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2. Scientific and methodological approach

2.2 Ontology – about ‘what there is’

Temos defendido a tese de que desde 1930, que é o início do recorte histórico de nossa tese, há posição e ação política nas ADs. Portanto, questionamos a afirmação do apoliticismo pentecostal. Não apenas há as referidas posições e ação, como elas podem ser indicadoras de como mulheres e homens de pertença pentecostal eram políticos. Tanto narrativas como crenças pentecostais circulam a partir de arquétipos, dentre os quais destacaremos aqui os políticos, a partir da contribuição de Agamben.

6.3.1 Dimensões Míticas da Política

Agamben (2012b) discute duas teses a respeito da relação entre religião e política: (i) o Estado moderno está fundamentado em conceitos teológicos secularizados e (ii) a teologia incorporou conceitos políticos teologizando-os. Desse modo há uma relação de simbiose entre religião e política, cujos limites entre elas nem sempre são bem compreendidos. Em sua análise Agambem discorre que desde as monarquias medievais até os governos do Estado moderno a liturgia eclesiástica e o protocolo profano estão interligados. Com o advento da modernidade a crença na soberania divina foi transferida para o Estado, de modo que este conceito teológico foi secularizado. Todavia, isso não significa que esse e outros conceitos teológicos foram eliminados do imaginário político. Portanto, o governo é poder e glória. Agamben faz uma análise sobre o culto e a política.

Agamben (2012b) faz uma extensa análise sobre a doxologia angelical da Idade Média e em que medida ela foi incorporada na estrutura e funcionamento do Estado. Os anjos têm uma dupla função: a contemplativa, que são aqueles que assistem a Deus; e a função administrativa que está relacionada com atividade, governo. São esses últimos que têm a função ministerial,

os quais estão circunscritos numa cadeia hierárquica de comando na angelologia. Sendo assim, fica estabelecida uma burocracia angelical, com divisões definidas a partir de graus de força e poder. Logo, estabeleceu-se um paralelismo entre a hierarquia celeste e hierarquia terrena, tendo como arquétipo a economia trinitária de operação e governo. Há, portanto, correspondência entre a burocracia da máquina governamental com a angelologia. É estabelecida, então, a ideia de um poder sagrado, cuja influência perpassa o reino celestial e as nações da Terra.

Nesse contexto, os seres angelicais têm a função de publicizar o senhorio político- religioso do Cristo, publicidade esta manifestada mediante o culto de louvor angelical. Com efeito, há politicidade na liturgia dos anjos, que são ministros de Deus. Assim, os homens só alcançam sua cidadania celeste se tomarem parte com os anjos no culto a Deus. Nesse culto de louvor exalta-se sua soberania e majestade e atributos como a santidade funcionam para demonstrar a perfeição divina.

O governo para Agamben não é apenas poder, mas é também glória, pois há relações entre o cerimonial político e a liturgia eclesiástica. Ele faz essa discussão a partir do conceito de aclamação, que esteve presente tanto nas doxologias angelicais como no aparato litúrgico- jurídico do império romano. Esse aspecto da liturgia também estaria presente no Estado moderno, no momento em que é dado ao povo o uso deliberativo da aclamação e da palavra a fim de legitimar governos. Isso se daria mediante dispositivos democráticos como as eleições, referendo popular, plebiscito e outras formas de democracia direta que dão ao sujeito soberano seu poder constituinte.

Há no Novo Testamento termos políticos empregados para se referir à Igreja. Um exemplo seria o vocábulo ekklesia, que está relacionado com “assembleia dos cidadãos com pleno direito” (AGAMBEN, 2012b, p. 161). Agamben sugere que o trecho de Hebreus 12.23 “inscritos no livro da vida” seria mais bem traduzido como “inscritos nas listas dos cidadãos da cidade celestial”. Nessa transcendência escatológica os anjos e os cidadãos do céu se unirão no culto a Deus. Ao final da discussão Agamben diz haver correlação entre o culto da igreja celeste, o culto da igreja terrena e a esfera política. Há arquétipos políticos na religião, assim como há aquétipos religiosos e teológicos na política.

Acreditamos que expressões usadas nos espaços pentecostais como somos povo de

Deus, somos cidadãos da cidade celeste e aguardamos a Nova Jerusalém são concebidas a

partir de arquétipos políticos. Desse modo, são categorias políticas que foram teologizadas. Em matéria publicada no jornal Mensageiro o editor afirma: “No dia em que Deus dará o céu a seu

Em outro editorial fez-se uma paralelo entre o governo terreno e o reino vindouro. Percebe-se que a descrição da nova morada que estaria preparada para os fiéis é desenvolvidada a partir de arquétipos e mentalidades políticas.

Os homens que, de alguma maneira aspiram o poder ou o governo de uma nação, esforçam-se pos mostrar os vistosos programmas, os grandes projectos, as profundas reformas que têm vista, e a solução dos difíceis problemas que os assoberbam e os fazem viver preocupados. Assim prometem ao povo grandes melhoramentos; a este apesar de saber que as promessas que lhes fazem, quasi nunca são cumpridas, contudo, sentem-se, por vezes, enthusiasmado e emocionado, ao pensar na probabilidade da melhoria da sua condição, na estabelização de medidas justas e equitativas (MP, n. 3, p. 7, 1933).

A fala pentecostal sobre esse reino que virá não aconteceu descolada da realidade. Além disso, a referida fala não é apenas comparação entre o reino terreno e o reino celestial, mas há uma fusão entre as linguagens e arquétipos que descrevem modelos de nação terrena e celeste. Quanto a isso o mesmo editorial do jornal Mensageiro da Paz afirmou:

Nesse reino não haverá pobreza; não haverá também injustiça, pois a equidade e a justiça são a base do Seu throno e um adorno permamente. Não haverá, também, nesse reino, fracos ou enfermos. Morador algum dirá: `estou enfrermo`, porque o povo que nelle vae habitar, será, pelo Senhor, absolvido da sua iniquidade (MP, n. 3, p. 7, 1933).

O povo como categoria política é mencionado em várias ocasiões no jornal. Em uma delas a editoria afirmou: “O povo christão, entretanto, tem a promessa certa e infalível de um reino justo, seguro e sábio, o qual, o Senhor dos Senhores o Rei dos reis, dirigirá” (MP, n. 3, p. 7, 1993). O termo “povo significa etimologicamente prestação pública e a Igreja sempre insistiu em sublinhar o caráter público do culto litúrgico, em oposição às devoções privadas” (AGAMBEN, 2012b, p. 193). Mesmo que Agamben tenha falado de liturgia a partir do catolicismo acreditamos que há arquétipos políticos na construção de narrativas e crenças pentecostais nas margens. Sendo assim, há uma relação entre culto, o público e o político, de modo que na celebração litúrgica como ato de exclamação os fiéis se constituem povo - que é uma categoria política. Logo, pentecostais que falam sobre o céu, falam a partir de arquétipos e mentalidades políticas.

6.3.2 Escatologia e a Crítica à Autoridade Política Hegemônica

Além de questionarmos o discurso do apoliticismo pentecostal, acreditamos que as narrativas escatológicas do período 1930-1945 estiveram relacionadas com resistência e crítica social. As referidas narrativas não são a causa de afastamento do mundo da política, mas sim

efeito de processos de exclusão social. Vimos que mentalidades milenaristas foram importantes

em projetos de resistência e crítica social em grupos sociorreligiosos no Brasil. Destacamos no capítulo inicial de nosso trabalho a escatologia como potencializadora em grupos como os de Canudos e Contestado.

Acreditamos que as narrativas escatológicas podem ser instrumentalizadas para críticas a propostas hegemômicas e opressoras. Logo, elas nem sempre estam relacionadas com alienação, inércia ou fuga da realidade. Discutimos essa temática no capítulo segundo de nossa tese. Analisaremos aqui alguns outros exemplos de como concepções escatológicas podem questionar e criticar determinados modelos de Estado e de política.

Walter Benjamin (2013) escreveu um comentário a respeito do texto Die Rettung (O resgate), da autora alemã Anna Seghers, no qual ela falava sobre a situação dos desempregados no período do nazismo. Benjamin afirma que “de fato, uma das condições que o nazismo encontrou para o seu crescimento foi o abalo da consciência de classe a que o proletariado ficou exposto com o desemprego. O novo livro de Anna Seghers tem a ver com esse processo” (BENJAMIN, 2013, p. 160). O enredo se desenrola em um povoado, cuja economia girava em torno de uma mina que foi desativada. Tal situação desencadeou uma série de problemas e injustiças no povoado.

Para tratar da ascensão do nazismo nesse período, Anna Seghers utilizou a narrativa apocalítica do Anticristo. O Reino de Deus seria aquela dimensão que traria justiça, paz e igualdade. Para isso a figura do Cristo teria sido primordial. Todavia, o Anticristo, conforme descrito em textos escatológicos, é uma imagem inversa do Cristo. Desse modo o Anticristo como antítese do Cristo, inverte os princípios do Reino de Deus e implanta outro projeto. Benjamin ao comentar Seghers diz que o nazismo se tornou como o Anticristo, pois inverteu princípios do socialismo. “Porém, ela é algo como a sua imagem inversa, o aparecimento do anticristo. Como se sabe, este arremeda a benção que foi anunciada como messiânica. Assim sendo, o Terceiro Reich arremeda o socialismo” (BENJAMIM, 2013, p. 163). A imagem bíblica do Anticristo serviu como discurso contrário a um sistema político.

A editoria do jornal Mensageiro da Paz publicou uma matéria em que o autor usou uma narrativa apocalíptica para representar o fascismo: “Chamo esta noite a vossa attenção para os dizeres do capítulo 13 do Apocalypse começando com o verso 16. Eu fallarei algo sobre Mussolini” (MP, n. 1, p. 4, 1992). Nesse artigo, o autor descreve a ascensão do fascismo na Itália e à sua maneira o relaciona com o Anticristo. Já analisamos no capítulo quarto que isso também aconteceu durante a Guerra Fria, em que a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas foi relacionada com o Anticristo. Mesmo assim, acreditamos que esse tipo de narrativa escatológica pode ser um discurso que questiona sistemas políticos hegemônicos.

Em outra matéria publicada no jornal Mensageiro da Paz em que a editoria relacionou política e escatologia diz que “o tribunal revelará quantos crimes se cometeram em nome da civilização; quantos males os homens praticaram [...] abusando da posição e autoridade” (MP, n. 7, p. 6, 1941). Esse tipo de escatologia é importante, tendo em vista que ele desqualifica determinados modelos políticos. A doutrina de que um Redentor virá impede a formação de uma autoridade hegemônica. Sendo assim, ela pode ser contestada, pois ela é apenas uma liderança temporária, que assume em caráter provisório o lugar que de direito pertence ao messias que virá. Essa espera não é caracterizada por resignação, mas como insatisfação e recusa do tempo presente. Entretanto, essa recusa do tempo presente não aconteceu nos centros de poder, mas nos espaços subalternos e nas margens pentecostais.