrente que entende a língua como um organismo composto por diversas variedades que se alternam, e não como um organismo unidimensional, isto é, ele deve buscar apoio na sociolinguística. É de pacífica aceitação a ideia de que, em qualquer comunidade linguística desenvolvida, existem situações em que os falantes sentem a necessidade de formular suas expressões linguísticas com mais cuidado,

encaixando-as em certos padrões sociais, e outras situações em que esses mesmos falantes se sentem à vontade para expressar-se da maneira que lhes parece mais conveniente ou confortável. A seguinte passagem, relacionada à tensão que um falante sente ao ter sua fala analisada, reflete essa concepção:

Qualquer observação sistemática de um falante define um contexto formal em que ele confere à fala mais do que o mínimo de atenção. No corpo

principal de uma entrevista, onde se pede e se dá informação, não se deve esperar encontrar o vernáculo em uso. Por mais que o falante nos pareça informal ou à vontade, podemos sempre supor que ele tem uma fala mais informal, outro estilo no qual se diverte com os amigos e discute com a mulher. (Labov, 2008, p. 244, grifos do autor)

Essa tensão costuma estar intimamente ligada a uma sensação de culpa da parte do falante com relação a sua fala. Joos (1967, p. 4), em discussão sobre os falantes anglófonos (igualmente aplicável aos lusófonos), aponta que o trabalho dos linguistas pouco fez para atenuar essas sensações no falante comum, que se repreende quando percebe que sua produção linguística não corresponde àquilo que lhe foi ensinado como a única forma “certa” de falar. Joos (1967) afirma que, embora a população geral tenha há muito tempo chegado ao consenso de que o clima mais proveitoso é aquele que varia, essa população ainda não alcançou a mesma conclusão no que diz respeito à língua. O autor declara, no entanto, que esses mesmos falantes, tendo ou não consciência disso, são capazes de alternar habilidosamente entre as variedades do idioma de acordo com as exigências de cada situação. É claro, por outro lado, que, como sugere Labov (2008, p. 251) o grau dessa habilidade varia de falante para falante.

Embora o próprio Joos (1967) sugira que existe uma relação escalar entre formalidade e informalidade, isto é, que há vários níveis de formalidade na língua, para os propósitos desta pesquisa basta uma distinção binária entre situações em que o usuário sente que deve prestar atenção à forma como fala e situações em que o usuário fala de forma mais relaxada. Desses dois tipos de produção linguística diferentes surgem, obviamente, opções fonológicas, morfológicas, sintáticas e mesmo textuais diferentes; desses dois conjuntos de opções, então, surgem duas variedades – embora sem uma fronteira rígida que as distinga. No presente caso, trata-se do português brasileiro formal e do português brasileiro informal. A diferenciação das duas variedades e, sobretudo, a caracterização desta última, é tarefa raramente executada sem uma aparente absorção do eixo formal-informal pelo eixo falado-escrito, ficando, em termos gerais, a formalidade associada à língua

escrita e a informalidade associada à língua falada. Este trabalho toma como base a existência de uma clara distinção entre esses dois eixos, o que, naturalmente, tem duas implicações: a de que a língua falada pode ser formal e a de que a língua escrita pode ser informal.

3.2 – A APLICAÇÃO DA TEORIA EM UMA INVESTIGAÇÃO DA REALIZAÇÃO DO SUJEITO

A realização do sujeito da 1ª pessoa do singular – isto é, a inserção ou não inserção do pronome eu na sentença – é, antes de tudo, uma questão sintática. Disso seria possível inferir que uma investigação restrita à sintaxe bastaria para explorar esse tópico. Como mencionado acima, porém, um dos princípios do Funcionalismo é a relação íntima entre sintaxe, semântica e pragmática. Essa visão leva o analista apoiado na teoria a incluir todos esses componentes em seu universo de análise, com o objetivo de determinar o que está por trás de um fenômeno que, na verdade, não é puramente sintático.

Givón (2001, p. 19) ilustra essa interpendência dos componentes da língua com a possibilidade de, a partir de uma “oração neutra” – she cut the meat with a

knife –, criar um sujeito formado por oração relativa. O autor apresenta estes três possíveis resultados:

a) The knife with which she cut the meat ø (was dull). b) *The knife she cut the meat ø (was dull).

c) The knife she cut the meat with ø (was dull).

Como uma das motivações por trás da construção relativa é o desejo de evitar repetições desnecessárias, e o instrumento da oração neutra é correferente com o núcleo ancorador da oração relativa (the knife), esse instrumento acaba sendo codificado como zero (ø). Por outro lado, esse zero precisa ser compensado de alguma forma para que o valor semântico do referente seja mantido, razão pela qual b) não é aceitável. Essa necessidade semântica tem impacto sintático: resulta no surgimento de with which no início da oração relativa em a), e no surgimento de apenas with ao fim da construção mais informal c). Segundo o autor, essas estratégias tornam possível a reconstrução do papel semântico do sintagma omitido.

Assim como a semântica, a pragmática também exerce influência na apresentação formal da expressão linguística (Givón, 2001, p. 19): a própria formulação de uma construção como a) ou b) normalmente estará associada a uma necessidade de topicalizar o instrumento the knife, que resulta no mencionado desejo de evitar repetições e, consequentemente, no zero. Referindo-se a essas duas construções, Givón (2001, p. 19) sintetiza assim a questão:

E a estrutura sintática geral de [a), b)] tem alguns traços motivados pela necessidade de codificar a semântica proposicional das orações („with‟), alguns motivados pela necessidade de codificar seu contexto discursivo-

pragmático (zero), e alguns motivados por uma combinação de ambas.3

Dik (1997, p. 7-8) apresenta a pragmática como o domínio englobador da semântica e da sintaxe, sendo a semântica instrumental em relação à pragmática e a sintaxe instrumental em relação à semântica. Uma vez que, para o Funcionalismo, uma língua natural é um instrumento de interação social (Dik, 1997, p. 5), o objetivo primário nessa linha de pesquisa é descobrir a quais propósitos esse instrumento serve. Isso faz da pragmática o campo primário do uso da língua. Dentro da pragmática, a sintaxe permite ao usuário formar expressões complexas para transmitir conteúdos semânticos complexos, e esses conteúdos semânticos permitem ao usuário comunicar-se de formas sutis e diferenciadas (Dik, 1997, p. 8), atingindo assim seus propósitos na interação. Estes podem ir desde uma mudança na informação pragmática do receptor – ou seja, em seu estoque de conhecimentos, crenças, pressuposições, opiniões e sentimentos – até uma ação física desse mesmo receptor, como, por exemplo, acender a luz.

Para Dik (1997, p. 8), portanto, dentro dessa visão da relação entre os componentes da língua, “não há espaço para algo como uma sintaxe „autônoma‟”4.

Essa sintaxe autônoma a que se refere o autor é o sistema historicamente atribuído à língua pelo formalismo – corrente de tradição de certo modo complementar à do funcionalismo. Na teoria formalista, o sistema linguístico é entendido como independente em relação a todos os fatores externos à própria língua, como a intenção do falante, o nível de intimidade entre ele e o ouvinte, e a informação que

3 Segue o original: And the overall syntax of [a), b)] has some features prompted by the need to code

the clauses‟ propositional-semantics („with‟), some prompted by the need to code its discourse- pragmatic context (zero), and some prompted by a combination of both.

4 Todas as traduções presentes neste trabalho são de nossa autoria, salvo quando explicitado o

ambos compartilham, para citar apenas alguns exemplos. Isso torna a relação entre as formas e as estruturas da língua um domínio completamente autônomo em relação aos fatores ligados ao seu uso efetivo. Aceitar essa sintaxe autônoma implicaria a possibilidade de analisar um fato gramatical como o focalizado neste trabalho – a realização do sujeito de uma das pessoas do discurso – sem recorrer às condições de produção da construção que o veiculou. Ainda, mesmo dentro do campo das formas linguísticas, uma análise formalista tende a não investigar além da construção de interesse, ou seja, a não averiguar como a construção em foco relaciona-se com o texto de que faz parte.

A análise funcionalista, além de buscar um mapeamento da gramática do

texto (e não apenas da frase ou da oração), inclui os fatores externos à sintaxe,

que, acredita-se, moldam tanto o uso da língua quanto a língua em si (Givón, 1995, p. 26; Halliday, 2004, p. 31). Longe de fazer parte de um sistema fechado em si mesmo e dissociado das necessidades de seus usuários, as formas linguísticas não são, para o funcionalista, elementos arbitrários que começam e terminam em si; são, na verdade, meios para um fim. Cabe lembrar a proposta de Halliday (2004, p. 29- 30), segundo a qual a língua tem três metafunções: representar as experiências dos usuários (ideacional), modificar as relações entre esses usuários (interpessoal), e construir as sequências de discurso coesivas e contínuas que possibilitam tanto essa representação de experiências quanto essa interação entre usuários (textual). Sendo assim, somente a investigação das situações de uso efetivo da língua possibilitaria descobrir o que determina a escolha por uma ou outra forma (sujeito expresso/sujeito zero). Foi isso que motivou, neste trabalho, a busca de ocorrências reais vindas de falantes do português brasileiro.

Uma volta a Halliday (2004, p. 23-24) mostra ainda que “um texto é o produto de uma seleção contínua em uma rede muito ampla de sistemas”. No caso da realização do sujeito da 1ª pessoa do singular, tem-se uma escolha paradigmática entre eu e ø. Obviamente, não se trata de uma escolha consciente; na verdade, o falante automaticamente faz escolhas significativas voltadas à construção do significado pretendido. Assim, pode ser iluminador indagar por que uma opção do eixo paradigmático não foi a selecionada. Por exemplo, em uma situação em que o falante optou pelo preenchimento do sujeito, o entendimento da razão pela qual o sujeito nulo foi preterido pode revelar aspectos importantes desse mecanismo de escolhas.

Quando se questiona por que um falante, em dada situação, optou por explicitar o sujeito em vez de omiti-lo, ou vice-versa, quase sempre é necessário voltar a atenção ao estatuto informacional do sujeito de 1ª pessoa do singular na enunciação. Chafe (1994, p. 71-81) explica essa propriedade dos blocos de informação segundo o seu custo de ativação, isto é, segundo o esforço necessário para, em determinado ponto da interação, tornar uma ideia mentalmente ativa. Uma ideia que já estava ativa nesse ponto exige menos esforço para se manter ativa e, portanto, constitui informação dada. Por sua vez, uma ideia que estava semiativa nesse ponto exige esforço intermediário para se converter em ativa e, consequentemente, constitui informação acessível. Finalmente, uma ideia que estava inativa nesse ponto requer esforço maior para se converter em ativa e, assim, constitui informação nova. Na língua falada, a regra geral é informações novas (e acessíveis) surgirem com força na superfície textual, sob a forma de um sintagma nominal enfatizado, enquanto informações dadas são expressas como pronomes atenuados, quando não simplesmente apagadas da superfície por meio de elipses (Chafe, 1994, p. 75).

O que até aqui se expôs sobre estatuto informacional pode levar à pressuposição de que o sujeito pronominal eu seria sempre expresso como um elemento átono, quando não apagado. Afinal, visto que esse é o destino das informações dadas no que diz respeito à forma, e que a ideia do enunciador do discurso nunca pode ser considerada inteiramente nova, faz sentido esperar que o sujeito eu receba esse mesmo tratamento. Essa expectativa se desfaz quando se acrescenta à equação o fenômeno da contrastividade. Segundo Chafe (1994, p. 76- 7), as situações de contraste são uma circunstância clara em que informações dadas podem receber ênfase igual ou mesmo superior àquela normalmente associada a informações novas, o que o autor exemplifica com a seguinte transcrição5:

a(A) ... Have the .. ánimals,

b(A) .. ever attacked anyone ín a car? c(B) ... Well I

d(B) well Í hèard of an élephant,

5 A passagem é oferecida aqui conforme apresentada pelo autor, com sinais de transcrição diferentes

e(B) .. that sát dówn on a VẂ one time.

Embora a ideia do falante B já estivesse bem estabelecida no discurso, esse falante carrega o pronome pessoal I de tonicidade ao construir sua resposta na linha d. Isso é devido ao fato de haver outros indivíduos presentes durante a interação, que poderiam ter respondido à pergunta em seu lugar e também poderiam ter oferecido uma resposta diferente da sua. O exemplo de Chafe, que por acaso envolve justamente a explicitação do sujeito da 1ª pessoa do singular, demonstra que os falantes, ao selecionar um candidato em detrimento de outro(s), tendem a enfatizar aquele que foi selecionado (mesmo quando se trata de um referente exofórico).

Finalmente, no que diz respeito às escolhas dos falantes entre formas diferentes que expressam conteúdos semelhantes, cabe ressaltar o papel histórico que a sociolinguística teve no início da análise da variação entre enunciados antigamente considerados “iguais”. Anteriormente desconsiderados pelos estruturalistas, os fatores condicionantes dessas escolhas – em que se enquadra precisamente a escolha entre sujeito pleno e sujeito nulo – passaram a constituir objeto de estudo dos sociolinguistas, como aponta Labov (2008, p. 14, grifos do autor):

O postulado básico da linguística (Bloomfield 1933: 76) declarava que alguns enunciados eram o mesmo. Por conseguinte, eles estavam em variação livre, e se considerava lingüisticamente insignificante saber se um ou outro ocorria num momento particular. Relações de mais ou menos, portanto, eram descartadas do raciocínio lingüístico: uma forma ou regra só podia ocorrer sempre, opcionalmente ou nunca. A estrutura interna da variação ficava, portanto, removida dos estudos lingüísticos e, com ela, o estudo da mudança em progresso.

Assim, com a variação entre enunciados “iguais” em foco, resta lembrar a postulação de Tarallo (2007, p. 5) de que, embora a língua falada possa a princípio parecer completamente desordenada, é possível encontrar ordem no “caos linguístico”. Por trás de escolhas aparentemente aleatórias, é possível descobrir um sistema “devidamente estruturado” (Tarallo, 2007, p. 81), em que ficam claros os fatores que direcionam os falantes em uma ou em outra direção. É isso que se busca empreender nesta pesquisa, sendo o objeto a escolha entre eu e zero.